A estipóide amarelada dos laranjais

Sonhei-me por existir. A blusa incolor que me reveste por dentro é como canaviais que se atropelam por tostões neste torrão de ventos para edifícios e castelos e glórias, não, sonhei-me por existir.

Apetece-me o cheiro das tardes.

O silêncio dos sonhos nesta poltrona vazia.

Apetece-me perder todos os sangues do corpo e vomitar as ânsias que fazem isolar-me de mim mesmo, pois, acabo sempre por me encontrar noutros lugares, é isso, pensando bem, acho, não adianta experimentar a cor do suicídio nestes dias de cores tão esbeltas.

“a estipóide amarelada dos laranjais”

A falésia repleta de cores tão sibilantes, os efeitos dos contrários nas suas falanges quando pinto telas para entreter, o sumo amarelo das laranjas nos taipais da decima nona avenida de qualquer cidade, seja ela de onde for pois, pouco me importa isso, nasci numa cidade que já existia e isso para mim basta.

Pois, isolar-me é um desconforto a que me permito sem vontade, sentir-me num lugar de franjas aguçadas na ilharga longínqua dos cabelos compridos, sentir a saia do padre ou a relíquia da Elvira naquela ainda esquecida avenida.

Apetece-me vomitar todos os tédios.

Esquecer todos os anjos deste laranjal do senhor Quintas na Serra de Sintra.

Voar tão superiormente como uma ave que se esquece da minha existência, assim como eu a dela, acredito, é raro pensar que elas existem também e coabitam os mesmos cantos que eu, mas, ainda assim, esqueço-me, esqueço-me tão simplesmente como quando alguém que se recorda de mim me conta enfadonhas histórias do holocausto, dos tremores e terramotos, dos ciclones e da florestas e até mesmo de mim coitadinho de mim, plantado neste laranjal do senhor Quintas.

“a estipóide amarelada dos laranjais”

Em cima o sumo dos dias, este desenho de realidades para nos convencerem a vencer o tédio são relógios que nos secam e sacam das planícies e dos verdes frescos ainda com o cheiro de bosta dos rebanhos que desfilam a sua fome num alimento regado pela chuva da saudade. Sim. Senta-te então aqui a meu lado, talvez contar-te parte do meu sonho.

Sobre as águas da vida o silêncio dói cap.XII

XII

A ferrugem a rasgar-nos a farda ainda cansada, zumbidos de cigarras empoleiradas à janela ainda aberta para soçobrar restos de vento, recebidos como heróis e abandonados a seguir, a banda do exército esperava-nos onde que sentinela à proa incentivava cânticos sobre o regresso de que heróis desta pátria despida de sensações, muitos já de barba em punho e cabelo por aparar, o cansaço por nos sentir morrer de tédio, procuro por alguém e nada, a solidão é enfadonha, irritante, não termos quem nos receba depois de tantos anos a combater em nome de quem?, foi por todos nós, dizem os estatutos do estado a falir o regime, nem Salazar se cansa de viver e morrerá numa cadeira, agora que sei que morreu apenas cantarei glória.

Um mês no mar onde só solidão e tédio, a recordação de tanto e nada para recordar ou esquecer, agente perde a memória, o sargaço envenena-nos a todos, somos cuspidos do navio como vespas azucrinantes, cuspidos como filhos da outra, esta mesma nação que nos venerou enquanto activos na mata.

– o meu filho foi combater para defender o nosso país!

Qual país qual quê, dizia outra voz escondida vinda do fundo onde tantos se esquivavam,

– não quero aparecer nas fotos!

e agente ali, como estranhos de um lugar que sempre foi nosso.

Mas que país?, o meu país é este, onde nasci e me tornaram soldado contra a vontade,

– saudades de lisboa, de benfica, há que tempos não vejo os golos do Eusébio!

a telefonia cansada e sem pilhas, onde as comprar sem as que me mandas de lisboa?, queria ouvir as notícias do meu país, saber de ti e de tantos que ficaram e pensam em nós soldados num longe tão desconhecido para nós, onde só mato e selva e fauna isto é lindo amor, mas não para lutar contra quem quer que seja, não nasci soldado, fizeram-me sê-lo e que vontade a minha?, nenhuma!

Cada um é para o que nasce, a nossa sina embeleza-nos o caminho, rimos e choramos e tudo flui com uma naturalidade inexplicável, cantamos, sonhamos, à página tantos nada somos ou nem sequer estatística somos, vivemos o momento, acredito, e nele somos tudo o que formos, nada mais do que isso. Um balázio aniquila-nos, uma memória perdida faz-nos esquecer a existência, a vida flui como rios que desaguam num oceano qualquer e depois mar na mesma, somos resquícios da existência, dos valores em nós acumulados, somos viajantes permanentes do tempo e nele apenas seguirmos como passageiros da verdade do tempo em que ela for verdade.

Em cada trilho, picada, emboscada, somos caminhantes deste ofício a que nos obrigam, somos soldados de tantos nadas neste percurso chamado obrigação, vendemo-nos pelo medo e sussurramos lágrimas à hora de nos deitarmos, somos imensos nadas, nadamos filantropias nestas camas de pássaros, cantamos hinos e perdemo-nos nesta escória de pátria nenhuma, somos entretanto vendidos ao inimigo que desconhecemos e voamos espasmos de sangue branco. A febre aperta e de que maneira dói, o corpo sangra saudades e nostalgias e tu longe, o meu país entregou-me a que nem sequer sei, não fui o único mas sou mais grita, rejeita esta condição de soldado no desconhecido, sou uma formiga flamejante neste mato verde e escuro tantas vezes castanho, onde que escuro a inebriar-nos o destino, qual coisa qual quê, somos míseros viajantes  de que desejo o meu país que me abandonou. 

A vida esgueira-se branda e o sol brilhante encosta-se aos postigos de azul transparente transformando a cidade em cada canto da viagem, recordo-me da minha mãe na cama deitada e doente a gemer comprimidos pequenos contra as dores de cabeça, o meu pai no hospital ainda a transformar ossos em carne viva saltitam solavancos na cama e ela lá, deitada como um anjo.

Sob que luzes de sonho a minha ribalta, nesta batalha o sonho é efémero, tudo é coisa de instantes e a vida navega ou naufraga consoante o momento, as coisas biliosas a sufragarem o segredo de onde nada se refrange, onde beliscos e a alma em viagem nestas paisagens sonhadas ou por sonhar, as cartas ainda na lapela da alma para recordar cada instante como se fosse de facto o último a brilhar num coração evaporado. Os batráquios relatam o seu sono eu sinto ainda que sonhos, a vida empedrada nesta caserna amor, onde a minha felicidade sem ti, onde para a minha filha de que pai desperdiço ao seu crescimento, sinto saudades e tudo me vai matando aos poucos, morro como os meus soldados sem pátria nem paz, vivemos circunstâncias, sabes, circuitos mórbidos e corredores recheados de dor, de gritos e vómitos como se um fim ali, o regresso a lisboa é uma constante que nunca se esfuma e nem sequer cansa, onde trás os montes ainda?, onde que beijo Maria, onde a matança do porco hoje, a minha mãe velhinha e eu cansado já.

