Nos taipais da utopia

O ring dos songs que eram, o solfejo ignóbil da matemática quântica dos sabedores da natureza, as vozes cruas do infinito nestes quatro cantos do olimpo.

Reúnem-se resmas de opiniões apenas quando o mar naufraga ou quando se pensa saber do tédio como que se a psicologia fosse um marasmo para encanto dos desencantos de marinheiros afogados na solidão do saber. O opinar vazio neste cheiro cru é uma erva daninha que enerva, nada disso cansa, mas apenas confirma o silêncio dos astros.

Alguns dormentes acordados, outros talvez durmam, ainda que de olhos abertos, creio, nada do que mais uns sóbrios vazios vislumbram sobrando carris para o transporte do carvão.

Acredito que seja já tarde.

Horas demasiado avançadas para endeusamentos de flandres como faziam na Andaluzia os poetas de rimas secas como os que canta Júlio Iglésias. São apenas heresias estas minhas passagens pelos nadas que a vida cada vez mais me destapa, mos coloca nas montras virais do gnomo como salpicos ou saltitos de sapos pelos lagos que havia em tempos junto ao bairro onde vivia e mais ainda quando chovia.

“nos taipais da utopia”

Sim, opinam obtusos num silêncio de paredes ocas como cárceres encardidos, são as paredes que nos dominam, isolam-nos de tudo como se a vida ali se dissecasse num marasmos de tantos saberes sem uma explicação, fugimos por várias razões desse medo que desconhecemos, varremos da língua com ela mesma presa a costumes e só isso, sabemos nós mais que nada vale a não o selo permitido para o transporte da solução numa redoma de vidro para a transparência da razão, ela mesma, que nem sempre nos permite mais que uma sensação apenas e daí nada saia talvez.

Somos hoje um infinito lugar de reliquiosos entendedores de notícias vistas na televisão ou a escuta vazia de jornais bem escritos, notícias são apenas alguma coisa que se fica por aí, precisamos, isso sim, de Hamlet traduzido para transmitir o do enfadonho a razão pura da existência, filosofias do conhecimento e dissecar deitados a ordem natural das coisas, tal faz o médico no diagnóstico de malefícios que tantas vezes nos incomodam e apenas sabemos da dor que perturba, e análises profundas que nem sempre solucionam o problema da barriga inchada de tanto saber.

Somos cada vez mais tudo, corremos em direcção aos tempos do que era nos mais remotos e idos saberes do tudo, o tal que sabia de física e ao mesmo tempo o médico da aldeia onde quem sabe morou a minha mãe em pequena.

Por isso, para isso, o recado nunca chega, ficamos assim mesmo nesta cama que nos cultiva para todos os silêncios que nascem a cada respiradela de sons de fungos e dores cansadas na barriga.

“nos taipais da utopia”

Friedrich Nietzsche, o filósofo da afirmação da vida

Em lugar de utilitarismo e uniformização, ele propunha cultura e aprimoramento pessoal

POR:Márcio Ferrari
01 de Outubro | 2008

Friedrich Nietzsche
Friedrich Nietzsche

Rebelde e provocador, o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) se propôs a desmascarar as fundações da cultura ocidental, mostrando que há interesses e motivações ocultas, e não valores absolutos, em conceitos como verdade, bem e mal. Com isso, Nietzsche aplicou um golpe nos sistemas filosóficos, morais e religiosos. Sua frase mais conhecida (“Deus está morto”) não trata apenas de ateísmo, mas da necessidade de romper a “moral de rebanho” – as verdades tidas como inquestionáveis e o que é aceito por imposição – para viver as potencialidades humanas em sua plenitude.

Nietzsche foi professor universitário (leia biografia acima) e escreveu textos específicos sobre Educação. “A máxima ?tornar-se aquilo que se é? orienta seu pensamento nessa área”, diz Rosa Maria Dias, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. “Com essa frase, ele indica a tarefa do educador de levar seus alunos a pensar por si mesmos.”

O filósofo criticava o sistema escolar por ser um reforço da moral de rebanho: ao uniformizar o conhecimento e os próprios alunos, a instituição se curva às exigências externas do mercado e do Estado. Na Educação de seu país, ele via o avanço do ensino técnico sobre todos os níveis escolares com a finalidade de preparar profissionais e servidores competentes. Em lugar da massificação e do utilitarismo, Nietzsche propunha o aprimoramento individual e uma “Educação para a cultura” (leia o quadro na página 28). Entenda-se por cultura a criação de “personalidades harmoniosamente desenvolvidas”, segundo Rosa Dias.

