As cores da rutura

Um pacto entre mim e o silêncio. Calei-me de vez. Brincarei apenas nestas ravinas de saudade e medo, nestes eucaliptos da verdade num cheiro de alecrim se der e pronto, tudo luzirá como o escuro.

Neste bar obuses como abutres.

Que raio este ruído que escorre paredes abaixo como pinceladas de nervos.

Ouvem-se tiros de metralhadoras cansadas e sem o brilho de anos no exílio.

Mortalhas verdes como sumos de vertigens nesta insónia impotente e crua como qualquer vaidade inexistente. É verdade, não valer nada dá nisto.

Passeios de rua como sufocos num assoprar isolado, um ar de esgana enfeita a garganta de sangue como brumas de espuma neste mar de todos os infinitos, desço a melodia mais próxima de mim para que a sinta envernizada de cinza, visto-a na pele como escamas de cobras isoladas e as paredes fechadas ao fundo sigo, sou eu um mesmo igual a tantos outros eus nesta caminhada sem vingança, canso-me somente e por isso apenas nada mais, verdade, as cores da rotura são o silêncio a que me imputam os juízes deste purgatório estrelado numa frigideira de sangue amarrotado.

Neste bar obuses como abutres.

Como cóleras nos ossos do futuro.

Esse vindouro ido num tempo nunca esquecido. A fome de ter sede. Tanto me apetecia o verde dos jardins de infância.

Um pacto entre mim e o silêncio. Calei-me de vez. Brincarei apenas nestas ravinas de saudade e medo, nestes eucaliptos da verdade num cheiro de alecrim se der e pronto, tudo luzirá como o escuro.

Os amigos arrancaram-se de dentro de mim como uma viagem sem paradeiro, tudo é floresta e fogo num jasmim de cores pintadas na fantasia do sorriso, da alegria ofuscada em cada gesto de tempo que se queira e onde as mãos que me agarrem como o prisioneiro dos meus casulos de vento?

Nada é pontapé na bola. Tudo isto é neve que derrete de cansaço e esgana nas escamas dos silêncios mais felizes da partida para lugares ainda não descobertos, sim, esses mesmo, os que recrio apenas na gramática da fonética vadia da saúde.

Cada vez mais lentamente palpita o coração, sente o ritmo da melodia que escorre o horizonte e inventa nos ouvidos gemidos de felicidade, de velocidades esquecidas, pois, nada valem os contrários deste tapete a que chamam de tornado. Entorne-me num voraz acocorar de diarreias vomitadas na falésia, na fronteira das certezas e em frente a isto o instinto nada como torpedos ou tiros na cabeça cada vez mais dentro de si mesma. Multiplicou-se em si para que se possa talvez pertencer.

Escurece na maresia.

Os funcos na areia.

Raízes perdidas de gente desaparecida das consciências e nelas a cama da despedida. Adorar o cheiro cru do mar em mim para dentro de todos os sonos vencidos.

Meritocracia

Juliana Bezerra

Juliana BezerraProfessora de História

Meritocracia significa que todo indivíduo é capaz de prosperar somente com suas capacidades sem precisar da ajuda da sociedade, Estado ou família.

O que é?

Após a Revolução Francesa, com a ascensão de Napoleão Bonaparte, o novo dirigente da França decretou que a origem de nascimento não contaria mais para o ingresso nas carreiras públicas.

A partir daquele momento, não seria feita distinção se a pessoa veio de uma família nobre ou burguesa. Todos deveriam ascender socialmente através do esforço próprio.

Essa foi uma ideia que perpetuou no século XIX, especialmente nos países anglo-saxões e encontrou grande acolhida nos Estados Unidos.

Afinal, nestes países predomina a concepção protestante, especialmente calvinista, que a riqueza é um sinal da bênção divina.

Nos Estados Unidos, já faz parte do imaginário nacional a ideia do self-made man, o homem que se faz a si mesmo, apenas com seu próprio empenho.

A ideia de meritocracia inspiraria políticas públicas que garantissem que todos os cidadãos tivessem as mesmas oportunidades. A mais bem-sucedida delas foi a do Estado de Bem-Estar Social.

Assim, se todos podem ascender socialmente através do esforço, aqueles que não o faziam eram preguiçosos e culpados de sua própria miséria.

O conceito de meritocracia, porém, só pode ser válido quando todos os indivíduos de uma sociedade possuem exatamente as mesmas condições sociais, econômicas e psicológicas.

Meritocracia charge
A charge critica a justiça da meritocracia

Significado

A palavra “meritocracia” foi cunhada pelo escritor, sociólogo e político inglês Michael Young (1915-2002) quando lançou seu livro “The Rise of Meritocracy”.

No romance, Young cria uma sociedade futurística onde todas as pessoas seriam avaliadas somente por seus méritos.

No entanto, ao invés de favorecer os mais débeis, a meritocracia acaba por aumentar o abismo existente entre a elite e a população.

Michael Young recorreu à palavra latina “mereo” (ser digno, ser merecedor) e o sufixo grego “kratos” (poder, força) para formar este novo vocábulo.

