O texto aparece na paisagem inventada

Madrugada ainda cheira a vento. Ao fundo, sinistros passos de letras que deambulam silêncios para se calarem as estrelas. Talvez algum mar por ali, sente-se na pele a bruma que normalmente só o mar sabe colocar sobre as feridas do tempo.

Cabe-nos absorver o impossível, esse cataclismo de sinos por alguma torre mas como?, é madrugada ainda e nesse item exige-se silêncio. Discernir o certo é falso, é como a fome quando desculpa para mais pão com manteiga e encharcar a barriga de tédio. Nada adianta.

Surgem palavras convexas para se soletrarem sem tempo, esvaziar o silêncio é como dormir sentado num comboio sem rumo onde ficam apenas as sombras da saudade.

“o texto aparece na paisagem inventada”

E lentamente discorrem rumos para que os séculos se acumulem nas viagens, nos claustros da ilusão ou no tempo a perder, isso, nada adianta ser inútil, isso cansa-nos, verdade, mais vale adocicar o peito com algum óleo vegetal principalmente de soja, envenena menos, intoxica menos, lubrifica as palavras e não cansa, é suave apenas ao espalhar-se depois pelo corpo que derrete no calor das ideias sobre uma terra de ninguém, sim, a tal que não deve certamente existir mas é inventada no solfejo salgado de um verso escrito nas paredes que nem sequer ainda surgiram.

Tantos prédios neste deserto de sal e cal para nada, um vazio que arrepia as entranhas e regela a pele como o quente das tardes vadias por um bar qualquer absorver tantos nadas que apenas preenchem a ansiedade. Não sei o que sinto nem o que pretendo sentir, apetece-me não estar e pronto, esta sensação de encarnar poros nas areias que vou encontrando por estas ruas onde nada existe, sim, e aí,

“o texto aparece na paisagem inventada”

letras para ninguém soletrar nunca, deixar bem vincada nas paredes essa sensação, esse repúdio pelos tédios e repetições, cansaços fartos de nada e vadiar os contornos da minha cabeça nesta talvez cidade que nunca existirá, é apenas uma mentira recriada para me encantar e divertir e fazer sorrir mesmo que sozinho neste quintal que recrio também para escrever.

Sinto sorver-se na pele todas as sensações como se fossem emoções cantadas sei lá onde e pianos em todas esquinas tocando sozinhos enquanto passo por mim, ali, sentado de vez em quando para me refastelar dos céus que me sobrevoas as ideias que vou, cada vez mais, perdendo. É madrugada ainda, talvez queira ou dormir ainda, tento, tento, e não sei se consigo. Fica a intenção.

Pós-Modernismo

Pós-ModernismoPós-Modernidade, ou ainda movimento pós-industrial, é um processo contemporâneo de mudanças significativas nas tendências artísticas, filosóficas, sociológicas e científicas. Surgiu após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e o movimento Modernista.

Esse conceito de pós-moderno foi introduzido a partir dos anos 60 e veio acompanhado dos avanços tecnológicos da era digital, da expansão dos meios de comunicações, da indústria cultural, bem como do sistema capitalista (lei de mercado e consumo) e da globalização.

Principais Características

As principais características do movimento pós-moderno são a ausência de valores e regras, imprecisão, individualismo, pluralidade, mistura do real e do imaginário (hiper-real), produção em série, espontaneidade e liberdade de expressão.

Oposto ao modernismo, racionalismo, ciência e aos valores burgueses, podemos considerar o pós-modernismo como uma combinação de várias tendências. Essas tendências vigoram até hoje nas artes (plásticas, arquitetura, literatura), filosofia, política e no âmbito social.

De tal modo, nas artes, o pós-modernismo foca na multiplicidade e mistura de estilos. Não existem mais compartimentos de gêneros, ou mesmo a formalidade aplicada nas artes, bem como nos âmbitos social e cultural.

Por mais que essa era tecnológica e a expansão da homogeneização da globalização demostre a produção em série dos produtos, o pós-modernismo é uma nova tendência que mescla tudo.

Demostra, assim, a nova vida do homem pós-moderno, que é bombardeado de informações. A vida é baseada na efemeridade, narcisismo e no hedonismo, ou na busca incessante do prazer.

Surge a época das incertezas, do vazio e do niilismo, donde o “e”, e não mais o “ou”, determinará os diversos campos. Isso quer dizer que podemos gostar de música sertaneja e pop ao mesmo tempo ou, ainda, de arte figurativa e abstracionista.

Essa nova mentalidade confere à pós-modernidade uma fragmentação estilística, ao mesmo tempo que explora a pluralidade, mesclando vários estilos.

Leia sobre Zygmunt Bauman

Arte Pós-Modernista

A arte pós-modernista é uma arte essencialmente eclética, híbrida e sem hierarquizações.

Nesse sentido, é considerada uma antiarte. Explora o lúdico, o humor, a metalinguagem, a pluralidade de gêneros, a polifonia, a intertextualidade, a ironia, as fragmentações e desconstruções de princípios e valores. Tem foco no cotidiano banalizado.

A “espetacularização” mencionada por muitos críticos e que, grosso modo, significa “tornar espetáculo”, é uma tendência aplicada às artes e à cultura pós moderna.

Podemos verificar essa “espetacularização” com a avanço dos meios de comunicação e da era digital, onde o simulacro torna-se real, mesmo não sendo. Em outras palavras, o simulacro substitui a própria realidade. Por fim, diferente da arte moderna, a arte pós-moderna preza a participação e interação do público.

Leia também:

Daniela Diana

Daniela DianaLicenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.

As sombras repousam na falésia

Com elas ou nelas todo o tempo perdido. Nunca se perde tempo com nada, a escola é passado e ainda assim o mais presente para tudo. É sim, vida.

