O que Simone e Sartre diriam da nossa geração?

O que podemos fazer com uma geração que sabe, que entende as forças que agem, as forças da exploração, da alienação, da manipulação, mas não ousa questionar. Antes! Prefere questionar o próprio conceito de ética, ou coerência, prefere aceitar a incoerência como condição da nossa época.

Uma nova ética parece se estabelecer quando não se pode exigir nada do outro, inclusive coerência. Uma liberdade individual extrema que nada tem de libertária, estando muito mais próxima de um liberalismo. É “livre” pois pode tudo. É a tirania do individualismo.

Será que foi isso que a era da informação nos trouxe?

Uma enorme capacidade de aceitar, de saber, entender… e aceitar.

A crença profunda e sincera de que é possível criar algo novo sem fazer nada de profundamente diferente.

É um novo paradigma. Antes o desafio era que todxs tivessem acesso à informação, aos conhecimentos, à escola, à internet. Agora o desafio é a informação se transformar em ações que construam um mundo vivível para todxs, e não em controle, estagnação, manipulação e fetichismo.

É importante observarmos esse sistema que cultua tanto o individualismo e a liberdade individual em detrimento do coletivo, mas que quando se trata de dar poderes a esse indivíduo esse sistema, na verdade, o destitui completamente de toda a sua força.

O que podemos esperar das bilhões de pessoas que neste exato momento conseguem compreender que o mundo como o conhecemos está acabando mas não se sentem capazes de fazer absolutamente nada para mudar isso? Uma geração que, incapaz de ser coerente, decidiu decretar num novo acordo (subjetivo e não conversado mas estranhamente consensuado), de que a coerência não é mais algo tão importante. Em tempos contraditórios, nossos pensamentos embalados por um inconsciente coletivo nos acalmam dizendo que ser “contraditório” não é mais algo negativo. Mas, qual é o problema em ser contraditório? Em dizer uma coisa e fazer outra? Qual é o problema se uma pessoa não tiver “palavra”? Que que tem de errado a pessoa combinar e não cumprir? Dizer que vai e não ir? Bom… são reflexões que não têm uma resposta pronta, podem, de fato, representar uma liberdade em relação ao excesso de compromissos que temos que assumir ao longo de nossa vida burocratizada. O ponto é que, abrindo mão desses acordos não declarados de que ter “palavra” é importante, tornamo-nos menos confiáveis para xs outrxs, e com isso construímos menos um mundo colaborativo e vivível para todxs pois não podemos contar uns com xs outrxs para sobrevivermos, tornamo-nos ainda mais dependentes do sistema de exploração em que estamos inseridxs.

Eu queria que Simone e Sartre estivessem aqui, o que diriam dessa geração que ama o existencialismo mas o sepulta todos os dias em quase todas as suas ações? Uma enorme, generalizada e grotesca desresponsabilização por nossas ações e comportamentos é o que vivemos hoje.

Se um dia entendemos que somos responsáveis pelo que somos e, por consequência, pelo que o mundo é, e se essa percepção foi potencialmente revolucionária quando veio à tona (pois nos devolvia nosso poder de ação), hoje essa consciência não respresenta nenhuma ameaça ao status quo. De certa forma foi tirado (ou trocado) de cada um de nós, habitantes da Terra, o poder de acreditar que nossas ações, ou o conjunto delas, é que está acabando com o mundo, e que, por consequência, poderá salvá-lo.

Tendo a acreditar que esse poder foi trocado pelos confortos do capitalismo e do individualismo. Em cada produto, em cada comportamento e em cada atitude (ou não-atitude) vem a certeza de uma aprovação, de uma cumplicidade, vem a destituição da responsabilidade individual e, com ela, a destituição do nosso poder de agir. É uma troca forçada e desleal, mas é uma troca. Temos nossa parte nisso.

Essa desresponsabilização é notável em diversos aspectos da vida, desde o descaso com o meio ambiente, até os hábitos alimentares, de socialização, de consumo e o trato com x outrx. Mas me parece que a principal desresponsabilização está em ter informação e não agir, em saber… e aceitar.

