Antes de nascer

Antes de nascer tinha feito um pedido profundo e sentido não sei bem a quem, mas falei sozinho, alto, talvez alguém me ouvisse.

Queria ter mãe.

Tinha ouvido de tantos lados coisas horríveis de filhos sem mãe e mulheres que apenas produziam filhos e pronto, mas, como não sabia ler, ficava-me pelo que ouvia e hoje fico a saber que nem sempre do que se ouve vem verdade, é horrível inventar por inventar, mas porque fazem disto estes que apenas crescem ou nascem para inventar o mal?

Antes de nascer, havia feito um pedido a Deus:

que me dês uma mãe que me ame, que não me abandone e que me dê nome, coisa assim sei lá, daquelas que abraçam os filhos ao anoitecer e os fazem acordar pela manhã,

“acorda amor, aulas às oito!”

e assim se foi passando até que um dia enfim nasci, não vinha lá com muita vontade, pois, o que ouvia era tão ruim que temia mesmo nascer para nunca ter mãe, e o medo crescia em mim como o vento que me enfiaram no ventre da mãe para eu nascer, é que estava difícil nascer, verdade, tantas as coisas que ouvia que me atenoravam e assim nem nascer queria, mas, coisas do destino e com isso a gente não pode brincar, a hora lá chegou.

Fui sugado daquele lugar onde estava tão bem e feliz, é que lá nem precisava de chorar para comer ou beber, tudo acontecia porque estava no corpo de quem à partida eu pensava ser o amor da minha vida.

A minha mãe.

Nasci. Cresci. E agora, aqui estou, distante de tudo e de todos e indo como se nada acontecesse, pois, já nasci e aqui estou, mas antes, pedia tantas vezes:

Quero ter mãe, pode ser destino?

Como surgiu o movimento existencialista

Nas primeiras décadas do século XX, o mundo estava em crise. A filosofia também. O mundo vivia a esperança de um mundo mais livre e mais justo, porém a descrença política e a idéia de história como progresso abalava a possibilidade da liberdade. As guerras, a revolução sexual, o anseio de liberdade dos povos oprimidos. Essa força desses fatos históricos foi muito mobilizada.

A filosofia passa a incorporar as discussões sociais, éticas e existenciais desse período. A falta de crença, não fazendo Deus como presença, o homem contemporâneo sente toda solidão, percebe que constrói seu próprio destino, isto o angustia. Vivencia sentimentos de vazio e desamparo, e parte em busca do sentido da Existência; o que marcaria profundamente o movimento Existencialista.

O Existencialismo surge como uma tomada de posição de alguns pensadores (filósofos europeus) frente ao cientificismo que se desenvolvia na época. Mas é claro que não se trata de negar a importância da Ciência e nem se opor à metodologia científica. A oposição justamente como o próprio movimento diz é discutir a existência do homem nas relações que ele estabelece no mundo, bem como o modo como a Ciência se fundamenta para conhecer este Homem.

A aplicabilidade dos procedimentos científicos utilizados nas ciências naturais reprimem o homem a mesma categoria de outros seres vivos, como animais e plantas. Uma vez que ao estudá-los ou através da observação, classificação e generalização estariam avaliando o homem também dessa maneira.

Nessa mesma época a área da Psicologia se importava com o modo de ser do homem, agregado a duas correntes:

A Psicanálise

O Behaviorismo

A primeira se dispunha conhecer o homem valorizando o subjetivismo da mente (a psiquê) o inconsciente, os conceitos abstratos, a memória, a inteligência e a percepção. O corpo do homem era coisa à parte.

A segunda se dispunha a conhecer o homem balorizando o racionalismo através das relações causais entre S – R que se declaravam através dos comportamentos frente ao mundo externo e real. No meio de toda essa crise surge o movimento Existencialista que acredita que o homem não deve ser observado, destrinchado, revisado como um objeto qualquer na cadeia dos seres vivos.

Este movimento acredita que o homem, por possuir uma natureza singular, particular, intransferível e tão diferente dos outros seres vivos, deve ser abordado, avaliado e conhecido através de outros métodos (entendido aqui esta palavra, do antigo grego META-ÓDOS que significa, o caminho que conduz para ver o que simplesmente se mostra, considerando sua experiência vivida).

O que o Existencialismo contempla, no âmbito das Ciências Humanas.

O Existencialismo propõe então para as Ciências Humanas encontrar outros postulados para conhecer o homem, considerando o seu contexto histórico a má realidade e as circunstâncias que o movem para viver no mundo com os “outros” e a relação que ele fez a partir do seu vivido.

A proposta desse movimento é de fazer uma reflexão de quais seriam as características essenciais do ser humano, para a partir daí, estabelecer procedimentos metodológicos que alcancem a compreensão da sua experiência vivida, questionando sobre o seu existir concreto no mundo e na sua cotidianidade.

Assim, o Existencialismo declara a importância de se levar em conta outros aspectos da constituição do homem, além daqueles considerados pela Ciência e pelos profissionais da Educação e da Saúde.

O que devemos considerar em sua contribuição na Psicologia e nas áreas afins.

O homem não é um ser apenas dotado de racionalidade, de inteligência e de sensação.

Ele não é só dotado de realizar associação e de organizar o que se relaciona com o seu meio, ou seja, ele não é pura racionalidade.

Ele também não é pura subjetividade, onde não conhece o seu vivido, não basta ter um aparelho psíquico, desconectado do corpo, que é mais que um organismo.

