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Meritocracia

Juliana Bezerra

Juliana BezerraProfessora de História

Meritocracia significa que todo indivíduo é capaz de prosperar somente com suas capacidades sem precisar da ajuda da sociedade, Estado ou família.

O que é?

Após a Revolução Francesa, com a ascensão de Napoleão Bonaparte, o novo dirigente da França decretou que a origem de nascimento não contaria mais para o ingresso nas carreiras públicas.

A partir daquele momento, não seria feita distinção se a pessoa veio de uma família nobre ou burguesa. Todos deveriam ascender socialmente através do esforço próprio.

Essa foi uma ideia que perpetuou no século XIX, especialmente nos países anglo-saxões e encontrou grande acolhida nos Estados Unidos.

Afinal, nestes países predomina a concepção protestante, especialmente calvinista, que a riqueza é um sinal da bênção divina.

Nos Estados Unidos, já faz parte do imaginário nacional a ideia do self-made man, o homem que se faz a si mesmo, apenas com seu próprio empenho.

A ideia de meritocracia inspiraria políticas públicas que garantissem que todos os cidadãos tivessem as mesmas oportunidades. A mais bem-sucedida delas foi a do Estado de Bem-Estar Social.

Assim, se todos podem ascender socialmente através do esforço, aqueles que não o faziam eram preguiçosos e culpados de sua própria miséria.

O conceito de meritocracia, porém, só pode ser válido quando todos os indivíduos de uma sociedade possuem exatamente as mesmas condições sociais, econômicas e psicológicas.

Meritocracia charge
A charge critica a justiça da meritocracia

Significado

A palavra “meritocracia” foi cunhada pelo escritor, sociólogo e político inglês Michael Young (1915-2002) quando lançou seu livro “The Rise of Meritocracy”.

No romance, Young cria uma sociedade futurística onde todas as pessoas seriam avaliadas somente por seus méritos.

No entanto, ao invés de favorecer os mais débeis, a meritocracia acaba por aumentar o abismo existente entre a elite e a população.

Michael Young recorreu à palavra latina “mereo” (ser digno, ser merecedor) e o sufixo grego “kratos” (poder, força) para formar este novo vocábulo.

Meritocracia no Brasil

Meritocracia charge
Será que no Brasil todos têm as mesmas oportunidades?

A definição de meritocracia no Brasil ganhou força nas duas primeiras décadas do século XXI. A oposição usava este conceito para criticar o Governo Lula e o Governo Dilma.

No entanto, a meritocracia, para ser válida, deve propiciar à toda sociedade as mesmas oportunidades. O Brasil, um país cheio de desigualdades sociais, está longe de oferecer as chances iguais para todos os cidadãos.

Mesmo assim, através de estórias de pessoas que superaram as dificuldades para estudar, parte da mídia começou a divulgar que era possível interromper o círculo da miséria apenas através do próprio esforço.

Quadrinhos

O ilustrador australiano Toby Morris criticou a concepção de meritocracia na sociedade atual através de uma interessante estória em quadrinhos chamada “De Bandeja”. Você pode baixá-la clicando aqui.

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Sobre as águas da vida o silêncio dói, cap. XXVI

XXVI

Às vezes, esta voz canta para si mesma os rugidos da tarde. Uma vontade ilimitada espraiada nos horizontes alojados entre quimeras disfarçadas de açudes, um longo corredor onde os sons parecem ventos levados pela ausência de que luz a encanta-los, sim, talvez a metamorfose de cada dia ali passado sentado na berma de que rua desconheça e apenas na memória a sua existência. Um azul ténue deslumbrando-se pelas caminhas de azoto à espreita de novos cânticos como se faziam antigamente, antes ainda do alvorecer.

Uma senhora encantadora espalha o seu brilho com cheiros de perfume francês e eu na mesma, descortinando se conseguir, a origem dos seus passos mesmo à minha frente, a voz encantadora da vendedora de ananases na esquina mais próxima do trânsito cativando e procurando a venda num só gesto.

Ali, como a fazer um trabalho meritório, algo a registar nas enciclopédias dos tempos e por essas bibliotecas espalhadas com as fotos e biografia completa de todos os escritores desta nação escondida de si mesma, desfolhada tantas vezes sei lá, sonho aqui, ao lado do tempo que se vai ao entardecer sem que sequer me aperceba, vontade terrível de ser feliz sentindo-te, mesmo que longe dos meus braços, leio e releio este jornal de ontem onde notícias já consumidas por alguém me despertam a existência de astros sobre a cabeça cansada.