Linguagem literária

A linguagem literária apresenta algumas singularidades, entre elas a complexidade e a multissignificação, responsáveis por diferenciá-la da chamada linguagem não literária.

Você sabe o que é linguagem literária?

Existem, basicamente, dois grandes grupos de texto quando o assunto é a linguagem. Temos os chamados textos não literários e os chamados textos literários, que serão nosso objeto de análise. É fundamental observar os recursos linguísticos empregados em cada tipo de discurso para assim classificá-los corretamente. Nos textos literários, cuja linguagem literária predomina, existem alguns aspectos que devem ser considerados.

Distinguir a linguagem literária da não literária não é tão difícil. Apesar de haver aspectos convergentes nos dois tipos de discurso, Domício Proença Filho, notável pesquisador da língua portuguesa e da Literatura brasileira, definiu algumas particularidades que somente são observadas em um texto literário. São elas:

⇒ Complexidade: é uma das características do discurso literário. Talvez seja por esse motivo que muitos leitores ainda encontrem certa resistência aos textos literários, já que a Literatura não tem compromisso em dar às palavras seus exatos sentidos, o que certamente pode ser um entrave linguístico. Nos textos literários, a semântica é subvertida, bem como as regras da gramática normativa.

⇒ Multissignificação: diz respeito às variadas interpretações que um texto literário permite. A subjetividade e o emprego de recursos estilísticos são responsáveis por essa variação de sentidos. Cada leitor, de acordo com seu senso estético e repertório cultural, pode fazer uma leitura diferente para um poema, um conto, uma crônica e demais textos literários.

⇒ Conotação: O emprego da conotação é uma das principais características do discurso literário, pois ela permite que ideias e associações extrapolem o sentido original da palavra, assumindo assim um sentido figurado e simbólico. Por isso o emprego de tantas figuras de linguagem e figuras de sintaxe, elementos inerentes à linguagem literária.

⇒ Liberdade na criação: O artista não possui compromisso apenas com o objeto linguístico. A literatura tem um forte apelo estético, e por esse motivo quem escreve utilizando o discurso literário pode afastar-se dos padrões convencionais da língua, inventando assim novas maneiras de expressão.

⇒ Variabilidade: Na linguagem literária, assim como na língua, ocorrem mudanças culturais que podem ser observadas no discurso individual e no discurso cultural.

A linguagem literária pode ser encontrada em vários gêneros, como na prosa, nas narrativas de ficção, na crônica, no conto, na novela, no romance e nos poemas. Compreendê-la demanda cuidado e aguçado senso estético para interpretar e analisar esse tipo de discurso que foge das convenções e oferece o que a arte da literatura tem de melhor.

A linguagem literária pode ser encontrada em diversos gêneros: poemas, crônicas, contos, entre outros que permitam a liberdade criativa.

“Por: Luana Castro Alves Perez”

Que raio de barcos blasmos!

Calada só a noite. Às vezes. Ficam restos do espanto de desencanto da tarde e esses afugentam nuvens e vozes fazendo com que a gente se cale.

Pergunto-me em ti:

“falar de quê?”

o sorvete da água parece sei lá. Uma espuma encardida no riacho lá do bairro, sei lá se verdade, coisa da minha cabeça que estiola a virgem no santuário, creio, pari-me nos encantos da bananeira dos charcos da estrada que seguia sei que rumo e nela ia como quem nem sabe saborear o fumo do Eliseu.

Pesco talvez pântanos, este recanto de desesperos que me rumam à loucura feita peixe obituário nesta santidade de belém em belém mesmo.

“falar de quê?”

Detesto apenas e só porque temo, os defuntos frios são para mim um hospício encardido na pele que dói e por isso fico longe chorando lágrimas para dentro, até para dentro de nós o sal discorre disfarçado num herói das Astúrias dizia Franco, ah pois, coitado do infeliz também arrefecido nessas mesmas Astúrias que criou para aztecas acabados de chegar do norte dos fins do mundo.