Meritocracia no Brasil

Meritocracia charge
Será que no Brasil todos têm as mesmas oportunidades?

A definição de meritocracia no Brasil ganhou força nas duas primeiras décadas do século XXI. A oposição usava este conceito para criticar o Governo Lula e o Governo Dilma.

No entanto, a meritocracia, para ser válida, deve propiciar à toda sociedade as mesmas oportunidades. O Brasil, um país cheio de desigualdades sociais, está longe de oferecer as chances iguais para todos os cidadãos.

Mesmo assim, através de estórias de pessoas que superaram as dificuldades para estudar, parte da mídia começou a divulgar que era possível interromper o círculo da miséria apenas através do próprio esforço.

Quadrinhos

O ilustrador australiano Toby Morris criticou a concepção de meritocracia na sociedade atual através de uma interessante estória em quadrinhos chamada “De Bandeja”. Você pode baixá-la clicando aqui.

Leia mais:

Sobre as águas da vida o silêncio dói, cap. XXVI

XXVI

Às vezes, esta voz canta para si mesma os rugidos da tarde. Uma vontade ilimitada espraiada nos horizontes alojados entre quimeras disfarçadas de açudes, um longo corredor onde os sons parecem ventos levados pela ausência de que luz a encanta-los, sim, talvez a metamorfose de cada dia ali passado sentado na berma de que rua desconheça e apenas na memória a sua existência. Um azul ténue deslumbrando-se pelas caminhas de azoto à espreita de novos cânticos como se faziam antigamente, antes ainda do alvorecer.

Uma senhora encantadora espalha o seu brilho com cheiros de perfume francês e eu na mesma, descortinando se conseguir, a origem dos seus passos mesmo à minha frente, a voz encantadora da vendedora de ananases na esquina mais próxima do trânsito cativando e procurando a venda num só gesto.

Ali, como a fazer um trabalho meritório, algo a registar nas enciclopédias dos tempos e por essas bibliotecas espalhadas com as fotos e biografia completa de todos os escritores desta nação escondida de si mesma, desfolhada tantas vezes sei lá, sonho aqui, ao lado do tempo que se vai ao entardecer sem que sequer me aperceba, vontade terrível de ser feliz sentindo-te, mesmo que longe dos meus braços, leio e releio este jornal de ontem onde notícias já consumidas por alguém me despertam a existência de astros sobre a cabeça cansada.

O brilho que já se deita na sua paz sozinho, o descanso prometido pela existência, folhas esvoaçam perdidas sem rumo e sem vontade, o alcatrão na mesma e eu ainda ali na esperança de crianças a abraçarem-me com os seus sorrisos fininhos como neve sobre a minha face de pensador de templos ainda vivos nesta carne alimentada e viva, sim, descubro a cada passo uma vontade nova, algo que me desperta para descobertas em mim mesmo sem que me canse, vivo-as na sua plenitude e sem rumores o meu olhar nelas como uma ave sobrevoando todos os céus que possamos imaginar.

De repente o trim-trim de um telefone qualquer a desviar-me dos meus pensamentos ainda presos na inconstância, na vontade de os libertar para cima dos sonhos que me levam ainda acordado a descobrir mundos de que lado sejam, pouco importa, sinto como me apetece tudo isso num piscar de olhos, um esticar de dedos, sentir as nuvens que viajam para tanto lado sem que se saiba o seu destino embora pouco importe isso. O importante será talvez eu mesmo assumir a minha identidade de cidadão desta distância de todas as coisas que possam flutuar devagar e nunca se perdem.

A importância das coisas está na sua insignificância, na divindade de cada abraço, no olhar imparcial e não só, na vontade que possa imperar cada dia superado, na proximidade a cada casa sem janelas e nelas a mensagem por escrever e mesmo assim colocada no alpendre para que todos possam um dia recordar a minha existência, sim, vivemos todos o abraço da vida, o despertar, a marca que registamos em cada esquina desta rua onde ainda me encontro sentado observando o movimento que à nossa volta gravita. 

Bebi da sua arte

Deitei-me ontem aqui à beira de um rio baldio sonhando já. Desvendei nele a coragem de viagens infinitas, o percurso sinuoso das suas artes embrenhadas de alma e sangue frio.

Devo ter sonhado o rio a distanciar-se, a perder-se nas maravilhas que a natureza oferece e eu encostado a uma pedra de verdades. Não bebi da sua água mas sorvi dele a verdade da vida, um pedaço que seja para que me ensinam os apóstolos dos percursos ainda por descobrir nesta maresia de rio chamada infinito, sim, deitei-me para descansar as verdades que a vida me ensina, os dilúvios onde giestas embaraçadas percorrem como que se o rio fosse a sua vida, a minha vida, a vida dos que dele bebem a sabedoria que ele contém.

Bebi da sua arte observando o longe, o distante, o próximo na minha cabeça atenta. O rio era uma falésia de goivos voando e sobrevoando as suas ondas e quedas, a sua corrente, observei calado e sentando-o a distanciar-se sonolento, mas fértil de vida, os sinos ao longe a vangloriarem a tarde.