O brilho que já se deita na sua paz sozinho, o descanso prometido pela existência, folhas esvoaçam perdidas sem rumo e sem vontade, o alcatrão na mesma e eu ainda ali na esperança de crianças a abraçarem-me com os seus sorrisos fininhos como neve sobre a minha face de pensador de templos ainda vivos nesta carne alimentada e viva, sim, descubro a cada passo uma vontade nova, algo que me desperta para descobertas em mim mesmo sem que me canse, vivo-as na sua plenitude e sem rumores o meu olhar nelas como uma ave sobrevoando todos os céus que possamos imaginar.

De repente o trim-trim de um telefone qualquer a desviar-me dos meus pensamentos ainda presos na inconstância, na vontade de os libertar para cima dos sonhos que me levam ainda acordado a descobrir mundos de que lado sejam, pouco importa, sinto como me apetece tudo isso num piscar de olhos, um esticar de dedos, sentir as nuvens que viajam para tanto lado sem que se saiba o seu destino embora pouco importe isso. O importante será talvez eu mesmo assumir a minha identidade de cidadão desta distância de todas as coisas que possam flutuar devagar e nunca se perdem.

A importância das coisas está na sua insignificância, na divindade de cada abraço, no olhar imparcial e não só, na vontade que possa imperar cada dia superado, na proximidade a cada casa sem janelas e nelas a mensagem por escrever e mesmo assim colocada no alpendre para que todos possam um dia recordar a minha existência, sim, vivemos todos o abraço da vida, o despertar, a marca que registamos em cada esquina desta rua onde ainda me encontro sentado observando o movimento que à nossa volta gravita. 

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Bebi da sua arte

Deitei-me ontem aqui à beira de um rio baldio sonhando já. Desvendei nele a coragem de viagens infinitas, o percurso sinuoso das suas artes embrenhadas de alma e sangue frio.

Devo ter sonhado o rio a distanciar-se, a perder-se nas maravilhas que a natureza oferece e eu encostado a uma pedra de verdades. Não bebi da sua água mas sorvi dele a verdade da vida, um pedaço que seja para que me ensinam os apóstolos dos percursos ainda por descobrir nesta maresia de rio chamada infinito, sim, deitei-me para descansar as verdades que a vida me ensina, os dilúvios onde giestas embaraçadas percorrem como que se o rio fosse a sua vida, a minha vida, a vida dos que dele bebem a sabedoria que ele contém.

Bebi da sua arte observando o longe, o distante, o próximo na minha cabeça atenta. O rio era uma falésia de goivos voando e sobrevoando as suas ondas e quedas, a sua corrente, observei calado e sentando-o a distanciar-se sonolento, mas fértil de vida, os sinos ao longe a vangloriarem a tarde.

Deitei-me com ânsias nesta azia repleta de viagens, de recordações e margens, o vulto da distância sobre a nossa cabeça e nós calados sentados na rampa que dá para o rio o nos faz sonhar, pensar e repensar o longe, o destino deste rio acalentando-me numa só voz palavras escritas na areia. Sento-me sempre que a vontade me inspira vê-lo, preciso e não sei por quê ainda de rios, de ver as águas fluírem no mesmo sentido que segue para sul, sorver também o calor que nos cobre de risos. Desfolho a natureza num subtil gesto de paciência e vontade e vejo-o verde a ladear-nos, uns passos à frente e a água ainda desfila a sua longa caminhada, a sala nas memórias repletas de vontade, uma vontade infindável de defini-las, descrevê-las numa esfera de palavras e vontades a céu aberto, onde em tempos a tia Zulmira me recordava dos seus tempos para ela verdadeiros.

Brilhantes silêncios caminham sobre a vista ali proposta, ideias que se misturam com a tarde, vontades imensas e reviver os dias, crescer aos poucos aprendendo com a natureza. À volta tudo é presente, tudo é instante, tudo deambula num fervor de ânsias que crescem como pássaros distraídos sobrevoando o momento, a voz trémula da Dona Zulmira encaminha-nos para um almoço quieto sob árvores que balouçam largando folhas cansadas, uma mesa de pau velho e seco fazendo-me lembrar a juventude, um almoço de frutas e legumes tirados da horta inventada nos quintais da vida, nas salas do tempo relembrando os templos e os jardins da Grécia.

Assim sendo a sala de casa, a cama voltada para a janela que dá para o nascer do sol, os lençóis de cetim brilhantes encobrem-me enquanto durmo ainda. Pelas frinchas a luz da rua irrompe tentando despertar-me e que vontade de continuar a bailar pelas minhas ausências deste sonho de verdades, um sono suculento embrenha-me, o copo da água trazida do rio ainda cheio refresca-me e parto de novo sonhando como que já nada mais interessasse, sentir um navio distante a percorrer-se sóbrio, invento instantes enquanto me distraio com as curvas de um rio que desce no sentido da vida, crescendo quando se junta ao mar, a minha vida ali estampada.