Um dia num mar qualquer por inventar como estrofes de Camões por ler, é sentir a lágrima do tempo neste escorreito divagar de estepes onde verdades se encobrem como nuvens num céu fechado, vamos ainda assim tentar, acredito nos eufemismos que a pátria dita, verdade.

Foi aqui, nesta Lilongwe encurralada que vi os lixos de Luanda escorrerem como tripas de vermes dormentes e disformes abraçarem o mar cansado de tanto fumo escuro, de tanto desdém descorado, tanto-tanto faz, é coisa que passará, não te preocupes, sabemos o que fazemos!

Foram sonhos e o mar descansava ainda pelos lados de Oslo.

Aqui só lagos e rios, consigo ver até o fundo do tempo numa diástase de quimeras escritas num papel seco para recordar sempre que o sonho amargue, sim, desfocar-me destes restos a que chamam nada és, e consomes televisão para fugir das tardes que cultivam cisais e cafés e até estrumes para alimentar o gado da minha cabeça desmiolada e estripada como falanges da língua seca nas paredes das verdades mais cruas da saudade.

Conheci Rostok numa tarde de frio onde nadava sobre gelos e eu só, pensava nas quentes tardes do Futungo esfomeadas de lanho para selar na barriga a sede de pão e leite e ainda a criança chora como uivos de tempestades de cansar e bramir ostracizar o vulgo numa raiva de estremecer de calmas lentas e cansadas por isso paradas, a lentidão é imensa, paciência, não me vou esmorecer por funcos deleitados na cama do general qualquer coisa que me deu sonhos que só servem para nada, apenas isso.

É isso, preciso que me deixem morrer em paz, na minha paz, a minha é diferente da paz dos outros, é que esta é de facto minha e que fazer para a merecer?

Dispenso os açoites da voz dos outros, preciso, isso sim, dos meus próprios açoites na coluna esticada numa parede de castigos para prisioneiros do seu templo, esse verde excomungado na garganta e na vontade da imaginação dos andros que se esquiçam em meu nome alegando serem os meus sacerdotes.

Ao fundo a torre da igreja e mesmo isso um horror, bateladas e bateladas de barulhos a ofuscarem o cansaço de que há tanto espero, esse mesmo, o tal que sei nunca entenderem mas nem disso preciso, pois, que seria de mim seguir os astros dos outros neste mapa de astrologias coloridas e cartas a dizerem-me:

“estás aqui”

Nem sei sono ou sonolência ou apenas preguiça de enfrentar o óbvio, mas o que sinto merece o meu singelo direito. A cama é minha, acredita!

Sobre as águas da vida o silêncio dói cap. VIII

VIII

Os instantes são a única garantia que temos. Cicatrizes. Moléculas. Variedades esquecidas. Vazios. Uma panóplia bélica de acontecimentos e feridas enjauladas na alma. São os principais sentimentos que possuímos sempre, ora dentro, ora fora da alma. Cada segundo é um precipício, um salto para o desconhecido, onde somos todos cobardes, somos verdades guardadas na nossa vaidade, somos filhos desta inconstância tão incessante, desta ocorrência tão ela, onde tudo é nada de repente, sofremos a nossa própria incoerência, assumimos o que nos obrigam a fazer e por medo ou cobardia desfilamos a passerelle das novas criatividades e modelos verdes nesta escola onde se viva a sério. Somos instantes. Incessantes. Nenhum dos nossos gestos é surpresa, somos a repetição do que definhamos, somos falíveis, frágeis, uma casa arrombada na sua mais sagrada esperança, varridos pelos medos e vontades, mas é a ânsia que nos leva e vamos. Um dia qualquer o coração, para tudo é definido depois e roubados pelos que ficam sem sequer pensarem quem fomos, levam-nos a um castigo tão severo, esquecem-nos tão simplesmente e o herói jaz nas suas fragilidades tão reais como um salpico de nadas à janela de que sonhos e idos tão indigentes dos que nos pensam ou usam. Somos frágeis demais. Valemos a circunstância e nela o presente, o resto é o que deixamos. Roubam-nos tudo depois de mortos. Não somos mais do que isso, dois ou três dias depois deitam-nos ao lixo das memórias, as lágrimas secam, os sons dos batimentos cardíacos são opacos e a vida é isso, somos o que consideram sermos enquanto pudermos viajar desinteressadamente na cabeça dos outros. Deixamos de valer depois de desaparecermos da vista dos outros, as idas à rua, fica a fotografia do que fomos e quem pensa em nós?

A nação usa-nos como números e o resto é contabilidade, cálculos, estatísticas, enchem-nos de cal e esvaziam a sua fúria nos inocentes que se seguem, somos nada nesta quimera esperada após nascermos. A pátria não para sem nós, nada se esmorece depois do fim dos nossos sonhos e ficamos por aí, nem sei se cemitério para tantos, mas lugar para nos despejarem sem apelo nem agrafo. Somos pequenos nadas acumulando momentos e com eles fazermos o resto, o que ficará são sentimentos que levamos com a nossa própria saudade de viver, ansiamos viver, ninguém se entrega à morte apenas porque sim, a morte é horrível, deve ser uma coisa inexplicável, os mortos deixam de comunicar connosco e esse silêncio incomoda-nos. Mas então, em que lugar o vazio é tanto?, vejo definhados a lutar pela vida e mato-me por tão pouco, deixo de ter vontade de viver tão simplesmente e o oco das circunstâncias leva-me, somos enquanto formos, a partir daí o que restar de nós é nada. Dois paus a fazerem de cruz, quatro ou cinco tábuas uma caixa e a partir daí heróis esquecidos num cemitério qualquer, em nome da pátria e viva a pátria. Sentir a morte dos outros é uma coisa horrível. Sentir a nossa bem pior. É um eco distante a chamar por nós. Uma voz desconhecida. Estranha. É horrível.

– de que adianta então falarmos?