“que raio de barcos blasmos!”

Tentei fabricar um barco que me levasse só até onde eu quisesse estar. Infrutífero desejo, nem a ideia frutificou e ficou tudo na mesma como uma lesma rastejante sei lá onde, senti apenas o frio do morto na cabeça a matar-me de medo!

Tentei depois descobrir os que seriam blasmos e nada, ninguém ali, mesmo no obituário onde todos os sábios se sentam a decorar o corpo frio do falecido me esplicavam, ninguém sabia inventar comigo uma fantasia qualquer que fosse apenas para escrever, queria uma coisa diferente para me enganar, tal o desejo de não existir a coabitar-me a entranhas da raiva que raía pelos na pele, suor apenas, ficou a intenção.

Havia apenas um rio ali perto, um tal de river of the dreams, colava seco e frio fazia ainda assim temer também sei o quê e nele mergulhei, não havia ali corpo nenhum já ido a não ser o meu que iniciava a sua partida para as catadácias lá pelo norte de qualquer destino e que me importava, a intenção era essa, desaparecer para pelo menos me esquecerem, pois, incomoda-me estarem sempre a recordarem-me que já não sou o mesmo e que nunca fui assim como estás mudado. Raios me partam!

Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói

I

Não há pressa para nada e de tempos em tempos o silêncio é necessário. Cada árvore, cada folha, um papel rasurado na mesa encostada ao caixote do lixo dizer besteiras com palavras tão profundas, hesito madrugada ainda e com a caneta na mão direita, qual computadores qual quê, as vozes rangem lá longe e eu sentado nas memórias, ainda a guerra colonial nesta cabeça dorida pelos pensamentos vadios que me invadem todos os dias, o soldado estiolado a meu lado, eu longe de casa, nasceu a minha filha e eu nem lá, remédios para me acalmarem,

– tem paciência Deolinda!

aqui tudo é frio por dentro, socorro amigos estripados pelas balas da noite, não durmo há dias e saudades

– Deolinda.

(como sempre amável)

sei que esperas por mim

– como estás?

lamento esta solidão que te deixo, é assim, tropa

– nunca mais me enviaste cartas!

neste ruído de balas frequentes o cabo

– atenção doutor!

salta do seu canto, corre em direcção a mim, um soldado na enfermaria com as tripas de fora que fazer, ali a seu lado eu, agulhas enferrujadas, empurro-as para dentro enquanto o coso sem luvas

– ele vai morrer?

não desisto de rematar contra estas balizas onde a vida mora, a minha cabeça baloiça entre memórias e saudades e longe de casa esta guerra no norte de angola, curo-me também entre remorsos e incapacidades

– se não o conseguir salvar parte de mim morrerá também?

de um médico abandonado numa obrigação, aqui na mata a viagem nocturna desconhecendo completamente onde estava, o barulho do jeep a diesel velho nem tanto nesse tempo

– Deolinda!

gritava a minha voz para dentro tentando encontrar na recordação algo que me desse forças e continuar

– estou bem, acredita!

não ouvia, o que me fazia saber disso?, falta das cartas, saber de ti, da nossa filha nascida sem pai perto, e tu, abandonada sem estares de facto abandonada, a guerra chamou-me e nada podia fazer a não ser fazer como tantos, exilar-me em frança ou desertar mas aprendi, comecei a sentir a responsabilidade ignóbil de médico salvar ou divinamente conseguir evitar que morressem camaradas,

– a força que tens miúda!

graças a Deus, um lugar ausente, impresente, este escuro sem sombras calam-me qualquer ideia, tantas vezes perco a noção de mim, calo-me,

– cala-te!

o cabo nervoso a meu lado a enervar-me mais ainda, a minha mãe a morrer de tédio e velhice e eu nem lá, mais uma granada explode e eu neste bloco improvisado, sangue e raiva porquê estar nesta guerra que não entendo, na minha cabeça a minha filha acabada de nascer meses depois e já um ano é ultrapassado

– a força que tens meu amor!

o consultório do quartel que consultório, uma tenda verde cobria-nos num improvisado desejo e compromisso de salvar era tudo o que desejava enquanto definhavam camaradas nas minhas mãos.