Deitei-me com ânsias nesta azia repleta de viagens, de recordações e margens, o vulto da distância sobre a nossa cabeça e nós calados sentados na rampa que dá para o rio o nos faz sonhar, pensar e repensar o longe, o destino deste rio acalentando-me numa só voz palavras escritas na areia. Sento-me sempre que a vontade me inspira vê-lo, preciso e não sei por quê ainda de rios, de ver as águas fluírem no mesmo sentido que segue para sul, sorver também o calor que nos cobre de risos. Desfolho a natureza num subtil gesto de paciência e vontade e vejo-o verde a ladear-nos, uns passos à frente e a água ainda desfila a sua longa caminhada, a sala nas memórias repletas de vontade, uma vontade infindável de defini-las, descrevê-las numa esfera de palavras e vontades a céu aberto, onde em tempos a tia Zulmira me recordava dos seus tempos para ela verdadeiros.

Brilhantes silêncios caminham sobre a vista ali proposta, ideias que se misturam com a tarde, vontades imensas e reviver os dias, crescer aos poucos aprendendo com a natureza. À volta tudo é presente, tudo é instante, tudo deambula num fervor de ânsias que crescem como pássaros distraídos sobrevoando o momento, a voz trémula da Dona Zulmira encaminha-nos para um almoço quieto sob árvores que balouçam largando folhas cansadas, uma mesa de pau velho e seco fazendo-me lembrar a juventude, um almoço de frutas e legumes tirados da horta inventada nos quintais da vida, nas salas do tempo relembrando os templos e os jardins da Grécia.

Assim sendo a sala de casa, a cama voltada para a janela que dá para o nascer do sol, os lençóis de cetim brilhantes encobrem-me enquanto durmo ainda. Pelas frinchas a luz da rua irrompe tentando despertar-me e que vontade de continuar a bailar pelas minhas ausências deste sonho de verdades, um sono suculento embrenha-me, o copo da água trazida do rio ainda cheio refresca-me e parto de novo sonhando como que já nada mais interessasse, sentir um navio distante a percorrer-se sóbrio, invento instantes enquanto me distraio com as curvas de um rio que desce no sentido da vida, crescendo quando se junta ao mar, a minha vida ali estampada.

Beber da arte da vida é estar sentado junto ao rio, não sentir a velocidade da vida, beber dos tempos, sentir os instantes deambularem
devagar por entre todas as viagens que percorrerem comigo o meu desejo, sim, sinto-me nascer todos os dias.

Jean-Jacques Rousseau

Jean Jacques Rousseau (1712-1778) foi um destacado filósofo social e escritor suíço. O mais radical e popular dos filósofos que participaram do movimento intelectual do século XVIII – o Iluminismo.

Sua obra principal, “O Contrato Social“, serviu de verdadeiro catecismo para a Revolução Francesa e exerceu grande influência no chamado liberalismo político.

Defensor ardoroso dos princípios de “liberdade, igualdade e fraternidade”, o lema da revolução, é visto como o “profeta” do movimento.

Biografia de Rousseau

Jean-Jacques Rousseau
Retrato de Jean-Jacques Rousseau por Maurice Quentin de La Tour (1753)

Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra, Suíça, no dia 28 de junho de 1712. Filho de um relojoeiro protestante fica órfão de mãe logo ao nascer. Em 1722 fica órfão de pai.

É educado por um pastor protestante na cidade de Bossey. Com 16 anos de idade vai para Savóia, Itália, e sem meios de sobrevivência procura uma instituição católica e manifesta o desejo de se converter-se ao catolicismo.

Demonstra grande interesse pela leitura e pela música. De volta à Genebra, retorna ao protestantismo. Exerce vários ofícios: relojoeiro, pastor e gravador, todos sem sucesso.

Em 1732, Rousseau muda-se para Paris, onde conhece Madame Warens e ao lado dela, como autodidata, conquista grande parte de sua instrução. Ao deixa-la, em 1740, vive como andarilho, até que em 1742 conhece outra senhora ilustre que ajuda o filósofo.

Graças a sua protetora torna-se secretário do embaixador da França, em Veneza. Dedica-se ao estudo e compreensão da política. Em 1744 volta à Paris e no ano seguinte escreve um tema para balé, “As Musas Galantes”. Conhece Thérèse Lavasseur, criada de um hotel, vivem juntos e têm cinco filhos, todos enviados a orfanatos públicos.

Morando em Paris, descobre o Iluminismo e passa a colaborar com o movimento. Torna-se conhecido por seus trabalhos sobre política, filosofia e música. Em 1750, ganha o prêmio do concurso da Academia de Dijon, com o “Discurso sobre as Ciências e as Artes”.

Embora já tenha colaborado com Voltaire em trabalhos iluministas, em seu ensaio afirma que as ciências, as letras e as artes são os piores inimigos da moral. “Tudo o que distingue o homem civilizado do selvagem é um mal”.

Rousseau faz frente a toda uma sociedade. Assume uma posição que vai influenciar não só a Europa, mas todo o ocidente. Sua atitude é de acabar com todos os códigos vigentes. Destruir a falsidade imposta pela sociedade.