Do outro lado a rua é um enfadonho vazio, nu, sinto tudo cru num cozinhado de momentos, não vejo vultos e apenas sinto um vazio deslavado da existência, tantas vezes sinto uma estranha sensação de fim para tudo, nada percorrido com os anos perdidos e em que campos a minha juventude?

– talvez nem me consigas entender.

Que dicotomia de vontades, entender sem ser entendido e vice-versa, acho que não quero neste momento entender, estou perdido numa nuvem que me inebria os sonhos, as viagens que nunca fiz no alcatrão sóbrio das luzes da estrada e da cidade a minha casa onde, perde-se o rasto da vontade, a astúcia, definhamos a cada segundo e tudo é levado ao colo como passageiros do tempo, tantas vezes as coisas nos parecem acontecer tão depressa, tantas o contrário, o tempo estaciona a sua viagem num quintal qualquer e a gente ali, a olhar para o nada como se a vida fosse ali cair, às vezes a rapidez de tudo nem nos permite pensar, sonhar, quantas horas durmo? Talvez segundos nesta arritmia azucrinante, quando tudo irrita, onde a sede, a fome e tu?

– nunca ninguém te apontou uma arma aos miolos?

– que culpa meu Deus, que culpa.

Os instantes são a única garantia que temos. Tudo é tão fugaz, tudo se espera e nada acontece, tudo se esvai e a gente ali, parados a ocultar o morto, a enterrar o tempo e nada acontece, limar-mos o que acontece com letrinhas faladas,

– tão bom que ele era!

e o calor lá fora a irritar-me. O pó na estrada nestas aldeias de tantos camaradas esquecidos, eu nas estradas dessas aldeias esquecidas tentando beber esquecimentos apenas num olhar e deslizar por essas estradas de tanto pó enferrujar saudades, onde que flores e campas e nem um ai, nem um segundo para nos recordarem,

– o Esperança, casado, uma filha.

a filha nem lá, casado nem mais a vida parte-nos as ligações, deixamos de ser osso com osso somos vertebras separadas por cartilagens, um dia velhos e que cartilagens, a pele seca os ossos secam os olhos deixam de ver tão bem e até de ouvir nos esquecemos, a vida tão ingrata quando tanto demos por ela. A minha é bem pior, é grande de mais para as pessoas se recordarem, há muitas casas a enfeitarem o horizonte, luzes e música, festejam um fim-de-semana em família, aqui é na verdade tudo isso, uma aldeia assim faz-nos querer mais e viver mais, aqui as memórias duram menos tempo e a gente passa assim os dias. Na mesinha de cabeceira fotos onde ainda a memória, recursos para esquecer e sentir saudades,

– este era… aquele um grande camarada…

saudades são sonhos acordado, e quantas fotos Deolinda, a vida trouxe comigo.

Impressionismo

O impressionismo foi uma tendência artística francesa com ênfase na pintura que ocorreu no momento da chamada “Belle Époque” (1871-1914).

Essa vertente teve um papel muito importante para a renovação da arte do século XX, sendo a grande propulsora das chamadas vanguardas europeias.

O termo “Impressionismo” é fruto da crítica a uma obra de Claude Monet, “Impressão, nascer do sol“, de 1872.

Os pintores impressionistas costumavam produzir suas telas ao ar livre. A intenção era capturar as tonalidades que os objetos refletiam segundo a iluminação solar em determinados momentos do dia.

Esse movimento foi um divisor de águas para a pintura. Seus artistas não se prendiam aos ensinamentos do realismo acadêmico.

No entanto, foram influenciados pelas correntes positivistas da segunda metade do século XIX, as quais primavam pela precisão e o realismo.

Esse novo estilo artístico concorria com produções acadêmicas. Para isso, havia locais fora dos circuitos tradicionais da arte, como era o caso dos Salons, onde os pintores impressionistas realizavam exposições exibindo suas telas.

Vale citar que as orientações estéticas impressionistas estão presentes nas produções gráficas, na propaganda e noutras formas de comunicação de massa. Até os dias atuais elas seguem influenciando novas estéticas.

Características do Impressionismo

  • registro das tonalidades das cores que a luz do sol produz em determinados momentos;
  • figuras sem contornos nítidos;
  • sombras luminosas e coloridas;
  • misturas das tintas diretamente na tela, com pequenas pinceladas.

Os pintores impressionistas buscaram reproduzir as sombras de modo luminoso e colorido. O ponto de partida era a composição de efeitos visuais para a fixação do instante, tal qual a impressão visual que nos causam.

Portanto, a tonalidade preta é evitada em obras impressionistas plenas. De modo semelhante, a presença dos contrastes e de transparências luminosas auxiliam no desvanecimento da forma, percebida agora sem contornos.

Os impressionistas aboliram as temáticas históricas e mitológicas, bem como as religiosas, buscando momentos cotidianos fugazes.

Ademais, procuravam uma expressão artística que estivesse focada nas impressões da realidade em detrimento da razão e da emoção.

Como perceberam a fonte das cores nos raios solares, buscaram captar a mudança no ângulo dos mesmos e na implicação disso na alteração de cores. Procuravam também realizar as misturas cromáticas na própria tela, fixando as tintas em pequenas manchas de cor.

Isso porque a luz para os impressionistas construía a forma, captava a mesma paisagem nos diversos momentos do dia e nas várias estações do ano.

Principais artistas do Impressionismo

No grupo original dos artistas impressionistas estavam:

Vale lembrar que o artista Manet é considerado também um pintor do chamado Realismo.

Mulheres Impressionistas

Apesar de pouco se falar sobre as mulheres na história da arte, algumas estavam também expressando-se artisticamente. No impressionismo, houve a presença feminina não apenas como modelos, mas também como pintoras. Podemos citar alguns nomes, como:

  • Berthe Morisot (1841-1895)
  • Mary Cassatt (1844-1926)
  • Eva Gonzalès (1849- 1883)
  • Lilla Cabot Perry (1848-1933)

Impressionismo no Brasil

Após se consagrar no exterior, o Impressionismo chega ao Brasil. Nesse momento, o nacionalismo está a constituir uma “Escola Brasileira de Artes”, daí não ter surtido muito impacto a princípio.