O homem tem uma experiência vivida, da qual só ele é autor desta realidade, ele constrói os sentidos da sua vida.

O homem é transcendência, na medida que tem história, que não é linear e nem acabada, mas é construída em forma de espiral, pois lembra, associa a partir do seu vivido. Ele é capaz de viver um tempo que transcende o cronos, ele é Kairós.

O homem é percepção totalizante, seu corpo, sua mente, sua alma formam uma unidade indivisível, ele não é uma cômoda cheia de gavetas desconectadas, muito menos é ignorante por não conhecer a chave de seus segredos; ele apenas repousa suas experiências sofridas como um modo de sobreviver ao sofrimento, ao esvaziamento; preservando-as num suposto esquecimento.

O homem percebe, julga, sente, valora, tem hábitos, formas de dizer, e manifestações desse dizer que não são atos do momento, mas são expressões latentes que circulam o seu passado que já foi; e um estar por vir.

A Ciência Natural do modo que é constituída, departamentaliza o homem e não alcança o seu vivido.

O homem é o único ser que vivencia a sua história, e tem liberdade de mudá-la desde que banque as faturas da vida.

A vivência é a base fundamental na construção do conhecimento do homem; pois o homem está sempre em relação com os outros; e não somente a sua consciência. O homem não tem corpo, ele é um corpo que abarca seu mundo e suas significações.

O homem age, pensa, julga pela intencionalidade; ele visa o seu vivido.

O homem é homem porque é existente, porque é capaz de vivenciar, experienciar e transformar seus próprios sentidos de vida.

A Psicologia Existencial aparece então como a terceira tendência; como uma tendência integradora que propõe olhar para o homem totalizante e não dividido, indicando uma nova concepção de homem e mundo; diferente da concepção adotada pela Filosofia Moderna, pela Psicologia Científica, pela Psiquiatria Tradicional e pela Psicanálise.

Assim o movimento existencialista, surge como um modo de recolocar o homem em sua morada original, a sua Existencialidade, questionando até que ponto os sistemas teóricos que se propõem a compreender o homem nas relações que ele estabelece no mundo, seguem modelos de causa e efeito, onde tendem a explicar, a generalizar, a classificar, a rotular, desconsiderando o modo Constitutivo do homem de experienciar o vivido.

Como a experiência vivida é particular, pessoal e intransferível, não cabe encaixar o homem em sistemas teóricos que se propõem a vê-lo a partir de uma lista de sintomas e comportamentos, quantificações, e mensuração para conhecê-lo e compreendê-lo.

O conhecer não é mensurado, nem tanto quantificado; o vivido é descrito pelo cotidiano, é relacionado com o contexto de experiência navegando nos tempos do passado, do presente e do futuro que está por vir.

Desse modo, o movimento Existencialista se propõe a priori, questionar as verdades absolutas e paradigmáticas com respeito ao “conhecer do homem”, questionando. O que de fato constitui o ser do homem? É possível mensurá-lo como um animal? Como cobaia ambulante? Ou um aparelho psíquico desprovido do contexto da Corporeidade, e da multiplicidade de sentidos existenciais?

O Existencialismo se propõe a refletir em que bases sustentam o conhecer do homem, considerando sua experiência nas várias manifestações de expressar a sua existência. O ser é um ser de possibilidades.

A matriz do conhecimento do homem, é a percepção, os órgãos dos sentidos se correlacionam; o corpo não é mero organismo, é existencial, o corpo é considerado como resenha do espaço do tempo, do mundo vivido com os outros; ele é unificador e é vivido unificado. O corpo é a possibilidade que temos para nos conectarmos com os outros e com o mundo. Neste sentido diz-se que as coisas “se pensam” em cada ser, porque não é um pensar intelectual, mas sim um pensar pré-emocional que abarca uma logicidade, ele é a síntese dos sentidos existenciais que vivo e não o que penso.

O que isto quer dizer? Que os pensadores (filósofos da época) convocaram a Psicologia e as Ciências Humanas, a repensar tudo de novo, em dois pontos fundamentais:

Refletir sobre o que constitui o homem. O que ele é? E como ele funciona?

Articular e pensar numa ciência cujo método possa contemplar a existência do homem na sua cotidianidade.

Os dois pontos convergem em um único.

Como é este ser – o homem – em sua estrutura ontológica? Qual ou quais são os procedimentos que contemplam o existir e os sentidos desse existir? Como ter acesso a este ser, tão diferenciado de outros seres vivos?

Refletir sobre o ser do homem, discutir e estabelecer uma visão de homem e de mundo, foi a grande contribuição do método fenomenológico existencial, que se propõe assentar-se nos fundamentos da filosofia enquanto um caminho rigoroso, pois escolhe pensar e alinhavar o Modo Constitutivo do homem, para desconsiderar a sua experiência vivida, seu contexto histórico cultural e social.

A Fenomenologia considera que o homem e todos os outros entes (coisas, seres vivos) são uma unidade inseparável, pois só o homem é capaz de existir dando significado, manifestando e expressando sua linguagem nas várias formas desse dizer, ele expressa a roupa dos dois lados, o direito e o avesso das relações que ele atribui na vida.

Assim sendo, compreender o Existencialismo se faz necessário compreendê-lo como um conjunto de todos os sistemas filosóficos que se ocupam “por em questão a existência humana”, buscando analisar o viver concreto do homem aprofundando-se na análise da sua própria existência, revelando a sua estrutura constitutiva.

