Parnasianismo

Márcia Fernandes

Márcia FernandesProfessora licenciada em Letras

O Parnasianismo é um movimento literário que surgiu na mesma época do Realismo e do Naturalismo, no final do século XIX. De influência e tradição clássica, tem origem na França.

Seu nome surge de Parnase Contemporain, antologias publicadas em Paris a partir de 1866. Parnaso é como se chama a montanha consagrada a Apolo e às musas da poesia na mitologia grega.

Em 1882, Fanfarras, de Teófilo Dias, é a obra que inaugura o parnasianismo brasileiro, movimento que se prolonga até a Semana de Arte Moderna, em 1922.

De postura anti-romântica, o Parnasianismo é baseado no culto da forma, na impassibilidade e impessoalidade, na poesia universalista e no racionalismo.

Tríade parnasiana: Olavo Bilac, Raimundo Corrêa e Alberto de Oliveira
Tríade parnasiana: Olavo Bilac, Raimundo Corrêa e Alberto de Oliveira

Os autores parnasianos criticavam a simplicidade da linguagem, a valorização da paisagem nacional e o sentimentalismo. Para eles, essa era uma forma de subjugar os valores da poesia.

A proposta inovadora era de uma poesia de linguagem rebuscada, racional e perfeita do ponto de vista formal. Acreditavam que, se estivesse apoiados no modelo clássico poderiam contrapor os exageros e a fantasia típica do movimento literário Romantismo.

Ao Parnasianismo, seguiu-se o Simbolismo, movimento que exalta a realidade subjetiva e que nega a razão explorada pelos parnasianos.

Características

Os parnasianos são esteticamente detalhistas. Ao se preocupar com a forma, valorizam o vocabulário culto, os sonetos, bem como as rimas raras.

Também de forma marcante, os temas da antiguidade clássica são observados nessa escola literária, cujos autores são realistas e objetivos e mostram as coisas como elas se apresentam, ou seja, de forma descritiva e sem lirismo, ou com exaltação de sentimentos muita vaga. Isso porque entendem que a arte já seja bela, de modo que não precisa ser explicada, pois ela vale por si.

Muitas característica do Parnasianismo encontram-se presentes no Realismo. Observe, no entanto que, no Parnasianismo foram criadas apenas poesias, não existe prosa parnasiana.

Em resumo, as características do Parnasianismo são:

  • Idealização da arte pela arte
  • Busca da perfeição formal
  • Preferência pelo soneto
  • Preferência pela descrição
  • Rimas raras
  • Vocabulário culto
  • Objetivismo
  • Racionalismo
  • Universalismo
  • Apego à tradição clássica
  • Gosto pela mitologia greco-latina
  • Rejeição do lirismo

Leia Características do Parnasianismo.

Contexto histórico

O fato de os parnasianos interpretarem o mundo de forma cientificista e positivista resulta do período em que esteve inserido, época de muitas invenções e avanços que traziam mudanças não só à economia, mas que transformavam a mentalidade das pessoas.

Isso porque, a valorização da ciência rompe com o subjetivismo, marca da escola literária anterior, o Romantismo.

Autores do Parnasianismo no Brasil

Os principais autores do Parnasianismo no Brasil foram Olavo Bilac (1865- 1918), Raimundo Corrêa (1859-1911) e Alberto de Oliveira (1857-1937). Os três formavam a chamada tríade parnasiana.

Além deles, outros autores também merecem destaque: Augusto de Lima (1859-1937), Bernardino Lopes (1859-1916), Fontoura Xavier (1856-1922), Francisca Júlia (1871-1920) e Múcio Teixeira (1857-1926).

Leia Autores do Parnasianismo no Brasil.

Autores do Parnasianismo em Portugal

Embora tenha sido mais representativo no Brasil, alguns autores se destacam no Parnasianismo em Portugal. São exemplos António Feijó (1859-1917), Cesário Verde (1855-1886), Gonçalves Crespo (1846-1883) e João Penha (1838-1919).

Leia Parnasianismo em Portugal.

Sobre as águas da vida o silêncio dói, cap. XXIII

XXIII

Tivemos um primeiro dia, viemos no primeiro dia, resta-nos agora e ao fim de uns bons anos saber do regresso, coisa que me parece estar longe ainda, não recebo informações nem sei às quantas ando!, mas no meu calendário de bolso risco cada dia passado, cada dia vencido numa luta desenfreada e lisboa espera-me, garanto!,

– está para breve Deolinda!

é uma coisa pacífica, as coisas ao princípio parecem piores mas disso nada é verdade, apenas o cansaço de ter que suportar tanta ausência das minhas coisas, do meu bairro e amigos, da minha filha a crescer sem o pai por perto, são dores que nunca desaparecem, venham aspirinas e mesmo assim nada, apenas as tuas cartas me enchem de felicidade, saber de ti e como estão as coisas, saber da minha mãe e do meu pai no consultório e eu numa enfermaria de campanha, a minha mãe na cozinha fabrica cozidos e feijoadas pensando nos meus gostos, sei que ela nunca se esqueceu do que aprecio comer refastelado numa mesa cheia de gente.