Rousseau ataca a arte, porém, dedica-se à música e escreve a ópera cômica “O Camponês da Aldeia” e a comédia “Narciso”, ambas em 1752.

Desenvolve ideias expostas no seu discurso premiado e escreve “Discurso Sobre a Desigualdade” (1754).

Nesse trabalho, reforça a teoria já levantada reafirmando: “O homem é naturalmente bom. É só devido às instituições que se torna mal”. Ataca a desigualdade resultante de privilégios. “Para desfazer o mal, basta abandonar a civilização”.

Em 1756 Rousseau torna-se hóspede do palácio de Madame d’Epinay, quando inicia suas três maiores obras: “Nova Heloísa”, “O Contrato Social” e “Émile”.

Em 1761, publica a Nova Heloísa, onde exalta as delícias da virtude, o prazer da renúncia, a poesia das montanhas, florestas e lagos. “Só o ambiente campestre pode purificar o amor e libertá-lo da corrupção social”. O livro é bem recebido, é a primeira manifestação do Romantismo. A natureza entra em moda. Rousseau é chamado “O Bom Selvagem”.

O Contrato Social e Émile

O Contrato Social, livro publicado em 1762, é um plano para a reconstrução das relações sociais da humanidade. Seu princípio básico se mantém.

“Em estado natural, os homens são iguais: os males só surgiram depois que certos homens resolveram demarcar pedaços de terra, dizendo a si mesmo: Esta terra é minha. E então nasceram os vários graus da desigualdade humana”.

Para Rousseau a única esperança de garantir os direitos de cada um está na organização de uma sociedade civil, com direitos iguais para todos. Isso poderia ser realizado por meio de um contrato social estabelecido entre os vários membros do grupo. Por esse acordo, cada indivíduo concordaria em submeter-se à vontade da maioria: nasce o Estado.

Em Émile, o mesmo plano de reconstrução da humanidade baseia-se na educação. É uma espécie de romance pedagógico.

Rousseau figura o herói como uma criança completamente isolada do meio social, sem receber nenhuma influência da civilização. Seu professor não tenta ensinar-lhe virtude alguma, mas trata de preservar-lhe a pureza do instinto contra as possíveis insinuações do vício.Veja também:O Estado de Natureza em Hobbes, Locke e Rousseau

A Perseguição e Morte de Rousseau

A publicação do Contrato Social e Émile, com ideias democráticas, são audaciosas para a época. Edições de Émile são queimadas em Paris. Decretada sua prisão na França, Rousseau refugia-se em Genebra, mas seus livros também incomodam o governo.

Seus livros são considerados “temerários, escandalosos, tendentes a destruir a religião cristã”. Constantemente perseguido, encontra asilo em Môtiers, sobre a proteção de Frederico, o Grande. Aí vive de 1761 a 1765. Nessa época escreve: “Cartas Escritas na Montanha” e “Projeto para a Constituição da Córsega”. E inicia “Confissões”.

Em 1765, acusado de envenenar os aldeões, conduzidos por um pastor, foge para a Inglaterra, onde Jorge III lhe concede uma pensão. Sua saúde mental já está abalada. Sofre de mania de perseguição e chega à demência. Desesperado, foge mais uma vez e viaja sem destino.

Nessa vida errante, escreve “Considerações sobre o Governo da Polônia” e “Devaneios de um Pensador Solitário”. Em 1778, é acolhido pelo Marquês de Girardin em seu domínio de Ermonville, França, onde vive seus últimos dias. Jean Jacques Rousseau morre de apoplexia, no dia 2 de julho de 1778.

Leia:

Sobre as águas da vida o silêncio dói, cap. XXV

XXV

Com mil tempos de tédio na tenda de campanha ou na batalha, vai o soldado. Mil tempos a caminhar descansado neste campo verde e seco onde rios e nada de mar, mil tempos a sorrir desgostos e sem apóstrofos delegar a minha vida à saudade, mil tempos a definhar silêncios neste barulho infernal de tiros e balas perdidas a ver camaradas estendidos, mil tempos a sonhar com um regresso ainda por sonhar e sempre pensado, adivinhar as minas e o jeep a caminho, picadas e mato num intervalo apenas imaginado e neste o meu canto onde vim para me salvar, mil tempos de inglória onde que glória, uma bandeira assombrada sobre uma caixa e por cima herói pela pátria depois de nada mais se conseguir.

Parece tudo tão lento e ao mesmo tempo rápido demais, uma bala alojada num peito ou um furo nos pneus do jeep, uma mina cansada de nada fazer explodir-nos e atirar-nos para as bermas vadias deste mato sem dono, a noite alonga-se, parece não terminar, a caminhada definha-nos e nós cansados, a farda suada, a boina tombada, o jeep grita nostalgias tal o seu cansaço, a gente caminha e que destino?, rumamos sem direcção, a bússola à ilharga de um sorriso e nada de sorrisos, tudo nos pesa e cansa, mil tempos em cada campanha e a vida flui como se o dia estivesse ali sentado a nosso lado.

