A invenção da liberdade é uma parede

Talvez dentro de qualquer coisa, essa coisa verossímil a que chamaríamos de espasmo num ventilado canto de paredes escuras e sem cor nenhuma. O belo som de pássaros no campo são viagens aparecidas, ruas encantadas de luz num cenário colorido e a gente consegue sentir o quão feliz é ser vento e deambular e enganar o tempo. Tudo passa como um átomo. É uma vertigem talvez.

É uma miragem este encanto. Um fundo difuso entre estrelas e fantasia que sobrevoa a ilusão, disfarça a ânsia e alimenta o estômago de crases perdidas numa diáspora de estar ali, naquele lugar onde nunca havia sequer imaginado. Inventar paredes para me libertar da tua sede de esfomear-me os desencantos, verdade.

“a invenção da liberdade é uma parede”

Sei como seca a casa, o imenso sol já não me deslumbra, detesto ter de sentir o fresco do mar nesta pela gretada de vermes e pedaços estiolados como paredes mal pintadas, o solo rasgado aos pedaços tal o quente a esmerar-se de felicidade, mas não para mim, seremos talvez inimigos, acredito.

Ao fundo escrever com lágrimas, sim, elas enfeitam e embelezam a lisura de cada palavra discorrida nem que seja em paredes de casas velhas e abandonadas, diziam antípodas de tantas alquimias de todos os holocaustos da alma. O sofrimento é uma sensação de prazer para nunca nada se esquecer. A cor das lágrimas perdura a tela, a folha, o papel, são tantos horizontes e muitas vezes escondidos nas amalgamas de um peito feito em cérebros lisos e profundo, mesmo que redondos, sei lá, as palavras não tenhem formas, são apenas o que são.

“a invenção da liberdade é uma parede”

Onde descobrir o valor do silêncio?

Isoladamente feliz é uma metáfora bastante interessante, sei que faz pensar, ouvir de tudo num nada qualquer para que nada o inibrie, é o seu próprio brilho de vestes cansadas, a gente o cansaço, um escárnio talvez pensarão muitos, mas não, a multidão é um uma infinidade de tantos nadas naqueles reféns assombrados e sem sol, precisamos de descobrir realmente a voz do silêncio, aquela que apenas fala connosco como se fossemos moscas descascadas rebolando de tédio num chão incolor.

Sobre as águas da vida o silêncio dói cap. V

A morte parece-nos uma coisa horrível, um afastamento real com factos, parece-nos uma ida infernal, não a compreendo ainda e como todos não sei como lidar com ela, ditos e ditos seguindo rituais, tantas vezes me debruço nos silêncios que procuro e tento em mim não investigar mas tentar perceber se é assim de facto, vestimo-nos de escuro em respeito e sonhamos o ido na presença dos nossos instantes, isso incomoda e preocupa, mas, como perceber então a morte de facto? há quem diga que muito de tudo isto depende da forma como esse ido se despede de nós, qual o seu estado de espírito, que felicidade nutria nos instantes finais em que se partilharam, creio-a longínqua, imparcial nos sentimentos, uns tempos são, entre aspas menos lembrados e no entanto já foram. Quantas vezes me questiono perante mim mesmo se ainda estou
vivo. Numa visão transcendental acredito que a morte não existe na sua mais absoluta
essência. Ninguém morre.
Não sei se me percebo neste silêncio bafiento, neste horror oco de águas perdidas num
horizonte por encontrar, as palavras são feras sem absolvição e nós cágados das montanhas perdidas nesta tela mal iluminada da televisão velha e cansada. Nem um agudo som do estômago que deslize frenético esta sala da fortaleza encontrada numa história por contar, uma história como tantas que nos contam e deixam o silêncio do entendimento que se dilui no escorreito templo da ignorância. A minha
garganta toda ela é sangue vomitado pelas insuportáveis insónias de noites e tempos e
ventos, um sentimento de erro colado à pele seca nesta chuva cansada e eu nela como um terramoto por dentro, um marasmo suculento a dizimar-me o horizonte e nada verei a seguir, serão sacadas da minha alma todas as vontades, as inexistentes partirão primeiro exactamente por não existirem, as outras permanecerão jamais neste corpo vazio e bafiento e entregue por si mesmo ao tempo que o consumirá.
Não quero a alma dos que me incutem doutrinas, quero a minha própria raiva, esvaída
ou complexa, repleta ou pintada psicodelicamente por vasos inertes a empurrarem-me contra os meus próprios desígnios. Não sei se me percebo, a sério, não sei. Dos ares o helicóptero atolado, a enfermaria de campanha atolada, as mãos vazias por onde começar,ai doutor!
sons de dor espalhadas e sem mãos a medir, o enfermeiro corre para lá e para cá, a enfermaria do tamanho de um boteco está lotada, onde recolher outros

coloca-os espalhados pelo chão!
sem reforços morrerão tantos, olho sem solução esperando a divindade, lá fora o vento das hélices um reboliço, pó e folhas, correria, macas, soldados socorristas de um lado para o outro

as agulhas!
esterilizo tesouras, agulhas, corto linhas, suturar soldados e cosê-los a sangue frio, a minha cabeça estiolada, sem voz eu, calado, a máscara pendurada junto ao soro,

ai Deolinda!
não tu, eu, sei de ti sinceramente, sei, a cidade ainda onde o brilho que nevralgia de silêncios e melancolias a nostalgia aqui, nesta mata enfadonha onde me meteram, esta raiva desconhecida, vontade de desertar, acampar numa sanzala qualquer e comer com gente igual e desigual que diferença, somos estirpe
igual amor, filhos nos mesmos sonhos, carne na mesma forma feita, que vontade de desertar, abandonar este estribilho furibundo de matanças sem nexos, fugir do
desconhecido e descobrir a nossa fraqueza, abraça-me de onde estiveres, sim, esse
abraço, preciso dos teus sorrisosa menina?
que há tempos não recebo, a tua voz por cartas esquecidas, há muito nada mandas.
Aqui pianos, o solfejo afinado e a casa ainda nesse bairro lindo, aqui os sonetos lendo camões, rimas de dor esta caserna, os soldados parecem vadios, perdidos sei, ouço sinfonias angustiantes procuro melancolias, desejo o meu lar, a minha cama, e tu,