Beber da arte da vida é estar sentado junto ao rio, não sentir a velocidade da vida, beber dos tempos, sentir os instantes deambularem
devagar por entre todas as viagens que percorrerem comigo o meu desejo, sim, sinto-me nascer todos os dias.

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Jean-Jacques Rousseau

Jean Jacques Rousseau (1712-1778) foi um destacado filósofo social e escritor suíço. O mais radical e popular dos filósofos que participaram do movimento intelectual do século XVIII – o Iluminismo.

Sua obra principal, “O Contrato Social“, serviu de verdadeiro catecismo para a Revolução Francesa e exerceu grande influência no chamado liberalismo político.

Defensor ardoroso dos princípios de “liberdade, igualdade e fraternidade”, o lema da revolução, é visto como o “profeta” do movimento.

Biografia de Rousseau

Jean-Jacques Rousseau
Retrato de Jean-Jacques Rousseau por Maurice Quentin de La Tour (1753)

Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra, Suíça, no dia 28 de junho de 1712. Filho de um relojoeiro protestante fica órfão de mãe logo ao nascer. Em 1722 fica órfão de pai.

É educado por um pastor protestante na cidade de Bossey. Com 16 anos de idade vai para Savóia, Itália, e sem meios de sobrevivência procura uma instituição católica e manifesta o desejo de se converter-se ao catolicismo.

Demonstra grande interesse pela leitura e pela música. De volta à Genebra, retorna ao protestantismo. Exerce vários ofícios: relojoeiro, pastor e gravador, todos sem sucesso.

Em 1732, Rousseau muda-se para Paris, onde conhece Madame Warens e ao lado dela, como autodidata, conquista grande parte de sua instrução. Ao deixa-la, em 1740, vive como andarilho, até que em 1742 conhece outra senhora ilustre que ajuda o filósofo.

Graças a sua protetora torna-se secretário do embaixador da França, em Veneza. Dedica-se ao estudo e compreensão da política. Em 1744 volta à Paris e no ano seguinte escreve um tema para balé, “As Musas Galantes”. Conhece Thérèse Lavasseur, criada de um hotel, vivem juntos e têm cinco filhos, todos enviados a orfanatos públicos.

Morando em Paris, descobre o Iluminismo e passa a colaborar com o movimento. Torna-se conhecido por seus trabalhos sobre política, filosofia e música. Em 1750, ganha o prêmio do concurso da Academia de Dijon, com o “Discurso sobre as Ciências e as Artes”.

Embora já tenha colaborado com Voltaire em trabalhos iluministas, em seu ensaio afirma que as ciências, as letras e as artes são os piores inimigos da moral. “Tudo o que distingue o homem civilizado do selvagem é um mal”.

Rousseau faz frente a toda uma sociedade. Assume uma posição que vai influenciar não só a Europa, mas todo o ocidente. Sua atitude é de acabar com todos os códigos vigentes. Destruir a falsidade imposta pela sociedade.

Rousseau ataca a arte, porém, dedica-se à música e escreve a ópera cômica “O Camponês da Aldeia” e a comédia “Narciso”, ambas em 1752.

Desenvolve ideias expostas no seu discurso premiado e escreve “Discurso Sobre a Desigualdade” (1754).

Nesse trabalho, reforça a teoria já levantada reafirmando: “O homem é naturalmente bom. É só devido às instituições que se torna mal”. Ataca a desigualdade resultante de privilégios. “Para desfazer o mal, basta abandonar a civilização”.

Em 1756 Rousseau torna-se hóspede do palácio de Madame d’Epinay, quando inicia suas três maiores obras: “Nova Heloísa”, “O Contrato Social” e “Émile”.

Em 1761, publica a Nova Heloísa, onde exalta as delícias da virtude, o prazer da renúncia, a poesia das montanhas, florestas e lagos. “Só o ambiente campestre pode purificar o amor e libertá-lo da corrupção social”. O livro é bem recebido, é a primeira manifestação do Romantismo. A natureza entra em moda. Rousseau é chamado “O Bom Selvagem”.

O Contrato Social e Émile

O Contrato Social, livro publicado em 1762, é um plano para a reconstrução das relações sociais da humanidade. Seu princípio básico se mantém.