Simone de Beauvoir – aforismos e excertos

“Comprei flores, frutos, caminhei a esmo. Ser aposentado e ser um rebotalho parece quase a mesma coisa. A palavra me congelava. Espantava-me a extensão de meus lazeres. Estava errada. O tempo, às vezes, parece custar a passar mas eu me arranjo. E que prazer viver sem obedecer ordens, sem constrangimento! Há ocasiões em que me assombro. Lembro-me do primeiro posto, de minha primeira classe, as folhas mortas que rangiam sob os passos no outono provinciano. Então, o dia da aposentadoria — distante de mim um lapso de tempo duas vezes mais longo ou quase, que minha vida anterior — me parecia irreal como a própria morte. E eis que há um ano ele chegou. Passei outras barreiras, porém fluidas. Esta tem a rigidez de uma cortina de aço.”
— Simone de Beauvoir, no livro “A mulher desiludida”. [tradução Helena Silveira e Maryan A. Bon Barbosa]. 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

§

“Suas curiosidades avivam a minha, me arrastam em seu futuro, para lá de meu túmulo.”
— Simone de Beauvoir, no livro “A mulher desiludida”. [tradução Helena Silveira e Maryan A. Bon Barbosa]. 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

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“A perpétua juventude do mundo me deixa sem ar. Coisas que eu amei desapareceram. Muitas outras me foram dadas.”
— Simone de Beauvoir, no livro “A mulher desiludida”. [tradução Helena Silveira e Maryan A. Bon Barbosa]. 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

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“Sempre olháramos longe. Seria necessário aprender a viver o dia-a-dia? Estávamos sentados lado a lado sob as estrelas, tocados pelo aroma cipreste, nossas mãos se encontravam; o tempo havia parado um instante. Iria continuar a escorrer. E então? Sim ou não, poderia ainda trabalhar? Minha raiva contra Filipe se esfumaria? A angústia de envelhecer me retomaria? Não olhar muito longe. Longe seriam os horrores da morte e dos adeuses. Seria a dentadura, a ciática, as enfermidades, a esterilidade mental, a solidão em um mundo estranho que não compreenderíamos mais e que prosseguiria seu curso sem nós. Conseguiria não levantar os olhos para esses horizontes? Quando aprenderia a percebê-los sem pavor? Nós estamos juntos, é a nossa sorte. Nós nos auxiliaremos a viver essa derradeira aventura da qual não retornaremos. Isso no-la tornará tolerável? Não sei. Esperemos. Não temos escolha.”
— Simone de Beauvoir, no livro “A mulher desiludida”. [tradução Helena Silveira e Maryan A. Bon Barbosa]. 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

§

“Encontrava na ponta da língua as velhas palavras, tais como haviam sido escritas. Elas me ligavam aos antigos séculos onde os astros brilhavam exatamente como hoje. E este renascimento e esta permanência me davam uma impressão de eternidade. A terra parecia-me fresca tal qual nas primeiras idades e este instante se bastava. Eu estava ali, olhava as a nossos pés os tetos com telhas, banhados de luar, sem motivo, pelo prazer de os ver. Esse desinteresse tinha um encanto pungente.
– Eis o privilégio da literatura. As figuras se deformam, empalidecem. As palavras, nós levamos conosco.”
— Simone de Beauvoir, no livro “A mulher desiludida”. [tradução Helena Silveira e Maryan A. Bon Barbosa]. 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

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“… eu não via limites para minhas esperanças: estava satisfeita, não desencantada.”
— Simone de Beauvoir, no livro “A força das coisas”. [tradução Maria Helena Franco Martins]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

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“… minha vida em seus impulsos, suas aflições, seus sobressaltos, minha vida que tenta dizer-se, e não servir de pretexto a ademanes.”
— Simone de Beauvoir, no livro “A força das coisas”. [tradução Maria Helena Franco Martins]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

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Simone de Beauvoir – foto: Brassai