volta amor!
nem sei se ainda sozinha, a nossa menina, que é feito dela?, à janela pensando quem serei, um diria lhe disseras o teu pai tropa, medico num acampamento perdido, salazar moribundo Angola é nossa, matar quem importuna vamos!, e fomos nesta masmorra desertar quem?, muitos fugiram e o Alfredo recambiado por Franco, eu recambiado por salazar, tu nessa sala onde espíritos te tragam
a mim e eu sozinho, não só, os soldados aqui aos gritos há sempre mais, tripas de fora e cansaço rasgado, as macas repletas e as almas nem com eles, um choro baixinho o cabo, a matança do porco na aldeia dizia um soldado

– quando voltar à metrópole caso-me!

o calor doutor, isto aquece demais!, corremos e atiramo-nos ao chão uma granada explode há mortes?, coisa nenhuma, era o delírio naquela manhã onde febres, estendidos na caserna ou na tenda de campanha, um rumor permanente há mais feridos e nem feridos em lado nenhum, qualquer coisa como risos e risos de lado nenhum, o jeep na mata, camuflados nós seguimos, há que cumprir, ordens de lisboa diz o coronel e nós soldados onde que coronel, o coronel é soldado na mata como nós, e nem coronel na mata, o escritório em luanda, a base estratégica comandada e nós comandados cumprimos não receio, sigo o caminho onde nunca se morre.

Dizem-me turras, dizem-me que matam, matam nada, como todos aqui esta trincheira cheia, areias e pós onde ventos, áfrica é assim,

– baixe-se capitão!

um obús, o seu trajecto incerto acopla-se longe, vi-o rebentar-se contra a vontade de quem queria destruir-nos, pena de nós, coitados, pena de todos nós aqui perdidos, turras, dizem-me de lisboa qual turras qual quê!, metralhadoras disparam em todas as direcções nós também, o soldado transmontano e a sua matança do porco na aldeia na cabeça, o soldado dois sem saber da família onde estarão, aqui guerra coisa nenhuma, viemos incomodar quem se pretende assumir. Eu por onde? Há… quando luanda?, há que tempos a aldeia, rapei cedo a cabeça doutor, queria viajar sim, queria ser emigrante, ir até frança, o meu tio coitado há anos lá a morar em contentores e sem guerra, trabalha na construção, é assim, na aldeia todos emigram, a aldeia é vazia apenas pelo verão os emigrantes, o tio Francisco tem um mercedes nem sei dele, alugado para a viagem à terra a família lá,

– Francisco!

e a minha na horta cuida das couves, eu cuido de nada, vim para morrer?

Sobre as águas da vida, sim, neste calabouço de nada as aldeias dos indígenas queimadas foi tropa, dizem, roubamos galinhas e que fome, tiros contra o vazio e nada, quem matei?, nunca vi se matei alguém, um turra camuflado, negro, deitado ou não corri para a vala e só folhas pó pânico e tiros de longe mais medo,

– raios!

uma emboscada, creio, todos partilhamos juntos este medo, medo de ninguém nada via, ouvia, as árvores oscilavam tal o vento, penso que no Uíge nós, caminhamos tanto toda a noite, ora a pé ora de jeep, o escuro tirava a orientação sem bússola, rastejamos até ao acampamento súplicos, vazios de essência a vida é pobre amigo, camarada, em ordem?, para todos os lados orientação, escuro só, bruma eu.

Obituário de sons e casas secas

A norte, imbondeiros enfeitados como divas num disfarce para estrofes quem escreverá um dia este encanto sem formas, se desenhos nas paredes da Prússia ou na álgebra dos meus mais antigos ditongos a quem chamavam de fundos para secar à tardinha.

Os lutos vergam a sombra, o ritual desfila enfadonho onde só lágrimas sorvidas apenas pelo tempo e mesmo assim será breve. De resto, já folhas secas na planície deste resto de texto inacabado, a morte levou consigo todo o meu ideal do sonhar e cantar, contar as palavras para que não atinja limites extremos, sim, embora nunca me canse de estar sempre à volta dos meus vultos.

E ler jornais, quais jornais qual quê, sentir na pele a voz do obituário do tema, enfatizar o tipo morreu era desviado frequentava ambientes inadequados e morremos afinal todos, mesmo sem esses rituais descritos numa página qualquer desses jornais de velhas já sem nada para fazer na vida, basta ver televisão e o noticiário e já o mundo a informou de todas as mais sabedorias de todos os fundos de mares por descobrir ainda. E amanhã desminto, ou melhor corrijo, não era intenção aquilo, mas por lapso o editor nem reparou, pois é, jogava o benfica e isso era mais importante que valorizar a vida, sentir a morte, aquilo que nos consubstancia enquanto seres. Tudo isso são folhas secas, já todas secaram e a memória morreu, mexemos apenas os braços para o deleite do bife bem tenro e adocicado que bela era a vaca que nos deu.

Que entenderão então quando me refiro ao

“obituário de sons e casas secas”

pois, palavras só palavras. Mas a vida não são só palavras. Mas que ninguém fale, entenderei que de facto as palavras de nada valem.

Nasci rico de silêncios e de nada ouvir. Cansam-me as melodias repetitivas das imensidões. O som do silêncio tem uma melodia que nem sequer imaginam, debrucem-se e pensem, caso queiram, ah. Como cansa ter de ser diferente, as multidões enchem estádios, concertos de músicas enfadonhas de barulhos que me fazem sentir loucuras pelas veias nesta casa de onde nunca saio. Prefiro secar-me adormecido já que terei mesmo que morrer, que importa a viagem maravilhosa a Paris se no dia seguinte já não existo para a contar?