O homem é presença, que está em relação com; ele é o único doador de sentido, atribuindo significados consigo e com os outros.

Compreender o ser do homem, passa a ser uma tarefa hermenêutica.

O homem está sempre frente a alternativas diante das quais deve fazer escolhas. A escolha traz inquietações, a angústia se faz presente porque o homem sabe que não pode tomar duas direções. Diante das alternativas da vida, ele deverá eleger uma, e essa eleição comprometerá o seu destino para assumir todos os seus entrelaçamentos e desdobramentos frente ao seu projeto existencial.

Profª Ms. Danuta D. Pokladek – Presidente do PsicoEthos

Sobre as águas da vida o silêncio dói Cap. XV

XV

Nem talvez o cigarro entre os dedos cansados suporte a viagem, sinto o cabelo nas brasas do vento e que voz entre nós a deflagrar a verdade que verdade meu Deus, fumo um canto evaporado e talvez cansado, um fumo nefrálgico a dissipar-se pela janela do jeep antigo onde que soldados a fumarem comigo,

– o nosso destino hoje meu capitão?

vozes nem vozes lá, só silêncio entre calados sem diálogo, espera-nos de novo uma missão, seguimos de farda armados em agentes da paz. A floresta ladeia-nos e nós a caminhar, onde que radar o rádio anuncia qual código de informação a gente perde-se nas trincheiras onde que vazios e o cacimbo frio, a cabeça fora disto tudo e o corpo dorido o paludismo, hospital de campanha onde curar camaradas, injectar fecundos momentos para não haver mais recordação, penso e dispenso os meus sonhos, a minha vida é este enclausurado caminho numa rotina cansativa. Já nem sei onde o cansaço, tudo é dor e trauma, uma voz que me acalme estou cansado de ouvir os mesmos rugidos repetidamente, esta falésia a perder-se de um horizonte vazio e nós nada, todos embrulhados na mesma resma de camuflados inteligentes a deflagrar o infortúnio. Cansado de facto.

O caminho afoito desafia-nos como seguir e a gente segue, somos náufragos neste labirinto a tilintar águas na falésia desta serra morta, este arvoredo massacrado com tantos ais a eclodirem as madrugadas derretidas num canto qualquer da vida, a vida assim perde-se, nada se ganha, tudo é fardo e miséria, sinto cães a ladrarem atrás de nós e nós caminhando como se nada fosse, acredito que tem de ser assim. Gente dispersa pela tarde, vejo-os indiferentes olhando-nos, pensarão eles quem somos nós mas acodem-nos, a lama ou a ponte inventada, o medo ou segredo para contar um dia qualquer, a morte ali. Camaradas destripados e amputados, amigos que deliram onde que febre os enerva a cabeça estala,

– doutor!

a minha alma viaja também, sinto-me tantas vezes perdido neste meio por desvendar, o escuro ensurdece e a gente perde a noção do destino e que destino, fugir da morte é o nosso lema, não matar, a morte é horrível, é uma coisa feia de mais para nos assombrar-mos nela, velórios e óbitos a cansarem-nos a saudade, de jovens que nem se despedem dos seus ente-queridos a esta distância incomoda, isto são nervos que se acumulam e cansam, um dia fartar-me-ei e sucumbirei também.

Acordo de frente à mata que rodeia o nosso acampamento e nada, pela madrugada giestas apenas e ventos frios, o capim sacudido embala uma ânsia vazia, sinto um vazio no estômago que sufraga fome e nem fome, o vermelho das picadas e nem vista, a metralhadora em punho e onde os turras?, um acampamento e mulheres de seios à vista saúdam-me, aceno feliz sentindo-me gente neste meio onde tantas vezes a minha razão me abandona, cães por essas aldeias todas a seguirem-nos o jeep e a gente a continuar num ritmo infernal e nem sei se a caminhar, parei por dentro. Adormeci o silêncio, a voz, escuto,

– a bússola?

improvisar uma ponte, para seguir e nem chuva a sorte, tacos de madeira, catanadas em árvores ali estanques, dois troncos e pontaria seguimos, a aldeia a saudar-nos como se fossemos heróis, mas somos apenas soldados a cumprir uma missão, choramos a cada saída para campanhas onde quantos ficam sem regressar, quantos camaradas perdi, sabes?, ninguém sabe, a noite empobrece a visibilidade e que fazer?, recuperar, parar e procurar onde que lanternas a mirarem uma direcção apontada. Sinto na cabeça o frio de lisboa e longe lisboa, a neve de trás-os-montes do Esperança onde a matança do porco e que porco nós aqui, aqui só saudades, tristeza, lágrimas, esta comissão miserável onde obrigados matamos, a morte é horrível!, por que razão matar um irmão para não morrer?, incutiram-nos na cabeça que os turras são horríveis mas onde os horríveis?, seremos talvez nós os horríveis, viemos para uma missão onde tirá-los do nosso campo de acção era ordem, afugentá-los da vida e esta vida é nossa não deles mas eles quem?, procuro entender e que conclusão chegar?

Ao fundo fogueiras, rituais e cânticos, ao fundo a felicidade possível dos daqui e nós ansiosos por sermos daqui também, amigos como homens sabes?, salvo feridos e não raças, odeio ouvir falar de terroristas quando a ser seremos nós, sou um soldado cansado desta vida e desertar é um auspício, a minha pátria enumera-me apenas e não me considera, pedem-me orelhas cortadas como prova da nossa acção!