O meu pai regente negoceia o meu regresso a minha mãe na costura nada me espanta, cansado deste regime onde um salazar me quer, há milhares de homens como eu sem pátria nesta terra de outros vomitar mortos pelos terrenos imensos

– luanda?

a caminho, noite de nada me apercebi o caminho no breu sem estrelas o jeep caminhava, o motorista calado

– acho que vamos para Luanda Doutor.

naquela picada infinita e sem relógio, mato e mato ladeavam a viagem, não era turismo, meteram-me nesta guerra onde apenas aprendi a ver gente morrer

– ai!

suspiro para dentro não por medo, mas por não perceber, quanto mais o motorista, deixei o cabo Silva algures no norte e o soldado cosido com ferrugem e truques se o salvar foi conseguido. Uma granada ou mina sei lá explode mesmo à nossa frente

– calma, porra!

saltavam do jeep todos tive que berrar, parecia carneiro sem saber sequer onde estava

– continua pá!

ao lado do buraco que havia na picada iluminada pelas luzes do jeep

– tens mulher?

a resposta calada, o soldado quase analfabeto e com mais medo que eu, e se medo, medo nenhum, não adiantava ter medo, acreditem, fomos metidos de forma igual nesta masmorra e guerra, colonial sentença, herança do fascismo que sempre abominei, mas ser preso também, nunca tive coragem para desertar,

– onde tens os tomates?

continuamos, o dia a aparecer numa calma tão linda e nós tão feios num mato estranho e tudo estranho, a picada desconhecida sem gps a vadiar, era mesmo.

Não nasci para ninguém

Sabes mãe, não havia nunca ter nascido. Sim, e como as memórias viajam de trás para a frente e frente para trás.

Lembro-me ainda daquele túmulo cinzento, até da cor me lembro, com a minha fotografia à cabeceira.  Risos sei lá entre as lágrimas dos deuses que fugiam das nuvens que o momento inventava, sorria eu descansado naquela lapela de velas desaparecidas de um defunto qualquer, sei lá quem, presságios alimentados na caverna onde havia séculos vivido.

“não nasci para ninguém”

Um subscrito com letras éforas, uma mistura de rosas e cânforas que dilaceravam a nostalgia daquele Dezembro por descobrir enquanto badalavam árvores no quintal mais próximo de todos os tédios.

Datas nem sequer e que importavam as datas, isso regista quase nada para existirmos, acredita, a minha mãe ainda na sala de barriga mordaz conferia roupas de cores encantadoras para receber um dia qualquer o sonho dos desfeitos nas paredes mais antiga que havia assim alguém imaginado. Nem na bíblia consta, dizem os estudiosos desse monumental livro de capítulos infinitos, sim, queria talvez sorrir, mas morto já não conseguia.

Verdade,
“não nasci para ninguém”

Esse encanto e que desencanto, quem sabe e que importa agora, soletro devagar rimas desfasadas para encantar o auditório naquele cemitério onde não existia corpo nenhum enterrado.

Sabes mãe, as éforas não são cânforas. Os ermos disfarçam e a gente continua ali enquanto ainda houver vento, sei pelas árvores que doseavam a madrugada a cada badalada e meu pai nos fundos daquela ribeira a caminho de Caxito tentando desenterrar um arbusto saltitante e como tremiam, disseram-me depois os flanges que com ele seguiam, uma caravana de sombras para cantigas desse tempo e a que tempo foi, conseguiria se ainda vivesse para te confessar que o amor matou a distância e o silêncio como em gelo o prazer do abraço. Ficávamos todos secos se tivéssemos sobrevivido.