– fala-me da nossa filha!

Risco folhas de memórias enquanto descansam soldados feridos, rabisco, rasgo, volto a escrever, nem me sai como pretendo, dizer-te bem a fundo das minhas saudades e da minha vida nestes isolados silêncios a que fui atirado. Um dia a missão terminada, o nosso regresso como heróis que lutaram pela pátria, a pátria que nos viu nascer e alguns morrerem, nem todos chegaremos vitoriosos, eu não voltarei preenchido com a falta de camaradas perdidos nas balas atiradas do desconhecido, é triste amor, mas que fazer?, da nossa filha perdi o rumo e a idade dela, não sei ao certo a sua idade, acredita Deolinda, escreve-me e dá-me informações, coisas de que preciso para acalmar.

Que navio nos levará de volta?

Que idade terei nessa altura?

Mais velho e cansado sim, oficial médico que não estudou para isto, ser enviado sem apelo nem agrafo para um longe por nós completamente desconhecido, não conhecia os cheiros, de ventos, não sabia do cacimbo nem de que calor sobre a farda quente e suja, nem tempo para a lavar, acredita, somos atirados a um canto e mandam-nos desenrascar como conseguir-mos.

– está para breve Deolinda!

Sento-me a um canto da tenda e só tu e a nossa filha na minha cabeça, sei da tua paciência miúda, da tua fé, da tua força, sei do nosso amor separado por um ditador que nos quer ver enferrujar nas matas. O soldado quase analfabeto não recebe cartas de ninguém, arranjamos madrinhas de guerra que ao menos consolam, lemos desconhecidos que se dirigem a nós com um discurso lindo a apaziguar uma dor feia, cansada, solitária, o capelão dá a missa e todos os domingos lá estamos, ouvir a palavra de Deus neste fim do mundo algures em Angola.

Adoro as gentes, as paisagens, as aldeias que nos acolhem e recebem com salvas e palmas, recebem-nos como irmãos, e somos de facto irmãos, comemos sentados no chão churrascos e assados saborosos, nem sempre nos entendemos, pois nem todos falam português, mas sabemos lidar com as diferenças e somos humanos a viver o mesmo dilúvio.

– bem-vindos irmãos fardados!

Sentados e conversávamos, não existem cadeiras, o lugar mais adequado é mesmo o chão, cada um com o seu pedaço na mão, viemos numa missão de paz e somos irmãos, bebemos vinho e quiçângua, a galinha assada e um belo churrasco, nós, soldados, um grupo de muitos naquele lugar humilde e belo, uma povoação de irmãos nesta comissão de paz.

Recebidos pelo soba, com toda a vénia e consideração, assim se faz o respeito e sentimo-lo com uma vénia, mais uma tarde feliz num lugar tão distante como todos os meus sonhos e delírios, confraternizar com gente pura e sã.

Talvez as almas entendam

“daqui a cinco minutos vamos embora”

Ainda a sala na mesma onde vozes antigas nos quadros espalhados pelas paredes vivem como se os morcegos me vissem sentado no jardim fundo e verde os baloiços

“daqui a cinco minutos vamos embora”

uma sensação de nada como se a vertigem iluminasse as formas do corpo e eu sentado creio, e como gostaria eu de entender o que via e nada, tudo numa difusão e os sentidos oblíquos das resmas secas no chão enquanto se espera pela chuva e que horas no relógio colado ao braço esquerdo, olho-o de soslaio

“daqui a cinco minutos vamos embora”

enquanto tudo é ainda pensamento, o Bairro Montanha Pinto sem escadas apenas a rampa de cimento onde havia sempre o meu canto e onde sempre me escondia evitando o sol e que frio, nem as vozes contentavam sei lá, o baloiço que havia também ali rodopiava como poisavam os pássaros refastelados no sobreiro encolhido mais acima, gotas pingavam e eram talvez saudades, nada mais me passava pela cabeça e o momento era aquele.

Quem sabe um dia as almas entendam, o aeroporto parado e na rua tudo na mesma, talvez um ou outro carro desciam e seguiam o seu destino num suco de pensamentos meus e eu parado, que correrias daria naquele dia não fosse o tempo escassear.

A Maria como sempre sentada na rampa coçava a cabeça. As tranças na mesma, uma bola de trapos perdida ao fundo do quintal e um jogo entre mim e o tempo, a verdade era uma mistura de bananas e chuviscos quando entardecia, o que acontecia quase todos os dias e nem estranhava já, um anexo branco de portas abertas na mesa escreviam-se cartas e lia-se o jornal como rotina, um vício para nada, que notícias interessavam naquele cansaço de fim do dia do trabalho de todos esperava-nos talvez o jantar e que fome,

“daqui a cinco minutos vamos embora”

Fomos de facto embora, ficaram memórias, saudades, viagens entre o centro e o fim da cidade, a minha casa sozinha espero-a ainda, não, é tarde talvez e que me adianta agora remoer como se as tripas fossem o gargalo de tantos momentos para sonhar, sentir ainda aquelas saídas de abacaxi nos campos e o senhor Silveira na enfermaria de seringas na mão

“bom dia Fernando!”

quando o Fernando Pires chegar vamos então tratar disso, ouvia sempre isto quando chegávamos do hospital central lá pelos lados do aeroporto hoje mais velho que eu sei lá, existe ainda? Talvez as almas entendam.