Ainda assim sonho uma pátria um dia e quem sabe a minha, a de tantos como eu nesta comissão triste de eliminar a razão que se convenciona, não, não nasci para isto, juro, nasci para médico num hospital qualquer salvar e curar, quero um dia lisboa de novo mesmo que para nada ou ninguém, sou apenas branco na pele e gente por dentro, sinto como dói o insulto e na caserna de novo,

– ai doutor!

a vida escorre sobre macas e macas vazias de essência, estou cansado e tu Deolinda, cansada da solidão que a pátria me incute, a minha filha sem pai, sei, que fazer?

Como que se me apetecesse inventar

Fui cásparo, indígena. Fui fim do mundo e mais, rato nas formigueiras a beber o salitre seco dos silêncios, dormi no chão dos infinitos e de tantos outros nadas, tantos foram as enzimas sobre a cabeça e o resto de mortais que não cabiam para mim.

Fui catarato num beco ao fim da esquina onde só refugiados das falésias e monstros enfadados de sacerdotes fardados em bem fazer e consumido pelo vento vermo dos tudos, refinei a minha insânia passada para ultrapassar a barreira que a tarde sempre ali colocava, bastava pensar ou imaginar que pudesse eu um dia ali querer passar. Fui, enfim, todos os ruídos para o teu sossego.

E quem será então esse tu?

Se ao menos pudesse dizer que foi algo que me apeteceu inventar, despertaria olongos como as fraldas da minha filha enjauladas no estrepo intestinal da vida, glotizar de fezes este sonho será talvez pensar para acordar e a vida é isto, um encharcado repleto de ondas forasteiras na sala dos sossegos desarrumados dos que anseiam vida mesmo que na morte se sintam instigados para dela sair, sim, estive lá sei lá quantas vezes e emergi como um disfarce para uns quantos nadas numa fornalha de lenços molhados, as lágrimas sempre presentes ensinaram o significado delas, por isso, tantas vezes ouvia de bem longe, sei lá de onde nem imagino sequer, mesmo de rastos amigo, corre!

A casa é um lugar vazio, vozes e nada mais são o silêncio irritante contra as paredes que escurecem o labirinto como que de um refúgio, este abrigo sentado para conversas calados com o tempo e visitar memórias escritas em todos os lados do corpo. As palavras são assim o recôndito na alma que apenas flutua a sua solidão repleta de todas as felicidades que delas nos alimentamos, bebemos nelas todas as naturezas e nem os escuros nos infernizam como o sapo do prédio ao lado ou grilo repetitivo no andar de baixo mas aqui, é tudo uma sucumbência inebriada com os beijos adocicados pelas cabeças que ao longe me fazem chegar onde quiser sem que precise sequer de sair desta canto que me ilumina enquanto escrevo diásporas nesta vertigem criada para mim, talvez eu própria a tenha assim criado, coisas que às vezes e são tantas, me apetece alimentar. Ao som de qualquer melodia sem voz, irrita-me ouvir palavras disformes a confundirem-me, a melodia eloquente é a água quente para um duche de sabores e limão misturado, sorver o odor do sabão escorrer-me as têmporas e sucumbir depois na água levada, sim, hoje, e talvez como sempre tem sido, apetece-me escutar a minha sanidade para que me entenda cada vez mais. Adoro o grito das ondas de todos os mares que conheço e desconheço.

Sobre as águas da vida o silêncio dói

XIV

Ainda o ruído nesta calma aparente, a voz que me chama todos os dias e eu nesta caserna sem sono e que insónias, o pensamento em viagens permanentes como se de um goivo se tratasse, os albatrozes sobre as águas escorreitas deste rio imaginado sento-me na cama que me recebe, a voz de Deolinda ainda nas minhas visões, as cartas ainda por ler e tantas lidas,

– Santa Paola nos teus braços!

– o pai está a chegar!

chegando garantidamente, um dia o navio que nos trouxe irá devolver-nos ao mesmo cais de onde partimos há que tempos, recordo ainda os quantos eramos e não sei quantos regressaremos, partilhar as mesmas emoções de quando deixávamos lisboa, alcântara, cais do Sodré, a minha mãe estiolada e esmerada,

– fica com Deus meu filho!

o meu pai num consultório,

– o meu herói vai defender a pátria!

sentado onde que pacientes à sua frente receitas para que gripe, eu no início da ida para o desconhecido a não ser o velho mapa do mundo, província portuguesa de angola, vamos defender o nosso ultramar além-mar partindo no ainda novo Dom Afonso Henriques.

Esta comissão de lágrimas, este desejo, um dia quem serei depois da missão cumprida, não me sinto capaz garanto, não nasci para isto e como rejeitar, como dizer não onde que ditadura a ofuscar-me essa obrigação, qual sim ou não o império pertence-nos, não a mim, sou filho de lisboa e onde os meus irmãos?

Sigo com camaradas, sigo sem rumo, sinto um frio sei lá, uma dor escondida nos escombros desta cabeça a desfazer-se a cada légua. Os meus irmãos na faculdade um dia a sua chamada ao cumprimento da pátria, a minha irmã no curso de direito um dia a minha defensora e eu neste mar de espuma a embrenhar-me de memórias, a minha mãe na cozinha a esta hora cozinha silêncios, o almoço à família rejubila a mesa posta e eu longe ainda se em que mar a navegar para um regresso que nunca mais chega. Estou cansado pá, farto desta lamechice de herói descansando mágoas, na ferrugem do navio velho e cansado de quantos militares já transportou, o meu quarto ainda sem mim, a minha sala, a minha vida e eu aqui, onde, pergunto tantas vezes sem resposta, o nada não diz nada e tudo floresce ao desbarato, estou cansado de ser nada nestas matas onde estou ainda com as memórias vivas.