Sento-me de vez em quando nos bruços deste mar que me incendeia vontades e viagens, contá-las ei garanto nestas resmas para ninguém, para as revistas do

“era o tal!”

Inscrito agora no obituário de um diário qualquer. Uma foto e pouco mais. Que adianta chorarem?

O espelho que nos emagrece

E como não poderia deixar de ser a permanente presença do espelho

Tempos em que ouvia Chopin e soletrava Mozart, lia nos recônditos mais salubres do sal sóbrio das paredes que me refugiavam, nos tempos em que a cor da areia se sobrepunha ao morrer enquanto me perdia ouvindo de todos os lados o reflexo necrófilo dos abutres nestas paredes que me escondiam o mundo, espelhos de vidro nos meus olhos penetravam sem que eu soubesse da minha imagem, ali, especada nas vitrines do insucesso descritos apenas por quem nem sequer me conhece, pensava

“o espelho que nos emagrece”

e que apenas me olha num soslaio pobre, pontos de vista à luz de noites que nunca se acendem, sim, esses, moram as mais recatadas ignorâncias dos verbos opinar e esgrimir, nuvens de pardos num rosto de ciganos na estação de comboios vagabundear vigarices de estoiro como um rés do chão qualquer.

Vemo-nos apenas num espelho que reflecte o vazio do que exista à nossa volta, todos os nadas preenchem vaidades voláteis como hangares disfarçados e navios enfileirados partem devagar, sim, a viagem será longa. Será sempre longa pensando assim. Vendo assim. Ouvindo assim. Nada é mais que apenas esse restolho de estóicos na vitrine de vícios soletrados como ecos do nada.

“o espelho que nos emagrece”

Às avessas sentenças, ritmos triviais regentes do comum e da idolatria para que asnos se cansem nunca, essa estirpe difusa que vinga a cada passo arreliante a cada momento, essa chuvinha devastadora a consumir-me devagar as vinhas que há anos alimento com amor.

“apetece despedir-me de tudo, sabes?”

Deixar de lado o brilho dos sonhos, fugir das vozes ao fundo dos canos deste arrepiante rosnar permanente, esta cantiga para moradores do ligeiro e do sofismo dos sonhadores de nadas, dos que se convencem ser, dos que nada são a não a não ser um permanente arrelio nas minha infecundas caminhadas nestas avenidas do sono. Apetece-me dormir até sempre para que descanse de mim, de ti, dos outros, das imagens da televisão que tanto me irritam, dos relatos radiofónicos que me ensurdecem, dos mares que nunca encontro, isso, sabes?

E como não poderia deixar de ser a permanente presença do espelho, esse invólucro sem pólvora que me faz sentir apenas asnos e cansaços, esse cheiro mordaz que me ilumina a cada dia como se me fizessem sentir o soldado enjaulado nas florestas de todos os mundos errados.

Sobre as águas da vida o silêncio dói, Cap. III

Ainda assim o azedume esquelético dos passos tatuados, estampados para reviverem mais tarde, o crucifixo pendurado ao peito badala a cada salto, o jeep barulhento caminha sobre as giestas escondi­das deste paraíso de medos, água benta, a bênção do capelão,

– benza-me, meritíssimo!

a minha mãe velha, sozinha, tive uma mesma largada entre tantos, num cais qualquer de lisboa rumo ao longe,

– até breve querida!

a voz do soldado de verde, cabelo aparado, a boi­na inclinada para a direita da cabeça, sem brilhantes nos ombros.

Do longe infindável, o mar imenso onde o hori­zonte é branco e que vazio o olhar, onde saudades já só lágrimas encharcam o rosto, a caserna do na­vio repleta de melancolias, no plural as almas nem falam, uns silêncios imundos neste fim do mundo de águas salgadas ladeiam este monstro que navega sobre ondas, cruza ventos, ultrapassa tempestades.

O mar adormece, anoitece entre as nuvens, o olhar perpendicular colado às saudades, o choro da mãe na cabeça ainda, onde que raivas me inspirava a dor,

– até um dia mãe!

este eco permanente a vadiar-me por dentro, nem sonhos onde nem sono, talvez seco um gole envenenado de rhum, trepidar a cabeça encostado ao taipal do navio enquanto surgia um destino, tal­vez, se um naufrágio, se uma raiva, salazar senta­do creio, as criadas de servir, uma em cada lado da mesa,

– senhor doutor, posso servir o almoço?

nem fome nós, acoplados como tambores por entre os ferros velhos, cansados, esgotados, de um navio sobre as ondas.

Os berjenjos coitados, de alguma mirandela fria, fui contando, eram imensos, Santos, Silva, Costa, Miranda, apenas alguns de mirandela lendo o jornal de caserna escrito com penas inventadas, cartas já pensadas antes da viagem, de lisboa berjenjos, al­cântara, alfama, bairro alto de prostitutas nas ruas, o vento do tejo, o miradouro de santa luzia,

– senta-te soldado!

o ruído oco no porão dos taipais entregues ao relento, o soldado surdo bastava que conseguis­se ouvir o zunir invisível de moscas assustadas,

na água golfinhos de olhos secos, acenando pena por nós, acompanham-nos neste deserto onde só água por todos os lados, o horizonte dormita, um coxo outro maluco, dizem, rumo ao longe. Sobre as águas da vida o silêncio dói, na aldeia a matança do porco, nossa tradição

– quando poderei voltar a participar?

um soldado berjenjo de uma aldeia perto de mi­randela, a sua voz, não a sua voz falada, não com palavras mas com pensamentos perdidos no olhar sente-se, o molhado imenso cobre a farda verde, se escorrida por lágrimas, o sol espreitava tímido de uma janela escondida por entre as nuvens que cami­nha talvez para leste, ameaçando chuva

– quando poderei voltar a participar?