Dom Quixote

Daniela Diana

Daniela DianaProfessora licenciada em Letras

Dom Quixote de La Mancha (em espanhol, Don Quijote de la Mancha) é uma obra escrita pelo escritor espanhol Miguel de Cervantes e Saavedra (1547-1616).

Trata-se de uma sátira às antigas novelas de cavalaria, considerada uma das maiores obras da literatura espanhola e um clássico da literatura universal.

O livro, lançado em 1605, inaugurou o romance moderno e hoje conta com muitas versões traduzidas pra inúmeras línguas.

O título original é “O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha” (El ingenioso Fidalgo Don Quijote de la Mancha, em Espanhol).

Quem foi Dom Quixote?

Dom Quixote

Estátua de Dom Quixote e Sancho Pança, Madri, Espanha

Seu personagem, um nobre espanhol de idade avançada (cerca de 50 anos), foi imortalizado e até os dias de hoje reúne diversas paródias.

São elas: vídeos, músicas, peças teatrais, quadrinhos, animações, esculturas, pinturas, dentre outras.

O romance é contrário as novelas de cavalaria, constituídas de belos heróis e seus grandes feitos em busca da justiça, da amada e dos dogmas da Igreja.

Dom Quixote é um cavaleiro andante, nomeado por Sancho como “Cavaleiro da Triste Figura”. Isso porque não é belo e impulsionado por sua “loucura” sempre acaba se dando mal.

No entanto, sua figura de cavaleiro andante é fomentada pelo lema “fazer o bem” e encontrar sua nobre donzela imaginária.

Saiba mais sobre seu criador, o escritor Miguel de Cervantes.

Estrutura da Obra

Dom Quixote é uma paródia bem-humorada dos romances de cavalaria (desenvolvidos durante a Idade Média) composta por 126 capítulos, os quais foram divididos em duas partes.

Cervantes começou a escrever em 1580 sendo que a primeira parte foi escrita em 1605 e a segunda em 1615.

Resumo da Obra

A história relata os feitos de um ingênuo e fidalgo cavaleiro medieval, Dom Quixote. Ao lado dele, estão seu cavalo Rocinante e seu fiel amigo e escudeiro: Sancho Pança.

Ávido leitor dos romances de cavalaria, Dom Quixote cria seu próprio mundo ao se lançar em diversas aventuras.

Ele vai em busca de justiça e de sua bela donzela imaginária (Dulcineia de Toboso), tal qual ocorriam nas novelas de cavalaria.

Ainda que muitas passagens sejam “invenção” de seu protagonista, o romance possui um caráter realista.

Vale notar que seu companheiro Sancho apresenta discursos mais coesos e realistas que seu protagonista.

O romance relata as histórias e peripécias vividas por Quixote e seu companheiro nas regiões espanholas: La Mancha, Aragão e Catalunha.

O grande valor humorístico de tais passagens é encontrado entre as fantasias e loucuras de seu protagonista e a dura realidade vivida.

Em meio a sua “loucura”, Quixote trava batalhas com moinhos de vento (que imaginou serem gigantes). Além disso, guerreia contra o “exército de ovelhas” (que resulta numa surra dos pastores do rebanho).

A novela acaba quando Dom Quixote volta ao “mundo real”, ou seja, quando ele retorna à casa e percebe que não há heróis no mundo.

Segue abaixo um dos trechos mais famosos da obra: o encontro com os moinhos de vento.

Dom Quixote

Moinhos de Vento de Dom Quixote, Consuegra, La mancha, Espanha

“O destino vai guiando as nossas coisas melhor do que pudéramos desejar; pois vê lá, amigo Sancho Pança, aqueles trinta ou pouco mais desaforados gigantes, com os quais penso travar batalha e tirar de todos a vida, com cujos despojos começaremos a enriquecer, pois esta é boa guerra, e é grande serviço de Deus varrer tão má semente da face da terra.
— Que gigantes? – disse Sancho Pança.
— Aqueles que ali vês – respondeu seu amo -, de longos braços, que alguns chegam a tê-los de quase duas léguas.
— Veja vossa mercê – respondeu Sancho – que aqueles que ali aparecem não são gigantes, e sim moinhos de vento, e o que neles parecem braços são as asas, que, empurradas pelo vento, fazem rodar a pedra do moinho”

Frases da Obra

  • Esse meu mestre, por mil sinais, foi visto como um lunático, e também eu não fiquei para trás, pois sou mais pateta que ele, já que o sigo e o sirvo, se é verdadeiro o refrão que diz: ‘diga-me com quem anda e te direi quem és’ e o outro de ‘não com quem nasce, mas com quem passa’.”
  • A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam dos céus. Com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra nem que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pôde vir aos homens.”
  • Embora eu saiba que não exista magia no mundo que possa mover e forçar a vontade – como alguns simplesmente acreditam -, é livre a nossa vontade, e não existe erva nem encanto que a force.”
  • Entre os pecados maiores que os homens cometem, ainda que alguns digam que é a soberba, eu digo que é a falta de agradecimento.”