Longe e perto o mar fervilha em ondas de solidão, o escuro aparece e nós a jogar às cartas, uma felicidade para quem quer esquecer-se de que dilúvios, estou cansado pá, o meu jogo preferido é o xadrez e a vida joga-se em cada esquina, a noite decorre e desliza sobre nós como uma fantasia contada em criança.

Vejo gaivotas serenas, voos perspicazes sobre as ondas bravas deste mar salgado, a bandeira oscila sob que ventos no convés, o branco que brilha no pelo e elas sozinhas num grupo e nós sozinhos num grupo de recordações, a minha existe ainda? Para trás a ainda baloiçava sobre a mata cânticos de glória, balas disparadas onde que ruídos espantam, o medo não era a mata, nem os tiros perdidos porque arma disparados, o medo era o desconhecido por que caminhos andávamos. Plantações de café indetermináveis e nos sorvendo maduros o doce do café, a memória não dorme, acredita, acredito também nas tuas saudades destes discursos onde cartas respondidas e desabafos funestos, um cobarde chora e eu chorei sem em ti sentir como tal, fugi não por ser cobarde, o medo assusta, a mata fervilha e as copas de árvores lindas atravessam a estrada de lado a lado e macacos pendurados saúdam a nossa passagem.

Chuvas e lama, o jeep grita sem desistir e nós sem o sentir, a gente sabe que tudo isto é nada um dia, um dia calabouços nas estepes da nação sozinhos e entregues ao nosso destino, um dia em enfermarias psiquiátricas curar do sargaço desta aventura de guerra a que a pátria nos obriga, estou cansado pá, tudo isto é nada à noite depois de um sono bem-vindo, e volta ao mesmo pela madrugada, tudo será recordação, arquivos escondidos num peito derrotado por viagens vazias nas selvas deste lugar tão lindo, um verde-seco a cobrir-nos intenções, incursões pela savana onde que deserto plantas do deserto cansadas,  Welwitschias sóbrias descansam o seco do deserto,o norte de Angola amor, o negaje, o songo, o quitexe, o meu aposento é carmona farta de mim, o Telesfro Afonso português vencedor do rally do Uíge, eu a apreciá-los numa varanda qualquer o meu pai sentado a meu lado, lisboa longe e o meu pai a meu lado, o Telesfro trata dos cafés depois das corridas de rally durante a semana, carros preparados e lindos iluminam a cidade e madrugada e a gente lá, vê-los como heróis chegarem depois de tantas horas e desporto lá, onde nós soldados cansados e sentados na varanda do quartel a observá-los.

Personificação

personificação, também chamada de prosopopeia ou animismo, é uma figura de linguagem, mais precisamente, uma figura de pensamento muito utilizada nos textos literários.

Ela está diretamente relacionada com o significado (campo semântico) das palavras e corresponde ao efeito de “personificar”, ou seja, dar vida aos seres inanimados.

A personificação é utilizada para atribuir sensações, sentimentos, comportamentos, características e/ou qualidades essencialmente humanas (seres animados) aos objetos inanimados ou seres irracionais, por exemplo:

O dia acordou feliz.

Segundo o exemplo, a característica de “acordar feliz” é uma característica humana, que, nesse caso, está atribuída ao dia (substantivo inanimado).

Note que a personificação pode também atribuir qualidades de seres animados a outros seres animados, por exemplo:

A cachorro sorriu para o dono.

Exemplos de Personificação

Segue abaixo alguns exemplos em que a personificação é empregada:

  1. dia acordou feliz e o sol sorria para mim.
  2. vento assobiava esta manhã em que o céu chorava.
  3. Naquela noite, a lua beijava o céu.
  4. Após a erupção do vulcão, o fogo dançava por entre as casas.

Nos exemplos acima, nota-se a utilização da personificação, na medida em que características de seres animados (que possuem alma, vida) são atribuídas aos seres inanimados (sem vida).

Note que os verbos ligados os substantivos inanimados (dia, sol, vento, fogo e lua) são características dos seres humanos: acordar, sorrir, assobiar, chorar e beijar.

Figuras de Linguagem

As figuras de linguagem são recursos estilísticos muito utilizadas nos textos literários, de modo que o enunciador (emissor, autor) pretende dar mais ênfase ao seu discurso.

Assim, ele emprega as palavras no sentido conotativo, ou seja, no sentido figurado, em detrimento do sentido real atribuído à palavra, o sentido denotativo.

As figuras de linguagem são classificadas em:

  • Figuras de Palavras: metáfora, metonímia, comparação, catacrese, sinestesia e antonomásia.
  • Figuras de Pensamento: ironia, antítese, paradoxo, eufemismo, litote, hipérbole, gradação, personificação e apóstrofe.
  • Figuras de Sintaxe: elipse, zeugma, silepse, assíndeto, polissíndeto, anáfora, pleonasmo, anacoluto e hipérbato.
  • Figuras de Som: aliteração, assonância, onomatopeia e paranomásia.