BREVE BIOGRAFIA
Simone de Beauvoir nasceu em uma família pequeno-burguesa parisiense em 9 de janeiro de 1908. Sua mãe, muito católica, garantiu que ela e sua irmã mais nova, Hélène (apelidada Poupette), tivessem uma educação conservadora no tradicional Institut Adeline Désir, o Cours Désir, onde meninas eram formadas para serem esposas dedicadas, mães de família e donas de casa. Foi na escola, aos dez anos, que Simone de Beauvoir conheceu sua melhor amiga da infância e juventude: Elisabeth Mabille, mais conhecida por seu apelido, Zaza. A morte de Zaza, quando ambas tinham por volta de 20 anos, foi uma das mais doloridas perdas da vida de Simone.
Apesar de ser sempre a melhor – ou segunda melhor – aluna da classe, a formação conservadora não conseguiu aplacar os desejos de liberdade da jovem Simone. Aos 13 anos, ela estava decidida a se tornar escritora. Simone, adolescente, começou a escrever diários e tentativas de romances. Aos 14 anos, deixou de acreditar em Deus, embora fizesse dessa descrença um segredo para a família e as colegas do Cours Désir. Aos 15, Simone tem sua primeira paixão: seu primo Jacques. A família desejava o casamento, mas aos poucos ela percebe que a relação – que nunca chegou a se configurar como um namoro – não teria futuro.
Em 1926, entrou para a Universidade de Paris – Sorbonne, no curso de Filosofia. Eram seus colegas de faculdade futuros intelectuais como Simone Weil (com quem se revezava no lugar de primeira aluna), Claude Lévi-Strauss, Maurice Merleau-Ponty. Em 1929, quando preparava seu exame de agrégation, Simone de Beauvoir conheceu o também aluno da Sorbonne Jean-Paul Sartre. Pouco mais velho que Simone, Sartre era polêmico na universidade, considerado um jovem gênio, mas havia sido reprovado no exame de agrégation em 1928 e refazia, então, sua preparação. Ambos foram aprovados no exame, Sartre em primeiro lugar; Simone, em segundo, como a pessoa mais jovem e a nona mulher a obter o título, que permitia ensinar Filosofia nas escolas francesas.
A morte de Zaza, que Simone atribui a condições ligadas ao conservadorismo da família, o inconformismo com o tratamento diferenciado para homens e mulheres, os conflitos com as restrições impostas por sua própria família levam Simone a romper com os padrões de comportamento considerados aceitáveis para uma mulher na época. Ela se recusa a se casar, a permanecer na casa dos pais, a sacrificar sua liberdade por qualquer convenção.
A partir de 1931, Simone se tornou professora de Filosofia, primeiro em Marseille, depois em Rouen, e começou a escrever romances em seu tempo livre. Sua vida passou a ser dedicada à escrita, ao amor e à cumplicidade afetiva e intelectual com Sartre, à rede de amigos que eles começam a construir, ao prazer dos livros, das discussões filosóficas, da descoberta do mundo e das viagens. Sem grandes pretensões, Sartre começava a pensar sobre o mundo e a esboçar as primeiras teses do que depois iria embasar o Existencialismo. Tinha em Simone sua principal questionadora e colaboradora. Juntos, criavam uma doutrina filosófica.
Em 1943, a escritora Simone estava pronta para o mundo. Publicou então seu primeiro romance, A Convidada. Em 1944, O Sangue dos Outros. Além dos romances, ela se dedicava também aos ensaios filosóficos e, alguns anos mais tarde, às memórias. Simone é hoje considerada uma das mais importantes memorialistas do século 20. Em 1945, Sartre e Simone fundaram a revista Les Temps Modernes, que atualmente é publicada pelas Éditions Gallimard. Em 1947, ela foi convidada para uma série de conferências nos Estados Unidos, e lá conheceu o escritor Nelson Algren, com quem viveu um romance à distância, marcado por muitas cartas e muitas viagens.
Em 1949, após longa pesquisa, ela publicou: O Segundo Sexo, primeiro grande e detalhado ensaio sobre a condição da mulher. Apesar de Simone não ser feminista à época, o livro se tornou o mais importante trabalho de reflexão filosófica e sociológica sobre a mulher e ajudou a traçar os caminhos do feminismo a partir de então. O livro é uma análise sobre a hierarquia dos sexos e a opressão da mulher em termos biológicos, históricos, sociais e políticos.
Para a sociedade da década de 1950, o livro foi um escândalo. As reações contra a obra foram violentas. Direita e esquerda passaram a ter algo em comum: reprovavam veementemente as ideias de Simone de Beauvoir, sobretudo aquelas expostas no capítulo sobre a maternidade, em que ela falava sobre o direito ao aborto. A Igreja Católica incluiu o livro no Index, a lista de obras proibidas. Com a repercussão do livro, a permanecia de Simone em Paris se tornou insustentável e ela partiu em viagem com Algren pela Europa e norte da África.
Entre os anos 1950 e 1960, a ação política de Sartre colocou o casal em evidência no mundo. Eles viajaram à então União Soviética, à China, à Suécia, ao Brasil. Ambos eram definitivamente reconhecidos por unir sua força intelectual ao engajamento político. Em 1954, Simone publica Os Mandarins, por muitos considerado seu melhor romance. O livro lhe rendeu o Prêmio Goncourt daquele ano. Todas as atenções se voltavam, então, para a vida intelectual, mas também sexual e amorosa de Simone. Depois de Os Mandarins, Simone começou a trabalhar em seus livros de memórias: Memórias de uma Moça Bem-Comportada (1958), A Força da Idade (1960) e A Força das Coisas (1963). Publicou também vários ensaios, relatos de viagens, a obra em que fala sobre a morte de sua mãe, Uma Morte Muito Suave (1964), e a novela A Mulher Desiludida (1967).
Nos anos 1970, Simone de Beauvoir publicou o quarto volume de suas memórias, Balanço Final (1972) e passou a apoiar oficialmente as ações do movimento feminista. Em 1974, criou a Ligue du Droit des Femmes. Ao final da década, Sartre estava seriamente debilitado, sua saúde frágil não permitiu que ele se recuperasse de uma pneumonia. Ele faleceu em 15 de abril de 1980. Pouco mais de um ano depois, em maio de 1981, morreu Nelson Algren. Simone enfrentou as perdas com lucidez e refletiu sobre a morte em seus últimos escritos. A Cerimônia do Adeus (1981) foi o último livro publicado em vida pela escritora, filósofa e memorialista. Sua saúde começou, então, a se debilitar.
Simone morreu em 14 de abril de 1986, um dia antes do aniversário da morte de Sartre, tendo realizado seus dois sonhos de infância: o de se tornar escritora e o de ser uma mulher independente. Mas também sem realizar um de seus maiores desejos desde que conheceu Sartre: o de que seu companheiro de toda a vida não morresse antes dela.
Fonte: Beauvoirana

Não te escrevo texto nenhum raios me partam aos textos!

Não te vou escrever texto nenhum, vou apenas dizer-te que te amo como as palavras levadas não explicam, fica o sabor nos poros o suor da saudade volta amor.

Hoje a bruma sorve e desce do céu aquele silêncio que me contavas quando cantavas alegrias lembras-te?, hoje, a minha orla é a imensidão do todo, essa viagem pelos tempos que florescem doçuras sabes, amo-te!

Não te vou escrever texto nenhum, vou apenas dizer-te que te amo como as palavras levadas não explicam, fica o sabor nos poros o suor da saudade volta amor.

Um dia como o de hoje é um dia como o de ontem, sei que amanhã será na mesma o mesmo e tu a minha na mesma, esse recado é cântico como um hino de vitória naquele dia sei lá,

“the winner!”

senti o abraço do teu beijo num navio lá pelos lados do mussúlo fomos lá?, que importa amor, não fui nem me lembro mas estou e fico, a tua pele é a saudade dos meus ranjos e grunhos secos desta loucura só minha naquele abraço que seca e mata a fome do soldado no campo das florestas sozinho e só, nada mais com ele a não ser o verde seco do quente neste calor só nosso, vens hoje amor?

Não gostas de textos quando o dia é de beijos e abraços e açoites e saudades que saudades?, julho quente na Lisboa que te viu num choro de bebe lindo

“olá mamã, cheguei!”

num embrulho da maternidade lá dos fundos do tempo em que te esperei um dia ser este, hoje.

“não te escrevo texto nenhum raios me partam aos textos!”

Sabes, aprendi tanto como amar existe e foi contigo, um dia serei apenas o teu sonho no nosso leito e nós de novo bebés abraçados.

Obrigado por teres nascido para mim.

Dezanove de julho de mil novecentos e setenta e cinco, portugal, lisboa, europa, mundo, és da nossa angola amor.

Sobre as águas da vida o silêncio dói cap. XI

XI

As cascatas deslizam numa sonoridade linda, os peixes mergulham e saltam como se a vida fosse brincar o dia inteiro, os tiros como resmas escritas numa dor ali recriada, as feridas da alma nascem em cada silêncio percorrido nesta azáfama para nunca esquecer.

Não tenho como me recolher, ali tudo é exposto e gritos dos feridos pelo corredor ensurdecem, não ficamos indiferentes nem sequer ausentes, sentimos a incompetência em nós todos os dias, percorrer léguas de mato e nada apenas feridos e mortos, estiolados e desmembrados camaradas fuzilados, inocentes nesta campanha que só a poucos serve e nós carne para canhão neste tão distante das nossas vidas e família e de tudo o mais, tudo parece um inverno permanente que se esbate a cada gesto, tudo é um clima azedo, nada saboreamos e seguimos como nos obrigam a fazer, tudo é triste, feio, frio, medos e raiva. 