Confira a obra na íntegra, fazendo o download do pdf aqui:

Música

A Banda Engenheiros do Havaii lançou uma música intitulada Dom Quixote:

Muito prazer, meu nome é otário
Vindo de outros tempos, mas sempre no horário
Peixe fora d’água, borboletas no aquário
Muito prazer, meu nome é otário
Na ponta dos cascos e fora do páreo
Puro sangue, puxando carroça

Um prazer cada vez mais raro
Aerodinâmica num tanque de guerra
Vaidades que a terra um dia há de comer
Ás de Espadas fora do baralho
Grandes negócios, pequeno empresário
Muito prazer, me chamam de otário

Por amor às causas perdidas
Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Tudo bem, seja o que for
Seja por amor às causas perdidas

Por amor às causas perdidas
Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Muito prazer, ao seu dispor
Se for por amor às causas perdidas
Por amor às causas perdidas

Leia também: O que é Romance?

Sobre as águas da vida o silêncio dói, cap. XXII

XXII

E a vida é um jogo, jogo onde tiver que dormir, a vida joga a minha melancolia, a minha ausência em pertencê-la, a minha inocência em ser sua, a tabuada da minha casa, a fome no quintal onde plasmava saudades, sinto sono, sim, sono por partir um dia e deixar o que for de mim num reflexo vazio e sem a matemática da tua sapiente contabilidade, saudade de ser novamente inocente e não pertencer a mais nada, a não ser à minha inconsciência de viver escondido nos mirabolantes desvios sem sentido da minha própria existência. Por isso mesmo e mais não vivo. Sonho.

De par em par as jangadas como que portadas para as traseiras, abertas ao dilúvio digo eu, uma rima singular de porta fechadas e a fachada era pendular como quem entra e sai sem se aperceber, era lá dentro o tempo, a quimera avultava em si esse desejo e levar-te era risonho, a gente sentávamo-nos nos divãs do tempo da minha casa e lá conversávamos como se ainda fossemos desse tempo.

Se as fontes deste rio fossem as minhas lágrimas, se fossem as minhas mágoas, é tudo um princípio e restam arestas por limar quando me canso.

Sentado nesta poltrona sei lá feita de quê, observo a janela aberta num ar de fuga, fugir dos meus medos e ânsias, fugir dos meus medos e presságios, divagar por entre a floresta como um pássaro sem rumo e beber das cacimbas, saciar tantas vontades escondidas nestes escombros da mente que me arreliam e despertam sonos e sonhos calados na alma aferroada de raivas e destinos.

Pairam ainda sobre mim balas, ruídos e gritos, sinto ainda na pele o arrepio do medo, o frio do vazio e o cansaço, medos que se não se esquecem, sabes?, há coisas em que a gente, por muito que queira, não consegue desligar nem tirar do lugar onde residem ainda. Sou um psiquiatra a curar-me a mim mesmo, a sarar da alma as feridas da vida, vagueio o recreio da minha imaginação e encontros escombros de anos perdidos, coisas que não se varrem com uma simples vassourada e pronto, são coisas interiorizadas e a alma cansada absorve e devolve-nos durante o sono como se fossem pesadelos e são, resquícios de tanto deixado naquelas savanas e matas, onde leões e goivos, onde gente nada, experiências que ninguém quer, acredito e afirmo!, fui levado como uma sardinha enlatado naquele navio, Dom Afonso Henriques, atracado em sines e lá está, tal como eu, acabado.

Ao longe a sirene da ambulância rompe o silêncio de mais uma tarde sem paz nenhuma, o condutor apressado aparece e o maqueiro carrega mais um ferido, mais um soldado desconhecido nestas matas do longe, eu ali, esperando o momento de o diagnosticar, espero feridas profundas se de uma mina ou bala, se de uma queda do jeep ou uma rasteira de um inimigo escondido em que trincheiras, e gritos e ais eu sentado no consultório preparo anestesia para o acalmar, sinto-me só Deolinda, cansado de estar cansado até e que mais nem sei, por dentro esta cabeça esvazia-se ou aziaga-se, a gente promete a nós mesmos um futuro melhor e o meu não foi este, garanto, não gosto de guerra nem ver morrer tanta gente inocente como eu inocente também.