Cumprimos ordens de um estado gordo e bafiento, sentimos a sua sonolência, as suas vertigens e alucinações, sentimos a sua inconsciência e insanidade, somos apenas o que somos numa campanha de ninguéns seguindo em marcha fúnebre instruções superiores onde ninguém é nada a não ser um soldado que o estado obrigou e a ter de cumprir, nem penso na importância da vida nestas masmorras cansativas e nem Salazar lá, sou um soldado obrigado a sê-lo ou então caxias para sufragar a desobediência.

Escrevo silêncios nesta cama de hospital a saborear a vida lendo restos esquecidos numa esquina de qualquer página da minha vida e eu ali, devorando o entusiasmo desta alegria de sorrir ainda.

Não me sinto cansado, desafio a todos os instantes a minha ânsia, o meu respeito pelo tempo que me dispõe ainda estar vivo, sim, sorver o prazer de poder ver o sol nascer enquanto as folhas deste livro se abrem, uma a uma, sem pressas, todo o tempo é válido nesta cama só minha.

A gente ali consegue entender o absurdo, perceber o precipício, vislumbrar o soluçar cadente da gente ali dispersa por camas e sonhos perdidos. Ouve-se ao longe o silêncio da partida e a voz de quem nos queira engolir. Entendemos então como fintar o fatídico, simular o fim e reviver sem angústia.

Um renascimento real e as janelas a iluminarem os corredores longos que me cercam, os passos de gente calma na cura de tantos que definham e sem saudades e sem memória já, gemidos cansados e famintos, fome e sede, sente-se a vida desviar-se dos corpos mal tratados pela impaciência de se ser correcto. Umas gotas do céu molham a rua fustigada, o vidro da janela pingado e eu ali repensando o futuro sem esquecer que o passado viveu comigo anos a fio.

A gente sente o silêncio da alma, o percurso que o destino nos reserva, a gente sabe quando força a razão natural das coisas, o que obrigamos a que o nosso corpo ceda tão rapidamente desta existência excelente, sabemos tão bem conviver com os hábitos, beber da água que nos preencherá por dentro e dará cor e brilho por fora. Por isso escrevo silêncios guardados na alma nesta cama cansada de me suportar, a que me convida a sair e correr bem depressa pelas ruas do fantástico, receber as divindades do mar e da terra numa rua qualquer da cidade, viver como se deve sem suportar o cansaço da dor e da fantasia.

Não me sinto cansado porque sei como viver sem que o cansaço me absorva, sem que o mal seja um parceiro para o meu destino não desejado, sem conseguir dormir como se dorme como um anjo e se sonha como uma criança, com esperança, com fé, força e razão, uma verdade alojada à cabeceira da vida e nesta cama serei tudo isso, ansioso pela vida vivida sem dor nem remorsos.

Levanto-me, dou uns passos tranquilos e tento primeiro ver a rua, olhar de soslaio o sol que ainda dorme, nuvens atravessam o céu sobre a minha cabeça e a melodia do dia a começar, o vento quieto por entre o meio escuro ainda e eu ali, olhando também para dentro de mim mesmo para que me perceba, planear o dia, as actividades que me irão sustentar e animar sempre enquanto tudo é ainda tão verde. Sim, encontrar uma juventude que perdure e fique, um sorriso que me alimente a cada suspiro, sentir a razão da felicidade escorrer por cada poro dos meus dias que se reiniciam todos os dias e sempre diferentes, acutilantes e fantásticos, sentindo na testa o brilho das ideias e da performance dos nosso gestos e actos.

Sim, não me sinto cansado.

Algo longe é tempo

Havia sempre à porta da nossa casa uma sentinela de espada e foice que martelava como pica miolos o suave cheiro que a órbita cega consumia.

Eram se calhar tempos de que nada me recordo a não ser inventar como uma ingénua criança aqueles sorrisos nada matreiros, era de facto verdade e é, da forma como entendi e hoje resplanto neste canteiro de letras para ninguém, sei como nada se importarão os que a virem mas na cabeça ainda a espada e o sentinela e com ele a volúpia de ermo da lei numa postura a que o recomentavam, ou direi ainda, como a impunham. Se me lembro, era castanha a porta e por trás o azedo escondido

“aí quieto!”

sei lá de quem já nem me importará claro, mas apetece agora não esgrimir, mas nem vacilar as crianças só dormem enquanto de facto dormem, a minha mãe nunca se sentava tal era o tempo que o permitira e apenas servir era uma obrigação

“os miúdos?”

numa afama calada e nada, o quintal sempre na cabeça enfim, o ruído esquizofrénico da máquina de costura num longe tão perto sei lá, isto de pensar agora nas distâncias são outros vinténs dizia a quimera, uma senhora antiga e já revolta numa paz de arrumos onde os livros secam.

Um dia, o sonho despertará quem sabe, acredito sabe?, estas acutilantes invasões que tanto perturbam nem sempre são o mesmo sumo sacro de ideias que entendo terem ido já mas mesmo assim ainda senãos, há imensas vírgulas para repartir num texto por escrever enquanto a gente nele viaja como um sacrificado em si para tudo e tantos lá, seremos mais que prováveis reféns de ostracismos de colónias de férias como eram os tempos a que me refiro no início, presumo que entendam ainda que nada faça sentido, o importante não é esse sentido que entendam ser a lógica destas matemáticas de filósofos dos arrufos de Arquimedes, um sonhador só se cala enquanto dorme e ainda assim pensa numa tela filmada para sonhos ou sonhadores e que importará essa verdade que um dia será de verdade o filme para a nossa vida?

“raios me partam as metafísicas!”

A minha mãe sei lá onde e o meu pai

“os miúdos?”

na portaria do tempo, abrira-se e a enchente para nos contentar um beijo e bom dia fui, eram já tantas da tarde e sozinho o meu sorriso era mais quente para dentro que a vontade de viver essa rumaria sem vaidades,

“baixem as guardas por favor!” e dormi como sempre até hoje, ou será que me esqueço de algo?

Auguste Comte

Auguste Comte foi um dos mais importantes filósofos e sociólogos franceses.

Atribui-se a ele a criação da disciplina Sociologia, bem como a corrente filosófica, política e científica conhecida como Positivismo.

Sua contribuição teórica ainda é importante, com o conceito político da “Lei dos Três Estados”.

Biografia

Auguste Comte

Busto de Auguste Comte em Paris, França

Isidore Auguste Marie François Xavier Comte nasceu em Montpellier (Hérault), na França, em 19 de janeiro do ano 1798. Era filho do oficial de taxas Louis Comte e Rosalie (Boyer) Comte, uma monarquista devota do catolicismo.

Em 1814, ingressou na “Escola Politécnica de Paris”, e, com apenas quinze anos, destaca-se como aprendiz brilhante.

Entre 1817 e 1824, foi secretário do conde Henri de Saint-Simon, grande nome do socialismo utópico, o qual teve influência decisiva na obra de Comte.

Mais tarde, em 1822, publica “Plano de Trabalhos Científicos para Reorganizar a Sociedade“. Pouco tempo depois, sofre um colapso nervoso (1826), do qual se recupera somente em 1830.

Nesse meio tempo, publicou os seis volumes do “Curso de Filosofia Positiva“.

Entre 1832 e 1842, Comte foi tutor e examinador na “École Polytechnique“; ainda em 1842, separa-se de sua esposa e inicia um relacionamento platônico com Clotilde de Vaux.

Neste contexto, Auguste Comte já vivia do favor financeiro de seus amigos e admiradores. Em 1848, criou uma “Sociedade Positivista” e entre 1851 e 1854, redigiu o “Sistema de Política Positiva”, no qual propõe uma interpretação para a sociedade humana.

No ano de 1856, publicou o primeiro volume de “Síntese Subjetiva“, o qual não completou, pois morreu de câncer em Paris, no dia 5 de setembro do ano 1857.

Principais Ideias

É importante salientar que Comte viveu sob a égide da Revolução Francesa, bem como da ciência moderna e da Revolução Industrial.

Portanto, seus ditos e escritos são referentes as intensas transformações sociais, econômicas, políticas, ideológicas, tecnológicas e científicas decorrentes da consolidação do capitalismo.

Nesse contexto, ele percebeu que os fenômenos sociais deveriam ser percebidos como os outros fenômenos da natureza.

Isso porque eles eram apenas um tipo específico de realidade teórica, o que implica que devem ser enunciadas em termos sociais.

Ele cunha o termo “sociologia”, para designar uma doutrina social baseada em princípios científicos, dividindo-a em dois campos:

  • os estudos das estatísticas sociais para a compreensão das forças que mantêm a coesão social;
  • as dinâmicas sociais em si, para o estudos das causas das mudanças sociais.

Portanto, a “Física Social” ou “Sociologia”, partiria dos princípios da observação, experimentação, comparação e classificação enquanto métodos.

Ela tinha como finalidade tudo o que é “positivo”, ou seja, o real, o útil, o certo, o preciso, o relativo, o orgânico e o simpático.

Daí surge a outra contribuição de Comte: o Positivismo. Ou seja, a visão pela qual a análise dos fatos abandona a consideração das causas dos fenômenos e pesquisa suas leis, uma vez que são fenômenos observáveis.

positivismo pregava um modelo de sociedade organizada, na qual o poder espiritual não mais prevaleceria, ficando o governo à cargo dos sábios e cientistas.

Este novo método geral para a ciência caracteriza-se pela observação em aliança com a imaginação. Estão sistematizadas, por sua vez, segundo princípios adotados pelas ciências exatas e biológicas.

Contudo, vale notar também, o fato de Comte perceber que cada tipo de fenômeno possui suas particularidades. Isso implica dizer que há um método específico de observação para cada fenômeno.

Outra importante criação de Auguste Comte foi a “Religião da Humanidade”, com bases teológicas e a metafísicas. Isso tudo, reconhecendo a preponderância do papel histórico desempenhado pelos estágios provisórios da Humanidade, previsto na “Lei dos Três Estados”.

Seu pensamento influenciou pensadores da grandeza de Karl Marx, John Stuart Mill, George Eliot, Harriet Martineau, Herbert Spencer e Émile Durkheim.

Criador do termo “altruisme” (autruísmo), a filosofia de Comte para a humanidade se resumiria em “vivre pour autrui” (viva pelos outros).

Leia também:

O que é Sociologia?
O que é Filosofia?

Lei dos Três Estados

A “Lei dos Três Estados” representam as fases necessárias para a evolução humana, onde cada uma delas teria suas abstrações, suas observações e sua imaginação próprias.

A observação da evolução das concepções intelectuais da humanidade seguiria o estado ‘teológico’ ou ‘fictício’, o estado ‘metafísico’ ou ‘abstrato’ e o estado ‘científico’ ou ‘positivo’.

No primeiro, os fatos observados seriam explicados pelo sobrenatural, ou seja, entidades (Deus ou deuses), as quais comandaria os fatores que compõem a realidade.

No segundo estágio, a realidade seria pesquisada diretamente, mas ainda haveria a presença do sobrenatural (a natureza, o éter, o Povo, o capital).

No terceiro e último estágio evolutivo, o apogeu da humanidade, os fatos seriam explicados segundo leis gerais abstratas, de ordem inteiramente positiva.

Nesse viés, o fator absoluto é substituído pelo fator relativo, pois tudo seria relativo, exceto a lei absoluta da relatividade.

Principais Obras

  • Curso de Filosofia Positiva (1830-1842)
  • Discurso Sobre o Espirito Positivo (1844)
  • Uma Visão Geral do Positivismo (1848)
  • Religião da Humanidade (1856)

Curiosidade

O lema de Auguste Comte “Amor como princípio, ordem como base e progresso como objetivo” fundamentou os dizeres da bandeira do Brasil “Ordem e Progresso”.

Leia mais:

Sobre as águas da vida o silêncio dói, cap. XXIV

XXIV

Os anos viajam e connosco sombras e desejos, há tanta felicidade e enquanto presentes comemos as relíquias da vida, pois, sabemos nós, todos nós, que a vida é um ciclo tantas vezes curto ou longo, nem sempre é mais curto, depende muito da intensidade a que nos entregamos à vida, ao ciclo e percurso que faz de nós o que formos enquanto estivermos. Despendemos alegrias e felicidades enquanto partilhamos vivos o nosso amor pelos que temos, deixamos filhos e amigos a crescer com memórias tantas por nós deixadas e sabemos que a morte não termina a alegria de quem tivemos, embora os tenhamos sempre numa memória infinita. Sobre a secretária um sem número de papéis rasurados, riscados, cansados também, não sei se tudo isto me cansa amor, imagino e não me canso, isso sim, de pensar na vida lá fora, onde nada de fardas e castrados neste acampamento de prisioneiros e enjaulados, viajamos apenas campanhas contra que inimigos, vizinhos tantos deles bebem e comem à nossa mesa e nós na deles, pouco importa se no chão ou numa celestial sala preenchida pelos dogmas mais resquiciosos do sistema. As tardes decorrem e o pensamento em viagem sempre, tudo serve para mais umas páginas na vida que levo, tudo são experiências válidas, um contarei tudo isto Deolinda, as mazelas que não desaparecem e as alegrias que enfim, vamos tendo. Ainda assim saudades,

– escreve-me Deolinda!

vontade de estar num consultório em lisboa, aprender com o meu pai e beber da sua experiência, ter horas de chagar a casa e ver-vos, abraçar-vos, ver a Santa Paola e pegá-la com os meus braços, mas faltam ainda picadas e emboscadas, trilhos e miséria, verdade, caminhar noites seguidas e busca de nada, onde nada existe a não a cabeça dos que nos desprezam, somos heróis voláteis, míseros utensílios de um sistema que só nos desprotege, somos filhos de uma nação que nos ignora e esquece e de nós nada mais quer saber a não ser contar cabeças abatidas. O cacimbo aperta e nada de chuvas, a seca nas matas e o lodo nas almas, a luz estridente do jeep velho e cansado, o soldado perdido no meio de todos nós chora medos e receios, a matança do porco em vila real, tudo passa a ser mais triste ainda mais e tudo se desfaz nesta masmorra de vadios como somos, obrigados a sê-lo, percorrendo o vazio das noites sem que ninguém nos surja. A minha cabeça é uma viagem permanente, noite e dia sem vacilar vislumbro os meus desejos e ânsias, os medos também, tudo é vazio enchendo-me a cabeça com receios e tremelicos nestas passagens por caminhos destruídos, caminhos velhos e partidos, pontes inventadas por nós para assim conseguirmos ao menos caminhar ocultando o distante em que lugar for. Não entendi ainda o que vim aqui fazer, a sério,

– acredita Deolinda!

sinto-me um objecto utilizado para nada, querem-nos mortos, só consigo pensar nisso e tantos já foram, vejo-os estendidos, a alguns ainda consigo dar folego, mas tantos chegam-me à mão já sem respirarem, tudo isto é medonho e cansativo, acredita, acredito também que não foi para isto que estudei na linda Coimbra o especialista de médico Psiquiatra. Sou um oficial que comanda centenas de soldados e desmotivado que fazer?, ouço-os em lamúrias e desabafos, não consigo separar-me da verdade deles, somos uma comissão de lágrimas em terras tão lindas e vermelhas como as que tenho visto.

