Havia sempre à porta da nossa casa uma sentinela de espada e foice que martelava como pica miolos o suave cheiro que a órbita cega consumia. Eram se calhar tempos de que nada me recordo a não ser inventar como uma ingénua criança aqueles sorrisos nada matreiros, era de facto verdade e é, da formaContinuar lendo “Algo longe é tempo”
Arquivos da categoria: CRÓNICAS
Porquê dormir tanto?
Dormir cansa e desfalece! A vida fustiga e a gente sente a cada passo o cheiro vernáculo da existência. Precisamos do breu e do amanhecer de olhos abertos em direcção ao infinito vislumbrando o finito das finitudes da realidade. A vida cansa e faz-nos desfalecer, precisamos vê-la nem que seja pela janela ou pelos osContinuar lendo “Porquê dormir tanto?”
Talvez as almas entendam
“daqui a cinco minutos vamos embora” Ainda a sala na mesma onde vozes antigas nos quadros espalhados pelas paredes vivem como se os morcegos me vissem sentado no jardim fundo e verde os baloiços “daqui a cinco minutos vamos embora” uma sensação de nada como se a vertigem iluminasse as formas do corpo e euContinuar lendo “Talvez as almas entendam”
Passeio matinal
Apetecia-me ver discorrerem as longas ruas da manhã, acordei com vontade de inventar para mim um silêncio que me encaminhasse a um destino inventado. Sentei-me numa berma qualquer tentando ver a cor das coisas, o bramir das palmas nas paragens, o reinventar perante a existência, o frenesim que deambulava os carreiros de pedra, os sapatosContinuar lendo “Passeio matinal”
Apenas a lua quando acorda
Sinto-me a perpétua ir das suas lágrimas neste esplendor de sons tão peçonhosos, estes rios que secam na aurora no definhar das ideias. Um passarinho obtuso no chão sujo de quimeras e palavras amargas, um defunto que caminha sem saudades da vida. Os passos que ouço são o abismo que se aproxima, a espuma queContinuar lendo “Apenas a lua quando acorda”
Se pudesse escreveria sobre ti em Paris
Escreveriam as minhas saudades por não encontrar ali também como o rio gelado ao fundo da fileira de cadeiras vazias deste bar fantasma (…) Sobre aquelas espumas frias que se soltam do silêncio, que descem sem rumo contra a minha pele engasgada pasmo e nada, um frio azul mais parecia um cometa inventado para teContinuar lendo “Se pudesse escreveria sobre ti em Paris”
“vá, cama meninos, está na hora!”
… e um beijo como sempre acontecia quando nos mandavas ir para a cama dormir e eu repleto da minha tão calma traquinice… Ainda ontem qual coisa qual quê, pensava eu ainda sentado naquele quintal que talvez não exista já, onde curavas e tratavas das rosas com uma mão repleta de água tão branquinha eContinuar lendo ““vá, cama meninos, está na hora!””
Porquê então bajular a dor?
(crónica para maus feitios) Efeitos colaterais como o eco dos silêncios. Tanto arrulhar logo pela manhã como grunhos no quintal dos astecas secos naquele deserto inverso de efeitos sem sombra, coisa que cansa e a gente tem de sentir o contrário porque sim, bajular a dor. O ruído é como um plasma no máximo paraContinuar lendo “Porquê então bajular a dor?”
Nos taipais da utopia
O ring dos songs que eram, o solfejo ignóbil da matemática quântica dos sabedores da natureza, as vozes cruas do infinito nestes quatro cantos do olimpo. Reúnem-se resmas de opiniões apenas quando o mar naufraga ou quando se pensa saber do tédio como que se a psicologia fosse um marasmo para encanto dos desencantos deContinuar lendo “Nos taipais da utopia”
“o meu menino já sabe escrever!”
Talvez um refrigério, uma amálgama de castigo este lugar de sentado na cama da fome, o Lúcio escreve sozinho gatafunhos para soletrar na cozinha onde a avozinha que nunca estudou tenta ler e diz baixinho “o meu menino já sabe escrever!” e lá pelos alpendres uma rosna que ronca, barulhos enfeitiçados como se tudo aquiContinuar lendo ““o meu menino já sabe escrever!””