Longe o cais do sodré onde bebia tardes, onde o mar passava deixando no ar a sua maresia, longe alcântara, o bairro alto, o meu bairro, longe a minha filha e a minha vida, tudo longe, tudo distante dos meus olhos e a cabeça apenas nessas viagens interiores beber sonhos e amarguras, cansado amor, desabafo com a vegetação e degluto cigarros uns atrás dos outros, fumo tardes infinitas onde que fumo a dispersar-me disto, da noite cansativa repleta de insónias, nem sonhos nem desejos apenas calafrios e dores, a garganta a arder e um dia febre, a morte nunca esteve longe e nós parados num mato desconhecido e o soldado do rádio guia-nos, a gente segue orientações via rádio, helicópteros sondam a floresta e leões nem vê-los, só tiros senão nossos ou do desconhecido que surge sem se esperar, sei, talvez por isso mesmo seja o desconhecido, a gente no conhecido o que fazer e nada fazemos, observamos apenas o nosso atirador especial a apontar a metralhadora e aniquilar o nada.

A enfermaria repleta de feridos e eu a acudi-los, a missão sabes?, cosê-los, colar pernas cortadas e cabeças estioladas, gente a morrer e eu vê-los definhar, soluços de morte amor, tudo a meu lado, apenas e só, a meu lado.

Passeio matinal

Apetecia-me ver discorrerem as longas ruas da manhã, acordei com vontade de inventar para mim um silêncio que me encaminhasse a um destino inventado.

Sentei-me numa berma qualquer tentando ver a cor das coisas, o bramir das palmas nas paragens, o reinventar perante a existência, o frenesim que deambulava os carreiros de pedra, os sapatos barulhentos, apetecia-me mesmo sentir como se sentem as histórias.

Levo sempre um caderno para descrever a cor das coisas, decorar o beijo solto que divaga e segue e nada mais é fantasia, é tudo uma realidade descrita numa folha vaga, meio amarrotada, mas onde consigo descrever com palavras as verdades das incúrias escondidas por detrás de tudo que possa ser um jeito próprio de caminhar, o fundo fosco do horizonte, as maresias caladas, tudo me merece uma atenção especial decorada em cartões para turistas e visitantes do templo desta manhã que quero só minha. São as minhas sensações a desflorarem rua abaixo num vago eléctrico da cidade, uma cidade única, mas de toda a parte, uma cidade chamada de tudo para ser nossa, a minha vontade ali estampada como um cartaz de convite.

Vejo degraus vazios, sinto passos e nada mais vejo a não ser escadas, é tudo tão inebriante e fascinante, a felicidade cansa e a gente perpetua-a no imaginário deste papel riscado, já tantas as coisas nele descritas. Uma cidade de rotinas, mas diferente todos os dias, são as rotinas divagantes, umas vezes de norte para sul e outras vezes para norte, ruas que descem e sobem num vagar apressado como que a parecer existir vontade de as modificar, vê-las diferentes consoante o ângulo em que as veja. Jardins diferentes, tudo é efeito de algo, mas nada passa a ser indiferente, fascino-me diariamente quando me levanto e deambulo ruas de indiferenciados referenciados nas linhas escritas num desenho azul nas páginas amarrotadas desta dispersão que nunca se cansa, mas que me ensina a ver o mundo numa cidade presente.

A minha cidade não é inventada mas sim recriada numa vontade de que só a mim me apetece descrevê-la, aparece sozinha como que de uma fada se tratasse, é linda de verdade e tudo nela encanta, verdade, até o zumbido de cantares populares me fascinam, fazem-me viajar cânticos e trovas antigas, poemas riscados de que poeta vendendo cautelas para a felicidade de alguns, tudo é vasto e belo, e eu, sentado neste banco de jardim sonho com as estrelas que a natureza me devolverá mais tarde.

Sinto a areia levantar-se ou a relva a crescer, algo diferente mexe-se por debaixo dos pés ainda calçados, o banco tremula sob o vento distante e eu nele ainda, vivendo as ilusões de quem recria a vida nas folhas de um caderno cansado de ser usado.

Pensei em repetir este gesto, frequentar diariamente os caminhos trilhados na pele e suar a fome por esta vontade de um dia a pertencer, senti-la minha e nossa como se de cavernas se tratasse noutros tempos, vontade de sentir o vento que soçobra, o riso que esboça os limites do seu curso, o limiar das fontes que nascem creio que distantes mas vê-las contenta-me, talvez seja pedir pouco mas que importa, a vida é um sorriso madrugador e a gente entendo-o como nosso, um pertence intrínseco, como o caminhar ou falar, nada se aprende e tudo se ensina, somos filhos de tantas verdades amigo, falo-te de mim comigo sozinho a conversar com as lágrimas que se enxugam na única resma de papel que possuo. O teu caderno da cidade.

Poderá um passeio matinal ser tanta felicidade?

Não, mas pode ser o remanescer para tantas idades, a idade dos que partiram colados a esta cama ainda adormecida e que me inspira, ensina, faz com que a cidade seja neste quarto uma súmula sem vaidade, a vaidade cansa e canso-me da sua existência, a cidade mora ainda sozinha sempre que a visite, espera-me cantando volúpias por cada esquina que o sonho permitir.