Costa, Santos, Silva, etc., nenhum Guerra, to­dos para a guerra, para esse longe na cabeça perdida, que destino sem onde nunca, eu

– ai Deolinda!

no convés tudo mirava, oficial miliciano médico, tremia,

– ai doutor!

a febre pairava e suores, tremiam sobre a chapa velha do navio velho um berjenjo,

– ai doutor, o meu corpo!

resoquina e mais tarde a febre baixa, talvez nem sabe nada disso, nunca ouvira tal nome, estranho nome, diz-se gripe, resoquina uma pastilha amare­lada com um sabor medonho, do tamanho da sauda­de, do medo, a distância, outros tatuavam no braço

(amo-te mãe)

e um coração junto ao coração, uma seta a atra­vessá-lo, como se assim se conseguisse diminuir a dor, onde sangue jorra, com agulhas de costura uns aos outros, cabeça rapada,

(amo-te mãe)

– quando voltar à metrópole caso-me!

o nariz do Costa vermelho, os outros tomates apertados dentro da breguilha daquela farda verde e apertada.

Dom Afonso Henriques atracado em sines de­finha, morre aos poucos por dentro das ferrugens famintas, abandonado e de tantas viagens carregado até às costuras, ao longe a falésia da cidade, diziam a capital,

– luanda à vista!

medo daquilo ou coisa nenhuma, medo de luan­da nunca ouvira falar de luanda, na cabeça a raiva soçobrava, sabia, nem do mato tenho a certeza,

– há leões por aqui, ouvi dizer que sim!

nem em luanda nem em lado nenhum, coisa ne­nhuma, entretanto instruções,

– pronto um, pronto dois, pronto três, pronto…

o coronel com cara de mau, zangado sei lá, en­tregavam-nos armas g3 para logo de seguida entrar­mos num jeep qualquer ali para nos acolher, pensei,

mas para onde ou quê?

– isto é que é luanda?

viemos para lutar, honrar a pátria, nada de turis­mo, saímos do porto de luanda para a picada, sem parar num bar beber saudades e esquecer saudades, directos para a picada ali próximo, pensava, com­bater no princípio o vazio, nem leões apenas cães ladravam correndo atrás do jeep barulhento, sentia­-se ainda o cheiro do mar e após um chuvisco a ter­ra gritava um cheiro a terra, inalamos sentados na parte de trás do jeep o furriel à frente com ordens recebidas de lisboa,

– siga!

partilham-se cheiros e, entretanto, pedras, en­tram-nos pelas narinas quem de cheiros como aqueles nada sabia, inertes, o rosto negro de uma menina com os seios pendurados no peito,

– tem paciência comigo Deolinda!

acenava-nos com os dois braços no ar à entrada daquela picada, a bússola

– seguimos para norte.

a seta apontava para norte, apenas o jeep ilumi­nava o caminho,

– qual guerra qual quê, isto é como limpar a cú a meninos!

o furriel sentado do lado direito do 1º cabo con­dutor,

– aqui só pretos comandante! os que comentam sobre aquela expedição que saiu de lisboa,

– são tão parecidos connosco!

continua, a tímida, tremida, medo ainda que me­mória de elefante,

– cala-te pá!

em mirandela nem luz eléctrica, muito menos televisão,

– você não veio para fazer perguntas!

para o que vim então? misturo-me na viagem tão longa, perder a noção do tempo, a minha mulher em casa sozinha, nem notícias dela, falava sozinho obrigando-a a escutar-me, a luz de um obus a des­penhar-se quase sobre o jeep, esperava-nos a ma­drugada, escutava a voz de Deolinda,

– isto mete medo doutor!

a minha filha nascera entretanto e eu nesta vida escura da mata, Dom Afonso Henriques e entre­tanto gritos,

– já és pai meu amor!

ouvia isso quatro cinco seis ou mais vezes, na­quele som triplicado entre tantas que partiam e se metade voltaria.

– e que nome lhe darei?

Santa Paola, o apelido da mãe e o meu,

– ai que extenso fica amor!

caramba, ouvi falar da ilha, onde dizem nasceu a cidade, que mania dar-mos tantos nomes aos nos­sos filhos, talvez porque juntamos o seu primeiro às nossas memórias, mágoas, de seguida se tens mãe, se tens pai, embora não fosse no tempo dos reis, havia quem fosse desse tempo, nós mesmos nem sabemos, submetidos ao que já havia sido ultrapas­sado da nossa história, salarizar o sentido proibido da nossa vontade, nós neste sul verde e vertido por entre matas verdes e secas onde cafés e eucaliptos que saudades amor, ver a minha menina e beijá-la fá-lo por mim até o dia de desembarque num cais qualquer de lisboa, este sul é escuro encoberto pela floresta imensa, nem consigo ver o céu acima da ca­beça, o escuro do mato e o calor saliva pelos poros ainda noite, o soldado benze-se a cada passo, cospe a saliva verde do capim, a cada buraco, trincheira, perdido,

– Deus não dorme doutor!

a cada quilómetro a vida deixada na metrópole, na terra não esquecida, não recordada, apenas ima­ginada alguns anos depois, alojada apenas um corpo safira de capins com medo das balas desconhecidas, um corpo, outro, mais, depois tantos! um dia esta memória de elefante, um regresso numa viagem ao contrário da última viagem, atracar num cais qual­quer de lisboa, olhar à volta e milhares por ali, en­contrar maria, jacinta, ambrósia, sidónia, gertrudes, outros doutora não sei quê, médica não sei do São José quem sabe, a vida de mulheres portuguesas contra a guerra colonial, umas famintas pelo tal abraço, aquele que havia sido prometido na partida, o santos, o silva, tantos e outros olham à sua volta e nada, que solidão que dói, a da chegada a luanda, a do regresso a lisboa,

– não há ninguém a esperar-me!

talvez castigo por ter morto um elefante na mata, pensava sem palavra sequer,

– se pudesse afogava-te, untava-te de ódio e pa­ciência, queria a tua paciência o corpo inteiro, dor.

uma pensão de prostitutas no cais do Sodré, be­ber até vomitar todas as ânsias vividas, saudades de tudo e nada, pena de mim,

– em quantas negras tocaste?

