Quando Borges afirmou que “nunca se termina de aprender a ler. Talvez como nunca se termina de aprender a viver”, acredite, ele sabia o que estava falando.
Célebre escritor, poeta e ensaísta argentino, Borges é um dos escritores mais famosos da literatura mundial. Publicou poemas e contos que ficaram famosos no mundo todo. Suas obras possuem pistas de duplo sentido, jogos persuasivos entre personagens, ideias trabalhadas com ironia e sarcasmo, imaginário aliado à realidade e doses de inteligência exageradas.
Borges é raro! Assim como seus leitores. Defendia a leitura como libertadora e acreditava que sem ela o homem não poderia ser feliz (e, caro leitor, ele tem razão!).
Em “Cinco visões pessoais. 4. ed. Trad. de Maria Rosinda R. da Silva. Brasília: UnB, 2002. p. n.º 13 e 19, Borges enfatiza que: “Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa:o livro é uma extensão da memória e da imaginação.Dediquei parte de minha vida às letras, e creio que uma forma de felicidade é a leitura. Outra forma de felicidade − menor − é a criação poética, ou o que chamamos de criação, mistura de esquecimento e lembrança do que lemos.Devemos tanto às letras. Sempre reli mais do que li. Creio que reler é mais importante do que ler, embora para se reler seja necessário já haver lido. (…). Penso que o livro é uma felicidade de que dispomos, nós, os homens.”
Borges era tão transparente em suas paixões pelos livros que seus leitores sentem isso quando se deparam com suas obras. O escritor faz um jogo com o tempo e com os personagens em suas obras (podemos citar os livros “O Aleph” ou “O Livro de Areia”) que o leitor tem que ser muito sensível para entender sua intenção. Em “A Rosa Profunda”, isso fica explícito:
Os meus livros
Os meus livros (que não sabem que existo)/ São uma parte de mim, como este rosto/ De têmporas e olhos já cinzentos/ Que em vão vou procurando nos espelhos/ E que percorro com a minha mão côncava./ Não sem alguma lógica amargura/ Entendo que as palavras essenciais,/ As que me exprimem, estarão nessas folhas/ Que não sabem quem sou, não nas que escrevo./ Mais vale assim. As vozes desses mortos/ Dir-me-ão para sempre./
A verdade é que Borges é um escritor para leitores selecionados. Para lê-lo é preciso entregar-se aos seus desvaneios, a seus sonhos, a seus labirintos. Ler o autor é um desafio de paciência e acaba sendo, também, um exercício de inteligência. Desistir do autor na primeira obra é sinal de que o leitor não contemplou a totalidade do escritor e, portanto, a obra não atingiu seu objetivo.
Para ler Borges é necessário entregar-se de corpo e alma, envolver-se nos versos e acreditar que o irreal é possível. É como sonhar acordado, viver o inatingível e ter a sensação de que o essencial, como cultura e leitura, sempre são insuficientes. É fechar um livro e querer mais. É, acreditar na leitura como construtora de história e, como diz o próprio Borges, entender que “o livro é a grande memória dos séculos. Se os livros desaparecessem, desapareceria a história e, seguramente, o homem.”
Professora por vocação, escritora por paixão e teimosa por natureza. Criadora e colunista do site o site ¨Entrelinhas Literárias¨, costuma transformar em textos palavras que, nem sempre, deveriam ser ditas..
Um dia um berço, um barco, um vazio na plenitude das mais viráveis esquizóides das planícies do fantástico, sim, esse coisa nenhuma que a vista despreza, esse longe que a alma alcança quase nunca, essa invisibilidade rasurada nas folhas merdosas da livraria mais barata da esquina da casa onde vivo, vivia, passo por lá vezes sem conta apenas para recordar.
“vamos falar de literatura”
aqui as primeiras folhas do meu defundado entusiasmo. Resmas nenhumas, papel nada, apenas restos de merceeiro me definhavam e esgrimia com doces gestos a minha nunca sana velácia. Um dia dirão ser apenas um velório.
Livros com verdume ao lado e cinza a encherem-me sei lá de quê
“todos doidos, quem quer ser artista tem os dias contados!”
vozes de longe e perto e dentro,
“preciso apenas de dois metros quadrados em paz!”
apago a luz, incomoda-me tanto a claridade, não entendi ainda hoje porquê, os óculos sei lá onde e a cegueira a caminho, cigarros e álcool, fome de insaciáveis caminhos tentando percorrer estradas inexistentes, sim, existe apenas o que valorizamos, acredita,
“estilhaços vândalos arrebatam e estiolam e como ferve a cabeça”
Mas se o indizível existe, é como o invisível de tardes breves naquele sombrio dissecar de horas para os arrumos dos corpos.
Talvez por isso o belo exista nela, talvez pela possibilidade que todo este embrenho de invenções nos recriem dicionários para recordação futura, alimento suculento onde o tempo nunca será coisa perdida, existir esse neologismo é coexistir com a verdade que às almas estancadas nunca virão, diria aos olhos cegos o que nada verão enquanto se alimentarem de frangos vagos numa página qualquer de jornais diários onde se perde até a vontade de entretenimento, vorazes são as próprias palavras que se consomem a si mesmas, voláteis e fugazes.
Defundadas são quase todas elas. O erimitério de cadafalsos verdes num crescer inventado faz a arte sorrir nos plainos mais ébrios do sonhador. São lentas sei, todas as caminhadas para caminhos repletos de percalços, esses descalçados encantos na boca de víboras sem dentes cuspirem o silêncio oco dos enjoos nesta viagem de soletrar lentamente a palavra difícil que o maremoto nos obriga a orientar e controlar sem gestos o cismo seco ou sismo derrubador de cidades adormecidas.
Se pudesse era contigo que conversava tardes eternas, passava pedaços de século a contar-te enquanto te ouvisse se me castro em cada gole de brandy, a chamusca rodopiada de silvestres lençóis de verdes e secos plainos de plantas incolores decorarem o instante, sim, todo esse tempo dedicado seria tão só isso, tempo ali, pouco me importaria sequer se existem ou não bancos para nos sentarmos colando as vozes na conversa que o tempo nos permitisse, sim, se pudesse, apenas uma aparição nesta cabeça que tenta pensar-te uma tarde inteira em mi e pronto.