Ceticismo

Juliana Bezerra

Juliana BezerraProfessora de História

Ceticismo é uma corrente filosófica fundada pelo filósofo grego Pirro (318-272 a.C.), caracterizada, essencialmente, por duvidar de todos os fenômenos que rodeiam o ser humano.

O que é?

A palavra ceticismo vem do grego “sképsis” que significa “exame, investigação”.

Atualmente, a palavra designa aquelas pessoas que duvidam de tudo e não acreditam em nada.

Podemos afirmar que o ceticismo:

  • defende que a felicidade consiste em não julgar coisa alguma;
  • mantém uma postura de neutral em todas as questões;
  • questiona tudo o que lhe é apresentado;
  • não admite a existência de dogmas, fenômenos religiosos ou metafísicos.

Portanto, se estivermos dispostos a aceitá-lo, alcançaremos a afasia, que consiste em não emitir opiniões sobre qualquer tema.

Em seguida, entramos no estado de ataraxia (despreocupação) e somente assim, poderemos viver a felicidade.

Origem

Pirro de Élida era um filósofo que acompanhou o rei Alexandre, o Grande em suas expedições pelo Oriente.

Nesta viagem, ele encontra várias culturas e sistemas políticos muito diferentes dos costumes gregos. Por isso, começa a duvidar porque observa que aquilo que era justo numa sociedade era injusto em outra.

Assim ele vai declarar que viver bem, para os céticos, é viver sem emitir juízos ou seja na “epoché”.

Como muitos filósofos de sua época, Pirro não deixou nenhum escrito e não fundou nenhuma escola. As informações que dispomos sobre seu pensamento são encontradas em fragmentos de obras daqueles que eram considerados discípulos do filósofo.Veja também:Filosofia Grega

Ceticismo Filosófico

O ceticismo filosófico de Pirro teve origem no helenismo e se expandiu como a “Nova Academia”. No século XVIII essa ideia seria em parte recuperada pelos filósofos Montaigne e David Hume.

O texto de Arístocles (séc. II), reproduzido na obra “Preparação Evangélica”, de Eusébio de Cesareia (265?- 339) resume este princípio filosófico:

Aquele que quiser ser feliz deve considerar três pontos: em primeiro lugar, o que são as coisas em si mesmas? Depois, que disposições devemos ter em relação a elas? Por fim, o que nos resultará dessas disposições?

As coisas não têm diferença entre si, e são igualmente incertas e indiscerníveis. Por isso, nossas sensações e nossos juízos não nos ensinam o verdadeiro nem o falso.

Por conseguinte, não devemos nos fiar nos sentimentos nem na razão, mas permanecer sem opinião, sem nos inclinarmos para um lado ou para o outro, impassíveis.

Crítica

No entanto, se seguimos o ceticismo ao pé da letra, teríamos que duvidar do próprio ceticismo. Ao mesmo tempo, não poderíamos emitir nenhuma opinião sobre o ceticismo. Será que é possível negar tudo que está a nossa volta? Se negarmos tudo, negaremos a própria negação e a dúvida que nos fez questionar o objeto.

Desta maneira, em algo devemos acreditar, ainda que tenhamos que contestar as verdades que nos rodeiam. A tirinha de Luís Fernando Veríssimo expõe bem este dilema:

Ceticismo
Os céticos podem acreditar em algo?

Ceticismo e Dogmatismo

O ceticismo e o dogmatismo são duas correntes filosófica opostas.

O ceticismo questiona tudo e reconhece na dúvida a única atitude do sábio. Para o cético, a renúncia a qualquer certeza é condição para a felicidade.

Por sua vez, o dogmatismo é fundamentado:

  • na verdade absoluta;
  • na capacidade do homem de obter a verdade sem questionamento;
  • aceitar sem discussão o que afirmam ou alegam.

Por isso, o dogmatismo é aceitar como verdade de tudo que existe e está em sua volta como nos diz a percepção natural humana.