– tira-me o camuflado, bolas!

(se me perguntares quantos foram não sei)

um escuro profundo entre os relâmpagos, ex­plosões e nem um ai, para o desconhecido que era tudo aquilo, assassinei o abstracto, com rajadas dis­paradas onde silêncios viviam, onde o que se mexia passaria a ser alvo a abater e nada abatia, fértil sen­sação de que haveria sempre alguém pelas trinchei­ras naturais, algo no escuro, o deveria ter que lim­par, o galho seco, os capins estendidos camuflavam os rostos, se o sebo cansado, os pássaros esvoaçam ao cair da tarde, um pôr do sol distante, onde pes­soas?, nem goivos nem tambores, apenas nervos e medo no meio corvos, – quem não deve não teme!

o camarada ao lado e na mesma, medo, não eu, nós, cada um amparando a sorte do outro,

– segue!

de quem já nem sei, o pico das pedras rasga-nos os poros escondidos no camuflado, o corpo sem falésias sequer, de vez em quando uns tiritos para nos assustarem, o calendário esfrangalhado, qual ave estendida de pernas para o ar a definhar a dor, o bico aberto ao ar nem respira, definha, depena­das as asas evaporam-se ao ar livre no cimo da ter­ra cansada onde jeeps e tanto percorrem devagar, cavam grutas disfarçadas e nem silêncio, o ruído dos motores invade noites e tempos e esse som na cabeça com os dias riscados a vermelho desde que aqui cheguei e nem isso, agora e apenas anos sem dias nem horas, riscava no braço o meu aniversário encostado ao soldado a meu lado com as tripas de fora nesta tenda hospital, sem luvas, batina, o cape­lão benze-o, sobre o seu corpo a bandeira da pátria,

(serás eterno a partir de agora!)

mastigado como folhas secas sobre a cabeça,

– o doutor vai ter que entender!

continuava,

– não nasci para isto!

e eu calado,

– onde o meu futuro?

perdido pensei, sem batina nem luvas restam de­ dadas pela enfermaria de tendas de campo criadas para o efeito e cirurgias, tripas de fora e cabeças es­tioladas o cérebro fora do crânio, ossos aguçados rasgam a pele, rastilhos juntos ao calcanhar destro­çado e gritos, gemidos às vezes enervantes, sei lá se por eles ou com eles,

– queixa-te ao coronel porra!

a minha filha nem sei, eu nada sei aqui ou qual­quer outro lugar, mama ao colo da mãe, aqui viagens nocturnas pelo tempo cercado de mato, o tempo para a nosso lado, não ainda, mato o tempo para o nosso lado, não ainda,

(um dia escreverei sobre tudo isto)

não eu,

(um dia serei livre)

ouvia o cabo condutor do jeep que nos trouxe a este escuro cada vez mais escuro sem fim onde uma mina nos atira a todos pelos ares tombando sem para quedas nem relva, sem colchão nem sono, que insónias adormecem sobre as pedras aguçadas olhando-nos à espera de quem sobre elas tombasse, aguçadas e com raiva e até as pedras com raiva,

– ai!

coisa nenhuma,

– ai!

(ouvia)

– onde estamos?

atordoados, mas pelo menos vivos, alguém, não decifrei quem, fumos e escuro,

– ai!

a voz de quem?, o cabo condutor e os outros?, ninguém morrerá aqui,

(pensei)

levanto-me dando ordens,

(aprendi na escola de oficiais milicianos)

– em frente… marche!

viemos numa missão de paz para esta comissão de lágrimas?

A QUALIDADE DO ENSINO SUPERIOR E A AUTOAVALIAÇÃO

A qualidade do ensino superior tem sido uma preocupação crescente, bem como os instrumentos que permitem avaliar essa qualidade. A investigação realizada até aos anos 80 procurava descrever os processos cognitivos e contextuais envolvidos nos processos de aprendizagem mas, a partir desta altura, os estudos sobre a aprendizagem no ensino superior adoptaram uma nova perspectiva centrando a investigação na experiência dos estudantes e nas descrições que estes produziam sobre o processo de ensino e de aprendizagem e sobre a sua percepção sobre o contexto académico (modelos SAL – Students Approaches to Learning).

A maioria dos estudos produzidos durante quatro décadas incidiu, sobretudo, sobre três aspectos: a) concepções sobre o que é aprender, b) abordagens à aprendizagem e c) percepção dos estudantes sobre os contextos de aprendizagem. Neste contexto torna-se fundamental distinguir os dois principais tipos de concepções sobre o que é aprender identificados a partir dos estudos iniciais de Marton e Säljo (1976a e 1976b) e as correspondentes abordagens à aprendizagem definidas por Biggs (1978; 1979) e Entwistle (1977, 1978). As diferentes concepções de aprendizagem expressam-se e materializam-se em situações de aprendizagem concretas conduzindo à obtenção de resultados qualitativamente diferentes (Entwistle & Peterson, 2004; Purdie & Hattie, 2002). Foi observado que os estudantes com concepções de tipo qualitativo (centradas em processos de compreensão) tendem a adoptar uma abordagem profunda à aprendizagem e a focar a sua atenção no conteúdo intencional do material de aprendizagem. Por seu turno, estudantes com concepções quantitativas de aprendizagem (centradas em processos de memorização) usam abordagens superficiais orientando-se para a reprodução (Dart et al, 2000).