A neve de nevoeiro cobria o distante para que a caminhada não progredisse, ficaram ali parados, uns encostados ao vento e outros nem a pensamentos, tal era a dor nos calços velho do jeep que conduzias tantas vezes.

As éforas ainda contavam-me de ti.

Ao lado do túmulo a foto do rapaz sem futuro, robusto e seco, mais parecia o eremita inventado na igreja a sul de Nova Lisboa, a terra vermelha encalacra-se nos sapatos e como dificultava a caminhada e ainda por cima chovia!

Uivos não muito longe.

Perto a foto apenas, ao lado do túmulo do desconhecido, creio, e na sua mesinha de cabeceira eu ainda sem barba nem raiva.

Descobria entretanto ali que

“não nasci para ninguém”

eram apenas pétalas de cárceres encobertos na palha de tantos anos perdidos.

Os eucaliptos perfumavam os sons da minha tão desejada solidão.

Existencialismo

Nascido no século XIX, através das idéias do filósofo dinamarquês Kierkegaard, esta vertente filosófica e literária conheceu seu apogeu na década de 50, no pós-guerra, com os trabalhos de Heidegger e Jean-Paul Sartre. A contribuição mais importante desta escola é sua ênfase na responsabilidade do homem sobre seu destino e no seu livre-arbítrio.

Para os existencialistas, a existência tem prioridade sobre a essência humana, portanto o homem existe independente de qualquer definição pré-estabelecida sobre seu ser. Assim, não há uma inquietação relativa aos postulados produzidos pela Ciência ou às especulações metafísicas, e sim no que se refere ao sentido da existência. Daí a predominância de elementos da Fenomenologia de Husserl – movimento que procura compreender os fenômenos tais como eles parecem ser, sem depender do real conhecimento de sua natureza essencial – nesta corrente filosófica, já que ambas privilegiam a vivência subjetiva em detrimento da realidade objetiva.

existencialismo pressupõe que a vida seja uma jornada de aquisição gradual de conhecimento sobre a essência do ser, por esta razão ela seria mais importante que a substância humana. Seus seguidores não crêem, assim, que o homem tenha sido criado com um propósito determinado, mas sim que ele se construa à medida que percorre sua caminhada existencial. Portanto, não é possível alcançar o porquê de tudo que ocorre na esfera em que vivemos, pois não se pode racionalizar o mundo como nós o percebemos. Esta visão dá margem a uma angústia existencial diante do que não se pode compreender e conceder um sentido. Resta a liberdade humana, característica básica do Existencialismo, a qual não se pode negar.

Coube a Sartre batizar esta escola filosófica com a expressão francesa ‘existence’, versão do termo alemão ‘dasein’, utilizado por Heidegger na sua obra Ser e Tempo. Além destes filósofos renomados, o movimento contava também com Albert Camus – adepto destes postulados apenas no campo literário – e Boris Vian.

Soren Aabye Kierkegaard, antecessor do Existencialismo, encontra seu caminho dentro da Filosofia ao rebater os conceitos de Aristóteles ainda presentes nas teorias da época, combatendo assim os ideais hegelianos, principalmente sua crença na submissão de todos os fenômenos às leis naturais, o que lhes confere um determinismo providencial e retira das mãos do homem sua liberdade individual.

Foi este filósofo que legou ao existencialismo a idéia central da liberdade do homem, bem como de sua eterna aflição perante a falta de um projeto que regeria a caminhada humana, o que deixa o indivíduo à mercê de suas próprias decisões e atitudes. Ele vê a realidade como um feixe de possibilidades diante das quais o ser, com sua liberdade de escolha, pode optar pelas que mais lhe convém. Estes caminhos podem ser englobados, para ele, em três opções primordiais – o estilo estético, no qual cada um busca aproveitar ao máximo cada momento; o estilo ético, dentro do qual o homem procura viver com atitudes corretas e morais; e o estilo religioso, que se apóia sobre a fé.

Carta a um garimpeiro de sonhos

(a ti meu amigo Jaques)

Sabes, tudo é volátil, acredita, até mesmo a tua ânsia de usurpo, esse clã dom de que te auto-apregoas magoa, mas a tua sensibilidade corrompida pela vaidade emagrece em cada esquina da caminhada. Acredito que possas ter percurso, quem sou eu para o definhar às tuas passadas de anjo soberbo como aqueles que engolem com a voz alta as palavras dos demais na sala onde só a tua terá de reinar.

Sabes ou devias saber mas não sabes nem queres saber, a alteridade é um invólucro, depois da bala disparada resta o vazio e já pólvora e nem sequer já faz pensar mas ficam os salpicos das ofensas que enunciaras sem pensar que a verdade não é apenas a imaginação de altruísta vestido e gravata nas secretárias do poder, esse, sei e sabes, tantas vexes corrompe e corrupção não é apenas vender ou comprar favores.

Porque razão nos sobe à cabeça a cadeira que a tantos faz sonhar?

Porque sonham tantos com a cadeira do poder, mesmo que seja apenas para isso, alegar que tem o poder mesmo que daí saia apenas a voz altruísta do poder imbuído de alteridades tantas vezes inócua porque nos ofuscamos apontando o dedo e nem sequer conseguimos ver que também somos apontados.

Pior que roubar ideias é não aceitar ouvir sequer.

A cadeira vicia. Raios me partam a esse pendor oficial dos prepotentes nunca antes neles visto. Lembro-me de ti Jaques e para ti falo nesta carta que abro ao mundo citando-te porque me desiludes, nunca imaginei que te pudesses assoberbar de tantas utopias apenas vislumbradas pela tua tão diferente presença.

Antes vestias ganga e bebias cerveja pobre como eu, mas hoje nem sequer um olhar para mim, já entraste na galáctica gramática dos que falam apenas do que se lembram porque apenas isso convém ao presente.

As tuas axiologias de antes são hoje programas de sapiência. Nada a mais é deslumbre, nada mais te encanta a não ser os cânticos reliquiosos das tuas vestes acinzentadas, uma gravata esticada pelo peito e a enfeitar o espólio do agora sou e pronto, que raios esse ter de ser sempre como vias, erro meu amigo, apostei numa amizade que hoje nem caricatura é. Antes de terminar esta carta um abraço. Ah! Felicidades para sempre, embora saibamos que o dia findará mais breve que a história das religiões nos conta. Adormecido estarrecido sobre esta carta que nem sequer consegui terminar.

Linguagem não literária

Nós sabemos que um texto nada mais é do que um conjunto de palavras que formam sentidos, desde que essas palavras estejam relacionadas com um determinado contexto. O texto é um tecido — daí o nome — cujos fios são as palavras. Quando harmonicamente entrelaçadas, elas podem produzir efeitos de sentido e de significação.

Os textos podem ser divididos em dois grandes grupos: os textos literários e os textos não literários. Enquanto a linguagem literária não apresenta um compromisso com a transparência de significados, provocando assim uma multiplicidade de interpretações de acordo com nossas emoções e experiências culturais, a linguagem não literária tem seus sentidos restritos, muito embora esteja vulnerável aos problemas de compreensão e interpretação por parte do leitor. Ainda assim, a linguagem não literária apresenta características delimitadas, e seu principal objetivo é a criação de um discurso cuja principal preocupação é o objeto linguístico.

Para que você perceba as diferenças na elaboração dos textos literários e não literários, observe dois exemplos que ilustram bem as características de cada tipo de linguagem:

Descuidar do lixo é sujeira

Diariamente, duas horas antes da chegada do caminhão da prefeitura, a gerência de uma das filiais do McDonald’s deposita na calçada dezenas de sacos plásticos recheados de papelão, isopor, restos de sanduíches. Isso acaba propiciando um lamentável banquete de mendigos. Dezenas deles vão ali revirar o material e acabam deixando os restos espalhados pelo calçadão.

O primeiro texto, uma reportagem publicada em uma revista de grande circulação, é um exemplo de linguagem não literária, cuja informação é transmitida de maneira clara e objetiva. O discurso não literário tem por principal função informar, portanto, figuras de linguagem e outras subjetividades não são bem-vindas. O segundo texto, um poema de Manuel Bandeira, trata de uma temática que dialoga com aquela desenvolvida no primeiro texto, no entanto, são utilizados recursos próprios da linguagem literária, que permitem a subversão de aspectos semânticos e emprego de elementos que conferem maior expressividade a um texto.

As notícias, os artigos jornalísticos, os textos didáticos, os verbetes de dicionários e enciclopédias, as propagandas publicitárias, os textos científicos, receitas culinárias e manuais são exemplos de linguagem não literária. No discurso não literário deve predominar uma linguagem objetiva, clara e concisa a fim de que a informação seja repassada de maneira eficiente, livre de possíveis dificuldades que prejudiquem o entendimento do texto.


Por Luana Castro
Graduada em Letras

Quantos vinténs de nada?

Enche-me de tédio a algibeira do sonho. Acordo e desacordo sem o sacerdote, é chagada a hora do beijo sórdido no pranto dos cantos.

Tantas vezes querendo pensar descubro-me na solidão de todos os resquícios que a viagem dos climas me caria transformando-me num campestre de cidades inculcadas nas veias vorazes com a cor ardente da sua própria cor, talvez eu mesmo desconheça que sentido faz haver cor nas veias, faz-me e obriga-me a pensar,

“quantos vinténs de nada?”

todos os dias caminho pelas estradas que nem sequer se existem, debruço-me sobre todos os percalços nela estancados e do vento o tempo que sobre ele navega, talvez possam existir subterfúgios como naufrágios engolidos pelos silêncios e a caminha frutífera, essa gosma de ânsias que se albergam devagar e tão lentamente na minha cabeça fazem viver e reviver todos os sonhos do que vejo.

A aziaga dos meus bolsos com os burburinhos do vento é sentir paz, a sede de degraus ou fome de sonos, uma viagem infiltrada nos cadafalsos dos ditos e mexericos sobre o meu recreio de infância ainda. Lagos parados ao som de todos os vinténs que me consolem, o ruído desaparecido enquanto me esqueço de ouvir, é uma audácia acredito conseguir ser capaz de tanta impetulância, tanta caminhada e mais ainda pela frente, as areias soletram os meus passos a cada instante, tudo é nada na verdade, acredita, somos o fim quando a altura de o sermos efectivamente nos chamar sem chamamento nenhum sabemos, vamos apenas e pronto.

“quantos vinténs de nada?”

Sabores na terra onde a quiçângua degola o prazer que se acostuma de nós, o degelo do alimento nas mãos que esfregam e raspam o prato qual coisa, a panela da minha tia fervilha ainda os vapores do último pirão lânguido e brilhante que jorra a fantasia de querer-se crescer mais depressa ainda. Degusta-te então. Sabe-te de ti. Isola a tua ânsia que fermenta náuseas nesta janela de fumos que apenas escurecem dia após chaminés flatulentas rebentarem o último suspiro dos santos.

Quantas vezes preferi a relva solitária daquela alameda nunca minha nem na minha cabeça um sonho para mim correr em direcção ao sonho que seria sempre o desespero, o betão dos astros das minhas mais desejadas fantasias quando pensava num futuro sei quantas vezes nada, tudo se esmurrava naquele muro que era muro nenhum, existia apenas na cabeça que me estiolava os passos numa jaula sem passarinhos, apenas eu.

No início era o verbo amar.

No início era o verbo amar.
A carne tinha olhos. A carne via sobre o telhado do mundo.
Era antiga a condição com que se podia equilibrar a tenda das
coisas. O vento era com cor. Ao lado havia a caixa dos mistérios.
Uma voz que não se podia ouvir a dizer como se deve viver…
Era o fim. No início o verbo amar não tinha voz.
Passou o tempo sob a terra. A água desapareceu. Acredita-se que
era por causa dos olhos que se fundaram no coração. Veio o cansaço
para disfarçar a queda. No início havia o verbo amar em cima da asa
ou do tendão das cores. Havia um furacão por vencer e com certeza
de que se já tinha nas mãos. No início era o ardor, a cegueira.
No início era o verbo amar. Em cada imagem há o som faminto do
sal, transformando a morte em embriaguez. Há o vaso dilatado de
esperança depois de cantarmos. Digo: depois da planta que se fez na
face.
– A distância alumia as estações perdidas. Mas como podem se
perder as estações se ainda há a existência?
Como se perde o tempo?
Olho para a diurna loucura e incendeio. Regresso ao ventre
primário.


Encheram as mãos e as cabeças.
Cantaram as canções dos pássaros.
Brilharam.
Encheram espaços.
Perseguiram os mais fortes.
Distraíram os preguiçosos.
Sob as canções dos pássaros inventaram outras.
As mãos sanguinárias eram limpas.
Esperavam por alguém com olho infestado e uma alma branca.


O cão lavrador chama o homem.
O homem chama a espada.
A Terra se ironiza.
Aquele cujo nome não deve ser pronunciado vigia o espaço mais
sagrado.
Oh que infortúnio! Bárbaro: o peso da morte furtiva.

HEGEMONIA

O voo pode ser feito pelas mãos
pelos braços
pés
ou cabeça…
o voo essencial
não tem corpo
pode não respeitar
o medo.

O voo assim a fechar o círculo…
parece
transparente
nu
conhece o céu
a retina, e sua pupila

vibra na boca do coração de uma criança.

O voo pode ser feito pelas mãos…ou pelos dedos…

Hirondina Juliana Francisco Joshua

Hirondina Juliana Francisco Joshua (Maputo, Moçambique, 31 de Maio de 1987), mais conhecida
por Hirondina Joshua, é uma escritora moçambicana. Uma poeta de destaque na nova geração de
autores moçambicanos. É Membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO).
Livros publicados
Obras individuais

  1. Os Ângulos da Casa. Prefácio Mia Couto. 1a. edição. Moçambique, ed. Fundação Fernando
    Leite Couto.
  2. Os Ângulos da Casa. Prefácio Mia Couto. 2a. edição. Brasil, ed. Penalux.
    Obras colectivas
  3. O Grasnar dos Corvos (Peça de Teatro). Co-autoria.

Antologias

  1. Esperança e Certeza I . Antologia. Moçambique, ed. Associação dos Escritores Moçambicanos,
    pp. 47-49.
  2. Esperança e Certeza II . Antologia. Moçambique, ed. Associação dos Escritores Moçambicanos,
    pp. 63-65.
  3. A Minha Maputo É… . Antologia. Moçambique, ed. Minerva, pp. 45.
  4. Alquimia Del Fuego. Antologia. Espanha, ed. Amargord Ediciones, pp. 481.

Projectos Literários
Criadora da coluna Exercícios da Retina ‒ literatura moçambicana; Os Dedos da Palanca ‒ literatura
angolana e Letras do Atlântico ‒ literatura portuguesa e brasileira na plataforma cultural Mbenga
Artes & Reflexões.

Colaboração em Revistas e Jornais
Dentre as quais destaca-se as revistas Caliban, TriploV, Courier des Afriques e Literatas.
Também colaborou com a revista Missanga, de Moçambique, e actualmente escreve para as revistas
Pazes, Raízes, Por Dentro D’África, Ruído e Manifesto, Conti Outra, Zunái (Brazil), Sermos Galiza,
Palavra Comum (Galiza), Pessoa, Literatura & Fechadura, Mallarmagens. Tem participado em
colóquios, tertúlia e debates sobre literatura, em 2019 participou da 8ª. edição do Festival Literário
de Macau (The Script Road – Macau Literary Festival).

Prémios
Menção extraordinária no Premio Mondiale di Poesia Nósside, 2014

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