Sobre as águas da vida o silêncio dói, cap. XXI

XXI

Os homens não se contam nem encantam. Dizem-se. Imagino uma selva ou uma serra, um deserto ou um castelo onde um dia Kafka invadira fingindo-se o agrimensor prometido, ou nas cartas de checoslováquia para uma alemanha vencida pela dor e dureza dos homens sãos e bons que matavam, a razão ali era o fio definhado da lucidez que faltava aos demais, se Ulisses de Joyce uma quimera ou odisseia reli a sustentação de que Borges sugerindo-me a escrita de deus no cárcere inventava grãos de areia que cresciam a cada sonho. Dei o meu corpo e a minha alma esvaziou-se numa falésia. Enternecidas estas gemas voam sobre prantos famintos, e o que sei é que foi, e o que foi, foi, se volta não sei nem quero, premissa miserável meu Deus, se o céu fosse o habitáculo dos sonhos desfeitos na planície, cântaros vazios por entre os tédios, fumegantes e repletos nasciam na distância, à beira os cervos gatinhavam os areais despidos de petulância, crescidos, fosse a vida uma certeza qualquer, ou consternação apenas. Ou se pueril acima dos ombros num peso de bradar, o silêncio da vigília neste canto inventado repleto de muros sem cor a saírem dos casebres cobertos de divindade, a voz nua subindo carreiros numa janela vermelha deste lugar que descubro a cada sonho que sinto, verosímil o silêncio das hostes, num mar que refuta, o pó laico da tarde numa casa que se perde a cada sombra que nasce numa noite que se arromba, como uma vírgula que divide uma frase, estendida na cama da verdade alojada no quintal de anos depois, acordado num relento de tempos esquecidos e vencidos e de mortes sem destino e sem nada, acima mais, coisa nenhuma, quem perde a alma, a ordem, quem se deslumbra na vitória, esquece quando perde, como quem sofre e se socorre dos vazios deixados após o dilúvio deste mar recuado num tsunami de mentira e sou, um sono prolongado. 

Acordar no vazio refrescante da praia. Numa praia de ilha. Num mar de sol, quente, um mar azul deste distante e intenso sonho entre paredes mordazes, um dia um choro em mim sobre a cara cremada num desejo queimado, neste saco branco a morte que me leva aos deuses do fim, na terra encoberto de quilos e pesos para acorrentar o fim que o destino cria.

Raios partam as matemáticas!  Prefiro os síbilos das inconstâncias, a metamorfose dos silêncios, a raiva e as iras do tempo, uma soma inconstrutiva de vontades e caminhos e é neles o meu regresso ao inconstante, ao momento por mim criado para me pertencer e ser vento no ouvido dos que me ouvem.  Impacientam-me os matemáticos com as suas regras lógicas numa vida apenas sarcedoçal, sem limites nem estigmas, apenas bíblica e regida por vontades abstractas porque sim, a razão é inócua e vale apenas o momento, a vontade é eterna e vale uma vida esgrimida em esforços e lutas contra nós mesmos, içar amálgamas e de que sangue me formatar, reformar, inventar.

Desejo por de mais sonhar todos os dias, escrever dogmas e reinventar como lidar com eles, aguentar as suas inconstâncias dentro de nós mesmos e neles ou com eles caminhar por uma estrada ainda por descobrir, a vida resma coisas destas, é assim, seguir.

Penso que não calculo o meu desejo quotidiano com um mais, uma coisa parecida, prefiro voar intemporalidades fantásticas num esquema elaborado por retractos coloridos, viver palavras sem som e num silêncio escrever o teu mais resquicioso momento.A minha alma soma momentos, amarguras, somo inquietações e distâncias, suo um rumo perdido e escrevo cadernos a carvão nesta casa sem pão, somo milhafres, vejo ao de longe passarinhos fluídos na tarde desaparecendo com a escuridão, sonho letras desaparecendo nos cadernos antigos e a sala onde escrevia, os sonos perdidos para inventar quem dizer o que quer que fosse, resmas de palavras seguidas e onde o sentido?

Apenas a lua quando acorda

Sinto-me a perpétua ir das suas lágrimas neste esplendor de sons tão peçonhosos, estes rios que secam na aurora no definhar das ideias. Um passarinho obtuso no chão sujo de quimeras e palavras amargas, um defunto que caminha sem saudades da vida.

Os passos que ouço são o abismo que se aproxima, a espuma que toma conta dos meus olhos e mos cegam como goivos sem asas, sou a mísera peralta de todas estas assombradas verdades, as que se me inculcam no esqueleto e ainda tento, mesmo sem asas, voar como um platónico escarnecido e apenas isso.

Carne sem ossos e sem essência.

Sinto-me completamente embriagado com estes ventos que me cercam, estes andros de vozes caladas nos estribos da fantasia, nas melodias que nunca se chagam, um longe cada vez mais presente nesta cabeça estiolada pelas ancoras de passos corrosivos. A minha cabeça parece querer deixar de existir, fumegar palavras irrefutáveis como quem fala ao desdém de costas abrasivas e incólumes.

Quem me diz se isto cansa?

“apenas a lua quando acorda”

Tudo isto são avenidas de sentido proibido. Revestidas de lama escorregadia. De petulância nos gestos, os açoites disfarçados, do sono de morte a que me levam as ideias.

Sinto-me já o defunto de mim mesmo nestas cartas que escrevo para o céu.

Prefiro caminhar de olhos fechados para que não veja as árvores tombarem à minha frente, o ruído das suas quedas sobre este ombro dorido de ânsias.

Deixa-me caminhar se puderes, deixa-me respirar se conseguires. Não quero hibernar para dentro das minhas tão confúcias algemas no corpo preso ao infortúnio que é esta luz que me encarde e encaminha para os nadas que suam. E gesticulam. E vomitam as suas sanguinárias ostentações e domínios disfarçados em flores do planalto mais alto se é que existe, mas sinto-o aqui bem presente como cestas para vender desejos.