O mapa para nada serve, guiamo-nos pelo medo, sorvemos o sangue perdido e culpa sem culpa nenhuma, teres de matar para não morrer é ingrato, agente sente apenas o dilúvio das fardas quentes e as máscaras no rosto fazendo-nos disfarçados de floresta e folhagem. As vozes dos nossos são permanentes, insistem em estar juntos a nós sabendo que a distância é real, a minha mãe velhinha ainda espera pelo meu regresso, a minha filha crescendo e tu Deolinda, escreves-me pela noite fora como se o amor estivesse no meu quarto de tenda a afagar-me de tantos ruídos disparados de não sei onde, eu a fingir estar bem para te acalmar com esta ausência tão fria e feia, não vejo a minha filha mas sinto-a como se no meu colo estivesse,

– hoje levo-a ao infantário amor!

mas tudo são delírios, uma febre enfadonha cobre o corpo e a testa arde como se a morte me viesse a visitar!

Visitar o desconhecido é difícil, tudo vai sendo cada vez mais estranho, estudamos os mapas e nada de verdade, leio e estudo os desenhos, onde atacar ou onde se aloja o inimigo, todos os cantos são um possível esconderijo, nós descobertos nessa estranha caminhada, revoltados também, obrigados a fazer tudo isto, tanta a revolta em todos, dos soldados ao médico de campanha desabafos a cada passo, ninguém larga as memórias, ninguém vive sem se recordar do que alguma na vida se havia sido, de tudo um pouco e o soldado quase analfabeto nas trincheiras nem percebe por quê esconder-se, apenas do medo sabe e sente, gritam e disfarçam, noção de que a cobardia os invadirá serem heróis ao menos os contentará.

Na parada preparamos a estratégia. O oficial de dia lê as ordens e determinações do comandante. Ouvimos de soslaio esse aviso e sempre repetido,

– que voltem todos vivos!

raios o partam!, tropa como nós, oficial e nós segmentos de ordens, somos apenas soldados e sem estudos,

– sempre fui camponês, meu comandante!

ainda a matança do porco na aldeia, a imagem da Aldina tatuada num braço e no peito amo-te mãe, lágrimas de sangue jorram, o coração destroçado e que força, os cães ladram atrás das caravanas e seguimos, as nativas pelo caminho acenam, as aldeias vivem um conforto natural e fogueiras para nos receberem, assados e bebida num conforto raro, quem somos nós?, amigos garantidamente obrigados a este percurso que na vida só deixará marcas, nem todas más, áfrica é um continente interessante, por quê esta guerra contra os meus irmãos de cor diferente?, recordo vila real sem mim, quem se recordará de mim?, parti para uma missão de lágrimas, sim, e que destino para o meu regresso?

Num cais qualquer de lisboa, o navio atracar onde centenas, gente que nos espera e quem nos espera?, regressados da guerra do ultramar, trajados a rigor onde que vómitos, o enjoo na viagem, Don Afonso Henriques velho e cansado traz-nos de regresso onde caixões e solidão nos preenche de vazio e dor, onde que traumas a nossa alma,

– sonhei todos os dias com isto!

sussurrava um soldado isolado, o cais do Sodré ao lado e nada, um bar sorver sedes e saudades, marinheiros e prostitutas a vida é curta,

– sobrevivi meu amor!

outro,

– cumpri com toda a sagacidade da pátria!

ninguém a não ser o vento do tejo a repousar um frio sobre que boinas e barba,

– esperas por mim?

o soldado de trás-os-montes sem rumo, quem o viera buscar?, coisa nenhuma, perdemos o rumo e três anos de campanha, venci o mato e perdi a honra de cidadão na minha pátria.

Ainda no norte de Angola eu e tantos, onde ainda comissões, para quando o fim disto tudo, para quando o fim de que Salazar a cansar-me demais, para quando o teu beijo, abraço, leio as cartas e só saudades e dor a aumentarem,

– voltarei amor!

murmurava na tenda onde nada era vida.

És meu amor, não és minha mãe

Enrolar-me quase caladinho no teu corpo como se as sombras fossem naves no deserto dos meus sonhos. Ouvir o gesto dos beijos como plantas devagar, quando me enrolo nos teus lençóis de vidro na minha cama quentinha e amar

“o bom do amar”

aquele colo antigo onde gaivotas sobrevoavam embelezando sei lá, uma fantasia qualquer que me contente para sempre, sim, este de repente apetecer não cai do céu, apetece-me tanto o teu amor.

“és meu amor, não és minha mãe”

Assim num súbito de laivos como átomos devorados no esplendor da tarde, daqueles dias em que no teu leito bebia o soro do teu sangue como quem alimenta um faminto com um amor que nem sei se entendo ainda, por isso quero e peço e imploro, não sei se mereço, este escarpeio de vómitos nas palavras dilaceradas em páginas ínfimas para descrever tantas coisas que apenas o silêncio consegue em mim deixar, para que me sinta eu neste tanto desejo de ser teu,

“és meu amor, não és minha mãe”

Neste meu deserto inventar uma praia, transformar isso num paraíso, sim, os maus paraísos são ainda os dos contos de fadas no emblema da camisola do meu soldado derrotado numa guerra qualquer, deitado, tombado, como se tudo se resumisse a um fim e pronto, a guerra foi inventada para aniquilar e a gente entende, jogamos ao monopólio para decorar as páginas de uma história qualquer mas dói, mete medo, fica tudo muito escuro e envergonha, é verdade, lembro-me ainda de pequeno ser herói um dia, nem que fosse na colecção de cromos dos jogadores da bola num caderno qualquer e como me encantava isso, era a nossa guerra, mas não morria soldado nenhum, éramos todos heróis como o patinhas na fila do supermercado para comprar franjas de carnaval, só sorrisos,

“olá menino, a mãe está boa?”

“o bom do amar”

enquanto é ainda assim até que um dia tudo se modifique, multiplique, os mares enervam-se e invadem as areias onde tantas vezes corria desenfreado e imaginando sei lá,

“quero uma mulher que me ame como a minha mãe me ama”

para que a verdade seja uma água tão pura como o leite do mamilo mais doce de antes, agora, tenho-te.

“és meu amor, não és minha mãe”

Primeira Geração Modernista – 1.ª Fase do Modernismo

primeira geração modernista ou primeira fase do modernismo no Brasil é chamada de “fase heroica” e se estende de 1922 até 1930.

Lembre-se que o modernismo foi um movimento artístico, cultural, político e social bem amplo.

No Brasil, ele foi dividido em três fases, onde cada uma apresentava suas singularidades segundo o contexto histórico inserido.

Resumo

Semana de Arte Moderna de 1922 foi, sem dúvida, o marco inicial da estética moderna no Brasil.

Esse evento, ocorrido em São Paulo no Teatro Municipal durante os dias 11 a 18 de fevereiro de 1922, representou uma ruptura com os padrões artísticos tradicionais.