No Brasil, podemos citar como representante mais importante do impressionismo o italiano Eliseu Visconti (1866-1944), radicado no Brasil. Atualmente, há também o pintor Washington Maguetas (1942).

Também notamos tendências impressionistas nos trabalhos de Almeida Júnior (1850-1899), Anita Malfatti (1889-1964), Georgina de Albuquerque (1885-1962) e João Timóteo da Costa (1879-1932).Veja também:Anita Malfatti

Música Impressionista

 música impressionista é caracterizada por atmosferas melódicas sensuais e etéreas, que buscam retratar imagens, especialmente paisagens naturais.

Surge como oposição à música romântica e explorava o recurso da dissonância e escalas hexafônicas, além de composições mais curtas.

Podemos citar como compositores impressionistas os franceses Claude Debussy (1862-1918), Maurice Ravel (1875-1937), entre outros.

Literatura Impressionista

marcel proust

A literatura impressionista focou na descrição de impressões e aspectos psicológicos das personagens. Assim, se acrescenta detalhes para constituir as impressões sensoriais de um incidente ou cena.

em como características a valorização das emoções e sensações, a importância da memória, com a busca por um tempo que não existe mais e o enfoque em sentimentos individuais.

Destacam-se como escritores impressionistas o francês Marcel Proust (1871-1922) e os brasileiros Graça Aranha (1868-1931) e Raul Pompeia (1863-1985).

Impressionismo e Fotografia

O advento da fotografia permitiu aos pintores se libertarem da função figurativa da imagem.

Assim, passaram a experimentar novas técnicas, levando em conta os efeitos ópticos descobertos sobre a composição de cores e a formação de imagens na retina do observador.

Isso permitiu a exploração de novos parâmetros estéticos, dando ênfase na luz e no movimento. Além disso, os pintores também influenciaram-se pela linguagem fotográfica no que diz respeito ao enquadramento e à espontaneidade.

E ainda havia alguns pintores que estavam experimentando também as técnicas fotográficas, como era o caso de Edgar Degas.

A primeira exposição foi organizada em 1874 no ateliê do fotógrafo Maurice Nadar para expor as obras experimentais de jovens pintores.

Impressionismo e Pós-Impressionismo

O pós-impressionismo é uma tendência artística que surgiu em finais do século XIX, mais precisamente a partir de 1886 – quando ocorreu a última exposição impressionista – até o surgimento do cubismo.

Nessa exposição, participaram dois pintores – Georges Seurat (1859-1891) e Paul Signac (1863-1935) – com obras que apresentavam um novo tipo de pincelada. Essa maneira inovadora de pintar ficou conhecida como Pontilhismo, na qual a tinta é depositada na tela em pequenos pontos, fragmentando totalmente a imagem.

Ainda que tenha se inspirado no impressionismo, a arte pós-impressionista revela preocupações com a subjetividade humana. Ou seja, as obras desse período expressam as emoções e sentimentos. Essa arte é diferente da a arte impressionista, a qual é marcada pelo aspecto “superficial” de reprodução da realidade, deixando de lado olhares mais densos sobre a existência humana.

Além disso, os pós-impressionistas buscavam outras maneiras de trabalhar a cor, a luz e os conceitos de tridimensionalidade.

Na arte pós-impressionista merecem destaque os artistas: Cézanne, Gauguin, Van Gogh, Seurat, Signac e Toulouse-Lautrec.

Para saber mais sobre assuntos relacionados ao impressionismo, leia:

Não vale a pena ser silêncio

Este caudal nascente de fontes imaginárias trazem consigo o vento dos templários, daqueles que viajam como nuvens, sim, ignoremos o nada, são apenas silêncios.

Assim como berros nas vozes que recrio em páginas para me florescerem a fantasia são energúmenos vestidos com saias de meninas de capela onde só capelões as conseguem entendem, rezam baixinho não venha o divino desfasá-las e atirá-las contra o muro da nascente que em tempos inventei para recriar o holocausto das minhas tão infinitas cabeças enterradas nesta areia de lugar nenhum.

Este silêncio esquimó sobrevive apenas ao frio, de resto, tudo é cru como a saudade, não se alimenta porque sim, o frio é saúde e por isso desfrutá-lo, nem que seja encostado ao mar mais confuso de todas as filosofias de todos os tempos.

Ser silêncio é resiliência?

Que me indiquem então, caso saibam, que caminho tomar nesta encrustada de nevoeiros flamingos ao fundo, num poente de pentes desfolhados na lezíria.

Enquanto for ainda pequeno, sim, este pequeno para as eternidades do desconhecido, aquele que espera ainda pelo beijo da mãe no berço sujo com o musgo dos restos da tanto que a vida há já deixado. Ser sempre pequeno, é verdade.

À cabeça apenas cabelos crescem e já esbranquiçados, a velhice precoce que me percorre como um andro alquimista no Niagara para encantar vertigens.

Tanto sono que adormeço a flutuar. Fumos e fumos encobrem as sombras do tempo que emerge e ao fundo a verdade mais inculca de cada passo por dar,

“não vale a pena ser silêncio”

tanto vazio no espaço que tudo se encurta, os fins são os limites da insipiência quando tudo explode, até as veias secam de tanto esperar.

Neste mundo enrolado que rebola sem destino vejo gomas de estrofes, melodias daqueles dias em que findamos e seguimos a coluna para a morada dos santos, sim, lá mesmo, onde ficam os desaparecidos e dos fartos e dos sanos, os que mordem a sua própria língua ao mastigarem silêncios calábricos como se um verso Baudelaire no livro A rosa, ah, há quando tempo não sei dele.