A habilidade de transformar

Se Nietzsche combatia a vulgarização dos conteúdos escolares, também criticava o saber voltado para a erudição. Para ele, havia em sua época um excesso de cultura histórica, que gerava uma reverência paralisante ao passado. Com isso, sufocava-se a força do agora e impedia-se o surgimento do novo. Mais ainda: a tendência histórico-cientificista impossibilitava a presença efetiva da Arte e da Filosofia no ensino, por se tratarem de campos de conhecimento instáveis e desafiadores, que estimulam a crítica.

Sem ser contra o ensino de História nem subestimar o sentido histórico dos fatos, o filósofo via no sistema engessado um entrave para a percepção da “força plástica” do ser humano – isto é, sua habilidade de transformar. “Para não agir como coveiro do presente, é necessário conhecer a capacidade de crescer por si mesmo, assimilar o passado, cicatrizar feridas, preparar perdas, reconstruir as formas destruídas – tudo isso é força plástica”, diz Rosa Dias.

Nietzsche lamentava que uma espécie de ditadura da praticidade tivesse causado a perda da importância da leitura e do estudo de língua nas escolas, levando à degeneração da cultura. Naquele momento, dizia ele, ou se via o idioma como um organismo morto a ser dissecado, ou se encaminhavam a escrita e a leitura para os usos meramente comunicativos, reduzindo os textos a um padrão simplificado, supostamente ágil e moderno.

Um dos primeiros pensadores a conceber a leitura como uma atividade que não se limita à assimilação passiva de informações, Nietzsche achava que ler era uma experiência transformadora, inclusive no sentido físico. Isso porque, para se formar leitor, é necessário educar a postura, treinar a concentração e perseverar.

Vontade de potência

Como grande admirador da Antigüidade, principalmente da cultura clássica grega, o filósofo não aceitava a separação entre o corpo e o espírito. Tampouco dissociava, em seus textos, pensamento e vida. Segundo o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995), no ideal de Educação de Nietzsche, “os modos de vida inspiram as maneiras de pensar e os modos de pensar criam maneiras de viver”.

Encontra-se nesse processo contínuo a vontade de potência, que na filosofia nietzschiana é a força motriz do ser humano. “A vida é antes de tudo uma capacidade de acumular forças”, explica Rosa Dias. “Ela é essencialmente o esforço por mais potência, e para isso precisamos ser instruídos.” Portanto, para Nietzsche, a Educação deveria se especializar em formar personalidades fortes, não homens teóricos ou pessoas ilustradas.

Cabe à escola, de acordo com o filósofo, produzir nos alunos a capacidade de dar novos sentidos às coisas e aos valores. Nietzsche dizia que só os jovens poderiam entender suas contestações. É, então, de supor que a idade escolar seja a melhor para levar o ser humano a pensar criticamente a respeito do mundo a sua volta. Mas, para isso, a sala de aula precisa valorizar “uma cultura da exceção, da experimentação, do risco, do matiz”, nas palavras do filósofo.

Finalmente, ao educador cabe o papel de modelo, alguém que demonstra como se educar com disciplina e paciência. “Educar-se para ser educador significa, basicamente, estar à altura daquilo que se ensina”, diz Rosa Dias. “O professor precisa ser mestre e escultor de si mesmo.”

Biografia
Vida marcada por conhecimento e dor 

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844 em Röcken, Alemanha, filho e neto de protestantes. Nas universidades de Bonn e Leipzig, estudou Filologia, disciplina que lecionou na Universidade da Basiléia, na Suíça. Apaixonado por música, chegou a compor peças para piano. Sua carreira universitária começou a declinar com a publicação de sua primeira obra, O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (1872). Em 1877, publicou Humano, Demasiado Humano, na forma de aforismos. Quase cego, com freqüentes crises de enxaqueca, se aposentou em 1879. Entre 1883 e 1888, publicou, entre outros livros, Assim Falou Zaratustra e dois títulos para explicá-lo (Além do Bem e do Mal e Genealogia da Moral). Passou os últimos 11 anos de vida mergulhado na loucura e morreu em 1900, de paralisia geral, na cidade alemã de Weimar.