Veja também:Conotação e Denotação

Curiosidade

A palavra personificação, derivada do verbo personificar, possui origem latina. Ela é formada pelos termos “persona” (pessoa, face, máscara) e o sufixo “–ção“, que denota ação. Ou seja, significa, ao pé da letra, uma “pessoa mascarada”.

Da mesma maneira, a palavra prosopopeia, derivada do grego, é formada pelos termos “prosopon” (pessoa, face, máscara) e “poeio” (finjo). Ou seja, ela significa “pessoa que finge”.

Daniela Diana

Daniela DianaLicenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.

Viver no tempo errado

Um zunido de nada, essa onomatopeia num canto qualquer e contigo sou cerro. Imito-me talvez ao sonhar-te, este errante dispersar de cânticos, diziam os passarinhos da jaula mais longínqua do sol.

(imito a tua sana sanção acredita. De que me serve?)

Sento-me nesta sala dos comuns e observo as dicotomias do destino num descorrente deixa ir, vivo-me nos nadas que determinam o nome do meu nome na tua sala de sapiências. Os ermos são alteridades incontidas para nada mais que apenas um discurso difuso de somas matemáticas inventadas para afundar a dísfase.

“quando isso de tempo errado?”

Esse amuo escrito na caserna sei lá, que irritante cantares-te assim, pretendo um descanso sei lá, uma dor forasteira na casa do lado onde moraria sem ti, o vizinho estranho das serenatas onde a sinfonia era antiga e farto dela estarias caso a ouvisses, é o meu descanso nos vernantes encontros do tempo, esse vadio ir nos pasmos do saliente e do consciente, o que nada desdenha nem brema ou bruma como discursos de disfarces e fantasias com bola, dizem, quem sabe sabedores do virtual verdadeiro dos sentimentos mas não, somos possuídos, creio, acreditaria se visse, mas sinto como sinto, nada valem, a sério, são apenas deslumbres da alteridade dos claustros que desdenham o salubre das praias mais arraiadas do meu distante quintal, esse tal que possuo apenas no pensamento e o que valerá ele?

Derreterem-se as paredes na maresia ou das castas de mares salgados que a engolem como plasticina em telas para recriar o nada num outro nenhum qualquer, e assim, desnudar de vestes palacianas os heróis quebrados nas montras de mastros antigos quando ainda navios socorriam distâncias.

“viver no tempo errado”

Como zunidos talvez, calem-se profectas de vindouros itens, os que escreverão o resto num vazio apenas e só para quem as conseguir um dia ler, decifrar, sem que seja necessário descodificar, escrevo-te num vago e disperso desassossego como quem corre atrás da saudade.

“imito ainda a tua sana sanção, esse ditongo de verbos palavreados para que sejam um dia provérbios!”

Preciso de cerejas para que descanse a minha cabeça de sargaços, dizem ser de medronho este estrondo de ter de me convencer, ingere as cerejas para que nunca te esqueças de que afinal vivi uma vez que tenha sido, aqui, nesta praça que todos apenas desconhecem.

Sobre as águas da vida o silêncio dói Cap. XIII

XIII

Os olhos ainda abertos defecando a ilusão do tempo, as lezírias cantavam hinos sobre os alpendres de janelas da minha cidade, os santos populares desfilavam partilhados rua a baixo, onde são joão, São Pedro, e todos os outros acoplados na mística dos sonhos e sardinhas a acompanharem a tradição, uma carcaça aberta para receber a sardinha do dia, o bom vinho da noite na viagem para dentro de que corpo, estou longe amor, fá-lo por mim e em meu nome bebe desse sargaço doce, sem esmorecer sente como te sinto ainda que longe esse delírio perto, vivo a mesma instância no momento da tua felicidade acoplada à minha ausência sem estar longe de facto estando.

O azedume, aqui sinto o teu sorriso, a alegoria dos cânticos nesses santos populares onde a cidade a arder felicidade, não estou só amor, visito matas e desenhos de que mapas onde atacar, o general desmembra o nosso sossego nesta caserna simples de que oficiais, somos apenas milicianos cansados e fartos, lá fora soldados como nós festejam como nós os santos populares dessa lisboa de alguns e nós aqui, a caserna enferma sei lá onde estou?, áfrica alojou-me como se sua fosse também e sinto-me nela como um irmão de paz, bebo o cacimbo e a quissângua, vivo o ritmo do merengue onde os fados são coisa do longe, vivo o verde deste prado vendido à farda que enxergo num corpo sem calma para tanto, sou um soldado da pátria, cansado, sabes?, bem assada como mandam as regras, o molho escorreito sobre que fatia a abençoar fraterna, como fumo do instante comer o momento um dia não são dias, a minha filha contigo nessa fila de gente feliz.

Talvez o calor aí aperte, aqui conforta, cansa, um sol imenso onde fardas transpiradas defendem quem nos manda, eu de bata branca e capuz azul opero e curo, o estetoscópio na lapela desta carta que te envio sem rumos ou resumos, digo apenas o instante que a vida me obriga a naufragar como um marinheiro neste solo verde seco de florestas cansadas de mim. Também me canso de sonhos prometidos, de viagens perdidas em cada uma das incursões que fazemos e onde os turras?, não sei se seremos nós aquilo que procuramos, visitamos campos de outros creio e nada é frutífero,

– boa noite, somos amigos!

de farda à lapela quem são?, perguntam-me e que dizer digo soltando felicidade,

– uma galinha assada amiga, tem?

somos amigos de paz, não somos guerreiros ou guerrilheiros de nada, não estamos contra nada ou ninguém apenas cumprindo uma missão de que obedecemos, somos amigos da nação que nos recebe!