Os berros ensurdecem e a partir daí tudo fica silêncio, só silêncio. E de que vale então ser só silêncio?

O que tudo vale, nada vale nada, sinceramente, é uma convicção vagabunda sei, uma ficção sem alucinações para regressar sempre ao interior de todas as vozes que a minha canta e encanta.

Prefiro, acreditem, mesmo que de nada valha, ser só silêncio!

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Quatro e tal, dizem que cedo penso que não, noite ainda, a bruma navegava sossegada pelo quente disparado pelo tempo e eu, nas quatro da madrugada rebolava e rolava e cansado a cama nómada, a mão nómada, tudo diferente ou indiferente e nada

– fala tu primeiro filho!

no vazio excrementado uma voz não minha da minha boca sei lá

– fala tu filho!

virei o rosto e nada, um escuro vadio de noites inebriantes a minha mulher rechonchava a tua voz nada, em que lado a Maria amada deste tão incessante silêncio,

pensava

quatro e tal ainda e nada, desci as escadas e da janela a morte vadiava o meu distraído interior eu nesta janela de ninguém onde só eu e pensava

– fala tu filho!

onde que insónia e tu nem lá comigo, onde estavas sozinha num amor amargurado pela voz um Venâncio de desamores e outros em outras janelas e as suas mães

– fala filho!

nem dormirem sinto porque da minha janela ouvi o esqueleto partido como se um cortinado despendurado a janela sem reflexos e a minha mãe

– deita-te filho!

sozinho na sala um frio onde que calor nem tu, amargurado sei lá ninguém comigo, escrevi a cama e dormi, nem sei se adormeci parti.

– onde que cama amor?

Um ar de Lisboa ao fundo onde que mar e navios desviados pela forte maré, seguem sem rumo, onde que rumo? O mar saltita ondas frequentes, um vento disparado que metralhadora sei lá, as mãos num gelo vazio onde memórias se cansam e saturam, a cabeça fervilha e eu aqui, onde que lisboa ainda?

– fala comigo filho!

a minha filha deitada, um sono ainda nas profundezas de uma noite inocente ela, a noite inocente, a minha cabeça ausente fervilha,

– onde os tiros?

nem sei agora se longe ou aqui, na sala ou na janela busco respostas e onde respostas, nem a mim me ouço, estilhaços ainda naquela enfermaria de campanha e onde o Silva? A estrada de benfica sem movimento e no jardim zoológico os animais agitados e quatro e tal manhã ainda, horas que pesam, param, uma chávena de café numa mão um cigarro na outra viajo de dentro e para fora numa velocidade fugaz e tudo talvez tão rápido apenas o tempo parado na minha cabeça. A minha mãe falecida há anos eu na sala,

– deita-te filho!

apetecia-me imenso falar e ninguém para me escutar, as memórias divagam e viajam como naves esquecidas onde que céu lá tão longe. As panelas e os estribilhos ofuscam-me, fecho a cozinha o café quente, a janela e o cigarro e os ácaros sei lá onde a cozinha fechada, a minha mãe finita onde o meu pai,

– foste para a guerra meu filho, serás um herói!

os meus ouvidos parecem surdos ouço na alma e os esqueletos resvalam ossos nos ossos, uma dor ainda e que dor, a guerra foi verdade, é verdade, onde os meus amigos os soldados cansados, onde o motorista do jeep e o jeep onde, onde a minha cabeça a minha cabeça, estou cansado e ainda aqui sei lá onde, benfica já me cansa, Portugal já me cansa, a minha mãe partiu e nunca uma vela ou flores minhas na sua campa, a minha mulher sozinha e eu nem lá,

– Santa Paola!

fruto do nosso amor, sabes?, há que anos e dela só hoje onde a janela se abre e me abre horizontes se sei ainda pensar, se consigo escutar, raciocinar e que guerra onde? Norte de Angola os obuses e os soldados atirados ao ar, uma mina e que jeep, não sei se ainda estou vivo ou se morri, estou cansado e sem alma, farto da minha viagem nesta casa onde só insónias.

– deita-te filho!

Ouvia tudo e nada, tudo me parecia atroz entrando sei lá como nos ouvidos a cabeça estiolava, pensava na minha alma e onde ela, esquecida quem sabe numa mata qualquer o soldado estiolado deitado e eu sem agulhas operava, cosia sem fantasias bramia apenas,

– ai doutor!

a minha mãe morta o meu pai velho e sozinho, rabugento dizem, a noite aqui é repetida e nem a sinto estou cansado, nem sei como estou farto, o meu pai médico e reformado,

– aguenta-te filho!

Santa Paola vai entrar para a universidade eu longe e nem dela mais notícias, as coisas demoram a chegar a nós e nós viajamos noite e dia, escrevemos e rescrevemos recados,

– amo-te Deolinda!

se viúvo um dia, tu viúva um dia, a vida marca os nossos passos, regista os nossos actos, mato sem ver dou tiros para o ar é medo sinto isso a cada segundo nesta terra quente e só tiros, repetidos os sons que cheiram a fim todos os dias, cada manhã é uma vitória e a alma chora,  passo pelas ruas de benfica recordo ainda em criança era o jardim zoológico as minhas tardes de sábado, a minha mãe

– não metas as mãos nas grades!

ralhava e que me importava com isso, o meu pai num consultório ou hospital,

– hoje estou de banco Deolinda!

pouco me recordo do meu pai, raras as vezes nos víamos, a minha mãe cozinhava um cozido à portuguesa e eu deliciava-me. Era bom sermos muitos irmãos, tinha sempre alguém para brincar, subia a estrada da luz e de benfica, jogava à bola nas ruas onde carros pouco havia, fui o único a receber esta infeliz missão de ter que combater em áfrica.