As abordagens à aprendizagem envolvem essencialmente dois tipos de procedimentos por parte dos estudantes: i) simples processos de aprendizagem mecânica (memorização simples de conteúdos) e ii) os que requerem uma aprendizagem significativa, (compreensão do material de aprendizagem). A aprendizagem mecânica implica a repetição da matéria dada sem que o estudante tenha intenção de compreender ou relacionar a nova aprendizagem com conhecimentos prévios. Desta forma, o conhecimento dificilmente pode ser armazenado duradouramente e a sua recuperação torna-se muito difícil. Por outro lado, a aprendizagem significativa implica compreensão, o que envolve categorização da informação, reorganização e relacionamento (Entwistle, 2009). 

Os estudos iniciais mostraram também que tanto as concepções dos estudantes sobre o que é aprender como as abordagens que utilizam no decurso do processo de aprendizagem são influenciadas pelo tipo de ensino e pelos contextos académicos (Entwistle, 1986; Ramsden, 1988).  

Ramsden desenvolve um instrumento, Course Experience Questionnaire (CEQ), aperfeiçoado nos anos subsequentes (Ramsden 2005, 2006), que tem como objectivo avaliar a experiência dos estudantes sobre o ensino, o contexto de aprendizagem e o grau de satisfação relativamente ao curso frequentado. Este instrumento é aplicado actualmente para aferição da qualidade nas universidades de Sydney, Queensland, Monash e Oxford, universidades que integram o Grupo dos Oito e cuja missão consiste em construir a excelência intelectual, social, cultural e económica para o futuro da Austrália. Este “benchmarking” visa ajudar escolas, departamentos e faculdades, na identificação das “melhores práticas” de ensino e de aprendizagem a partir de pesquisa intensiva, apoiando o diálogo entre as abordagens ao ensino e à aprendizagem com o objectivo final de melhorar a experiência dos estudantes nas instituições (Chaleta et al., 2012).

Sendo a qualidade da aprendizagem e do ensino um aspecto de interesse para o desenvolvimento de um sistema de ensino superior de elevada qualidade, estudos realizados sobre a percepção dos estudantes sobre o contexto de aprendizagem no ensino superior indicam forte relação com as concepções e as abordagens à aprendizagem e apresentam forte relevância para a compreensão de processos de aprendizagem de elevada qualidade.



MSc Sónia Barreto Burity da Silva, Doutoranda em Ciências da Educação – Universidade Católica Portuguesa, Porto e Secretária-Geral da Universidade Independente de Angola.

Casar com flores

Dormira tempos infinitos naquele esplendor especado à porta, a casa era uma moradia sem varandas e nem sequer escadas existiam. Ouviam-se passos a qualquer hora, quer fosse noite ou dia, e de que sorrisos se plantavam esquilos como os que havia visto em criança ainda numa televisão qualquer, um retrato decorado nas paredes do meu olimpo seco porque não chovia havia anos.

Ser o trapezista nesta única pétala da vida a que chamaríamos plasmo, sim, são as gotas deste tão silencioso orvalho de manhãs frias e quentes e sei lá que mais, são o sussurro do desfile neste casamento sem pares, somos tantos nesta fotografia filosofada para encantar, apenas isso, o resto, são quimeras de grandes poetas que a vida e o vício levou.

Caso-me com a verdade dos meus ímpetos, esses sim, são os que me levam ao altar e sem picos beijar o desejo, sentir a névoa dos desertos neste rosto de desencanto enquanto me encantas com núpcias e vestidos decorados para encantar o homem que receberá no fim da festa os dinheiros dos retratos mal tirados.

Como um trapezista no lego dos teus sonhos construir-te devagar e montar contigo este cheiro de brumas que rodopiem os cantos mais secretos e sagrados da nossa casa neste lego de papel que assino para te amar…

que raios, ter de assinar para amar…

mas não, sou apenas um trapezista que repito enquanto escrevo e te falo do que sou neste descer lento de sonhos coloridos na tela mais breve do teu rosto.

As casas do tempo com flores no rosto vagueiam salubres a saudade doce dos silêncios nelas acoplados, como nuvens de vertigem na sombra de janelas envidraçadas qual o brilho do beijo ofuscado na mão sábia da verdade.

Ali o adorno de contornos ladeando a saudade, tudo flores na lapela e o regedor nas relvas contando espaços para sobrevirem os vícios do antigamente tão integrado na cabeça das gentes que ali inventávamos para completar o espólio, vidros e brilhos num jardim de beijos onde casaria um dia com a mais bela de todas:

“a minha”

Nada escolhida, verdade, não se pedem beijos, os tais que surgem quando menos se espera e a gente se encanta com tanta beleza a percorrer-nos o rosto tal a felicidade de sentir a saliva doce dos abraços nesses beijado beijados como corpos de jardins encontrados numa esquina qualquer da vida.

Por isso e ainda assim, nada imploro, desejo apenas como quem sorri uma alegria devagar e logo pela manhã:

“casar com flores”

Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói, Cap. II

Ainda assim o azedume esquelético dos passos tatuados, estampados para reviverem mais tarde, o crucifixo pendurado ao peito badala a cada salto, o jeep barulhento caminha sobre as giestas escondidas deste paraíso de medos, água benta, a bênção do capelão,

– benza-me, meritíssimo!

a minha mãe velha, sozinha, tive uma mesma largada entre tantos, num cais qualquer de lisboa rumo ao longe,

– até breve querida!

a voz do soldado de verde, cabelo aparado, a boina inclinada para a direita da cabeça, sem brilhantes nos ombros.