Um acampamento de gente singular ao redor da nossa viagem, onde nos receberam com palmas e boas-vindas, o fogo aceso para uma refeição de gente humilde e hospitaleira, gritavam,

– queremos a vossa visita irmãos!

somos de facto irmãos, a nossa missão em áfrica não é desmobilizar pessoas, mas defender pessoas, agregar grupos de gente aos nossos auspícios de guerreiros e defensores de uma pátria párida, gestante, valorizando o espírito da nossa missão. Temos de ser guerreiros na vida, não guerra propriamente dita, defendemos a paz e a nossa é uma comissão de honras aos que encontramos nas suas casas, lavoura, café, fazendas, viemos numa comissão de lágrimas, largados num cais qualquer para não sei quê, apregoar os bons costumes, o hábito pelo cumprimento logo pela manhã onde que caserna ou tenda de campanha, soldados apenas nesta comissão, repito, de paz.

Não fosse a nossa missão, apreciaria tudo de forma diferente, isto é lindo, o sol nasce cedo e acompanha-nos nas campanhas, nas incursões de missão diária que temos como militares, somos soldados amor, e a quem dizer não se viemos para essa missão, incutiram-nos essa obrigação mas depois tanto muda no campo de batalha, não há batalha nenhuma mas tudo é duro, o jeep velho e enferrujado com o seu ruído de diesel caminha onde nós o levamos, o cabo Esperança motorista do exército português caminha solitário e nós a seu lado, uma mina de ferro estilhaça a vontade e nós lá, e que soldados desaparecidos eu na tenda a conjuntar ossos partidos e peles queimadas, tu sem mim e eu igual a ti, mas não sozinho, coso e curo camaradas desse ou deste Portugal lindo onde que Salazar a infernizar-nos a vontade, queira Deus definhe, queira o destino o seu fim. Mas para onde uma guerra sem quem queira o seu desígnio?

À noite um sono cansado, as pernas pesadas, insónias infinitas e medicamentos mais para acalmar e sacar esta ânsia. Um dia de novo lisboa.

A liberdade na filosofia existencial

O existencialismo surgiu numa Europa dilacerada por interesses antagônicos, onde o homem se sentia ameaçado em sua individualidade e em sua realidade concreta. Daí sua ênfase na solidão do indivíduo, na impossibilidade de encontrar a verdade por meio de uma decisão intelectual e no caráter irremediavelmente pessoal e subjetivo da vida humana. Denomina-se existencialismo uma série de doutrinas filosóficas que, mesmo diferindo radicalmente em muitos pontos, coincidem na idéia de que é a existência do ser humano, como ser livre, que define sua essência, e não a essência ou natureza humana que determina sua existência.

Existencialismo na filosofia
  Embora represente uma corrente específica do pensamento moderno, o existencialismo não deixa de ser uma tendência que se faz sentir ao longo de toda a história da filosofia. Assim sucede, por exemplo, com o imperativo socrático “conhece-te a ti mesmo”; com a angustiada exclamação de Pascal, situando o homem entre o ser e o nada; ou com a formulação do idealista alemão Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling, segundo o qual a existência humana não pode ser reduzida à razão. Se Hegel abraça o conceito da necessidade incoercível, afirmando que a liberdade é a consciência da necessidade, o dinamarquês Søren Kierkegaard, profundamente religioso e considerado o pai do existencialismo, interpreta a existência em termos de possibilidade. A existência humana é, para todas as formas de existencialismo, a projeção do futuro sobre a base das possibilidades que o constituem. Para alguns pensadores dessa corrente – os alemães Martin Heidegger e Karl Jaspers, por exemplo – as possibilidades existenciais, na medida em que ancoradas no passado, conduzem todo projeto de futuro para o passado. Para outros, como o francês Jean-Paul Sartre, as possibilidades de escolha existencial são infinitas e equivalentes, e a opção entre elas é, pois, indiferente. Outros, enfim, como o italiano Nicola Abbagnano e o francês Maurice Merleau-Ponty, consideram que as possibilidades existenciais são limitadas pelas circunstâncias, mas nem determinam a escolha nem fazem com que ela seja indiferente. Sejam quais forem suas posições particulares, todos os existencialistas afirmam, porém, que a escolha entre as diferentes possibilidades implica riscos, renúncia e limitação, salvo o francês Gabriel Marcel, principal representante do existencialismo cristão, que acha possível a transcendência do homem mediante seu encontro com Deus na fé.