Se ao menos um sono e tudo isto me desaparecesse da cabeça, um sonho e tudo isto era mentira, acordaria tranquilo tomava o pequeno almoço e seguia para a escola, tudo isto é penoso sendo verdade, quatro e tal e ainda na cabeça

– onde estou?

vazia e cheia ao mesmo tempo, uma perfeita combinação de tristezas e amarguras, os tiros das metralhadoras estou farto,

– fica calmo filho.

por dentro uma voz, a minha mãe descia as escadas, cansada, velha, bonita, passa a mão pela minha cabeça, suave, as rugas recortando o rosto o pescoço enrolado por um cachecol, está frio, olha para mim num olhar crescente, talvez uma chávena para mim, um chá quente,

– bebe filho, isto vai tranquilizar-te!

e de repente parecemos transparentes, não somos vistos nem vemos, um frio cobre-nos o pensamento e tudo se dilui num abrir e fechar de olhos, a vida esvai-se, o medo cresce, tudo é penoso, tanta dor e cansaço e durmo, mais que isso deito-me e o fumo passa devagar sobre as telhas da casa, os pombos esvoaçados sonho e não durmo, nem pombos é noite ainda, dormem também no tejadilho do carro, repletem o quintal e estrume, estrume nenhum, somos apenas algo que por aqui percorre uns tempos e pronto, somos rastilhos de uma existência fugaz e pronto, somos penas da vida e ela tem pena de nós,

– coitado do Esperança!

sempre foi esperança até que um dia terminou como uma bala nos miolos, o seu pai esperança na aldeia e na matança do porco, a sua sem filho morto na guerra do ultramar,

– em áfrica matam doutor!

defender a pátria, os jornais divulgam,

(Com honra e glória, o ultramar é nosso!)

– não nasci para isto Deolinda!

não quero morrer com uma bala espetada no focinho e devolverem-me à pátria, um caixão coberto pela bandeira dos heróis abatidos em combate, isto não é nosso, nada disto nos pertence, vim assim, numa comissão de lágrimas definhar aos poucos e acabar sem ideias, vou desistir de pensar e não sei se nascerei novamente, tanto gostava mas não acredito ser possível, a minha mãe coitada, nunca viu o filho com a farda do exército dos heróis, dos regressados em navios enormes atracar em alcântara, os amores de muitos lá, outros apenas o vazio, outros nem isso, apenas os bares e o cais do Sodré repleto de almas frustradas e tristes sem saberem o que é de facto a tristeza, a tristeza é uma coisa feia, a gente nem sequer tem consciência disso quando bebemos e esborrachamos os miolos para esquecer e nada esquecemos.

Lambem-me estes cardápios dos tudos

Não sei que bandeira ostentar. Se a minha ou a que me impuserem os andros, os tais que descrevo quando me perdia nas alamedas de lisboa e apenas me encontrava pelos lados do sul, já depois dos rios que eram apenas o único, o que descrevo e repito como sendo de águas fluentes do oriente como dizia Pessanha.

Na primeira fila aqueles sempre ruidosos silêncios, nascerá quem sabe o divino no vidro das planícies dos forasteiros fardados com batas brancas para encantos quem sabe de perder de vista. Lá mais para trás vozes caladas nada dizem, sorriem apenas o que ninguém entenderá nunca, nem eles, os tais voadores do deserto enquanto Jesus declama poesias de Pessoa numa figura espalda e robusta mais parecendo ser Ele mesmo.

O meu âmago dispersa, vai, volta e nunca para. A estrada é ruidosa e o trânsito transmute o vagaroso do êxtase, este derradeiro cansaço, aglomerado de montes e montes de corpos estendidos quem sabe para uma vala comum dos imortais para racionais impacientes.

A minha pele range. Nem rugidos famintos naquele alicerce de madeiras decoradas e envernizadas como fazem, dizem, lá para os lados de New York City, coisa horrível, aqui vivo numa estampa de zincos cinzentos que queimam logo pela manhã, basta o abrasador calor acordar.

E como se estivesse numa sala de cinema mas não estou, detesto filmes que apenas disfarcem imagens mal disfarçadas passo o pleonasmo, subo para cima das estepes, talvez veja melhor o olimpo discursar o destino dos cansados.

A lanterna dos lugares marcados, como me irrita isso. Levanto-me sem que ninguém se perceba e saio para o interior de todos os lá fora agrimensados, sentados nas plataformas do nada para pensar vagarosos idos e vindos e retidos e fantásticos ventos que só a vida sabe dar e mesmo essa mata, sim, ela fica farta de tantos poetas a escreverem súbditos para ninguém entender.

Soletro passo a passo cada folha em branco. Restos ainda dos que me apelidam. Sou aquele que nunca foi. Sinceramente, sabia disso, embora nunca me tivesse confessado a ninguém, nem mesmo ao padre santo lá da paróquia do subúrbio ébrio das minhas ente-mentes. Viverão certamente nos cardápios de todos os nadas e inexistentes escritos de qualquer restaurante já desaparecido.

Não sei que bandeira ostentar. Se a minha ou a que me impuserem os andros, os tais que descrevo quando me perdia nas alamedas de lisboa e apenas me encontrava pelos lados do sul, já depois dos rios que eram apenas o único, o que descrevo e repito como sendo de águas fluentes do oriente como dizia Pessanha.

Lia orpheus num barulho ensurdecedor e nada entendia, bebia cálices de vento tal a vontade de sentir o fresco do vazio, o tal, quem sabe, o único que me preenche mesmo nada eixando-me na cabeça envidraçada de reflexos nas vitrines dos mar a sul de lisboa, do bugio, esse farol que tantas vezes me iluminou a desgraça feita risos no rosto da Graça. Mais acima o quartel de tropas coitados num desfiladeiro de cabelo rapado cumprir ordens e o capitão enfurecido rosna raivas suculentas como um limão argentino plantado no quintal dos meus tios que morreram já de tédio e velhice e sei lá que mais.