A Semana reuniu apresentações de dança, música, exposições e recitação de poesias. Ela chocou grande parte da população brasileira, por estar avessa ao tradicionalismo vigente, estabelecendo assim, novos paradigmas de arte.

Os artistas envolvidos tinham como principal intuito apresentar uma estética inovadora, pautada nas vanguardas artísticas europeias (cubismo, futurismo, expressionismo, dadaísmo, surrealismo, etc.), iniciadas a partir do final do século XX.

Os artistas modernistas que merecem destaque nessa primeira fase fizeram parte do chamado “Grupo dos Cinco”. Esse grupo esteve composto pelos artistas:

  • Mário de Andrade (1893-1945)
  • Oswald de Andrade (1890-1954)
  • Menotti Del Picchia (1892-1988)
  • Tarsila do Amaral (1886-1973)
  • Anita Malfatti (1889-1964)

Importante lembrar que muitos artistas foram estudar na Europa, sobretudo em Paris (centro irradiador cultural e artístico da época) e trouxeram inovações no campo das artes.

Ainda que estivessem características das vanguardas europeias, o evento buscava apresentar uma arte mais brasileira (brasilidade). Por esse motivo, a primeira fase modernista priorizou temas pautados no nacionalismo, portanto na cultura e na identidade do Brasil.

Uma importante característica desse período de afirmação nacional foi a disseminação de diversos grupos e manifestos. Além disso, a publicação de algumas revistas auxiliaram na divulgação dos ideais modernos.

Dos grupos modernistas destaca-se:

Das Revistas divulgadoras dos ideais modernistas as principais foram: a Revista Klaxon (1922-1923) e a Revista de Antropofagia (1928-1929).

Contexto Histórico

O modernismo foi um movimento artístico e literário que surge em muitos países no final do século XX.

Ele nasce no período denominado entre guerras, posto que a primeira guerra mundial ocorreu de 1914 a 1918 e a segunda de 1939 a 1945.

No Brasil, o período vigente é a primeira fase da República, chamado de República Velha (1889-1930). Esse contexto esteve marcada pelas oligarquias cafeeiras (São Paulo) e as oligarquias do leite (Minas Gerais).

Nesse momento, as oligarquias dominavam a cena política se alternado no poder e impedindo a eleição de indivíduos de outros estados.

Ademais, a queda da bolsa de Nova York, em 1929, resultou numa grande crise mundial refletida nas sociedades de diversos países.

Esse evento foi responsável pelo início da segunda guerra mundial e os governos totalitários que surgiram na Europa: nazismo, fascismo, franquismo e salazarismo.

Saiba mais sobre Modernismo no Brasil: Características e Contexto histórico.

Características

As principias características da primeira geração modernista são:

  • Nacionalismo crítico e ufanista;
  • Valorização do cotidiano;
  • Resgate das raízes culturais brasileiras;
  • Críticas à realidade brasileira;
  • Renovação da linguagem;
  • Oposição ao parnasianismo e ao academicismo;
  • Experimentações estéticas;
  • Renovações artísticas;
  • Ironia, sarcasmo e irreverência;
  • Caráter anárquico e destruidor;
  • Uso de versos livres e brancos.

Principais Autores e Obras

Além do “Grupo dos Cinco” (Mário de AndradeOswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti) outros artistas se destacaram nessa fase:

  • Manuel Bandeira (1886-1968): escritor, professor, crítico de arte e historiador brasileiro. De sua obra poética destacam-se: A Cinza das Horas (1917), Libertinagem (1930) e a Lira dos Cinquent’anos (1940).
  • Graça Aranha (1868-1931): escritor e diplomata brasileiro, sua obra de maior destaque é “Canaã” (1902).
  • Victor Brecheret (1894-1955): escultor ítalo-brasileiro. O “Monumento às Bandeiras” (1953), na cidade de São Paulo é, sem dúvida, sua obra mais importante.
  • Plínio Salgado (1895-1975): escritor, político e jornalista brasileiro e fundador do movimento nacionalista radical denominada “Ação Integralista Brasileira (1932), sua obra mais emblemática do período é “O Estrangeiro”, publicada em 1926.
  • Ronald de Carvalho (1893-1935): poeta e político brasileiro, publicou em 1922 “Epigramas Irônicos e Sentimentais”.
  • Guilherme de Almeida (1890-1969): escritor, jornalista e crítico de cinema brasileiro, publicou em 1922 a obra “Era Uma Vez…”.
  • Sérgio Milliet (1898-1966): escritor, pintor e crítico de arte brasileiro, publicou em 1927 a obra “Poemas Análogos”.
  • Heitor Villa-Lobos (1887-1959): maestro e compositor brasileiro, Villa Lobos é considerado o maior expoente da música moderna no Brasil. De suas composições com traços modernos destaca-se “Amazonas e Uirapuru” (1917).
  • Cassiano Ricardo (1895-1974): escritor e jornalista brasileiro. De sua obra destaca-se o poema indianista e nacionalista, publicado em 1928, “Martim Cererê”.
  • Tácito de Almeida (1889-1940): escritor, jornalista e advogado brasileiro, foi colaborador da Revista Klaxon onde publicou diversos poemas. Em 1987, foi publicado uma seleção de poemas na obra: “Túnel e Poesia Modernista 1922/23”.
  • Di Cavalcanti (1897- 1976): pintor brasileiro, considerado um dos mais importantes representantes da primeira fase modernista. Foi ilustrador da capa do “Catálogo da Semana de Arte Moderna”, destacando-se com sua obra “Pierrot” (1924).
  • Lasar Segall (1891-1957): nascido na Lituânia mudou-se para o Brasil em 1923. Foi pintor e escultor de influência expressionista, sendo suas obras mais representativas: o “Retrato de Mário de Andrade” (1927) e “Auto-retrato” (1933).
  • Alcântara Machado (1901-1935): escritor, jornalista e político brasileiro, destaca-se sua coletânea de contos intitulada “Brás, Bexiga e Barra Funda”, publicada em 1927.
  • Vicente do Rego Monteiro (1899-1970): poeta, pintor e escultor brasileiro, dentre suas obras temos: “Mani Oca (O nascimento de Mani)” (1921) e “A Crucifixão” (1922).

Veja também:10 obras modernistas de Tarsila do Amaral

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Daniela Diana

Daniela DianaLicenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.

Sobre as águas da vida o silêncio dói

X

Ao fundo vai nascendo o dia e eu aqui, sentado na cadeira de médico de dia, a enfermaria repleta e eu vejo o nascer do dia e a cabeça estiolada, memórias que nunca se cansam e saudades a cada instante.

Tiros nem ouvi-los, o silêncio é de bradar onde que noite nem sono, esta insónia de palavras contra as paredes da tenda, um gemido qualquer um soldado ferido, uma injecção qualquer a dor passa e de novo sono

– doutor!

e nem lá, ali presente numa distância de pasmar, sonho um pomar, um oceano, uma felicidade qualquer nesta dor que amargura, dores de cabeça e soldados, ao longe já tiros e metralhadoras operam mais uma acção, o dia chegando cansado também neste cacimbo do longe, tudo longe e nem eu perto, a minha cabeça vadia a minha vontade de partir, isto não é meu por que razão estar aqui?