Sinto o meu corpo num leilão.

E como sei ter sido já um leão. O gato sem pele nas agruras de palavras miada na esquina.

“apenas a lua quando acorda”

Sobre as águas da vida o silêncio dói cap, XX

XX

A noite é um monte de prantos. Apenas lagartixas viajam as paredes e num sono tão profundo que voz, tudo se parece com um sonho e a voz é uma verdade inventada. Cala-se quando acordo. Sonho, dizem os indígenas da minha cabeça evaporada de tantos cansaços. Não um presídio, uma viagem refastelante e com tudo a meu lado um cansaço sagaz vadia-me por dentro como que a instigar-me e a voz lá,

– ainda és uma criança rapaz.

refastelada no sofá da sala onde tantos anos dormi e sentado eu do outro lado, uma almofada acoplada às costas,

– preciso tanto deste repouso.

quem não tem mãe deixa de sonhar, os gafanhotos no quintal sem patas nem asas, e eu em reparos olhando, uma corrida de galos ainda enfeitavam o momento e eu distraído, a cabeça frita silêncios, a alma é um corredor distante e nesta casa tudo é distante, as vozes ecoam apenas palavras esquecidas e nós nada, o crocodilo enjaulado num lago lá fora, a minha esposa ainda dorme e nem ela comigo as vozes calam-se tão de repente que nem eu me apercebo de onde me chegam,

– acordas amor?

tão cedo ainda e que relógio a registar a minha ausência da tua cama, a minha mão tão fria enquanto o teu sono tão teu, chamo calado o teu nome, e tu num sono tão profundo nem lá, todos os outros ruídos são paredes pintadas de branco. As folhas tilintam uma chuvinha brame, o açúcar enche a chávena e mais um café para saciar o cansaço, não entendo este cansaço, não há motivos e o cansaço mora comigo tantas noites e durmo se acordo às vezes sem vozes a irritarem-me, um chapéu distante na televisão em vez de trilhos, os tiros cansados também já me chateiam, sentei-me à porta da casa velha onde ainda a minha mãe, os meus irmãos corriam atrás de que bolas chutadas jogam a vida num percurso nosso para onde, o espelho à frente revejo-me nele a minha cara destapada miro-me de cigarro entre as falanges desdentadas e desembrulhadas de gargalhadas penduradas e que telas lá, a parede branca, ainda branca.

Uma parede onde ninguém, jaziam apenas memórias de um tempo sem idade e o escuro lá, nada a fazer esquecer o vomitado contra as ânsias, contra as inconstâncias, apenas e só um tempo espetado numa parede de ninguém.

Nem dormi, nem li…

– Talvez, sabes dizer onde?

… o cabo carvoeiro nas agruras do feroz mar entrando com as suas subtis vagas, sei que nem só isso, o mar quando invade também leva a espuma que flutua sobre si, rodopiando e tantas vezes gemendo também, respeito pelo chefe que é a força dos antípodas, essas águas são tantas vezes selvagens e ignorantes que levam até inocentes, meninos e mastros, onde marinheiros e não só sucumbem, bandos de madeira levada e morte não devolvida, a espuma teme o chefe e por isso responde, indo com ele, sabemos que é o mar e o que com ele existe, miséria, mistério, beleza, força, morte…

– aprendi na ria. 

… e tu cansada nessa cama quem me dera, olhavas para as nuvens que rumavam ou mesmo que sem rumo, te guiavam ao Egipto e sobre esfinges, pirâmides, o seco duro na terra, pensas num deus e sabes do mar, deitada sonhas como Epicuro, viajas como Diogo, voas como Sacadura em aviões com asas de água, afagas com um amor o engenho nazi o suor seca…

– Sonho margens e séculos e não paro, toca-me! 

… ponta de sagres adormece, e sob os seus pés um frio do sul este mar nem dorme, nunca dorme, é noite e dia assim, fere e apazigua, Saramago dizia sem mar não escrevo, Antunes diz sem mar não escrevo, Beckett vivia no mar, Pessoa andava pelo mar nas suas esfinges de latão e subia o mediterrâneo numa canoa de pau e sem remos, velas quem sabe ou como seria possível navegar ostras e durezas tão duras como o metal dos céus a caírem sobre os telhados, Cardoso num bar e eu sem nada aqui, escrevera nevralgias para que os destinos não adormeçam, fria a cerveja na trindade com Hélder, barbudo e de chapéu vendido, largo longo e escuro porque nem sei, se um dia perguntasse responder-me-ia o dilúvio, escrito num guardanapo de óleos sacados dos lábios no marisco comido entre coisas bebidas, e a rua desce, um cansaço sem fim entre aspas, após a noitada nem sei se é descida ou subida ou coisa nenhuma, como se a noite fosse portimão a eclodir-se nas castas do douro.

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