Sabes, vou deixar-me aqui estar, tenho a minha caserna ainda disponível, e, quem sabe, votar a deitar-me naqueles cobertores mal cheirosos e fastidiosos de verdume e estrume raios me partam a vida!

Sobre as águas da vida o silêncio dói cap.VI

Ao fundo do céu, não sei se na verdade era mas parecia, até porque sentia escorrer-me pelo corpo, o meu corpo cansado, extasiado e perdido nestes montes e matas se a caserna ou o consultório de campanha, eu lá fora sentei-me sobre umas pedras escorreitas e observava nem tão perdido sei, do céu, um cacimbo que é de áfrica cair-me subtil sobre a face molhada e mais molhada ainda a chuva bramia em mim os meus desesperos e inconstâncias, ela comigo e que soldados espalhados, perdido no recôndito momento que melhor que senti-la, a cabeça encharcava-se e o miolo perdido, sonhava

– amo-te Deolinda!

com lisboa ainda fria nesta altura, a minha menina, e tu?, os meus pais velhos, o fim no fim do mundo que nem sequer no mapa encontram, encostado a um tronco e tiros sei lá

– amo-te Deolinda!

um dia irei a essa lisboa já devastada da minha cabeça amor, aqui o mundo é enfadonho, não quebramos a rotina, todos os dias coso e esfolo a cabeça, soldados estripados amigos enterrados neste mato um dia de alguém, não era a minha ideia deixar-te sozinha nessa casa só nossa, a casa do nosso amor e que agora só tu nela, pensares se volto em que navio vivo ou morto, a minha filha crescida,

– quem é ele, mãe?

sorri amor, nem cartas nem recados apenas a cabeça em viagem esta guerra nunca foi minha, mas vim aqui parar, mandaram esses cabeçudos que governam e a gente se não obedece…

– o Alfredo?

(Sabes do Franco?)

não sei de nada, isto é tudo fim do mundo, isto é tudo longe só arvores e folhas e terra mais fumarada

– livre-me deste vento doutor!

nem sei se sei, aqui, se longe, na enfermaria cardápios alojados, montes esticados e eu nem lá, cansado de ver morrer, de não conseguir salvar, ninguém salva mortos Deolinda, acredita, o estetoscópio esquecido o paludismo nos ossos e na carne, a febre fervilha e eles

– ai doutor!

ainda sem mim por perto estou aqui onde talvez me possa sentir contigo, os tiros lá longe a tua voz a mastigar-me os tímpanos e os miolos

– preciso de ti Antunes!

– e eu de ti Deolinda.

e a nossa filha, onde a tens?, centenas de soldados todos os dias, temos tido emboscadas e safamo-nos, o jeep vagueia quase parece ter olhos e conhece cada trincheira, cada mina, a que meses aqui nem datas marcadas não sei quando o fim desta missão  

(sôbolos rios)

nem cartas. Chove copiosamente nesta mata onde o quartel nos protege, o cacimbo é lindo e terrível nunca vi, penso que na europa nunca havia visto, relâmpagos de torpor, faíscas em lume sobre as casernas nem pára-raios somos soldados nesta guerra não nossa,

– o Salazar?, ainda aí?

Deus queira tombe, tropece nas suas ganâncias, deixe-nos regressar a casa, estes soldados cansados e obrigados, aguçados, evitam como morrer e tantos a irem em caixões com a bandeira que nos mata

(em nome da pátria, orgulho e raça lusitana!)

na frente de combate eramos centenas e mais,

– nunca vi um turra capitão, existem mesmo?

a luta era mais ou menos longe, eles e as catanas creio, nós de balas e morteiros a morrermos longe,

– onde fica agora trás-os-montes soldado?

norte de Angola. Onde só palha e montes, os rios luzidios ainda cantavam descendo impávidos o declive da sua vida, onde sede, onde medo, e os tiros nada, ainda catanadas diziam uns mais antigos,

– ai capitão!

– estás feito num maricas!

vamos em frente e sempre em frente, havemos de vencer esta guerra que guerra, coisa nenhuma para quem nunca quis ser soldado à força,

– quando chegares à metrópole diz isso mesmo ao general, bolas!

eu sem culpa também, medo também, tudo me parecia mentira, juro, ainda avançava pelas matas e montanhas, vi pontes quebradas e jazigos cheios de sangue, o jeep soluçava o oxigénio cansado, o diesel farto e eu nem lá,

– um dia de novo num cais qualquer de lisboa!

vim para esta missão, não nasci para isto acreditem, nasci para salvar vidas, mas não salvar guerras,

– atenção, ataque!

eu ainda no consultório de campanha ouvi de longe, pernas amputadas, braços amputados, porra!, estudei medicina em Coimbra, mas não para vir para áfrica matar desconhecidos, aqui tudo é desconhecido, não conheço nada, falavam-me de luanda e não conheço luanda, a ilha, que ilha?, a minha ilha é esta solidão, esta comissão de lágrimas, estes corredores fragmentados de ossos e miolos espalhados, nem tudo salvo, nem a todos consigo sarar a dor, que comprimidos?,

– aqui só resoquina doutor, o cabo socorrista de bata ensanguentada.

cabeças espetadas em troncos,

– esta é a nossa pátria!

dizia salazar, na cadeira sentado onde jorrava raiva e de que medos, os soldados sim, eles nas matas contra tudo e todos, morriam queimados, degolados, catanadas fatiavam os seus corpos e pedaços, já nem Silva, evacuado para Portugal gravemente ferido em combate,

– onde a insurreição?