Os caminhos de Nietzsche
A experiência estética no início de tudo

As grandes influências de Nietzsche surgiram na época em que ele era estudante na Universidade de Leipzig. Lá ele descobriu a filosofia de Arthur Schopenhauer (1788-1860) e a música de Richard Wagner (1813-1883), de quem se tornou amigo mais tarde. Além da filosofia e da música, a Antigüidade clássica grega era seu terceiro interesse primordial. Nos três, se encontrava o papel central da experiência estética. Nietzsche via em Wagner o renascimento da grande arte grega. Mais tarde, o filósofo se distanciou do compositor, por considerar que ele se curvava ao gosto do público burguês, e da obra de Schopenhauer, por ver em seu pessimismo um sintoma de decadência cultural. Na maturidade, Nietzsche analisou a origem e a função dos valores na vida e na cultura, concluindo que uma “moral de escravos” se impôs à humanidade desde o predomínio da tradição judaico-cristã. Compaixão, humildade, ressentimento e ascetismo teriam, então, constrangido a vontade de potência, que seria o princípio de toda a vida. Nietzsche, que abominava o anti-semitismo e o nacionalismo, foi visto durante muito tempo como inspirador do nazismo por causa da edição forjada e mal-intencionada que sua irmã, Elizabeth, fez dos escritos deixados por ele.

“o meu menino já sabe escrever!”

Talvez um refrigério, uma amálgama de castigo este lugar de sentado na cama da fome, o Lúcio escreve sozinho gatafunhos para soletrar na cozinha onde a avozinha que nunca estudou tenta ler e diz baixinho

“o meu menino já sabe escrever!”

e lá pelos alpendres uma rosna que ronca, barulhos enfeitiçados como se tudo aqui fosse aquele pedaço esquimó plantado nas lezírias que fervem, uma razia ambulante sem altifalantes e as ruas embelezadas com bandeiras

“o benfica é campeão!”

que se roçam com o vento dos nortes que descem como quimeras, quem me dera um texto, um livro que apenas falasse comigo e nele conseguisse rasgar o meu delírio de ambulante na minha casa onde só sangram sentenças de quem nem sequer me conhece,

“raios me partam!”

esta dor nas costas e deitado no cimento que dá para as traseiras do quintal duro, onde já nada é meu, a minha alma partiu deixando-me aqui, completamente isolado da existência!

Abro de mim este escuro e nada, apenas vozes sentenciam a cor da razão e com elas conviver e pronto, ser apenas isso um enfim triunfal que nada resolve, uma sala de berros e cegos e na televisão as notícias cem vezes repetidas ordenamos,

“escutem” é o noticiário!”

já tantas vezes visto e lido e já cansa até, sim, esta casulo de imperiais que me ressoltam às resmas do que ficar e depois vem quem chegar, a televisão ordenou a única sentença e nada mais ninguém saberá.

A minha avó descansa e sentada coitada, velhota e linda e quando chego aquele afecto

“o meu beijo filho!”

deixa-me na boca um sabor do sangue, essa voz que ninguém conseguirá ocupar venha de onde vier, e enfim abraçamo-nos como coitados num amor saboroso é a vida, quem a pode mudar?,

“o meu menino já sabe escrever!”

dizia ela tantas vezes e ela nunca soube ler coisa nenhuma, apenas aprendeu a ler os sentidos da vida onde só o afecto consegue entrar e aí ensinar, crescer para viver, sentir o sabor do tempo em todas as escalas da escola onde me colocaram para ser doutor.

Ainda hoje, mesmo longe, um longe que não consigo desvendar mora o corpo que te mantem na minha cabeça, viva sempre acredita, o amor é essa tal coisa que nem mortes ou raios que os partam nos faz dissipar.

Tantas as vezes ainda em todos os amanheceres dos meus dias te peço ainda que leias o que escrevi para ti e ouvir de ti

“o meu menino já sabe escrever!”

Sobre as águas da vida o silêncio dói

XIX

Hoje seria mais feliz ainda se estivesse contigo. É o teu aniversário e tu só, sem mim, aqui dispersado numa mata sem limites e onde o horizonte é escuro. Tu em casa, creio, e as tuas cartas por chegar ainda, a minha Santa Paola contigo embrulha-se no teu colo e o pai longe sem culpa nenhuma. A idade dela paira-me ainda nas saudades, deixei-ta numa barriga ainda por descobrir se estavas ou não grávida desse paraíso chamado Santa Paola, a nossa filha. Inventei-lhe esse nome para honrar o nosso amor santo e perfeito, sabes?, enviada numa dos milhares de cartas trocadas entre nós, das coisas que sei entenderes-me e eu correspondia sempre nesta masmorra sem dentes. Uma brisa lenta abraça-me enquanto viajo dentro de que alma só minha, uma saudade permanente entranha-se-me nos poros e leva-me por instantes com ela, percorro todos os sonhos e momentos onde recordações nunca se cansam de me instigar, pergunto-me no meio delas onde a vontade e respostas só eu para mim mesmo pensando-te sozinha e eu sem ti, eu aqui, numa zona de acção enorme e o batalhão a percorrer noite e dia esta batalha de verdes e secos nas altitudes de árvores que badalam a cada vento, ventos cruzados amor, ensinam-me a decifrar os códigos de morse e o soldado de rádio na mão indicando-nos por onde seguir em mais segurança. O jeep ilumina-nos o caminho que seguimos, as pedras e os buracos inesperados desconfortam-nos, a gente indiferente, o nosso rumo é seguramente uma paz a encontrar e um dia encontraremos, queiram ou não, dizemo-lo nós, soldados destacados para esta missão de paz, de lágrimas. Tantas vezes imagino tudo isto como se fosse um sonho, uma dispersão, uma viagem imaginária, tantas vezes um percurso simples onde se divaga a realidade, nada disto é verdade, nada é real!,