Do longe infindável, o mar imenso onde o horizonte é branco e que vazio o olhar, onde saudades já só lágrimas encharcam o rosto, a caserna do navio repleta de melancolias, no plural as almas nem falam, uns silêncios imundos neste fim do mundo de águas salgadas ladeiam este monstro que navega sobre ondas, cruza ventos, ultrapassa tempestades.

O mar adormece, anoitece entre as nuvens, o olhar perpendicular colado às saudades, o choro da mãe na cabeça ainda, onde que raivas me inspirava a dor,

– até um dia mãe!

este eco permanente a vadiar-me por dentro, nem sonhos onde nem sono, talvez seco um gole envenenado de rhum, trepidar a cabeça encostado ao taipal do navio enquanto surgia um destino, talvez, se um naufrágio, se uma raiva, salazar sentado creio, as criadas de servir, uma em cada lado da mesa,

– senhor doutor, posso servir o almoço?

nem fome nós, acoplados como tambores por entre os ferros velhos, cansados, esgotados, de um navio sobre as ondas.  

Os berjenjos coitados, de alguma mirandela fria, fui contando, eram imensos, santos, silva, costa, miranda, apenas alguns de mirandela lendo o jornal de caserna escrito com penas inventadas, cartas já pensadas antes da viagem, de lisboa berjenjos, alcântara, alfama, bairro alto de prostitutas nas ruas, o vento do tejo, o miradouro de santa luzia,

– senta-te soldado!

o ruído oco no porão dos taipais entregues ao relento, o soldado surdo bastava que conseguisse ouvir o zunir invisível de moscas assustadas, na água golfinhos de olhos secos, acenando pena por nós, acompanham-nos neste deserto onde só água por todos os lados, o horizonte dormita, um coxo outro maluco, dizem, rumo ao longe. Sobre as águas da vida o silêncio dói, na aldeia a matança do porco, nossa tradição

– quando poderei voltar a participar?

um soldado berjenjo de uma aldeia perto de mirandela, a sua voz, não a sua voz falada, não com palavras mas com pensamentos perdidos no olhar sente-se, o molhado imenso cobre a farda verde, se escorrida por lágrimas, o sol espreitava tímido de uma janela escondida por entre as nuvens que caminha talvez para leste, ameaçando chuva

– quando poderei voltar a participar?

Costa, Santos, Silva, etc., nenhum Guerra, todos para a guerra, para esse longe na cabeça perdida, que destino sem onde nunca, eu

– ai Deolinda!

no convés tudo mirava, oficial miliciano médico, tremia,

– ai doutor!

a febre pairava e suores, tremiam sobre a chapa velha do navio velho um berjenjo,

– ai doutor, o meu corpo!

resoquina e mais tarde a febre baixa, talvez nem sabe nada disso, nunca ouvira tal nome, estranho nome, diz-se gripe, resoquina uma pastilha amarelada com um sabor medonho, do tamanho da saudade, do medo, a distância, outros tatuavam no braço

(amo-te mãe)

e um coração junto ao coração, uma seta a atravessá-lo, como se assim se conseguisse diminuir a dor, onde sangue jorra, com agulhas de costura uns aos outros, cabeça rapada,

(amo-te mãe)

– quando voltar à metrópole caso-me!

o nariz do Costa vermelho, os outros tomates apertados dentro da breguilha daquela farda verde e apertada.

Dom Afonso Henriques atracado em sines definha, morre aos poucos por dentro das ferrugens famintas, abandonado e de tantas viagens carregado até às costuras, ao longe a falésia da cidade, diziam a capital,

– luanda à vista!

medo daquilo ou coisa nenhuma, medo de luanda nunca ouvira falar de luanda, na cabeça a raiva soçobrava, sabia, nem do mato tenho a certeza,

– há leões por aqui, ouvi dizer que sim!

nem em luanda nem em lado nenhum, coisa nenhuma, entretanto instruções,

– pronto um, pronto dois, pronto três, pronto…

o coronel com cara de mau, zangado sei lá, entregavam-nos armas G3 para logo de seguida entrarmos num jeep qualquer ali para nos acolher, pensei, mas para onde ou quê?

– isto é que é luanda?

viemos para lutar, honrar a pátria, nada de turismo, saímos do porto de luanda para a picada, sem parar num bar beber saudades e esquecer saudades, directos para a picada ali próximo, pensava, combater no princípio o vazio, nem leões apenas cães ladravam correndo atrás do jeep barulhento, sentia-se ainda o cheiro do mar e após um chuvisco a terra gritava um cheiro a terra, inalamos sentados na parte de trás do jeep o furriel à frente com ordens recebidas de lisboa,

– siga!

partilham-se cheiros e, entretanto, pedras, entram-nos pelas narinas quem de cheiros como aqueles nada sabia, inertes, o rosto negro de uma menina com os seios pendurados no peito,

– tem paciência comigo Deolinda!

acenava-nos com os dois braços no ar à entrada daquela picada, a bússola

– seguimos para norte.

a seta apontava para norte, apenas o jeep iluminava o caminho,

– qual guerra qual quê, isto é como limpar a cú a meninos!

o furriel sentado do lado direito do 1º cabo condutor,

– aqui só pretos comandante!

os que comentam sobre aquela expedição que saiu de lisboa,

– são tão parecidos connosco!

continua, a tímida, tremida, medo ainda que memória de elefante,

– cala-te pá!

em mirandela nem luz eléctrica, muito menos televisão,

– você não veio para fazer perguntas!

para o que vim então? misturo-me na viagem tão longa, perder a noção do tempo, a minha mulher em casa sozinha, nem notícias dela, falava sozinho obrigando-a a escutar-me, a luz de um obus a despenhar-se quase sobre o jeep, esperava-nos a madrugada, escutava a voz de Deolinda,

– isto mete medo doutor!

a minha filha nascera entretanto e eu nesta vida escura da mata, Dom Afonso Henriques e entretanto gritos,

– já és pai meu amor!

ouvia isso quatro cinco seis ou mais vezes, naquele som triplicado entre tantas que partiam e se metade voltaria.

– e que nome lhe darei?

Santa Paola, o apelido da mãe e o meu,

– ai que extenso fica amor!

caramba, ouvi falar da ilha, onde dizem nasceu a cidade, que mania dar-mos tantos nomes aos nossos filhos, talvez porque juntamos o seu primeiro às nossas memórias, mágoas, de seguida se tens mãe, se tens pai, embora não fosse no tempo dos reis, havia quem fosse desse tempo, nós mesmos nem sabemos, submetidos ao que já havia sido ultrapassado da nossa história, salarizar o sentido proibido da nossa vontade, nós neste sul verde e vertido por entre matas verdes e secas onde cafés e eucaliptos que saudades amor, ver a minha menina e beijá-la fá-lo por mim até o dia de desembarque num cais qualquer de lisboa, este sul é escuro encoberto pela floresta imensa, nem consigo ver o céu acima da cabeça, o escuro do mato e o calor saliva pelos poros ainda noite, o soldado benze-se a cada passo, cospe a saliva verde do capim, a cada buraco, trincheira, perdido,

– Deus não dorme doutor!

a cada quilómetro a vida deixada na metrópole, na terra não esquecida, não recordada, apenas imaginada alguns anos depois, alojada apenas um corpo safira de capins com medo das balas desconhecidas, um corpo, outro, mais, depois tantos! um dia esta memória de elefante, um regresso numa viagem ao contrário da última viagem, atracar num cais qualquer de lisboa, olhar à volta e milhares por ali, encontrar maria, jacinta, ambrósia, sidónia, gertrudes, outros doutora não sei quê, médica não sei do São José quem sabe, a vida de mulheres portuguesas contra a guerra colonial, umas famintas pelo tal abraço, aquele que havia sido prometido na partida, o santos, o silva, tantos e outros olham à sua volta e nada, que solidão que dói, a da chegada a luanda, a do regresso a lisboa,

– não há ninguém a esperar-me!

talvez castigo por ter morto um elefante na mata, pensava sem palavra sequer,

– se pudesse afogava-te, untava-te de ódio e paciência, queria a tua paciência o corpo inteiro, dor.

uma pensão de prostitutas no cais do Sodré, beber até vomitar todas as ânsias vividas, saudades de tudo e nada, pena de mim,

– em quantas negras tocaste?

– tira-me o camuflado, bolas!

(se me perguntares quantos foram não sei)

um escuro profundo entre os relâmpagos, explosões e nem um ai, para o desconhecido que era tudo aquilo, assassinei o abstracto, com rajadas disparadas onde silêncios viviam, onde o que se mexia passaria a ser alvo a abater e nada abatia, fértil sensação de que haveria sempre alguém pelas trincheiras naturais, algo no escuro, o deveria ter que limpar, o galho seco, os capins estendidos camuflavam os rostos, se o sebo cansado, os pássaros esvoaçam ao cair da tarde, um pôr do sol distante, onde pessoas?, nem goivos nem tambores, apenas nervos e medo no meio corvos,

– quem não deve não teme!

o camarada ao lado e na mesma, medo, não eu, nós, cada um amparando a sorte do outro,

– segue!

de quem já nem sei, o pico das pedras rasga-nos os poros escondidos no camuflado, o corpo sem falésias sequer, de vez em quando uns tiritos para nos assustarem, o calendário esfrangalhado, qual ave estendida de pernas para o ar a definhar a dor, o bico aberto ao ar nem respira, definha, depenadas as asas evaporam-se ao ar livre no cimo da terra cansada onde jeeps e tanto percorrem devagar, cavam grutas disfarçadas e nem silêncio, o ruído dos motores invade noites e tempos e esse som na cabeça com os dias riscados a vermelho desde que aqui cheguei e nem isso, agora e apenas anos sem dias nem horas, riscava no braço o meu aniversário encostado ao soldado a meu lado com as tripas de fora nesta tenda hospital, sem luvas, batina, o capelão benze-o, sobre o seu corpo a bandeira da pátria,

(Serás eterno a partir de agora!)

mastigado como folhas secas sobre a cabeça,

– o doutor vai ter que entender!

continuava,

– não nasci para isto!

e eu calado,

– onde o meu futuro?

perdido pensei, sem batina nem luvas restam dedadas pela enfermaria de tendas de campo criadas para o efeito e cirurgias, tripas de fora e cabeças estioladas o cérebro fora do crânio, ossos aguçados rasgam a pele, rastilhos juntos ao calcanhar destroçado e gritos, gemidos às vezes enervantes, sei lá se por eles ou com eles,

– queixa-te ao coronel porra!

a minha filha nem sei, eu nada sei aqui ou qualquer outro lugar, mama ao colo da mãe, aqui viagens nocturnas pelo tempo cercado de mato, o tempo para a nosso lado, não ainda, mato o tempo para o nosso lado, não ainda,

(um dia escreverei sobre tudo isto)

não eu,

(um dia serei livre)

ouvia o cabo condutor do jeep que nos trouxe a este escuro cada vez mais escuro sem fim onde uma mina nos atira a todos pelos ares tombando sem para quedas nem relva, sem colchão nem sono, que insónias adormecem sobre as pedras aguçadas olhando-nos à espera de quem sobre elas tombasse, aguçadas e com raiva e até as pedras com raiva,

– ai!

coisa nenhuma,

– ai!

(ouvia)

– onde estamos?

atordoados, mas pelo menos vivos, alguém, não decifrei quem, fumos e escuro,

– ai!

a voz de quem?, o cabo condutor e os outros?, ninguém morrerá aqui,

(pensei)

levanto-me dando ordens,

(aprendi na escola de oficiais milicianos)

– em frente… marche!

viemos numa missão de paz para esta comissão de lágrimas?

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