Três anos passados e o regresso para quando?, não sei de nada, dizem-nos apenas a missão não está ainda concluída, mas concluída quando?, nada nos explicam e a gente aqui, nem pasmo nem ignoro, lamento uma dor infinita numa solidão entre tantos, centenas de soldados encurralados numa vitória nunca conseguida, quem vencerá?, talvez os soldados que regressarem sãos e salvos.

Porquê dormir tanto?

Dormir cansa e desfalece! A vida fustiga e a gente sente a cada passo o cheiro vernáculo da existência.

Precisamos do breu e do amanhecer de olhos abertos em direcção ao infinito vislumbrando o finito das finitudes da realidade. A vida cansa e faz-nos desfalecer, precisamos vê-la nem que seja pela janela ou pelos os alpendres do quintal abandonado.

As plantas florescem o amanhecer decorado pela sombra tardia do sol e nós sentimo-la como um estímulo para despertar. O sono leva-nos a sonhos e a gente nada percebe depois, o sonho vadia a nossa alma tomando conta de todos os nossos gestos e é durante o sono que tudo acontece fugindo do essencial que é a verdade não dormindo tanto, precisamos da vigília que nos guia, essa intempérie que nos acompanha tempos infinitos e enquanto vivos partilhamos com ela desabafando, mesmo que calados, uma partilha da vida que formos vivendo.

Respirar a erva e senti-la desbravar pelos campos, sorver da sua vida, entendê-la, sabemos tão bem explorar o seu crescimento e acompanhamo-lo pela manhã, ao despertar das cavernas frias do sono.

As orquídeas misturam-se no esplendor das palmeiras e vegetam criando no horizonte uma floresta de caminhos verdes e coloridos e distantes onde quem por lá passe vislumbre, onde quem observe sinta o silêncio rico das fantasias inebriadas com instantes divagantes deste sono despertado e vespertino apenas os laicos dormem, sim, mais descansados porque sim.

À noite a poesia dos estrondos que vagueiam o sono, sonhamos com o resquício dos restos, a glória dos poucos ou com a honra dos idos, lembramos e perdemos assim que acordamos as histórias do pai na sala ao amanhecer, o relato da mãe, as histórias de família enquanto todos à mesa desfrutam o pequeno almoço de mesa cheia.

Sinto ao de leve não sei vindo de onde, “dormir muito cansa!”, ouvi e nem sequer discuti, talvez seja um devaneio meio embrenhado nesta sala de tantos a deglutir um pequeno almoço sem saudades, com saudades, seja o que for, sejamos discípulos do despertar, talvez só nesta família de regras, onde se seguem princípios de tradição, onde o pequeno seja o recolher da parada para a jornada, sai lá, tudo isso me faz pensar e bem, tenho família!

O meu pai à cabeça da mesa e nós desfilados numa hierarquia tradicional, começamos pelo mais velho e seguimos, por ordem, aos mais novos. Bebamos do dia, dizia alguém onde talvez sonhara escutar, ouvi sentado na minha esquina, nesta mesa varrida de fome para o momento e todos nos alimentamos ouvindo a retórica da vida.

Ainda as vozes ao canto da sala creio, talvez ao fundo do escuro que nasce a cada instante bebendo do tempo, acordar cedo e levantar rumo à vida, essa coisa saborosa que nos vislumbra e descobre, essa névoa de saudade que nos enaltece e são saudades permanentes a coisa nossa da nossa vida, recordamos o futuro ainda por chegar e caminhamos rumo a si, ver os muros da rua crescerem com o frio que faz, o vento que deslumbra ventoinhas e até o celeiro agradece, a vida esvaída na verdade de sentir o fluir do real e a diáspora na tua alma, no rés do chão das tua caminhadas percorrendo os caminhos do teu casebre em sentido e enquanto isso, nada, tudo faz parte do mesmo nem que seja de novo recolher aos lençóis e boa noite a todos.

E a repetir-se a voz vinda de não sei de onde, dormir muito cansa. Porque cansa então?

Levanto-me, dirijo-me à janela que dá para as traseiras e penso sem sonhar já que sonho sempre, sonhar faz-me viajar contramuralhas e ventos e enquanto isso nada mais, sinto ali uma verdade escondendo-se ao fundo, junto aos barcos que naufragam e estacionam numa maresia abandonada de tudo. Iria um dia descobrir este porto de abrigo sem vontade de ser mar, a sala por baixo do quarto onde sempre me refugio, sinto cada passo, cada sorriso ou gargalhada e tudo na mesma em mim, a saudade não me cansará, penso, e viajo o salubre da tarde a dar contas ao fim do dia.

Girl at a window, 1931 do pintor russo Alexander Deineka
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