– no alto de são joão!

e cabeças de negros espetadas em troncos eram trunfos de guerra,

– os estrangeiros são quem os combate capitão!

ainda vais preso soldado, ensinaram-te a obedecer, sei disso, aprendi no curso de oficiais milicianos. Soldado só aprende a obedecer, ouve bem meu rapaz

(o oficial de dia aborrecido)

– a sua missão é esta, obedecer e fazer cumprir, sigamos, treino rígido hoje e é toda a noite!

a morte espera-nos por onde menos esperamos, as trincheiras cheias onde repletas nem gritos e só tiros, o consultório repleto onde nem gritos só tiros, a rua era inventada a cada momento, enquanto cosia feridas profundas a cabeça viajava,

– quero sair daqui!

e tantos como eu ali, cigarros amarrotados calcavam a solidão entre tantos e cada um com a sua lembrança e a arma nas mãos, ali tudo se fundia, tudo descia ao imaginário mais simples, abraços no regresso das campanhas, de vez em quando o vinho alumbrava as noites infinitas e nós na caserna de tantos ausentes.

A minha vida não é isto. É uma outra coisa qualquer que nem a folha de papel assume. Que digam serem riscos diluídos num sonho ainda que nem sono, as vozes gritantes por todo o lado e as paredes horríveis a fecharem-se de encontro a mim, é como tantas vezes me sinto. Um esqueleto não tem alma.

Sento-me tão vagarosamente nesta cadeira de algum lugar e tento vigiar a minha impaciência, uns goles no café quente e continuo mesmo assim sem mim por perto. Onde estariam os meus olhos naquele instante?, uma pergunta mais para que se me inquietem os dissabores.

Páginas do livro devoradas, a minha cabeça estiola e num gesto estou dentro do livro, numa página qualquer, pois, já nem me importa qual seja, o certo é que a minha vida não é isto. Quantas vezes na vida viajamos por entre tantas coisas que nos fazem querer ser aquilo ou aqueloutro, viajamos sempre e nem sempre a mesma disposição, nem sempre aquele café ainda que saboroso, tantas as viagens percorridas são o passado acumulado ainda que as pernas fortes resistam a tanto peso, e eu sentado naquela saudade estampada num belo quadro quadrado.

A minha vida não é isto. Como que se eu mesmo me estivesse a ouvir a mim num poço. A folha de papel limpa ainda, não há nada que consiga escrever, os dedos parecem ter congelado, mas é apenas uma sensação, acredito, o vento é brando e os cantos da esplanada repletos onde conversam imensos, fecho e reabro o livro tantas vezes, parece que às vezes a gente se esquece dos olhos, imaginamos e pronto, julgamos estar assim a ver melhor mas que importa, se a sensação é no momento o que mais interessa?

O que é Poesia?

Poesia é um texto poético, geralmente em verso, que faz parte do gênero literário denominado “lírico”.

Ela combina palavras, significados e qualidades estéticas. Nela, prevalece a estética da língua sobre o conteúdo, de forma que utiliza de diferentes dispositivos fonéticos, sintáticos e semânticos.

A poesia é dividida em versos que, agrupados, são chamados estrofes. As origens literárias da poesia apontam que ela nasceu para ser cantada, por isso a preocupação com a estética, a métrica e a rima.

A poesia é um texto onde o autor expressa diretamente sentimentos e visões pessoais. A voz que se manifesta na poesia, ou seja, o sujeito poético e fictício criado pelo escritor é chamado de Eu-lírico.

A poesia está entre as mais antigas formas de arte literária, havendo registro de poesias em hieróglifos no Egito 25 séculos antes de Cristo. Na poesia moderna, uma das mais importantes ferramentas é a metáfora, uma figura de linguagem.

Entre os vários tipos de formas poéticas, temos:

  • Dístico (poema de dois versos)
  • Décima (poema de dez versos)
  • Soneto (poema de 14 versos)
  • Ode (poema de exaltação)

Principais Tipos de Poesia

A poesia pode ser dividida em três gêneros principais:

  • Poesia Lírica: pode ser traduzida como a maneira de expressar sentimentos por meio da palavra falada ou escrita.
  • Poesia Épica: é marcada pela objetividade, onde são narrados os fatos considerados importantes para o poeta.
  • Poesia Dramática: tem como característica a subjetividade e objetividade, com a opinião do poeta.

Há também gêneros menos usados, como por exemplo, a poesia pastoral.

Leia mais em: Gêneros Literários

Poesia Lírica

Entre os gêneros da poesia, o mais aplicado está o lírico. A subjetividade é a característica principal deste gênero poético.

Nele, o poeta oferece por meio do pensamento a sua visão social, de mundo, sua realidade e expressa os sentimentos com atenção à estética, técnica e métrica.

A maioria dos textos líricos está escrito em verso. Além da subjetividade, as características do gênero lírico são: estética apurada, linguagem elaborada atenção à forma. Ou seja, disciplina estrutural.

Os componentes da poesia lírica são: a métrica, o verso e a rima. A métrica é traduzida com a disciplina na estrutura de combinações distintas para a formação de versos, rima, ritmo e estrofes.

Já o verso é composto pelo conjunto de palavras submetidas ao ritmo e que dá origem a outros versos. Pode apresentar pausas, acertos de rima. O verso é classificado segundo o número de sílabas que contêm.

O verso comporta a rima em um conjunto silábico, sendo chamado verso maior quando por nove sílabas e maior, se a quantidade superar este número. Se não houver obediência a este recurso, o verso é denominado livre.

Leia Gênero LíricoRima e Verso.

Exemplo de Poesia

Segue abaixo um exemplo de poesia lírica, o “Soneto de Contrição” de Vinícius de Moraes, poeta e músico brasileiro. Observe que a palavra “contrição” significa arrependimento, remorso e sentimento de culpa.

Lembre-se que o soneto é uma forma fixa formada por dois quartetos (duas estrofes de quatro versos cada) e dois tercetos (duas estrofes de três versos cada):

Soneto de Contrição

Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma…

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

Daniela Diana Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora