Heterônimos de Fernando Pessoa

Márcia Fernandes

Márcia FernandesProfessora licenciada em Letras

Os Heterônimos de Fernando Pessoa são personalidades criadas por ele próprio e que assinam cada qual as suas obras. Para tanto, esses escritores têm biografia e estilo particular.

Estudos indicam que Fernando Pessoa assinou textos com cerca de 70 nomes diferentes. Há quem considere que todos eles são heterônimos de Pessoa.

Outros afirmam que os considerados por muitos os seu principais heterônimos resumem os que realmente são heterônimos de Fernando Pessoa, apenas três.

Isso porque o poeta teria criado apenas a biografia de Alberto Caeiro, Ricardo Reis Álvaro de Campos.

Bernardo de Campos é considerado um semi-heterônimo de Pessoa. Isso porque essa personalidade apresenta características muito semelhantes às de Fernando Pessoa, sendo muitas vezes confundido com o próprio escritor.

Heterônimos de Fernando Pessoa
Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos vistos por Almada Negreiros

Alberto Caeiro

Alberto Caeiro (1889-1915) nasceu em Lisboa. É o mestre dos heterônimos, tendo como discípulos Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Passou a sua vida no campo e ficou órfão de pai e mãe muito cedo, passando a viver com uma tia avó. Morreu de tuberculose.

Apesar da data indicada para o seu falecimento, há registro de poemas de Alberto Caeiro do ano 1919.

Características do seu estilo

Caeiro valoriza a simplicidade e demonstra o seu gosto pela natureza. Para ele, mais importante do que pensar é sentir, delegando todo o conhecimento à experiência sensorial.

A linguagem da sua poesia é simples, afinal, Caeiro não estudou além da escola primária.

Poemas

Se, depois de eu morrer…


Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.

Sou um guardador de rebanhos


Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei da verdade e sou feliz.

Ricardo Reis

Ricardo Reis nasceu em 1887 no Porto, não sendo conhecida a data da sua morte.

Estudou Medicina e, antes, em colégio de jesuítas. Foi viver no Brasil em 1919, após a instauração da república em Portugal (1910), porque era monarquista.

Características do seu estilo

Tal como Caeiro valoriza a simplicidade, Ricardo Reis gosta do que é simples, mas num sentido de oposição ao que é moderno.

Tradicional, para ele, a modernidade é uma mostra de decadência. Sua linguagem é clássica e seu vocabulário, erudito.

Poemas

Segue o teu destino



Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Álvaro de Campos

Álvaro de Campos nasceu em Tavira, Portugal, no ano 1890. A data do seu falecimento não é conhecida.

Formado em Engenharia na Escócia, não exerceu a profissão.

Características do seu estilo

Álvaro de Campos valoriza a modernidade e é um pessimista, pois apesar do gosto pelo progresso, o tempo presente o angustia.

Seu estilo pode ser definido em três fases: decadentista, progressista e pessimista.

O dia deu em chuvoso

O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, estava bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afetos? São memórias…
É preciso ser-se criança para os ter…
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer…
Quando foi isso? Não sei…
No azul da manhã…

O dia deu em chuvoso.

O que há em mim é sobretudo cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas –
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço…

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é um dos mais exemplares escritores portugueses. Nasceu em Lisboa em 1888, mas ficou órfão de pai aos 5 anos e foi para a África, onde deu início aos seus estudos. Sua mãe tinha casado com um militar nomeado cônsul na África do Sul.

Com 17 anos regressa de forma definitiva a Portugal, onde viveu até o fim da sua vida em 1935.

Modernista, Pessoa destacou-se não só com a sua poesia ortônima, na qual ele assina como Fernando Pessoa, como é muito conhecido pela criação de heterônimos.

Curiosidade

Estudos recentes feito pelo brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho, membro da Academia Pernambucana de Letras, apontam a existência de 127 pseudônimos, heterônimos, semi-heterônimos, personagens fictícias e poetas mediúnicos.

Leia:

Obrigado Pai

Que cada silêncio abandone a ira e siga rumo, cada descoberta nas recordações esplêndidas nestas misturas da existência para criarmos caminho mesmo que só dentro da cabeça.

Cada jura ornamentada caminhe para orlas de rosas içadas nos quintais do tempo em rodopios que deslumbrem quem quer que seja, ainda que só isso nos faça pensar devagar o lugar para a existência.

Dias para todos os anos, mesmo aqueles já findados são presenças imperdíveis, recuamos tantas vezes esta resilia que nos transforma cada vez mais para um sempre inquestionável, essa presença vira todas as sentenças que possuirmos.

O futuro caminha a pés largos e longos com passadas de atletas olímpicos neste januário sem rios para que se nade como rã ou viramos outros para nós mesmos, ainda que vivos, descartámo-lo dos nossos sentidos.

Quem perde as memórias?

Quem me poderá garantir a pés juntos nunca mais pensar que um dia isto, ou aquilo, aquela felicidade ou mesmo o descontentamento de outra coisa, não sei, por isso esmiolamos os miolos para que os presentes nunca se percam das nossas razões de existirmos, por isso existimos desde aí, desse passado que viaja connosco mesmo que o releguemos por vontade ou pouco importa, o que foi, foi.

Mas nem tudo vai, nem tudo fica, nada permanece para que só incomode, para que seja bandeira de sucessos, lágrimas queimadas junto à fogueira velha do quintal onde tantas vezes a tia Maria se sentava a contar-nos os sonhos lindos que vivera quando menina, e a gente ali, sentados também, perante a sua voz silenciosa e calma a divagar os passos da existência numa sabedoria que apenas o facto de ter existido nos traz. Há tantos dias assim, que a gente fica onde tiver de ser e pronto, ou vamos, seja lá porque razão, vamos, somente isso, vamos, e por lá ficamos, até que tudo se desmembre das cabeças e de tudo e apenas aquele dia permanecerá como se tudo fosse o mesmo de sempre. Obrigado Pai. 19 de Março de 2019.

Sobre as águas da vida o silêncio dói Cap. XXIX

XXIX

Ingere-se cada instante numa súmula constante de instantes, um abraço vagaroso entre sorrisos e lágrimas, sim, afinal a amizade faz chorar quando a sensação reina, nem que seja esse o único instante, mesmo que depois se dilua nos momentos que se seguirão voando mesmo sem asas ao encontro do infinito. Imaginámo-las eternas mas nem sempre o são, nem sempre perduram neste cansaço de ter de se ser o que afinal não sentimos, somos diluídos também quando conseguimos esquecer, quando nos sentimos vencidos pelo momento em que julgávamos a eternidade daquele abraço apenas fugaz, levado depois para tão longe de nós que conseguimos mesmo esquecê-lo. São inócuas as que são, nem sempre assim acontece, nem sempre nos sentimos degolados pela sensação, pela emoção, pelo que afinal sentimos, vemo-nos na verdade imbuídos nesse mar salgado de ondas saltitantes que nos fazem até saltar como as ondas que flutuam as alegrias desta tão sóbria vida: a felicidade. A amizade é na verdade uma sensação enorme de felicidade, sentirmos que partilhamos a mesma dor e a mesma alegria, repetir sem nos apercebermos da mesma mágoa, vivermos os mesmos momentos ainda que longe uns dos outros. Como troncos  que alicerçam a árvore que nos faz viver a longevidade de uma imensa árvore neste quintal comum, o nosso, neste sangue que flui e jorra para dentro nas veias que a vida nos concede, regados todos os dias pela milagrosa chuva que o céu maravilhoso nos oferece, que saibamos assim cumprir sem obrigações.

O olhar reflecte a verdade dessa sensação, o espelho natural da nossa pele encostada como uma divindade oferecida, uma relíquia que poucos conseguirão sentir ou vivenciar, por isso vivamos, mas com felicidade, verdade, nada se consegue sem que o coração assinale e marque ou registe bem por dentro das nossas consciências, um acto de reflexão para que nos sintamos granjeados pelo divino ser que nos aprova os actos: a vida.

Sabes, sinto em cada sonho esse fluir noite a dentro, deitado nas coisas boas que imagino e pretendo, um sonho repetido dia após dia como que de um alimento se tratasse, uma refeição obrigatória alimentando todos os momentos em que sentimos gratificados em nós mesmos pelos actos altruístas desse sentimento natural como a terra que nos cobrirá um dia: a verdade. Sim, nem sempre perdura, nem sempre é como imaginamos ou pensamos, tantas vezes nos desiludimos e nos sentimos feridos, tantas as desilusões que nos castram os movimentos, prendem-nos tudo, a vaidade seca e por instantes desesperamos, cansamo-nos de ser, existir, pensar, fugimos das fantasias decoradas nas bermas de estradas longínquas tal a desilusão, desilusão porquê então? Há quem diga que só dói quando apostamos, quando confiamos e acreditamos, quando já nos sentimos membros dessa comunidade a dois vivenciando todos os dias e confidenciando sempre, sim, tudo se dilui como trevas cansadas e o peso que sentimos sobre a alma, o olhar estarrecido e poisado num além que não existe, o olhar fecha-se diante de um dia ensolarado e belo. Queria acreditar na sua presença sempre, mas nem sempre isso acontece, ela é tão volátil como o éter das enfermarias, vai-se.

Niilismo

Niilismo é uma corrente filosófica que acredita no vazio.

O conceito está pautado na subjetividade do ser, onde não existe nenhuma fundamentação metafísica para a existência humana.

Ou seja, não há “verdades absolutas” que alicerçam as tradições.

Do latim, o termo “nihil” significa “nada”. Trata-se, portanto, de uma filosofia, que apoiada ao ceticismo, é destituída de normas indo contra os ideais das escolas materialistas e positivas.

Note que o termo niilismo é utilizado de diferentes maneiras. Para alguns estudiosos é um termo negativo, pessimista, associado à destruição, anarquia e negação de todos os princípios (sociais, políticos, religiosos).

Já para outros filósofos, a essência do conceito, se observada de maneira mais minuciosa, pode levar a libertação do ser humano.

Filósofos Niilistas

Os principais filósofos alemães que abordaram e se aprofundaram sobre o tema do niilismo foram:

O Niilismo de Nietzsche

Por meio da corrente niilista, o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche, propõe a “ausência de sentido” atrelado ao conceito de “Super-Homem”. Eles surgem a partir da “Morte de Deus”, ou seja, da ausência de qualquer princípio.

Dessa maneira, estando os homens destituídos de normas, crenças, dogmas, tradições, eles regerão suas vidas (livre arbítrio). Isso resultará na criação de “homens novos” por meio do que ele denomina de “vontade de potência”.

De tal modo, o poder e os valores fruto das instituições (religiosas, sociais e políticas) tornam-se inexistentes. Surge assim, um homem livre e não corrompido por qualquer tipo de crença, o qual realiza suas próprias escolhas.

Quando o “Super-Homem” determinado por Nietzsche adquire esse poder, ocorrerá a transmutação de todos os valores.

Tipos de Niilismo

Segundo o filósofo, há dois tipos de Niilismo: niilismo passivo e niilismo ativo.

No passivo, ocorre a evolução humana, entretanto, não há mudança de valores.

No ativo, a evolução humana acontece da mesma maneira, contudo, ele é responsável pela transmutação dos valores, bem como a criação de novos.Veja também:Dostoiévski: biografia e resumo das principais obras

O amor esvoaça tresmalhado de belo

Seria um sorriso aquele abraço matinal. Esvoaça a alegria neste pasto de tantos a festejarem a existência, encontro de cânticos apenas entre nós, que somos todos.

O amor é uma ideia ampliada de esforços e vontades, gestos nobres espelhados na alma superam assim o cansaço ao fim do dia e vamos, que destino?, pensar num belo mar e voar, navegar sobre que ondas o barco flutua descansado e nobre criando uma espuma de bradar, dedos içados e mergulhos entre todos na mesma caserna de tropas vencedores, vestir a farda da vitória onde o rumo se interiorize na nossa casa vespertina, diariamente, o som dos olás por todos os cantos sem pensar mais.

Sentimos a inércia divagar longe, projectar o tempo nas almas que refutam vontades sérias, sinto a brisa sonolenta abeirar-se da distância onde nela as jaulas fogem, abrem-se devagar num ritmo sem tempo limite e tudo é ira da satisfação. Breves olhares tresmalham o silêncio que somos, a erma estrada por que passamos longos períodos da vida, a cama conselheira e a almoçada para que a cabeça sobressaia de si mesma voando a vida por entre verdades descansadas, sim, a gente percebe que em cada toque, cada abraço, um conselho profundo nos fazem orar sem credos mas com ânsias e voltar à manhã seguinte como se nada tivesse acontecido, sermos o mesmo de ontem com mais um dia de vida e saber, esse saber que a vida ensina, o limiar dos anos repletos preenchendo cada passo com saudades, sabes, a saudade é um resquício da vaidade, um pouco do que ansiamos e isso faz-nos percorrer o ar profundo do saber, do amor, sim, amor mesmo, esse de que falo e que me entendam os amantes, somos fardos nunca fartos de nós mesmos por isso o amor por nós mesmos nos faz sentir, mesmo que de longe ou longe, o calor e os afectos de que tanto precisamos. O amor esvoaça tresmalhado de belo, verde como as profundezas da saudade, o sentido das coisas e as palavras distantes, próximas, ouvidas em ruído ou na sala de todos, uma família sentada na plateia da verdade, da vida.

Sabes, nós aqui, sentados neste jardim da infância saboreando a brisa, entrelacemos as mãos, decora cada taco do banco que nos acolhe e sorri, esquece a maresia agora, tudo te parecerá tão diferente, esquecemos que a morte existe, esquecemos as guerras e sentimos apenas aquela viagem no mesmo lugar sorrindo sem vaidade. A noite promete o seu ofício, o escuro aproxima-se a que velocidade, tudo se torna real nesta plateia de actores do real sem rodeios.

Sabes, a vida faz-me sentir em viagens permanentes, incursões belas do que acontecer nestas mãos dadas à realidade dos que nos surgir, sejamos amantes eternos dormindo enfim, quando o relógio nos destinar a um sono repleto. Durmamos então.

Sobre as águas da vida o silêncio dói Cap. XXVIII

XXVIII

Sinto-me cansado e farto amor, conto a cada dia num calendário improvisado riscando cada dia superado o fim desta incoerência que jamais entenderei, aqui ninguém entende nada, qual o motivo para este sacrifício matar irmãos que nos querem abraçar, sinto apenas que da parte desta gente que às vezes consigo ver o mesmo motivo que alegam para nos deixarem por aqui e que razão?, nada faz sentido, tudo é fantasia nas cabeças do governantes sentados à secretaria de um quartel em lisboa e a gente aqui, metidos nas suas alucinações e ganância de mundos só para eles, estes soldados coitados, muitos deles nunca haviam saído das suas pequenas aldeias e nada sabiam do mundo, sem jornais ou televisão receberam quase sem saberem ler o dia da incorporação do exército do estado colonial português,

“dia 06 de setembro de 1970 no quartel, batalhão de infantaria do porto”

aquele navio sem casa hoje, perdido ou afundado na história que enferrujou com a dor de soldados perdidos num lugar de longe, em terras que a sorte nos destinou e levou almas famintas de vida, sabes, eram jovens ainda e que futuro ali, naquela selva de chuva e nem frio, cobertos medo lá, sem hora nem data a vida esquecida ia-se afundado na história de que hoje apenas restem marcas.

A minha mãe já velhinha à janela da cozinha prepara o jantar, pensa e sacode o avental inventado a panela onde irá cozinhar e o meu pai médico num Santa Maria, hospital de lisboa faz a consulta como todos os dias, os mus irmão estudam naquela universidade onde tantos anos frequentei medicina, parti depois de terminar para esta jaula onde a guerra me chamou segundo a jana do governo de Salazar, o navio cheio de rostos já cansados imaginam medos de relatos ouvidos na tabernas e nas casas escondidas da polícia de estado, o silêncio imperava pois, era proibido qualquer reunião mais ainda sobre as coisas do ultramar,

– o meu dia chegou Deolinda, sabes?, eis a carta de chamada para o curso de oficiais milicianos.

as pernas tremiam onde que raivas,

– o meu pai aguenta filho, é a vida, e um homem faz-se na guerra!

qual tropa qual quê, nasci para ser médico aqui não para a guerra. Não vim sozinho mas estava só, todos estavam sós para dentro e na alma o peso reinava, sim, cada um com o seu medo mesmo nada sabendo do que os esperava, o navio repleto abandona o cais lentamente, o horizonte perdendo-se pouco a pouco e a gente dentro, a ferrugem que nos ladeava, isolados naquele mar a ladear o navio também sozinho entre ventos e tempestades e um mês depois luanda, era o destino que a missão nos obrigava,

– não ficarás sozinha Deolinda!

as cores dissipavam-se a cada instante, tudo parecia enevoado ao longe e perto as almas tremem,

– precisamos de rezar, meu capitão!

os soldados nem olhos, onde as cabeças sem rumo?, sentados até ao convés e a farda ainda com o brilho do novo, boinas com a goma davam-lhes uns brilhos estranhos naquilo tudo nada era senão isso mesmo, tudo estranho, ninguém conseguia perceber de nada, uns conversavam tentando esquecer que medo viria ainda, outros pálidos esperam o encontro com o destino perdem-se mesmo assim, a fome aparece e nem fome,

– que raio de peixe é este?

na aldeia a matança o porco e nós sedentos, porcos também, sentimos saudades de tudo já e nada ainda começou a não ser esta viagem até ao que desconhecemos.

Ainda o adeus de milhares, o cais repleto de lágrimas e choros profundos,

– viu a minha Maria capitão?

a aldeia deserta todos ali, o cais parecia o nascimento de um novo mundo: o da saudade eterna.

Taoismo

Taoismo é uma filosofia de vida e uma religião chinesa milenar, na qual o ser humano deve viver em harmonia com a natureza, pois faz parte dela.

Dessa forma acredita que, quando tomamos a natureza como referência em nossas vidas, atingimos o equilíbrio, ou o “Tao”.

Alguns Princípios do Taoismo são comuns a outras religiões: humildade, generosidade, não violência, simplicidade. Outros são atributos das crenças da religião xamanista chinesa (teoria dos cinco elementos, a alquimia e o culto aos ancestrais) bem como das ideias e práticas culturais do budismo.

Vale lembrar que o Taoismo já foi a religião oficial chinesa, mas também foi reprimido duramente na formação da República Popular da China no século XX.

No Taoismo o “wuwei”, que significa “não agir”, é muito valorizado, pois, na natureza não existem ações desnecessárias e, todas essas ações são suaves e flexíveis, tanto quanto eficientes e harmoniosas, posto que prefere a sutileza em lugar de força.

O Taoismo afirma também o desprendimento do mundo material e a anulação dos desejos, pois, ao realizarmos um desejo, outro surgirá em seu lugar.

Além disso, o Taoismo pode ser considerado anarquista se levarmos em conta que prega a descentralização política, ao contrário do confucionismo, no qual os deveres morais, a coesão social e as responsabilidades governamentais são prioridades.

As obras literárias mais importantes no Taoismo são o Tao Te Ching, livro que contém os ensinamentos de Lao-Tsé e o Daozang, o cânon taoista com aproximadamente 1500 textos compilados ao longo da Idade Média Chinesa.

Podemos ainda dividir a tradição taoista em “Taoismo filosófico”, embasado nos textos canônicos e “Taoismo religioso”, fruto dos movimentos religiosos organizados para instituir o Taoismo enquanto religião, fundindo elementos da religião tradicional chinesa com aspectos do confucionismo e do budismo.

O Taoismo religioso teria lugar a partir do século II d.C., quando Chang Tao-ling funda a seita do “caminho dos mestres celestiais”.

Daí surge os métodos praticados até hoje, como a ingestão de alimentos específicos e elixires, exercícios de respiração, uso de talismãs e a prática de ginásticas e artes marciais (Tai chi chuan).

Enquanto prática para se desapegar do mundo material, a meditação seria um caminho para um entendimento mais profundo das relações que temos com o Universo, no qual todos os seres e coisas são interdependentes.

Para saber mais: Budismo.

Lao-Tsé e o Taoismo

Lao-Tsé é considerado o fundador do taoismo, durante o “Período dos Estados Guerreiros” (entre os séculos II e V d.C.).

Lao-Tsé, que significa “velho mestre”, viveu e trabalhou em Luoyang como arquivista, quando pode se dedicar ao estudo das escrituras aos seus cuidados.

Foi contemporâneo de Confúcio, e responsável pela produção do Tao Te Ching, referência basilar do taoismo, composta por 81 poemas.

Tao, O Ideograma

Tao significa “caminho” e é simbolizado pelo ideograma Tao (um círculo com duas metades iguais).

É considerado o princípio supremo do taoismo e representa aquilo que virá, a mutação e o vazio.

É também uma representação do infinito, do transcendente e aponta para uma vida regida pelos elementos yin (feminino) e yang (masculino), forças estas complementares e indissociáveis.

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Apenas a lua quando acorda

Sinto-me a perpétua ir das suas lágrimas neste esplendor de sons tão peçonhosos, estes rios que secam na aurora no definhar das ideias. Um passarinho obtuso no chão sujo de quimeras e palavras amargas, um defunto que caminha sem saudades da vida.

Os passos que ouço são o abismo que se aproxima, a espuma que toma conta dos meus olhos e mos cegam como goivos sem asas, sou a mísera peralta de todas estas assombradas verdades, as que se me inculcam no esqueleto e ainda tento, mesmo sem asas, voar como um platónico escarnecido e apenas isso.

Carne sem ossos e sem essência.

Sinto-me completamente embriagado com estes ventos que me cercam, estes andros de vozes caladas nos estribos da fantasia, nas melodias que nunca se chagam, um longe cada vez mais presente nesta cabeça estiolada pelas ancoras de passos corrosivos. A minha cabeça parece querer deixar de existir, fumegar palavras irrefutáveis como quem fala ao desdém de costas abrasivas e incólumes.

Quem me diz se isto cansa?

“apenas a lua quando acorda”

Tudo isto são avenidas de sentido proibido. Revestidas de lama escorregadia. De petulância nos gestos, os açoites disfarçados, do sono de morte a que me levam as ideias.

Sinto-me já o defunto de mim mesmo nestas cartas que escrevo para o céu.

Prefiro caminhar de olhos fechados para que não veja as árvores tombarem à minha frente, o ruído das suas quedas sobre este ombro dorido de ânsias.

Deixa-me caminhar se puderes, deixa-me respirar se conseguires. Não quero hibernar para dentro das minhas tão confúcias algemas no corpo preso ao infortúnio que é esta luz que me encarde e encaminha para os nadas que suam. E gesticulam. E vomitam as suas sanguinárias ostentações e domínios disfarçados em flores do planalto mais alto se é que existe, mas sinto-o aqui bem presente como cestas para vender desejos.

Sinto o meu corpo num leilão.

E como sei ter sido já um leão. O gato sem pele nas agruras de palavras miada na esquina.

“apenas a lua quando acorda”

Sobre as águas da vida o silêncio dói Cap. XXVII

XXVII

Em cada esquina desta distância ruídos desparecidos por instantes, uma brisa cansada sobre a caserna perdida neste horizonte de gemidos onde soldados escoltados regressam sem rumo e ao mesmo me recordo de tudo o que havia deixado para trás,

– Deolinda, ainda calada?

Santa Paola talvez enorme e sem os meus braços, Lisboa asizada nesta cabeça ainda aí, na nossa casa, sabes? Tantas vezes me pergunto e sem resposta me calo, debruço-me sobre secretária da enfermaria desta tenda verde e cansada, na enfermaria,

– ai doutor!

e as linhas de coser novamente, esta rotina sem fim canso-me, saturo como posso com estas agulhas enferrujadas e pronto, resolver ao menos pequenos problemas de gente sem rumo, passo devagar pela enfermaria observando com transpiração, há um calor imenso nesta mata do norte de Angola, onde tiros se ouvem disparados para nos entreter, quem sabe, o soldado de trás-os-montes ainda deitado e quem sabe mutilado, a pátria na cabeça e a gente farta, e tantos partiram já com uma bala perdida nesta mata que devora. Sinto-me sem sono, tento contar estrelas onde estiverem, uma asia nefasta nesta fome sei lá de quê, súmulas de viagens perdidas e o jeep capotado ainda na cabeça, ainda na alma a saudade e que saudade, coisas nenhuma, sinto-me partido, quebrado por dentro, não sei se cansado mas deslumbrado também, um dia metrópole novamente mas quando? Ao fundo de todos os pensamentos a mesma mensagem sempre, a voz repetida e os ouvidos,

– quando regressas amor?

a carta guardada para sempre nesta sacola cinzenta que me alimenta todos os momentos e neles descrevendo tudo o que me venha à cabeça.

O rio tejo sobre as areias do meu quintal, moro em benfica qual tejo, um rio qualquer de lisboa chegava para me aliviar, sentir a certeza da chegada e o fim desta paragem na vida, estes percursos que não conseguem descrever, a cabeça regista o que o corpo sente,

– em breve amor!

lá fora a ausência e nada se vê a não mais do mesmo, inimigos imaginados tal o cansaço, amigos nenhuns digo eu, a gente percebe quando a cabeça descansa e é gente como nós que luta também pelos seus direitos e nós sem chão, somos varridos por quem nos governa e enjaula, esta cela chamada mata perdida nas florestas imensas deste país enorme, somos enganados por uma pátria que se desconhece, sabes?, somo engolidos por monstros que se perdem para dentro de nós levando-nos sem rumo ao fim do mundo, sim, estamos efectivamente no fim do mundo para sacrificar os inocentes para serem como um diabo por esse senhor ditador que manda em todos nós.

– para quando o fim desta masmorra?

Pergunta a minha cabeça e ninguém me ouve, disfarço sempre nunca estar cansado e ao fundo o general estuda os mapas e novo ataque é programado, de novo a tremermos tudo é para tão longe, este lugar é imenso e são dias e dias a percorrer o nefasto, rios, lagos lagoas tudo para superar e regras,

– viemos para obedecer a lei!

em nome da pátria contra os canhões marchar, marchar!

Michel Foucault

Michel Foucault (1926-1984) foi um filósofo francês contemporâneo que se dedicou à reflexão entre poder e conhecimento.

Crítico, Foucault foi um ativista que se envolveu em campanhas contra o racismo e pela reforma do sistema penitenciário.

Estudou vários problemas sociais. Dentre eles, o sistema penitenciário, a instituição escolar, a psiquiatria e a psicanálise praticadas de forma tradicional e a sexualidade.

Biografia

Foto de Michel Foucault

Michel Foucalt nasceu no dia 15 de outubro de 1926 em Poitiers, na França, no seio de uma família de médicos.

Licenciado em Filosofia e graduado em Psicologia Patológica, foi psicólogo em hospitais e em penitenciárias. Também foi professor universitário na Alemanha, Estados Unidos, Suécia, Tunísia, entre outros países.

Deu conferências em muitos lugares no mundo, dentre os quais no Brasil, onde esteve em 1965 pela primeira vez.

Escreveu para vários jornais e publicou diversos livros. Faleceu em Paris, no dia 25 de junho de 1984 em decorrência da AIDS.

Obras

A primeira obra de Foucault foi Doença Mental e Psicologia, que data de 1954. Na sequência, publicou:

  • História da Loucura (1961), sua tese de doutorado
  • Doença Mental e Psicologia (1962)
  • O Nascimento da Clínica (1963)
  • As Palavras e as Coisas (1966)
  • A Arqueologia do Saber (1969)
  • Isto não é um Cachimbo (1973)
  • Vigiar e Punir (1975)

História da Sexualidade é o livro cujo projeto compreendia a publicação de 6 volumes que, entretanto, não conseguiu acabar.

Publicou o primeiro volume, A Vontade de Saber, em 1976. Em 1984, ano da sua morte, publicou O Uso dos Prazeres e O Cuidado de Si.

Vigiar e Punir

O livro publicado em 1975, é uma reflexão sobre a sociedade moderna e a disciplina.

Em Vigiar e Punir, Foucault debruça-se sobre os processos disciplinares nas prisões, em especial na França.

Reflete o motivo pelo qual as torturas deram lugar ao encarceramento das prisões, pretendendo que essa fosse a forma mais adequada de correção.

O filósofo responde essa questão refletindo sobre o poder da monarquia (absoluto), o qual foi substituído pelo poder de um governo republicano.

Principais Ideias

Segundo Foucault, a sociedade faz uso abusivo do poder através das instituições, escolas e prisões, por exemplo.

A era moderna é definida através da disciplina, que nada mais é do que um meio de dominação que tem como objetivo domesticar o comportamento humano.

Quanto à educação, Foucault chama a escola umas das “instituições de sequestro”. Segundo ele, a escola tira os alunos do seu meio para os enclausurar e, nessa clausura, domesticá-los da forma como a sociedade quer.

Antes, a escola era um local de castigo. Com a era moderna, passa a ser um local de domesticação, modelo que também é seguido no sistema prisional.

Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo.” (Michel Foucault)

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