– um dia de cada vez!

era uma voz ausente vinda de sonhos acordado, aqui sem uma esplanada ao fresco beber um café, ler o jornal e saber das novidades, mas apenas as tuas cartas são a única coisa que leio a não ser também os comunicados internos do exército,

– paciência amor!

colado às histórias do dia a dia, soldados mais e mais ainda a minha dor, os recursos parcos e a minha cabeça longe, curo e saro e coso, pontos e mais pontos nas peles feridas pelas granadas e tiros deste desconhecido famoso nas memórias de todos os dias, um diário escreveria todas as minhas emoções, fantasias, pensamentos e histórias de embalar a ver se me convenço a não estar depressivo e nervoso e cansado, sim amor.

A chuva branda lá fora alimenta o arvoredo, da janela observo enquanto penso, a humidade espalhada pela vegetação à volta desta mísera tenda onde tracto e gritos a meu redor sempre, descanso segundos e nada me sacia, tudo é sede e sono pois, não durmo há dias,

– sinto-me cansado Deolinda!

para quando o fim desta comissão de lágrimas?, até quando suportar ordens que sem sentido nos obrigam a morrer de tédio, por quê nós nesta guerra que não nos pertence, sei lá, matar quem e porquê?, acredito que não consigo ser mais que um soldado de paz nesta estação fria do norte de Angola e onde luanda?, tudo fica longe e sóbrios navegam a sua felicidade inocente, a gente a vê-los descer em direcção ao mar se lá chegarem, imagino os quilómetros a percorrer e nós seguindo a sua trajectória, olhos vendados pelo sistema e a política dos nossos patrões a comandarem-nos, sim, na rádio Salazar enfatiza a nossa missão glorificando-nos pela missão ousada e morrer devagar nada o incomoda. Sou soldado à custa de quê?

Adeus céu azul

Já nem sapiências coloridas e escritas em cardápios dos sábios idos, aqueles, que sabemos, apenas lamuriam o sonho do desejo e desconhecem a saúde do saber. Não serei nunca resma de nada. Se incomodar digam, irei até às metamorfoses dispersar a minha insânia calma. Preciso de mim para estar com todos, pois, sem isso, que me valem os doutos?

Despeço-me do céu, das nuvens, digo adeus a todos os astronautas e até de navegadores, dispenso heróis, fico neste canto, o que encontrar para me alumbrarem dos meus ímpetos. Canso-me do que constróis e resmas e regras assim, vomito o jantar e não como, quero viver sem sombras, mas com o sol a que me disponibilize ter, ouço dizer que os céus caíram, absorvidos pelas nuvens e engolidos pelo tempo, e eu, aqui, estou cansado de ver navios a transbordarem o infinito.

Se ao menos o céu fosse uma semente e me transportasse camo náufrago para dentro de mim mesmo, se ao menos eu conseguisse sair desta muralha que me encarde de tédio, se ao menos, é tanto do que apenas consigo, dizer e sentir, sentir um fogo a arder uma floresta perdida na longitude da verdade, sim, está tudo tão longe, está tudo tão impossível e como conseguir convencer-me do contrário?

E quando o céu não é azul, sim, o anoitecer escurece e apenas estrelas espalhadas como vertigens de pasmos a rodopiarem todas as minhas alucinações e desencantos nestes cantos que conseguir encontrar para me encostar e ali estar, observar como puder o céu dissipar-se até que surja a manhã e com ela de novo o azul, o mesmo de ontem sei lá, mas azul, essa vontade de apetecer o impossível é uma pequena raiva que me narra devagar nesta cadeira sentado e onde apenas escrevo, faço como gostaria de ser sempre assim, escrever apeteces nestes vagares que a verdade incutida em mim me deslumbre e com encantos recatados como donzela pintar telas coloridas para as oferecer ao céu pela manhã quando estiver azulinho como a folha de papel onde borratei quimeras de sonhador que não adormece.

Mas nada é de facto assim. Há tantas paredes à volta e tudo me escurece enquanto fecho e abro os olhos e nada de novo, tudo o mesmo e sempre a repetição do que era, angustiado como peixes secos na maresia vazia do riacho antigo do bairro costumava pescar em criança, quando ainda sonhar não era delírio, quando rasgar as calças e cair de tromba na terra quente do paraíso que sim, me encantava sem ter de soletrar tantas vezes como agora esta necessidade de ter de dizer adeus céu azul.

Sobre as águas da vida o silêncio dói. Cap XVII

XVII

Mirram-me lutuosas lágrimas de vazio, um furor incansável neste corpo de viagens perdido na sua própria essência, o luto premente a deslavar-se na bacia dos tempos esquecidos em anos por recordar, mirram-me as glórias da azia neste silêncio perdido e nem sequer eu lá, na astúcia varrida de pregos entalando portas e janelas e onde a vida? Mirram-me surfistas sobre os meus leitos derramados e eu cansado, sim, este hospício a que chamamos vida, esta rua mal vivida e nós nela como se por ventura valesse a pena ter sequer pena, recordar os sonhos torna-se enfadonho, são coisa que a gente de repente esquece e de nada ainda sequer pasmar. Ao longe a nuvem segue, mas que rumo? O frio das ostras no esqueleto do silêncio enquanto houver ainda sono e dormir compensa ao corpo esvaziar um cansaço que perdure. Esqueço os lutos e luto contra imagens que desvirtuem o meu sossego, preciso desta paz ainda que cansado viajar as ruas do meu bairro e nelas beber o meu sargaço num bar de ninguém.

A farda ainda por secar e o silêncio a dissecar-me de recordações perdidas em matos de ruídos e sonhos, ouço vozes neste corredor de tantas dores, sinto rebolarem sobre macas estas insónias infinitas e ainda nada, tudo é feito do mesmo e a gente aqui, uns sentados contra paredes de lona outros sobre coisa nenhuma.

Aqui tudo vale nada, aqui tudo é uma serpente e os batráquios a sucumbirem enquanto trepam árvores secas, sinto o calor destas tardes ainda que não perdidas vivendo-as sem sequer senti-las, tudo é enfadonho, sabes?

O peso insípido desta farda sobre o meu corpo, sinto-me despido e cansado, farto de ver a morte a viajar ali tão perto e nada, o zurzir à distância de balas de saudade com vontade de se juntarem a nós e descansarmos sobre os leitos da tarde. As cartas amarrotadas sobre a secretária e o soldado a bater-me à porta, a minha voz interrompida pelo balázio a rasar-me a alma, as macas espalhadas pela caserna e soldados estiolados, é difícil entender acredito que nada disto seja possível, as noites esticadas em todos os cantos e a insónia obrigatória ali presente,

– não viemos para dormir!

a minha memória é uma arma pacífica, recordo apenas saudades e nada mais, cansado disto e farto desta miséria de músicas buriladas na telefonia quase sem pilhas.

Estes sonos que não chegam, arrepia sentir este frio de cacimbo sem chuva, esta espera permanente e onde o fim?

Uma repetição quase todos os dias, quando o fim disto tudo?, destes dias moribundos carregados às costas de inocentes, a munição e o peso destas armas antigas, o rádio a fornecer-nos comunicação, o soldado de morse a explicar-nos,

– meu capitão, sigamos em frente!

qual frente qual quê!, nem turras nem gente, coisa nenhuma, o breu sacode-nos o desejo e a gente sem alma, perdemo-la numa esquina qualquer nestas rotas sem destino buscando o vizinho escondido nas trincheiras.  Aqui a solidão é medonha, tudo é nada de repente, fecho-me no quarto da tenda e exorcizo devagar como viajar para dentro de mim pensando em quem fica lá fora, os rumores e gritos, gemidos e ais, tudo incomoda a não sair do meu corpo e alojar-me numa bala perdida ao amanhecer.

Cartas relidas na ausência de novas notícias, pensamentos vagueiam este frio esquecido nas matas, esta raiva sem sentido nenhum e tropa de farda amorfa a pesar-me o silêncio, viajo para dentro enquanto as releio e esqueço enquanto me sentir a vivenciá-las como se fossem um presente eterno na almofada de pedra desta caserna improvisada.

Vozes a despertarem-me e nem sequer durmo, esta insónia permanente onde que combates procuramos nada, ninguém a não ser em busca da nossa felicidade que se esconde por detrás das falésias, o mar ronca saudades e luanda longe, a viagem breve nunca acontece e a gente implora,

– venha o diabo e nos leve!

o grito do soldado no jeep avariado sobre que giestas.

– acorda-me Deolinda!

Demócrito

Demócrito foi filósofo e historiador grego pré-socrático que descreveu a “Teoria Atômica”.

Biografia de Demócrito

Demócrito de Abdera
Detalhe da pintura Demócrito, de Hendrick ter Brugghen (1628)

Demócrito de Abdera, nasceu por volta de 460 a.C. na cidade de Abdera, região da Trácia.

Descendente de família nobre, viveu em diversas cidades desde Atenas, Egito, Pérsia, Babilônia, Etiópia e Índia, aprofundando seus conhecimentos.

Fez parte de filósofos da “Escola Atomística”, oposta à Escola de Heráclito, fundamentada em explicações materiais e mecanicista do mundo. Demócrito, teve uma vida longa e faleceu por volta 370 a.C.

Principais Ideias

Demócrito foi um estudioso nas áreas da matemática, física, astronomia, ética, filosofia, linguística, natureza, música.

Discípulo do filósofo grego, Leucipo de Mileto, uma das mais destacadas ideias de Demócrito envolve a sistematização do pensamento sobre a “Teoria Atômica”.

Segundo ele, o átomo, parte indivisível e eterna, que permanece em constante movimento, é o elemento primordial, o princípio de todas as coisas.

Nesse ínterim, todo o universo está composto de dois elementos básicos: o vácuo (o vazio ou o não-ser) e os átomos.

Além disso, propôs um sistema cosmológico e convencionalismo linguístico. Na área da matemática avançou nos estudos sobre geometria (figuras geométricas, volume e tangente) e os números irracionais.Veja também:Filósofos Pré-Socráticos

Obras

Demócrito de Abdera foi um dos maiores sábios e escritores da antiguidade. Contudo, muitos de seus escritos se perderam com o tempo. Segue abaixo, algumas de suas obras que se destacam:

  • Pequena ordem do mundo
  • Do entendimento
  • Do bom ânimo
  • Pitágoras
  • Da forma
  • Preceitos

Frases

  • Convém ao homem dar maior atenção à Alma do que ao corpo, pois a excelência da Alma corrige a fraqueza do corpo; a fraqueza do corpo, contudo, sem a razão, é incapaz de melhorar a Alma.
  • Falsos e hipócritas são aqueles que tudo fazem com palavras, mas na realidade nada fazem.”
  • Se você sofreu alguma injustiça, console-se; a verdadeira infelicidade é cometê-la.”
  • Sábio é quem não se aflige com o que lhe falta e se alegra com o que possui
  • A felicidade não reside nas posses e nem em ouro, ela mora na alma.”
  • Na realidade, não conhecemos nada, pois a verdade está no íntimo.”
  • A moderação aumenta o gozo e acresce o prazer.”
  • O caráter de um homem faz o seu destino.”

O que é Conhecimento Filosófico?

O conhecimento filosófico é um conhecimento fundamentado na lógica e na construção ou definição de conceitos. É um conhecimento metódico que tem como objetivo encontrar explicações válidas para os diversos problemas propostos.

O conhecimento originado pela filosofia é um modo de interpretação da realidade que diferencia-se de outras formas de conhecer.

Deste modo, podemos também perceber o que é o conhecimento filosófico a partir de sua distinção das demais formas de saber.

1. Conhecimento filosófico não é mitologia

Perseu e a cabeça de Medusa
Perseu com a cabeça da Medusa, escultura de Antonio Canova

O conhecimento filosófico nasceu, justamente, como negação aos mitos.

mitologia trazia consigo uma gama de histórias fantásticas que davam alguma explicação para a realidade fundamentada na crença e sem nenhum comprometimento com a lógica.

O conhecimento filosófico nasce do lógos (argumentação, lógica, pensamento racional). A razão aponta as contradições presentes nos mitos e traz a necessidade de um outro tipo de conhecimento, o conhecimento racional, filosófico.Veja também:Mitologia Grega

2. Conhecimento filosófico não é senso comum

Supertição - gato preto
No Brasil, gatos pretos têm mais dificuldades de serem adotados por conta de uma crença do senso comum que os relaciona com a má sorte

O senso comum se refere ao saber do indivíduo comum. É um saber baseado nos costumes, não possui provas, demonstrações e, por vezes, não é lógico.

O senso comum fundamenta diversos preconceitos que possuem suas raízes em questões culturais. Apresenta como justificativa o próprio hábito.

O conhecimento filosófico, por sua vez, é um conhecimento lógico, possui um método e se sustenta por uma teoria.Veja também:Senso Comum

3. Conhecimento filosófico não é religião

Religião - vitrais

O conhecimento religioso é sustentado por uma teoria ou um sistema teórico, assim como o conhecimento filosófico.

Entretanto, por se tratar de religião, esse conhecimento está fundamentado na fé. O conhecimento religioso possui como fundamento alguns dogmas.

Os dogmas são verdades indubitáveis (não se pode duvidar) reforçadas pela crença.

O conhecimento filosófico possui a dúvida como método. O questionamento é a “pedra de toque” da filosofia. Tudo pode ser posto em causa, tudo é digno de discussão.

Sendo assim, o conhecimento filosófico se diferencia do religioso por seu caráter questionador.Veja também:Religião

4. Conhecimento filosófico não é ciência

Ciência - microscópio

Apesar da estreita relação entre ciência e filosofia, existem particularidades que exigem uma diferenciação.

As ciências nascem com o mesmo intuito que a filosofia e historicamente caminharam juntas ou sendo identificadas como a mesma forma de conhecer.

O fator decisivo para essa união ou diferenciação ocorre pela empiria (experiência). A experiência é o fundamento base das ciências. É a forma de comprovação ou de validação de uma teoria.

É através da empiria ou do experimento que os cientistas encontram a verdade acerca de seu objeto de estudo.

Para a filosofia, a experiência é parte do processo do conhecimento, mas pode estar presente ou não. Não há a necessidade de validação empírica de um conhecimento.

No entanto, é completamente válido filosoficamente o desenvolvimento de uma teoria que não pode ser testada, mas uma abstração teórica validada pela lógica.

Isso faz com que a filosofia possa dedicar-se a temas que não são passíveis de comprovação empírica. Quando a empiria é possível, filosofia e ciência caminham juntas.

Serve como exemplo o mais importante título acadêmico dado a um indivíduo em diferentes áreas, o PhD. Ao produzir uma teoria e um conhecimento original, o estudante recebe o título de PhD, que significa Philosopiæ Doctor, que significa “doutor em filosofia”.

Ou seja, esse indivíduo conduzido pelo “amor ao conhecimento” (sentido original do termo “filosofia”) tornou-se doutor, um profundo conhecedor de determinada área científica.

Pedro Menezes

Pedro MenezesLicenciado em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestrando em Ciências da Educação pela Universidade do Porto (FPCEUP).

E via navios. Mas onde os navios?

Nasci num recôndito silêncio bem longe do mar. havia frio e catadupas de estirpes como osgas e as paredes eram um quarto para mil, parafusos e esqueletos de tempo ainda lá dentro como se a vida fosse um eterno recomeço.

Anos decorriam, entretanto, vozes deambulavam corredores imensos, uma festança extrema pois, havia nascido o sacerdote das estepes, aquele que apenas surgiu para inventar o seu próprio desencanto num canto qualquer da cidade. E essa cidade foi crescendo também, transformando-se cada vez mais em mundo, um mundo indiferente, pois, apenas sorvia o cântico dos pássaros pisados num longe tal que só quem soubesse escutar os rios da vida entenderia.

Ouvia o bradar calmo das ondas bem ao fundo onde só a cabeça oscilava, escutava o bramir doce do colo do tempo ali, bem junto a mim como se fossem viagens de nuvens sobre as telhas da casa velha onde possuíamos todos os saberes do campo. Foi onde nasci. Bem longe do mar. repleto de árvores numa cantoria de sinos da igreja onde o capelão fazia relatos de existências metafísicas como se a ciência soubesse navegar os corredores mais parados daquele olimpo frio e chovia, era tão breve tudo aquilo, e foi sempre assim, tudo tão breve.

Já tinha ouvido falar do mar antes de ter nascido, havia quem o conhecesse tão bem que conseguia mesmo em imagens não fotográficas explica-lo como se a verdade fosse a fantasia mais real para todos os costumes. Ouvia na barriga do vento o rugido glorio da saudade, havia descoberto entretanto que saudade já existia mesmo antes de nascer, essa coisa é horrível, a gente ter de perceber muito antes de nascer que já os homens se flutuavam para templos de glórias solitárias, arremessavam pedras contra as paredes da casa dos esquimós que existiam apenas nas suas cabeças frias e repletas de tédio, coisa que a fotografia não consegue relatar, mas, assim ficamos e nasci entretanto, num recôndito silêncio que nem sequer palavras conseguia proibir, era feio agir assim, aprendi aí.

E via navios. Mas onde os navios?

Era um acumular de tantos entretantos que se preenchiam nas vaidades mais cobardes daquele tempo, tinham de descobrir antes a estrada que os levasse a Atenas para conversar com Messias, um forasteiro também que já na altura diziam existir, mas nunca o vi ou senti, mas acumulava num embrião de nozes as conversas ácidas dos presentes que apenas pretendiam cansar-me, mesmo antes de nascer e aprendi, ou ia aprendendo a entender o sol.