Não me recordo sequer se tenho ainda memória para descrever os teus doces soluços quando me dizias palavras que o tempo fará perdurar nas imagens de palavras que nunca escreverei, ouvir-te sacia-me como ler um livro sem páginas, é um absurdo pensar assim, não, é absurdo nenhum, somos afinal o resto de tudo o que sobra nas caminhadas nunca feitas nesta vida que acredito, tem tempo e acabará no seu devido tempo. Até pode acontecer ou esta tarde, paciência. Li-te observando-te nos lábios o baton ruge de tantos silêncios escondidos no coração muda do poeta.
Quanto mais popular tem se tornado Clarice Lispector, antagonicamente tem se feito impopular. É com esta postura critica que tenho visto a proliferação desmedida de pequenos fragmentos de sua obra, partes amputadas de suas crônicas e romances e contos, disseminados por redes sociais e afins. A autora tem recebido por seus pseudo-discípulos o titulo de “conselheira amorosa”. Existe até um aplicativo, desses de frases automáticas do faceboock com o nome “Conselhos de Clarice Lispector”. Não vejo essa crítica com uma ótica exclusivamente negativista, penso ser um meio de refletirmos até que ponto nos acomodamos com a superfície, nesta sociedade onde a tecnologia cada dia mais acessível a todos, com suas infinitas possibilidades de informação e cultura, que entretanto se apresenta em segmentos superficiais. Fico a imaginar qual seria a postura de Clarice se estivesse viva. Frente a tal fenômeno que pode ser considerado como social, o que diria? Talvez Dissesse: Façam eles o que querem de minhas palavras, pouco me importa se as enfiam em suas mochilas ou bolsos rasgados, se as mastigam ou engolem. E pensar nessa resposta fictícia da autora me fez refletir sobre o papel, que a mesma tem assumido na atual sociedade, que pode ser visto como de resignação, retrocesso, e dissimulação por parte de seus “leitores”.
A obra de arte é circuncidada por aquilo que se vê da própria obra, sempre e cada vez, como se fosse à primeira vez em que foi vista. Essa eterna ressignificação, de atravessamento da singularidade daquele que experimenta a arte, seja ela na literatura, fotografia, pintura, teatro, música, ou qual for a modalidade em foco, será sempre o retorno de demandas internas do espectador. Tal fato, nos faz anuir que, a significação literária se coloca por uma ética do desejo, de quem a produz e experimenta. O tão profundo e o tão raso. São escolhas, que se apresentam marcadas pelo pragmatismo do séc. XXI.
Clarice deixa uma obra que revolucionou a literatura brasileira, e que, ao eleger o Mal como um de seus temas recorrentes, expressa o caráter demoníaco da linguagem. Ela amplia a produção literária de vanguarda, que era até então marcado por um ortodoxismo modernista. E ao assumir o risco pessoal de sua escrita, a configura com um padrão fatalista, mas rompido com o trágico, que emerge com dois contrapontos: O tédio e a auto-agressividade. Mas por outro lado esse campo de luta da escritora é também vivenciado por um terno sentimento de compaixão com a condição existencial, sempre culpada de si mesmo.
“ O pudesse eu um dia escrever uma espécie de tratado sobre a culpa. Como descrevê-la? Aquela que é irremissível, a que não se pode corrigir? (…) A culpa em mim é algo tão vasto e tão enraizado que o melhor ainda é aprender a viver com ela”
A autora inaugura no Brasil um estilismo literário único, sendo aclamada e atacada pela crítica, por sua impulsividade corrosiva como peculiaridade central de sua escrita, tendo como campo de abordagem a alma humana e suas paixões.
Desse modo como conclui Yudith, crítico literário da autora, “Torna-se inevitável pensarmos esse modelo de sedução e destruição como o protótipo da poética de Clarice, que envolve o leitor, qual marinheiro encantado pela sereia, para em seguida engolir suas convicções e afogá-lo nas águas de um escrita letal. A escrita Clariana é ela mesma testemunho de um salto sobre fragmentos de uma intensa explosão psíquica criativa.“
Segundo Lucio Cardo, amigo de Clarice, em seu Diário Completo, em uma das poucas alusões que faz a autora, diz: “é um longo, exaustivo e minucioso arrolamento de sensações.” Sua escrita é a consumação de incêndio, cujas chamas são a constância de suspiros íntimos e derradeiros. Talvez seja essa uma boa metáfora para se construir uma moldura de seu retrato.
Tendo sua obra inteiramente influência por um traço biografia que é tingido por pessoalidade/personalidade ímpar, que não só estrutura como ainda a diferenciava das demais. Esse engendramento de ficção e vida, é experimentado por ela em uma constante desconstrução literária cuja fusão de papeis que trocam-se entre si sem regras, e se fundem a gerar cópias de si mesmo, sem se permitir uma distinção racional. Assim se dá sua transmigração textual.
Para Rosenbaum outro crítico, “A ficção que se arma nesse jogo de vozes desmonta as incertezas factuais, imprimindo ao texto um caráter inacabado, aberto, questionando a verdade única da experiência narrada.”
Já para, Sergio Millet, a relação de Clarice com as palavras se faz de não domínio, “não as domina mais, então; elas é que tomam conta dela.” O que nos faz entender sua intensa postura de desdobramento subversivo. Que possibilita pensarmos um efeito de embriaguez artística na autora.
Poderia continuar a pensar, e conectar informações que justificariam minha crítica do mal estar de uma popularidade leiga, que impossibilita o mergulho, o aprofundar, que na literatura assume um caráter incrível, de quem se dispõe por uma perspectiva crítica, ultrapassar um consumo pragmático literário.
E são tantas as histórias que um mesmo romance, conto, ou crônica pode contar de nós mesmo. Por isso reconheçamos os infinitos potenciais da arte literária e não nos conformemos com menos do que, o longo mergulho ao infinito.
Abaixo deixo um trecho de uma crônica de Clarice, A descoberta do mundo, onde a narrativa se desenrola nesse entrelaço de experiências reais e ficcionais da autora.
“(…) fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdôo.”
A entrevista que segue abaixo me fez acorda para Clarice Lispector. Sua depressão exalada no olhar, a fadiga das palavras, e pelos minutos que se seguem ao seu discurso, em alguns momentos, sádico, me levou a desejar o mergulho em sua vida e obra. Que tem me embriagado e feito avançar, e trazido a convicção de um infinito de águas a minha frente.
Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.
Vómitos vespertinos como sombras de sapos que se vadiam enquanto nada mais ali se passa, nada mais se pode passar, verdade, porque nos engole o momento, imbuirmo-nos nos costumes e verdades sem cor, se é que há cor na verdade, mas talvez haja mesmo, há palavras que afundam em si mesmas sem que delas nada frutifere, nem uma manga apodrecida se consegue recordar de anos de existência e secou, calada no alpendre pendurada no galho da estepe.
“irrita-me tanto não conseguir falar com ninguém”
Este emudecido aquecedor na sala é como um laivo nas iras de qualquer querer, uma necessidade sem fundo neste quintal sem muros para gritar de saudades!
Terei eu assim escolhido o meu mundo?
O único fim que nos consagra está escrito nas estrelas ou nos astros desses tantos longes no céu ou em qualquer outro imaginário, a morte é a garantia até mesmo para os santos.
Procuro diáfases e encantos brandos, nuvens repletas de sonho, viagens imparidas contra todas as paredes do silêncio e a única voz lá é a minha, sim, ela mesma, contra mim, a repudiar-me de tanto sentir necessário dizer e nada, fico-me apenas no que me digo ou sinto e voo para as montanhas do meu quarto resguardado para as insanidades.
“irrita-me tanto não conseguir falar com ninguém”
Tantas vezes me rego neste jardim forasteiro à beira das antigas olimpíadas para me banhar contra o tédio, fugir nem sempre apetece, aliás, há dias em que nem fugir me apetece, prefiro mesmo o refúgio que encontro nos espadais das memória para nem sempre me recordar se é realmente isto o que terei escolhido, este mundo. Se pudesse inventaria um para mim, apenas para mim e sem egoísmos, garanto, para me sentir nele como quem percorre os corredores do hospício sem vozes a incomodarem, opiniões sem trigo nem joio e apenas escárnio como vendavais de tanto se saber.
Prometi também não fazer num mundo repleto de injúrias, fumos nas vozes e que oradores resplandecentes num palco para glória nenhuma, sim, mostrar o rosto enquanto na plateia o gelo adormece os defuntos por terem de ali estar.
Descobri sei lá quando o medo, coisa que nunca tinha sequer ouvido falar, encontrei-o por baixo das saias das tardes que por todo o lado andam e mostram as cuecas nas esplanadas do horror, verdade.
Nas trincheiras vazias do céu, do longe, nas calmas sinuosas deste frio arrebatado onde tu, comigo, me abraças num fresco apertado. Havia céu, havia voz, havia calor.
Crescidas as barbas de Jesus.
– Talvez me aqueçam, queiras como eu. Ah, que sonhas?, dormes tantas vezes neste deserto do meu colo, num deserto qualquer.
– Sinto, como estas árvores no espaldar dos infinitos, nestes restos esquecidos, as costas ainda queimadas pelo purgatório dos céus, preciso que me abraces.
Nas trincheiras obtusas de qualquer distância. Um afagar de núpcias, saibam, Jesus era uma metamorfose rara e Madalena, o resquício dos seus beijos de breu.
No deserto, acalentados se sucumbiam num desejo refém, quase que a acabar no refego árduo dos corpos, Ele deitado, as costas marcadas pela suprema verdade divina enquanto o sussurro do desejo por dentro o rasgava sob sonos ou sonhos numa verdade nunca anunciada.
– Desejo-te!, dizia Maria Madalena.
A voz viajava pela floresta como se ali as pernas se transformassem em árvores, criando naquele silêncio, a beleza rara das sombras.
Os cabelos agudos. Roçavam as peles negras um do outro enquanto os olhos fechados indicavam a alma do amor. Maria Madalena de transas. Duas fiadas curtas de cabelo desciam vagarosamente, quase contra os ombros.
Lá fora os corais, o eco sóbrio de paixões muitas num ar de templos, lá fora a ânsia sobre quem sou, embora, sabem, filho que sou da natureza mais poderosa do silêncio, me encubro sem ser, verdade, coisa de outra espécie que não esta.
As mantas eram de folhas feitas. A cobrir-nos o íntimo sol das almas num amor descoberto pelo desejo ao sermos também como os outros, filhos para amar. Rosa negra, um rosto metálico de brumas, negra, os dedos longos numa longitude ali, sobre as minhas barbas, as tuas mãos num cântico, de fora, a entrar pelo templo enquanto eu, possuído de ânsias pelo teu jeito de me possuir devagar.
I only want to say.
Talvez a da época esta confluída canção que me rogavas no leito do amor.
Por dentro, a matriz solta do teu corpo, ainda que dançasses pelos ímpetos inquietos a floresta decorava o nosso sono, que sono era, quis na mesma sentir assim, sonho e que importa.
O mundo tem assistido a uma avalanche de intolerâncias das mais diversas ordens, além de manifestações públicas de insatisfação e revolta, individuais ou coletivas, com relação a governos, instituições, ao outro ou mesmo com a própria vida. A Filosofia permite ao ser humano compreender melhor a si mesmo, a sociedade e o mundo que o cerca, estimulando uma maior autonomia do pensar, agir e se comportar. A partir dela, e ao longo de séculos, foram e são fundamentados projetos, pesquisas, produções científicas, artísticas e culturais. A Filosofia nasceu da necessidade de orientar-se e encontrar um princípio norteador que ressalte o questionamento da existência do homem no mundo e do mundo no homem. Ela é capaz de delimitar limites e, ainda assim, proporcionar liberdade. A experiência a partir de reflexões diversas estimula o exercício do espírito crítico, o qual permite um olhar interior para a relação consigo mesmo; com a comunidade e, acima de tudo, com o amplo sentido da existência – o que impacta no aprimoramento das relações. A prática filosófica promove um diálogo aberto, dando maior significado ao ato de “escutar”. O diálogo pode reforçar laços, sem abrir mão do princípio de não negar conflitos, mas sim, acolhê-los com equidade e bom senso, procurando-se ater às qualidades das dinâmicas relacionais. Será dentro de uma instância ética e política que se favorecerá o impulso das interações coletivas de compreensão da realidade, destacando tanto o pensar quanto a conscientização no agir. O objetivo original da Filosofia é o da reflexão sobre as questões que envolvem o cotidiano e a maneira como é possível utilizar a capacidade de compreensão no delineamento de novas perspectivas para lidar com problemas e conflitos. Por meio do exercício do filosofar e do expandir da consciência, empregam-se maiores possibilidades na busca do reconhecimento das inquietações, para assim, transformá-las em respostas significativas. Diante de tudo isso, nota-se a importância do diálogo filosófico no processo de formação e transformação do indivíduo, considerando-o como simples intenção de quem procura mudar seu interior para, em contrapartida, mudar o modo de conviver consigo e com o outro. Para que isso aconteça positivamente, é imprescindível a construção de discursos que permitam orientar a percepção do que venha significar o ser e o estar no mundo e, neste exercício complexo, tecer oportunidades de estruturar juízos a partir de pré-conceitos para, dessa forma, reconhecê-los como impulsionadores da busca do entendimento, dos significados e das soluções.
Isaque Trevisam Braga Professor de Filosofia no Colégio Rio Branco Mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Especialista em Filosofia Clínica pelo Instituto Interseção de São Paulo. Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisador na área de Filosofia com ênfase em Ecosofia.
Nem sempre os sonhos se perdem. Nem sempre nos tornamos vencedores na vida. O percurso nem sempre é inventado.
Sabes madrinha, sonhava ser médica, quem sabe outra coisa, tinha pena das pessoas pequenas como eu e sem mãe, mas eu tinha uma madrinha que tudo me deu. Eras a minha mãe.
Sabes madrinha, eu comparava-me com os outros meninos, apenas isso, por terem mãe e eu não, não entendia o porquê, mas a vida foi-se desenvolvendo e com o amor que sempre recebi de ti fui percebendo, és não sendo, mas és, amar é quem cria, educa, ensina.
Fui uma criança como as outras, vivi, brinquei, corri, saltei, tinha em casa o amor que todas as crianças precisam, a comida feita e o abraço de todos os dias, sabes madrinha, é tão bom sentirmo-nos amados.
Lembro-me das perguntas que te fazia e se me recordo das tuas respostas, eram sempre lindas e fortes, simples, mostravas-me o céu onde poderia estar a minha mamã, as estrelas que um dia iriam fazer brilhar a minha vida, o teu entusiasmo em que eu estudasse, querias como sempre, que eu fosse um dia alguém nesta vida. Cresci e sou, graças ao amor de uma madrinha a fazer o papel de uma mãe. Sempre o foste desde que a minha mãe desapareceu numa guerra tão feia, aliás, as guerras são sempre feias!
Lembro-me tão bem das tranças que não dispensava, das rosas colocadas em cada uma, do teu sorriso lindo, das nossas caminhadas até à escola e tu lá, sentada no banco que dava para a entrada, à minha espera. Sabes madrinha, o amor deve ser uma palavra escrita sempre em maiúsculas, o amor é das coisas mais importantes da vida.
Lembraste quando me dizias que eu teria de estudar muito para ser uma pessoa importante? Eu lembro-me, como se fossem coisas ditas ainda hoje, ficaram para sempre marcadas na minha cabeça, por isso estudei, o teu apoio e a força que sempre me transmitiste levaram-me a nunca desistir. Cresci madrinha. Hoje sou adulta, desempenho funções de destaque na minha vida profissional, mas sem ti, talvez nunca fosse ninguém.
Lembraste dos edifícios que nos rodeavam?
Lembraste das nossas conversas madrinha?
Eu ainda me lembro de tudo, desde o escovar dos dentes ou lavar do rosto, de quantas vezes me dizias
“EMMA, está na hora, olha a hora das aulas!”
Aquele sombreado ainda na minha cabeça, mas das tuas mãos sim, o que mais significou para a minha vida. Eras e és a minha vida madrinha.
Quando o amor é incondicional ninguém esquece, quando o calor dos abraços são assim, quem esquece o valor dos braços nos corações de todos?
Sabes madrinha, ainda hoje, crescida e já definida na vida, recordo e vivo da mesma forma sobre tudo o que fazias comigo, tudo o que me dizias, os ensinamentos que me transmitias, sendo tu a mãe que perdi nestas coisas da vida.
Sabes madrinha, és a minha mãe, a mãe que destino tirou de mim, mas felizmente surgiste como um anjo branco a sobrevoar a vida e os sonhos de uma criança.
Que entendia eu da vida?
Nem sempre as dificuldades na vida nos remetem a seres menores, o crescimento é uma coisa linda e cada pessoa tem o seu próprio, o seu próprio caminho. Eu tive como sabes madrinha, um início difícil, perdi a minha mãe que mal conheci, mas Deus encontra sempre uma solução para a nossa felicidade e sorte, ter-te a ti madrinha, está em tudo o que disse, fui uma menina triste mas feliz por te ter encontrado nestes caminhos que a vida nos impõe.
A tarde encobre-se de falanges à distância, ouve-se a cor adocicada da vida, o silêncio da juventude, as memórias esquecidas neste rio tão lindo como o entardecer, um amordaçado cansaço superado pelos ímpetos e vontade de viver, sentir fluir nas veias o recorte da vitória, a sensação de que compensa lutar pelo nosso objectivo.
De repente, uma vontade de se falar sozinho, contar as histórias caladas da vida que decorre ainda, esse carreiro de silêncios preenchidos com sangue e vida, vontade de tudo, pensar o dia, reflectir a noite e dormir um sono profundo e suculento.
Dormir bem revigora, acordar cedo é um acto de saúde e vontade, esperar pelo correr do dia numa tarefa que nos dê prazer, amar o presente e respeitar o passado, sentir o fluir doce do nosso próprio corpo nesta cidade de todos. A nossa.
Nasci devagar, não sei se se nasce depressa, aprendi a estudar o dia a dia e os momentos para aproveitar o sabor de tantas ideias, criar o meu próprio caminho que depende sempre de como o começamos, ter lar e casa, amor, abraços, sorrisos matinais e um sempre bem vindo bom dia amor.
Nem todos os que partiram desapareceram completamente, há tantos recursos para que os consigamos fazer presentes, verdade, as pessoas conseguem desde que queiram amar o tempo, venha de onde vier, vá para onde for, mas nunca desaparecerá da nossa verdade e mesmo essa nunca será só nossa, somos um grupo grande de gente e de ideias, de vontades e saber, com sacrifício soletrar os degraus do percurso desta vida que Deus nos deixou.
O divino não é farsa nenhuma, é crença dos vivos, momentos da existência, reflexão, saber solidificar em qualquer dos momentos tudo que se nos depare pela frente. Saber vencer é divinal.
Sabes, sentir que tudo o que se consiga na vida é ter o sabor da existência, persistência, amor por si mesmo, pensando num percurso nunca esgotado, algo a arranhar o pensamento todos os dias revigorado com saúde, trabalhar ou estudar e ser o fruto da conquista que a vida nunca nos impede.
A vida é, na verdade, um encruzilhado de ruas, optamos e escolhemos, decidimos e vamos por um por outro, a opção é sempre nossa, da nossa educação e família, o amor do lar, a vida que a nossa casa nos permite ter, seguimos bem se por ventura escutarmos a voz da verdade. Ler devagar faz bem, é como deliciarmo-nos com um petisco à mesa, ler ensina a não nos cansarmos da vida, faz-nos perceber que existem tantas vidas nesta casa global a que chamamos mundo, esse rio estreito que nos leva a ser saudáveis e felizes, apreciar o bom que é apreciar um belo peixe grelhado.
Sabes, a vida é um aglutinado de tudo, de escolhas e opções, de sortes e azares e tantas vezes escolhemos o errado, talvez por ser mais fácil, acredito, embora nem para todos isso seja uma realidade, separar o trigo do joio faz parte das boas consciências, e essas, nem sempre dependem do poderio financeiro da família mas sim do calor recebido ou entendido, aquele que a nossa alma recebe dos bons costumes, bons hábitos, regras, cumprir com zelo é um caminho que raramente dá errado. Saber encontrar no lar o rico sabor do dia, a fluência brilhante dos rios que caminham solitários, mas levando-nos a reflectir sobre como conseguem ainda ser felizes, tantas barreiras, muros estanques a fecharem a sua torrente, a obstruir o seu destino, mas nem isso os impede de chegar ao mar.
Sabes madrinha, nunca acreditei que vivia sem mãe, sentia em ti tudo o que uma mãe faz e dá, era a minha inocência a fazer-me perguntas e as respostas eram sempre a tua sabedoria. Não posso nunca me considerar uma pessoa infeliz, pois, tive em ti tudo aquilo a que se possa chamar de sorte, felicidade, empenho e dedicação, um amor tão profundo que nada consegue por palavras explicar.
Como me recordo do teu nome e tão poucas vezes o citei, minha madrinha-mãe, Celeste, esse nome que vem do celestial, até nisso fui protegida pelo destino.
Não há dia nenhum em que me levante e não vá à janela, preciso de respirar a felicidade da memória, sentir correr pelo corpo o percurso de anos nas mãos de uma madrinha linda e amiga, a minha mãe de verdade, a que Deus deixou que ficasse para mim, a que me deu sonhos e verdades, a que elucidou e esclareceu, a que nunca me mentiu e apenas disfarçava coisas para que a criança que eu era não sentisse a verdade daquela dor que desconhecia, não tinha ainda noção da dor da vida e vivia o amor que me era dado.
A janela não é só o olhar para o exterior, é também viajar e recordar, recordar é viver, saber diferenciar o que está daquilo que esteve, outros olhos a verem a mesma coisa com uma experiência diferente, valorizar o que ouvia quando abria a janela pela manhã e na naquela inocência sorvia com inocência todos os movimentos que a vida me deixava ver e perceber.
As fotos ainda na minha sala, decoro quadros com elas e tu lá, sempre do meu lado direito como se fosses e és, a minha mãe, a mãe que nunca tive, a mãe que a guerra me roubou, e tu, madrinha, sempre ali, de manhã e até ao anoitecer, quando nos íamos deitar e as histórias que me contavas para me alegrares, sei como gostavas tanto de me ver feliz, a menina que sempre fui, a que ensinas-te a viver e a ver a vida do lado certo, os teus exemplos de vida que foram e são ainda a minha escola de vida.
Crescemos depressa e nem imaginava, e tu, ainda linda e com o mesmo sorriso, a mesma paciência, as tuas mãos dóceis que tantas vezes me acariciaram o rosto e limpavam as lágrimas que tantas vezes largava pela cara a baixo, lá vinhas tu com a mesma calma de sempre e com palavras sempre aconchegantes.
“a mamã está no céu, ao lado de Deus”.
E sempre com muita atenção ouvia, e quando seguia a caminho da escola, os meus olhos viravam-se para o céu, onde tentava, como criança que imaginava ser verdade ver da terra, a minha mamã que a guerra levou para junto de Deus, estaria lá em cima, bem entre as nuvens que todos os dias percorriam aquele azul tão bonito e como me alegrava imaginar sequer que ela ali estaria garantidamente bem, entregue a Deus.
O berço que temos desde crianças define profundamente o nosso futuro, a forma como crescemos é a melhor coisa que temos e com ela os exemplos para tudo o que no futuro fizermos, como encararmos a realidade de todos os nossos actos, como encararmos os outros e como respeitar as pessoas que connosco se relacionam, onde aprendemos a respeitar para sermos também respeitados, é uma grande verdade madrinha, e contigo, tudo isso foi verdade, tudo isso foi a minha grande escola. Sei, é verdade, que para tudo precisamos também de sorte, muita sorte mesmo, sei madrinha, que nem todas as crianças que perderam a sua mamã assim tão cedo como eu, tiveram a sorte que eu tive em ter uma segunda mãe, uma madrinha como tu.
Hoje, tudo decorre como me havias ensinado, a ser uma menina linda, uma pessoa importante para si e para o seu país, que aprendeu na escola da forma me havias tantas vezes dito e assim segui, graças a Deus madrinha, consegui absorver sempre o conteúdo das tuas mensagens, os teus recados sempre cuidadosos e belos, o teu mimo nunca exagerado, pois, sempre me disseste que mimar muito nem sempre é bom, e assim foi, mas nunca me escondeste que a vida era difícil, exigente, e para que conseguíssemos ser alguma coisa, era preciso o essencial:
Dedicação e amor pelos estudos, respeitar o próximo.
Não estás já entre nós, agora tu também estás no céu, ali, naquele cantinho lindo que sempre me disseste ser o lugar onde a mamã estava, do lado direito de Deus, sobre as nuvens, lá longe, mas ao lado da mamã também, sei madrinha, a mamã deve estar-te muito agradecida por teres sido em vida uma pessoa com P grande!
Quantas vezes no silêncio consigo ainda ouvir-te, são tantas as recordações, foi tanto o que aprendi contigo, e tão bom o que me mostravas. Contigo aprendi a ver a lua naquelas noites sem chuva e sem nuvens, o céu escuro ao fundo e as estrelas que corriam de um lado para o outro como se tudo fosse um sonho, um sonho entre nós, acordadas e em risadas que ecoavam o vão longo do nosso corredor para o quintal, sempre de mãos dadas, sempre juntas, sempre felizes.
Até para crescermos precisamos de aprender que isso é um processo contínuo, é o caminhar da vida para a vida, e mesmo depois de crescidos já, continuamos a aprender e a utilizar tudo o que nos foi ensinado enquanto crianças. Não era triste por acaso, mas também não me tronei feliz por acidente, não, até nisso aprendi tanto, foi outra escola para a minha vida além da escola para onde me levavas todos os dias pela manhã e por mim esperavas, sentada no jardim até o toque para a saída soar, regressarmos a casa no meio de conversas que sempre tinhas comigo e no meio de tudo isso os exemplos que sempre me fizeste ver.
Sabes madrinha, muitas vezes pensavas que não te estava a ouvir, mas não era verdade, ouvia sempre tudo e com muita atenção, sempre senti que era tudo muito importante para mim mesmo não tendo ainda noção disso, mas foi um bem sagrado e hoje, sei como tudo isso é importante para o meu dia-a-dia, para o meu trabalho e para a minha vida, para com os meus amigos, colegas, toda a gente, pois, aprendi que o importante é nunca nos esquecermos da nossa vida mas também nunca nos prendermos ao que tivemos de mau, tudo se consegue quando as lições são boas e os mestres o grande exemplo para reflexões futuras.
“a mamã está no céu ao lado de Deus”
e tu madrinha
“tu estás no céu ao lado de Deus”
E eu aqui, contigo e com a mamã no coração, nos meus gestos, nos meus dias, nas fotografias que guardarei para sempre, tenho-vos às duas lado a lado e para onde olho todos os dias.
De facto, recordar é viver. Digo isto por ser o que sinto, por ser o que vejo, uma experiência minha, é verdade, jamais esquecerei tudo porque passei, sei que foi uma história triste, mas uma enorme lição de vida. E quantas histórias destas não acontecerão ou aconteceram?
Tive um nome lindo como todas as crianças tiveram, sou a mesma como todos os que cresceram são, tive uma vida e todos nós tivemos, e o importante e saber absorver tudo porque passamos e saber aproveitar as oportunidades que nos são destinadas, uns tiveram mãe e outros alguém que nos amou da mesma forma, sabem, o amor é incondicional, é algo tão difícil de definir, mas tão importante para se viver, sim, há quem diga que somos aquilo que nos fizeram ser, é uma boa verdade, mas será mesmo assim?
Acredito que sim, mas é importante que sejamos também nós a encontrar o nosso rumo, a fazermos por nós mesmos, sim, nem todos tivemos o mesmo amor desde pequenos mas nem todos se tornam maus adultos, muitos até são grandes referências disso mesmo, grandes exemplos de vida que nos ensinam que o caminho começa na nossa cabeça, no nosso coração, nos nossos actos, e há até quem diga:
“fazer por merecer!”
A vida também é uma grande escola, assim como a escola é grande para as nossas vidas. Nem todas as crianças tiveram uma mãe, e como é importante esse amor, mas tantas vezes temos outras mães, que não sendo a nossa mãe, criam-nos exactamente como se fossem a nossa mãe.
Não há só gente má, há também gente de bom coração, pessoas que sabem o que é o amor e sabem muito bem como dá-lo. Também devemos ser capazes de esquecer o que foi mau, viver o que é bom, crescer felizes sempre, pois, a vida é uma coisa muito bonita.
Crescemos, deixamos de ser crianças e ainda assim criança sempre para as nossas mamãs, elas irão ver-nos sempre como pequeninos porque nos amam, não conseguem imaginar sequer que já somos adolescentes, adultos, que já temos as nossas vidas, o nosso trabalho, é verdade, mas isso acontece porque querem sempre o nosso bem, isso é amor, também nós seremos assim quando crescermos e formos também mamãs e vermos os nossos filhos sempre meninos, é verdade e é tão bonito quando sentimos assim o amor, essa coisa eterna, infinita, colorida, esse arco-íris para a vida, para nós, para eles, que nos olham todos os dias com o brilho nos olhos. Sou crescida já, mas ainda assim sinto existir uma criança dentro de mim, a criança que sempre fui e continuarei a ser, verdade, é tão lindo ser-se criança!
Hoje vivemos em paz e sem guerra, essa coisa feia que mata as pessoas, que matou muitas mamas e muitos papás, tantas crianças como eu ficaram assim, sem eles, outros perderam-nos apenas sem saberem se estão vivos ou não, são essas as coisas feias que a guerra deixou, marcas de que nunca esqueceremos e que servirá de exemplo aos homens de hoje, nunca se devem repetir os erros.
o pequeno almoço era sempre na mesa da cozinha, todos juntos e ali se falava de tudo e até dos ausentes, idos, consumidos pelas fatalidades a que a vida nos obriga sem senão nenhum, a voz de todos num fundo aberto para quintais de vizinhos que nos escutavam também.
aquela alameda imensa quase nunca mais terminava, tal a relva espalhada para os comícios desse início de 1975, com a alma da família que nunca escolhemos.
“afinal, quem decide tudo isto, é certamente Deus.”
lembro-me dessa época, ainda em pequeno recebido por um lugar desconhecido e que fui descobrindo vadiando para dentro e para fora do coração com o olhar sempre atento a novas vidas, viver custava e não custava, tudo era reactivo e furtivo tal a alma de menino num barco pequeno naquela alameda luminosa onde a bola reinava grupos que, até esses, eram inventados para nos desencantarem.
bem cedo o início do dia, essa coisa que por razões naturais tem de ser assim, acordar cedo para fazer bem e saber melhor ainda. e tudo decorreu, passado, presente, futuro, este, que ainda hoje se disseca num sol brilhante para canções que ouvíamos quando as calças de ganga e o afro do cabelo era moda.
adoro ainda assim, tudo do que já nem sequer me lembro. recordo-me que vivi e cresci.
a única vez que havia ido a um cemitério foi quando entreguei o meu avô a Deus e senti como ele partiu, deixou-nos com tranquilidade e desejou sempre felicidades.
e tantas vezes me dizia:
Vítor, não quero que morras, precisamos muito de ti!!!
onde estiveres, beijo avô.
Logo pela manhã e como sempre, bom dia senhor, não sabia sequer o seu nome, tinha acabado de chegar dos andros.
Havia uma sensação de coisa nenhuma, ruas e cheiros que mais pareciam querer fazer esquecer a dor, ainda assim, que dor?, falavam-me os interlúdios esmagados na garganta quando sem querer descias escadas daquela casa que nunca antes havia conhecido.
A cabeça às voltas com pensamentos que mais pareciam escrituras nas paredes como os antigos e com elas recomeçar uma viagem quem sabe eterna, nem tudo serão recordações, tanto do que se tem passado não é na verdade isso, mas sim momentos actuais como se de milhares de anos se tratasse.
Não me sinto entregue às mãos de Deus, sirvo-me do silêncio para conversar sozinho e quem sabe nele tudo o que se possa imaginar, livros e livros escadeados sobre a secretária iluminam-me a vontade e neles talvez me perca ouvindo de Maria recados de outros tempos.
“nunca foi assim no meu tempo!”
Não sei lá muito bem o que significa cedo para todos, mas para mim, cedo é sempre que a alma desperte e nos obrigue a sentenciar os rumores que vão rasgando a vontade de não estar na cama tanto tempo e sair para todos os lados desta esfera incolor a que chamamos o que quiserem, fica entregue a vós a decisão para que se possa dar um nome ou lá o que for a tudo isso. Eu, por mim, não sinto noites nem madrugadas nem manhãs porque todas elas são os vértices da mesma esfera.
Ao fundo batráquios que me secam a fome de nadar, rugidos náufragos dizem os dizedores do saber e na verdade apenas me afundo, infecundo-me no silencioso afogar das azáfamas que tantas vezes possuem cores da mesma forma que o olimpo as dissipa, vozes terrivelmente cansativas, entende, precisamos mesmo é de nos conseguirmos escutar ao nosso ritmo mesmo que seja lento.
Quem sabe um deserto mesmo que seja colocado entre as nuvens onde nada mais do que me apeteça para me sentir agrade e será que alguém lá, nesse cimo baixo de restos enclausurados por escritos nas paredes onde só me obrigam a ver me faça seguir sudrando-me da liberdade de existir, não sei sinceramente se me entende, talvez esteja a divagar demais para que alguém perca um minuto seu para me ouvir, mas talvez circunda-me em escudos daqueles que usavam em tempos de descobrimentos me ressuscitem consciências sábias de súbitos entendedores de todas as metafísicas da existência.
Tantas vezes me confesso a si, sabe, nem muito bem sei, acredite, o que pretendo ouvir, nem mesmo a mim próprio confiar nestas encrustadas peles de raivoso lobo na trela do tempo, a que me faz ser cada vez menos o vento para a minha simples respiração, um foço de raivas à volta a conseguirem ao seu ritmo bajular-me de nulidade existencial e escrevo em papeis para ninguém o que só sei ou consigo descrever numa língua que ninguém conheça. Apetece-me tanto falar um grego qualquer que nem Sófales saiba, apetece-me até dele mesmo esconder-me não vá ele descobrir que a minha raça tem as cores fungais numa bandeira derretida pelo sol das quimeras que antes inventavam para filosofar escuridões.
Não tenho vontade nenhuma de me apelar, sabe, mas dispersar agora e aqui consigo, sei que de mim nada sabe e por isso consigo mesmo esta raiva colorida de restos da última chuvada suada sobre a cabeça das minhas ideias que ninguém bebe sequer uma gota, não escrevo nada, nada do escriba em papeis revoltos de ânsias valem a pena, são apenas súbitos e idos ou se quiser fronteiras entre mim e a existência, essa qualquer coisa que desconheço mas descrevo-a como se por ventura fosse, e também porque me apetece, voluntariamente mergulhar na alma de todos e deixar-me quieto no quintal dos amorfos vivos que apenas pretendem sucumbir entre risos e sargaços, uma leitura esquimó e palavras a seguir para depois nos entender-mos nas metamorfoses dos deuses imaginados porque na realidade não existem.
Mas para espanto, espanto?, bem, nem muito de mim sei se o será, acredito mais que sejam caminhos daqueles que apenas existem para secar palheiros ou cafezais acústicos tal a melodia das máquinas nesse longe tão disfarçado em existir. E de novo nuvens para descreverem o futuro das chuvas que sobre mim molharão a memória de tudo o que de mim já nada sei. Sim, nada de mim sei, nunca soube, invento-me a cada instante e por isso ser chuva me conforte, isso faz-me sinceramente ser o que apenas conseguir porque assim me permitem as fatalidades para que terei nascido.
Mas pronto, registe tudo o que lhe disse, amanhã já nada do que aqui lhe falei me recordarei, trago as memórias e sempre mutáveis dissipam-se como gazes de todas as flatulências da única força de vencer que possuo. Nunca serei meu e nem quero. Aposse-se de mim e leve-me como o dia leva o vento e as tempestades. Será pedir muito?
As manhãs acolhem-me bem cedo, cedo me levanto para tentar apreciar o silêncio que o nascer do sol brota por entre edifícios que me cercam, há sempre uma brisa que corre e com ela tento saborear o peso talvez doce de uma longa noite de sono. Alimento-me de tudo, todo e qualquer pouco me sacia sendo que o mais importante é sentir que ainda respiro. A morte mora garantidamente longe ainda. Sei que um dia virá e a ela me renderei como acontece com todos.
A morte não se compadece com o choro, lágrimas em todos os cantos quase se faz esquecerem-se de nós, o que sempre acontece. A morte leva-nos para bem longe, não saberemos nunca para onde, mas porque choram quando isso acontece?, não vale a pena, acreditem, é que mais dia menos dia já tudo está normalizado, nada mais fica a não serem fotos espalhadas pelos cantos da casa, se assim for. Dirão alguns, ele era isto ou aquilo, foi amigo e companheiro, perdi alguém que muito me dizia mas nada disso, nem sequer blasfémias, são apenas momentos e tão rapidamente tudo é o era e já tudo foi. A vida é riscada assim tão simplesmente das consciências como qualquer tempestade que tenha invadido um paraíso e depois de reparado passou.
Imaginamos cantos para esconderijos, sejam eles paredes ou vernáculos silêncios ainda que exprimidos de forma culta, somos de facto vencidos pela verdade enjaulada nas cabeças obtusas dos nossos olhares sinuosos quando nos deparamos com verdades que não conseguimos explicar. Sei como é difícil tantas na vida explicar aquilo de que tantas vezes fugimos. As cores reais das telas com nos deparamos.
Estas correntezas de frio, Maria, confundem-me, enferrujam-me completamente, fazem sentir-me um parente próximo de tantos vermes que circulam vagarosa e calmamente os meus interlúdios de daltónico, só que neste caso não só as cores, sou daltónico até na forma de pensar.
Ainda o rugir da madrugada e já frio. Tudo se espanta contra que tédio de voluntários do Arizona nesta olimpíada onde só riscos nos arrastam sem arrastar, levando-nos nos braços da glória.
E que braços tem a glória?
Em nome de nada é este o caminho, o risco que se pisa é apenas um momento ainda que se eternize e esquice como batráquios soltos ao Deus dará, pedacinhos tão coloridos a infernizarem o templo estampado na t-shirt la cost de um mercado qualquer.
“o charco cheio da secura amarela”
Ouço devagar os soletrados passos do tempo, escuto a memória das horas, o ruído de todos os silêncios disponíveis, melodias de rábulas e de rotinas que encantam qualquer desdém e sigo como se a vida fosse tão simplesmente um dia qualquer.
Um apetecer invulgar dizem, que importa se a petulância e naufrágio dos eruditos e dos deuses desta campanha solitária contra os mármores do meu divã.
Voltas e voltas na cama e madrugada ainda, rodopio sobre mim pensando-me como seria adormecer sem descanso e dormir assim tão simplesmente como quem adormece e pronto! Não esqueço, ainda assim, esta vontade tanta de me esquecer, esse cobarde evasivo abalroa-me sei, que importa o charco no peito se por dentro a alma vai vazia?
Deito-me nos braços da glória caso ela exista.
Com todos estes infinitos repletos de mar talvez me conforte, leio umas quantas páginas de imaginação e revigoro o instante, recrio maresias e pinto sem dedos a fúria isolada do presente, este asno sem cor parece-me exactamente o amarelo mais infernal que me conseguem os desejos. Sou feito de todos estes tudos, verdade, estes consagrados nadas que me obrigam a reflectir o deserto ou imaginar a verdade, a cor tépida das ruas num corrupio de arrepiar, vontade de rir encanta-me mesmo que sóbrio de tantas solidões acamadas na minha sala.
Importa-me, isso sim, sonhar o presente, pois, o futuro é um veludo para se transformar ainda em qualquer coisa que descubra ou invente, mas não, não invento nada, sou-me a única certeza que sinto em mim.
As esquinas do tempo são templários do silêncio, vírgulas entre números enumeram a vontade e a gente ali, seguindo o obtuso dos dias vergados no mármore da existência.
“tudo o que existe são linearidades.”
Riscos se assim quiserem pensar ou doutos de todos os holocaustos que a memória nos traz ainda, o verde e o capim das florestas fundidas contra céus azuis num brilho às vezes, mas, ainda assim, talvez me perca na linearidade obtusa d razão.
As vergas que me iluminam de marcas as costas doridas, sim, esta sede de ter sede é como um anseio, percorro calado este estigma como se uma esfinge se tratasse, cortam-me os braços para enfeites tórridos num jardim qualquer para finados e tudo se esvai logo aí.
Decifra-me esta dor por favor.
“a linearidade obtusa da razão”
Sei de cor que a cor não tem razão, é apenas um fundo nos limites do possível, um rio que desflora o horizonte e prossegue, secando-se na madrugada. Nada perplexo, garanto, olho em todo o meu redor tentando descobrir o indivisível, somar os contrários e guardá-los religiosamente na mente como quem sento o frio das horas e do tempo e sei lá que mais, tão longo é este percurso que não há previsão nenhuma para nada.
Apetecem-me as vozes caladas. O ruído escrito nas traseiras de cada sentido ou significado. A tua mão. O abraço de um irmão. Apetece-me tanto ter de me esquecer de tudo e riscar do mapa a minha morada, o meu endereço, o número da minha casa, o telemóvel, apetece-me, sinceramente, ler os enigmas mais antigos nas paredes derrubadas já.
Uma avenida imaginária nesta floresta de céus perdidos, a neblina escorre breve sobre o meu olhar distorcido, sim, é assim que me sinto, um mendigo para dentro de mim mesmo nesta cama isolada do meu quarto sem arrumos nem roupas, coisa nenhuma, sinais de trânsito em cada árvore, trovoada e chuva no alpendre da minha saudade sim, enervo-me desnecessariamente, dizem, mas porque me canso então?
Tento apressadamente regressar aos templários do silêncio, às ondas de tantas marés descobertas e a céu aberto, os rumos de nuvens e ventos a empurrarem-me a vontade para bem longe, sim, esse lugar que há tanto procuro e busco. Nunca o encontrarei. Nunca será meu.