A formatura pronta e o oficial de dia na praceta, todos formados e camuflados a brilhar

– atenção companhia, pronto!

desfilados como afilhados da sorte e caminharem, os jeeps e hanimogues preparados centenas partem e quantos voltam?, vejo-os de esguelha partirem, sinto um silêncio que me arrepia, uma dor muda nesta alma de estrangeiro, ausente talvez que fazer?, mais tarde um regresso incompleto e tantos colocados em caixas para o regresso inglório, um regresso repleto de dor e mentira, se foi mesmo assim, se nada foi inventado para se contarem histórias,

– heróis nacionais!

lia nos escritos da nação que nos pariu, onde que Salazar sentado num conforto e ordens,

– aqui jaz a memória dos vencedores, defendendo a pátria!

desfilam sozinhos, a vida mora ali ao lado onde uma mata sei lá, uma picada, a floresta cansada brada ventos calmos, as arvores sacodem ventos distraídos e nós sem isso seguimos, o cabo Esperança a meu lado e eu sem esperanças, cansado ainda a manhã surgia, a noite enfadonha inebriava qualquer distância perdida na rua das amarguras da minha saudade. Ainda assim a minha nostalgia nas pétalas distantes das árvores escondidas, o meu silêncio irrequieto nesta enfermaria de nada, este lugar de mágoas e feridas por sarar, ninguém sara saudades, ninguém cura feridas mentais e um soldado aos gritos se picado pelo mosquito tigre, o paludismo e resoquina se a dor sucumbe, a saudade Deolinda é uma coisa preciosa nesta ausência esquecida onde que nome a minha vida, onde que mapa o meu corpo se na tua cama presente murmuro o teu abraço e nada, estás efectivamente longe. Falo das minhas saudades e de que falarão estes soldados que a pátria esqueceu?

Quantos dos tantos que partiram num navio velho para este longe sem nome, esta terra onde nem turras só a imaginação do estado num puder de mandar em tudo isto, é de quem lhes pertence, somos nada nesta terra de donos vivos, aqueles que contra nós disparam bazucas alegando com razão a vitória é nossa.

Sou apenas e isso, um médico de campanha, quantas vezes a minha vida sonha essa verdade e nada, quantas vezes sonho a minha terra e nada, anos a fio a depurar e a mastigar ânsias e raivas, os medos sempre presentes sabendo com noção isto não me pertence, pertenço aos amigos que lutam para que possam dar razão aos que a têm, sou um soldado isolados Deolinda, não nutro esta causa nem este rio a abandonar-me a cada instante, sinto cada vez mais o vazio nascer nas noites onde só insónias, não durma há dias e conto no calendário um regresso que seja, vivo ou morto salva-me desta casa de outros onde nada sinto nem consigo mandar.

Qual doutor coisa nenhuma, sou um soldado como vocês nesta floresta do longe, onde morrer é renascer na consciência dos que ficam, os familiares todos os anos recordam

– aqui jaz fulano tal!

filho da pátria esquecido pela nação que o fez vítima de uma coisa qualquer, desta talvez guerra de ninguém e porquê existir em todos nós, vestidos de bandeira a tiracolo

– representantes da nação que vos pariu!

viajam fantasias pela noite, percorrem os escombros do medo e do mistério a cada canto da floresta, o ruído do jeep cansado e todos cansados, uma ânsia interior por tantos nadas e a marcha continua, tem de ser dizem de lisboa os sábios destas coisas da guerra e agente lá, cumprindo e desempenhando essa vontade. Longe a minha cidade, longe a minha vida, aqui navego escuros e medos, percorro o desconhecido por dentro e por fora numa farda cansada, até ela se cansa qual a verdade nisto tudo?

Sobre as águas da vida o silêncio dói IX

IX

Estava deitado e de olhos abertos observava o escuro vagaroso por entre que saudades, olhava, e tudo o que via era tão parecido com o que imaginava, o escuro cobria todo o horizonte do meu pensamento e o olhar perdia-se num tão lento silêncio das trincheiras. Por momentos pensava em levantar-me da cama e sentar-me tentando ver melhor o pequeno raio de luz que passava pelas frinchas da preciana, assim como tudo de repente me parecia um navio bem longe, estava deitado sim, sobre um soalho pequeno onde que frios me arrepiavam solenemente a pele e a cabeça balouçava sobre a almofada velha que a minha mãe me deixara em pequeno.

As saudades esdrúxulas da minha cidade pintam-se de breu, escorre no horizonte o fluxo verde da sua inesquecível verdade, a verdade da cor que não existe, mas é verdadeira a sua existência onde os corações habitam. Vejo nos sonhos as danças de benfica e no calor a recordação de voltar um dia com os membros completos, recordo camaradas, o Silva, o Esperança, os que estiolados não voltarão como eu se é que ainda me permita a sorte não levar com um balázio nos cornos e ir desta para melhor e regressar como os outros, embrulhados com a bandeira da nossa nação.

– ai Deolinda!

Leio as tuas cartas num vagar tão devorador, a enfermaria a abarrotar de camaradas, febres, dores, cansaço, sargaço e eu onde?, escreve-me Deolinda, em cada carta tua o cheiro da minha cidade, a voz da minha mãe, o meu pai médico no hospital e eu sem ti, escrevo-te seco, nesta selva onde só mato tudo é seco, vomitamos insónias, ladramos tiros e viajamos picadas repletas de tanto nada só mata, onde nada se alcança e ordens a cumprir e nós vamos.

– salva-me Deolinda!

Ao ler algo vindo de ti renasço, parece até que me cresce uma vontade de lutar para voltar a estar na nossa casa, pegar a minha filha ao colo e dizer-lhe,

– o pai voltou são e salvo!

apenas releio, tudo é tão lento menos o barulho dos obuses, sinto os albatrozes na berma deste rio que nos cerca e seca a sede, ouço a telefonia cansada e sem pilhas, recordo e só memórias, a minha cidade não é esta, não, nem pertenço a este lugar, sou um tropa cansado desta guerra!

A cada passo o futuro mais longe, ouço vozes calarem-se a cada dia e a dor é uma permanência nas nossas vidas se vidas, ligo a telefonia tentando recordar mais do presente, esse de que estou ausente nestas matas longínquas da terra que desconheço, a minha mãe velhinha e tu Deolinda, cuida dela por mim, dá-lhe o afecto que não consigo nesta terra longe para liquidar inimigos se inimigos, pensamentos que a pátria criou metendo-nos na cabeça de que eram quem não queríamos e nós nada, sou apenas um soldado a cumprir um castigo destinado pela pátria.

– escreve-me Deolinda.