Ela gemia dores caladas e falsas, fazia parte do regime imposto, sei porque aprendi com o tempo, agora que já nasci, mas em nada serviram, eram falácias numa masmorra de máscaras coloridas, sim, as cores embelezam o transcendente e a gente sentia como ele se rodopiava no meio das maratonas que a tripa sangrava para evitar o derrame do sangue da família que se enlutava cada vez que alguém nascesse.

Por isso nasci sozinho naquele quintal da Maria, servidora obtusa de todas as razões impostas pelas leis vigentes. O menino será meu, senhora, e assim foi, sou dela.

Sobre as águas da vida o silêncio dói. Cap XVI

XVI

Recordo Camélias, Orquídeas, Franciscas, todas elas à espera de um soldado perdido, das que esperam ninguém frente a um cais de evaporados, mas regressados, recordo abandonados e esquecidos à saída de um barco cheio de dores, onde que prostitutas nos aplaudem com gritos,

– bem-vindo o teu regresso meu herói!

o olhar parado num instante e sem reagir que voz, quem nos espera ou ainda se recorda de nós após estes anos numa mata qualquer inventar vida para sobreviver, o olhar de viúvas esquecidas, o vazio frio de mães sem filhos e filhos de outras mães,

– tiveste mais sorte que eu!

dizia uma mãe revoltada,

– o meu Zé voltou da guerra!

cais do sodré repleto e a gente ali, paramos sem nada perceber, a viagem ofuscou-nos, a guerra fez-nos esquecer romantismos e sentimentos onde a minha Joaquina, qual Joaquina, anos depois onde que casamento, ficou um vazio repetido entendes?, todos se esqueceram e nós ainda vivos, na memória tiros e granadas, as minas e o jeep capotado,

– você entende de guerra?

– não.

– cale-se!

há histórias na vida da gente que nem a gente entende, os passos são largos e o capim oculta, o ruído silencia e o norte desperta onde que granadas,

– escuta-me apenas.

preciso de sorrisos onde que sorrisos eu ausente, o tempo queimava o tempo onde que tempo, redundância esquecida nesta selva de sementes por plantar, a gente sabe sentir o que na realidade vive e quem entende o meu silêncio?,

– escuta-me apenas.

é um estranho contraste, perceber que ter de entender a vida de novo e que vida?, esse abraço não basta, esta multidão não é minha porquê heróis?, não basta, quem me remove os momentos de sangue na lapela?, quem me diz do meu destino?, sou ainda soldado sabes?, na cabeça tudo é ainda tão presente, mais que este momento, mais que qualquer abraço ou sorriso, sou um soldado perdido nos anos em que me impediram de crescer e ser gente, um homem a quem foi obrigação matar, quem me tira esse tormento?,

– estou calado caraças!

ainda no consultório a alma lá, os meus soldados e que fiz se consegui, formei-me para curar e não matar e porquê isto?, nunca me consegui tornar num soldado, nunca o fui ou pelo menos sentir sê-lo, plantações de café sabes?, eucaliptos imensos onde que cheiro a limpar pulmões, onde que ar a refrescar saudades, tudo era um paraíso na inocência consciente de soldados perdidos e as caminhadas, longos dias a pé e que mata, as aldeias repletas de gente a receber-nos, a memória não morre, a gente sente o frio de cada instante, o calor de cada abraço, o olá de cada amigo, ali tudo é sentido de forma mais sentida e profunda, há uma solidão colectiva a corromper-nos a alma, uma viagem, gente diferente como?, minas e bombas para onde?, o acampamento comigo nesta comissão de lágrimas.

Onde agora?, tudo isto me parece tão estranho, sinto um frio que nem sequer percebo, onde as matas?, onde as saudades?, tudo estranho assim tão de repente, tudo num repente num navio cheio de almas ancoradas às memórias de quem nunca esquecerá uma guerra que nunca nos pertenceu, apenas soldados lançados ao fogo que nos eliminou amigos, camaradas, as minas em cada passo e o Esperança sem fome, é horrível conseguir lembrar se é verdade, vou dormir uns dias acredito e acordar, mas acordar onde?

Quanto tempo levarei a entender que regressei?, a floresta renasce sabes?, tudo é tão real nesta cabeça estiolada, tudo é presente neste jeep a diesel velho e cansado, o consultório repleto, tudo é ainda isto, o momento, e cais do Sodré ali, o mar onde navios partem seguindo rumos e descobertas e nós perdidos, cansam-me, entendes?

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