Traços fundamentais do existencialismo

  Embora não seja possível dar uma definição precisa do existencialismo – pois não existe um existencialismo único – ainda assim há uma série de traços que ajudam a descrever a índole e o espírito desse movimento filosófico.
  O existencialismo introduz a experiência pessoal na reflexão filosófica. Opondo-se à tradição de que o filósofo deve manter certa distância entre ele próprio, como sujeito pensante, e o objeto que examina, o existencialista submerge apaixonadamente no objeto que contempla, a ponto de tornar sua filosofia basicamente autobiográfica (Kierkegaard). Os temas de reflexão do existencialista giram em torno do homem e da realidade humana (homem, liberdade, realidade individual, existência cotidiana).
  Heidegger, ao que parece, é o filósofo mais alheio a essa perspectiva, pois para ele o problema fundamental da filosofia é o ontológico, isto é, o problema do ser e, assim, o problema do homem fica subordinado a esse problema. Ao descrever o existente que é o homem, Heidegger observa que sua essência consiste em existir, pois esta é a determinação fundamental do que ele chama Dasein (das in-der-Welt-Sein, “o estar-no-mundo”). O homem não é para os existencialistas um mero objeto. É um sujeito-no-mundo e aberto para este.
  Em termos sartrianos, o homem cria a si mesmo. A liberdade é também um tema básico para os existencialistas. Mas esta não é para eles uma liberdade acadêmica, como pressuposto do ato moral, mas sim a liberdade que permite a escolha e, portanto, a realização do indivíduo. Na Europa oprimida pelo nazismo e pelas ditaduras totalitárias, o existencialismo significou a reafirmação da liberdade política e cultural do indivíduo. Historicamente milita a favor do existencialismo a dura batalha que travou contra a ditadura da razão formalizada, já antes denunciada por Max Weber.
  Tema impossível de ser posto de lado, a morte é também objeto de atenção para os existencialistas. O homem vive para morrer; cada um morre só. Para Heidegger, a morte é a última possibilidade do homem; para Sartre, o fim de todas as possibilidades; para todos os existencialistas, a suprema realidade transcendente. O ser-para-a-morte é o verdadeiro destino e objetivo da existência humana. O tempo transcorre unicamente entre o nascimento e a morte; é a experiência que o indivíduo tem de sua limitação, de sua finitude. Assim, seria uma extrapolação arbitrária representar o tempo que precede o começo da existência e continua correndo depois que esta acabou. A consciência é sempre consciência de alguma coisa. O dado básico do eu é a intencionalidade da consciência. A consciência é do mundo, mas não se acha no mundo como as coisas. Se a consciência é consciência de algo, ela própria não pode ser esse algo. É inerente à consciência a negação da identidade entre consciência e algo. A consciência se aproxima do ser, pois é consciência dele, mas se reconhece ao mesmo tempo distanciada do ser. À distância entre o ser e a consciência Sartre chama “nada”.
Sartre: “..o homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar o homem.”

Susan Sontag

Crítica social e escritora norte-americana nascida em Nova York, uma das principais intelectuais americanas. Filha do comerciante Jack Rosenblatt, que morreu de tuberculose pulmonar (1938) e de Mildred, que casaria com o Capitão Nathan Sontag (1945), cresceu em Tucson, no Arizona e na adolescência mudou-se para Los Angeles, onde fez o colegial e (1948). Um ano depois mudou-se e recebeu o B.A. do College of the University of Chicago (1951) e casou-se com o instrutor de sociologia Philip Rieff, de quem divorciou-se na mesma década. Na Harvard University, EUA, no Saint Anne’s College, Oxford, Inglaterra, e na Universidade de Paris (1957-1958), estudou filosofia, literatura e teologia. Ao longo de sua carreira lançou quatro romances, uma coletânea de contos e uma série de peças de teatro e ensaios.

Muitos de seus contos saíram em publicações como The New Yorker, The New York Review of Books, The Times Literary Supplement, Art in America, Antaeus, Parnassus, The Threepenny Review, The Nation, entre outras. Seus livros foram traduzidos para 32 idiomas. A escritora também escreveu e dirigiu quatro filmes e esteve à frente de algumas produções teatrais. Ativista dos direitos humanos durante quase toda sua vida, presidiu o American Center of PEN (1987-1989), uma organização internacional de escritores dedicada à liberdade de expressão, na qual liderou uma série de campanhas a favor de escritores presos ou perseguidos.

Mudou-se para Sarajevo, na Bósnia-Herzegóvina (1993), onde passou grande parte de seu tempo até que recebeu o título de cidadã honorária (1996). Em seu primeiro ano na capital fez sua última produção teatral, Esperando Godot, de Beckett. Escreveu romances, ensaios, peças de teatro e roteiros de filmes, assim como ensaios para publicações como The New Yorker, Granta e New York Review of Books. Escreveu 17 livros e entre seus trabalhos mais conhecidos, estão Notes on Camp (1964), um estudo sobre a estética homossexual, Against Interpretation and Other Essays (1966), Melancholy Objects, On Photography (1977), Illness as Metaphor (1978), A Susan Sontag Reader (1982) e The Volcano Lover (1992). Entre outros prêmios de sua carreira, recebeu o National Book Critics Circle Award (1978), o National Book Award (2000), o Jerusalem Prize (2001), o Peace Prize do German Book Trade (2003) e o Prince of Asturias Prize (2003).

Contrária à guerra, foi uma das primeiras a discordar da política norte-americana pós 11 de setembro (2001), em um controverso ensaio publicado na revista New Yorker. Foi amplamente criticada quando declarou que os ataques não eram ataques covardes à civilização, mas um ato de coragem em conseqüência a alianças e ações específicas norte-americanas. Desde então, foi uma crítica declarada do presidente Bush sobre sua responsabilidade nos ataques de 11 de setembro e particularmente sobre a guerra no Iraque. Morreu em 28 de dezembro, a exato um mês de completar 72 anos, no hospital Sloan Kettering, em Nova York, vítima de leucemia.

Figura copiada do site SUSAN SONTAG:
http://www.susansontag.com/  

Fonte: Biografias – Unidade Acadêmica de Engenharia Civil / UFCG 

Ordem S – Biografia – Brasil Escola

Susan Sontag, importante intelectual norte-americana
Susan Sontag, importante intelectual norte-americana
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