Ao ler as tuas cartas sinto-me mais perto de ti, sinto-te mais perto de mim, sinto as cores de lisboa neste sangue jorrado em terras que não são minhas, não pertenço a isto, sinto-me sem o direito de matar ou ver morrer,

– manda-me notícias da nossa filha!

sento-me no consultório cansado, farto, ouço gritos de todos os lados, macas espalhadas pelos corredores da tenta de campanha, não medicamentos para a alma que arde de tantas coisas, soldado de trás-os-montes, o Esperança há meses numa cadeira de rodas e o jeep capotado, a mina que explodiu e rebentou-me na cara, chove copiosamente lá fora, trovoadas e raios que fazer?

Tento às vezes, tantas, nestas manhãs curtas descobrir um destino para onde encaminhar o meu sentido despido de tudo e viver de ostras, restos calcados pela vida nómada de quem sabe sentir a dor, das noites claras de um soldado dispersado numa floresta qualquer, numa tenda de campanha já queimada onde que sol brama, tantas vezes acordar sem ter dormido a sentir esta vontade e vejo restos camuflados estripados nos corredores e eu sem saber como curá-los, tantas vezes um ódio de viver, vezes sem conta a morte nas minhas mãos e quem precisava de mim, havia como pensar e em consciência ser racional neste fundo de dor tão profundo!

Escrevo cartas ao fundo do tempo que me resta para recordar, para fazer lembrar que ainda existo embora longe da vida, penso nos meus amigos que há muito não vejo nem sei quantos ainda se recordam de mim, um soldado que partiu para a guerra sem saber para onde nem para quê.

Ainda me recordo dos teus dentes mãe, quando me sorrias e transpiravas suor de amor o meu filho é um herói, o teu sorriso lindo pelos corredores da minha imaginação e tu sozinha hoje, velhinha e sem mim e eu sem ti, foi um destino que a pátria me deu, lutar pelos nossos e quem os nossos numa terra de outros?

Deolinda, a minha cabeça está a segundos de ti, estou a segundos de benfica, da minha rua, dos meus amigos, estou tão perto dessa vontade que só ela me acalenta esta força de continuar vivo, a minha filha sem pai, amo-te Deolinda.

Figuras de Linguagem

Figuras de Linguagem, também chamadas de figuras de estilo, são recursos estilísticos usados para dar maior ênfase à comunicação e torná-la mais bonita.

Dependendo da sua função, elas são classificadas em:

  • Figuras de palavras ou semânticas: estão associadas ao significado das palavras. Exemplos: metáfora, comparação, metonímia, catacrese, sinestesia e perífrase.
  • Figuras de pensamento: trabalham com a combinação de ideias e pensamentos. Exemplos: hipérbole, eufemismo, litote, ironia, personificação, antítese, paradoxo, gradação e apóstrofe.
  • Figuras de sintaxe ou construção: interferem na estrutura gramatical da frase. Exemplos: elipse, zeugma, hipérbato, polissíndeto, assíndeto, anacoluto, pleonasmo, silepse e anáfora.
  • Figuras de som ou harmonia: estão associadas à sonoridade das palavras. Exemplos: aliteração, paronomásia, assonância e onomatopeia.

Figuras de Palavras

Metáfora

metáfora representa uma comparação de palavras com significados diferentes e cujo termo comparativo fica subentendido na frase.

Exemplo: A vida é uma nuvem que voa. (A vida é como uma nuvem que voa.)

Tirinha com exemplo de Figura de palavra Metáfora
Uso da metáfora em “meu amor é uma caravana de rosas vagando num deserto inefável”

Comparação

Chamada de comparação explícita, ao contrário da metáfora, neste caso são utilizados conectivos de comparação (como, assim, tal qual).

Exemplo: Seus olhos são como jabuticabas.

Tirinha com exemplo de Figura de palavra Comparação
Uso da comparação por meio do conectivo “como”: “o amor é como uma flor” e “o amor é como o motor do carro”

Metonímia

metonímia é a transposição de significados considerando parte pelo todo, autor pela obra.

Exemplo: Costumava ler Shakespeare. (Costumava ler as obras de Shakespeare.)

Tirinha com exemplo de Figura de palavra Metonímia
Uso da metonímia que substitui o vocábulo boi por “cabeças de gado”

Catacrese

catacrese representa o emprego impróprio de uma palavra por não existir outra mais específica.

ExemploEmbarcou há pouco no avião.

Embarcar é colocar-se a bordo de um barco, mas como não há um termo específico para o avião, embarcar é o utilizado.

Charge com exemplo de Figura de palavra Catacrese
O uso da expressão “bala perdida” é utilizada por não ter outra mais específica

Sinestesia

sinestesia acontece pela associação de sensações por órgãos de sentidos diferentes.

Exemplo: Com aquele olhos frios, disse que não gostava mais da namorada.

A frieza está associada ao tato e não à visão.

Tirinha com exemplo de Figura de palavra Sinestesia
Na tirinha, a expressão “olhar frio” é um exemplo de sinestesia

Perífrase

perífrase, também chamada de antonomásia, é a substituição de uma ou mais palavras por outra que a identifique.

Exemplo: O rugido do rei das selvas é ouvido a uma distância de 8 quilômetros. (O rugido do leão é ouvido a uma distância de 8 quilômetros.)

Charge com exemplo de figura de palavra Perífrase
Na charge acima, a “Terra da Garoa” substitui “cidade de São Paulo”

Figuras de Pensamento

Hipérbole

hipérbole corresponde ao exagero intencional na expressão.

Exemplo: Quase morri de estudar.

Tirinha com exemplo de Figura de pensamento Hipérbole
A expressão “morrendo de inveja” é uma hipérbole

Eufemismo

eufemismo é utilizado para suavizar o discurso.

Exemplo: Entregou a alma a Deus.

Acima, a frase informa a morte de alguém.

Tirinha com exemplo de Figura de pensamento Eufemismo
Na charge acima, a explicação de fofoqueira é usada para suavizar o discurso

Litote

litote representa uma forma de suavizar uma ideia. Neste sentido, assemelha-se ao eufemismo, bem como é a oposição da hipérbole.

Exemplo: — Não é que sejam más companhias… — disse o filho à mãe.

Pelo discurso, percebemos que apesar de as suas companhias não serem más, também não são boas.

Tirinha com exemplo de Figura de pensamento Litote
No exemplo acima, nota-se o uso do litote por meio da expressão “acho que você deveria aperfeiçoar essa técnica”

Ironia

A ironia é a representação do contrário daquilo que se afirma.

Exemplo: É tão inteligente que não acerta nada.

Imagem de Figura de pensamento Ironia
Nota-se o uso da ironia, uma vez que o personagem está zangado com a pessoa e utilizou o termo “inteligente” de maneira irônica

Veja também:Diferença entre Sarcasmo e Ironia

Personificação

personificação ou prosopopeia é a atribuição de qualidades e sentimentos humanos aos seres irracionais.

ExemploO jardim olhava as crianças sem dizer nada.

Tirinha com exemplo de Figura de pensamento Personificação
A personificação é expressa na última parte do quadrinho onde o Zé Lelé afirma que o espelho está olhando ele. Assim, utilizou-se uma caraterística dos seres vivos (olhar) em um ser inanimado (o espelho).

Antítese

antítese é o uso de termos que têm sentidos opostos.

Exemplo: Toda guerra finaliza por onde devia ter começado: a paz.

Tirinha com exemplo de Figura de pensamento Antítese
Uso da antítese expressa pelos termos que têm sentidos opostos: positivo, negativo; mal, bem; paz e guerra

Paradoxo

paradoxo representa o uso de ideias que têm sentidos opostos, não apenas de termos (tal como no caso da antítese).

ExemploEstou cego de amor e vejo o quanto isso é bom.

Como é possível alguém estar cego e ver?

Tirinha com exemplo de Figura de pensamento Paradoxo
Uso do paradoxo pelas ideias com sentidos opostos realçada pelos termos que explicam a “certeza”: relativa e absoluta

Gradação

gradação é a apresentação de ideias que progridem de forma crescente (clímax) ou decrescente (anticlímax).

Exemplo: Inicialmente calma, depois apenas controlada, até o ponto de total nervosismo.

No exemplo acima, acompanhamos a progressão da tranquilidade até o nervosismo.

Tirinha com exemplo de Figura de pensamento Gradação
Na tirinha, o personagem foi explicando de forma crescente a ideia

Apóstrofe

apóstrofe é a interpelação feita com ênfase.

ExemploÓ céus, é preciso chover mais?

Tirinha com exemplo de Figura de pensamento Apóstrofe
Notamos a ênfase na segunda parte da tirinha com o uso dos pontos de exclamação e interrogação: “Ai meu Deus!!! Ele vai me matar” O que faço!? É o fim!”

Figuras de Sintaxe

Elipse

elipse é a omissão de uma palavra que se identifica de forma fácil.

Exemplo: Tomara você me entenda. (Tomara que você me entenda.)

Tirinha com exemplo de Figura de sintaxe Elipse
Na segunda imagem do quadrinho, notamos o uso da elipse: “depois (ele começou) a comer sanduíches entre as refeições…”

Zeugma

zeugma é a omissão de uma palavra pelo fato de ela já ter sido usada antes.

Exemplo: Fiz a introdução, ele a conclusão. (Fiz a introdução, ele fez a conclusão.)

Tirinha com exemplo de Figura de sintaxe Zeugma
A zeugma é utilizada na segunda e terceira parte dos quadrinhos: “(você é) um descongestionante nasal para o meu nariz”; (você é) um antiácido para meu estômago!”

Hipérbato

hipérbato é a alteração da ordem direta da oração.

Exemplo: São como uns anjos os seus alunos. (Os seus alunos são como uns anjos.)

Charge com exemplo de Figura de sintaxe Hipérbato
A ordem direta do nosso hino é “Das margens plácidas do Ipiranga ouviram um brado retumbante de um povo heroico

Polissíndeto

polissíndeto é o uso repetido de conectivos.

Exemplo: As crianças falavam e cantavam e riam felizes.

Charge com exemplo de Figura de sintaxe Polissíndeto
Uso do polissíndeto pela repetição do conectivo “se for”

Assíndeto

assíndeto representa a omissão de conectivos, sendo o contrário do polissíndeto.

Exemplo: Não sopra o vento; não gemem as vagas; não murmuram os rios.

Poema com exemplo de figura de sintaxe Assíndeto

Veja também:Conectivos

Anacoluto

anacoluto é a mudança repentina na estrutura da frase.

Exemplo: Eu, parece que estou ficando zonzo. (Parece que eu estou ficando zonzo.)

Poema com exemplo de figura de sintaxe Anacoluto

Pleonasmo

Pleonasmo é a repetição da palavra ou da ideia contida nela para intensificar o significado.

ExemploA mim me parece que isso está errado. (Parece-me que isto está errado.)

Tirinha com exemplo de Figura de sintaxe Pleonasmo
No tirinha acima, o “saia para fora” é um pleonasmo, uma vez que o verbo “sair” já significa “para fora”

Silepse

silepse é a concordância com o que se entende e não com o que está implícito. Ela é classificada em: silepse de gênero, de número e de pessoa.

Exemplos:

  • Vivemos na bonita e agitada São Paulo. (silepse de gênero: Vivemos na bonita e agitada cidade de São Paulo.)
  • A maioria dos clientes ficaram insatisfeitas com o produto. (silepse de númeroA maioria dos clientes ficou insatisfeita com o produto.)
  • Todos terminamos os exercícios. (silepse de pessoa: neste caso concordância com nós, em vez de eles: Todos terminaram os exercícios.)
Tirinha com exemplo de Figura de sintaxe Silepse
Uso da silepse de pessoa em “mais da metade da população mundial somos crianças” e “as crianças, vamos ter o mundo nas mãos”

Anáfora

anáfora é a repetição de uma ou mais palavras de forma regular.

ExemploSe você sair, se você ficar, se você quiser esperar. Se você “qualquer coisa”, eu estarei aqui sempre para você.

Tirinha com exemplo de Figura de sintaxe Anáfora
Uso da anáfora pela repetição do termo “falta”

Veja também:Figuras de Sintaxe

Figuras de Som

Aliteração

aliteração é a repetição de sons consonantais.

Exemplo: O rato roeu a roupa do rei de Roma.

Tirinha com exemplo de Figura de som Aliteração
Uso da aliteração em “O rato roeu a roupa do rei de Roma”

Paronomásia

Paronomásia é a repetição de palavras cujos sons são parecidos.

Exemplo: O cavaleiro, muito cavalheiro, conquistou a donzela. (cavaleiro = homem que anda a cavalo, cavalheiro = homem gentil)

Charge com exemplo de Figura de som Paronomásia
Uso da paronomásia por meio dos termos que possuem sons parecidos: “grama” e “grana”

Assonância

assonância é a repetição de sons vocálicos.

Exemplo:

O que o vago e incógnito desejo
de seeu mesmo de meu ser me deu.” (Fernando Pessoa)

Tirinha com exemplo Figura de som Assonância
Na tirinha acima, o uso da assonância é expresso pela repetição das vogais “a” em: “massa”, “salga”, “amassa”

Onomatopeia

Onomatopeia é a inserção de palavras no discurso que imitam sons.

Exemplo: Não aguento o tic-tac desse relógio.

Exemplo de tirinha com Figura de som Onomatopeia
No primeiro e último quadrinho temos o uso da onomatopeia com “Bum, Bum, Bum” e “Buááá…; Buááá…”. O primeiro expressa o som do tambor, e o segundo, o choro do cebolinha
Márcia Fernandes

Márcia FernandesProfessora, pesquisadora, produtora e gestora de conteúdos on-line. Licenciada em Letras pela Universidade Católica de Santos.

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