“Em estado natural, os homens são iguais: os males só surgiram depois que certos homens resolveram demarcar pedaços de terra, dizendo a si mesmo: Esta terra é minha. E então nasceram os vários graus da desigualdade humana”.

Para Rousseau a única esperança de garantir os direitos de cada um está na organização de uma sociedade civil, com direitos iguais para todos. Isso poderia ser realizado por meio de um contrato social estabelecido entre os vários membros do grupo. Por esse acordo, cada indivíduo concordaria em submeter-se à vontade da maioria: nasce o Estado.

Em Émile, o mesmo plano de reconstrução da humanidade baseia-se na educação. É uma espécie de romance pedagógico.

Rousseau figura o herói como uma criança completamente isolada do meio social, sem receber nenhuma influência da civilização. Seu professor não tenta ensinar-lhe virtude alguma, mas trata de preservar-lhe a pureza do instinto contra as possíveis insinuações do vício.Veja também:O Estado de Natureza em Hobbes, Locke e Rousseau

A Perseguição e Morte de Rousseau

A publicação do Contrato Social e Émile, com ideias democráticas, são audaciosas para a época. Edições de Émile são queimadas em Paris. Decretada sua prisão na França, Rousseau refugia-se em Genebra, mas seus livros também incomodam o governo.

Seus livros são considerados “temerários, escandalosos, tendentes a destruir a religião cristã”. Constantemente perseguido, encontra asilo em Môtiers, sobre a proteção de Frederico, o Grande. Aí vive de 1761 a 1765. Nessa época escreve: “Cartas Escritas na Montanha” e “Projeto para a Constituição da Córsega”. E inicia “Confissões”.

Em 1765, acusado de envenenar os aldeões, conduzidos por um pastor, foge para a Inglaterra, onde Jorge III lhe concede uma pensão. Sua saúde mental já está abalada. Sofre de mania de perseguição e chega à demência. Desesperado, foge mais uma vez e viaja sem destino.

Nessa vida errante, escreve “Considerações sobre o Governo da Polônia” e “Devaneios de um Pensador Solitário”. Em 1778, é acolhido pelo Marquês de Girardin em seu domínio de Ermonville, França, onde vive seus últimos dias. Jean Jacques Rousseau morre de apoplexia, no dia 2 de julho de 1778.

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Sobre as águas da vida o silêncio dói, cap. XXV

XXV

Com mil tempos de tédio na tenda de campanha ou na batalha, vai o soldado. Mil tempos a caminhar descansado neste campo verde e seco onde rios e nada de mar, mil tempos a sorrir desgostos e sem apóstrofos delegar a minha vida à saudade, mil tempos a definhar silêncios neste barulho infernal de tiros e balas perdidas a ver camaradas estendidos, mil tempos a sonhar com um regresso ainda por sonhar e sempre pensado, adivinhar as minas e o jeep a caminho, picadas e mato num intervalo apenas imaginado e neste o meu canto onde vim para me salvar, mil tempos de inglória onde que glória, uma bandeira assombrada sobre uma caixa e por cima herói pela pátria depois de nada mais se conseguir.

Parece tudo tão lento e ao mesmo tempo rápido demais, uma bala alojada num peito ou um furo nos pneus do jeep, uma mina cansada de nada fazer explodir-nos e atirar-nos para as bermas vadias deste mato sem dono, a noite alonga-se, parece não terminar, a caminhada definha-nos e nós cansados, a farda suada, a boina tombada, o jeep grita nostalgias tal o seu cansaço, a gente caminha e que destino?, rumamos sem direcção, a bússola à ilharga de um sorriso e nada de sorrisos, tudo nos pesa e cansa, mil tempos em cada campanha e a vida flui como se o dia estivesse ali sentado a nosso lado.

Cumprimos ordens de um estado gordo e bafiento, sentimos a sua sonolência, as suas vertigens e alucinações, sentimos a sua inconsciência e insanidade, somos apenas o que somos numa campanha de ninguéns seguindo em marcha fúnebre instruções superiores onde ninguém é nada a não ser um soldado que o estado obrigou e a ter de cumprir, nem penso na importância da vida nestas masmorras cansativas e nem Salazar lá, sou um soldado obrigado a sê-lo ou então caxias para sufragar a desobediência.

Escrevo silêncios nesta cama de hospital a saborear a vida lendo restos esquecidos numa esquina de qualquer página da minha vida e eu ali, devorando o entusiasmo desta alegria de sorrir ainda.

Não me sinto cansado, desafio a todos os instantes a minha ânsia, o meu respeito pelo tempo que me dispõe ainda estar vivo, sim, sorver o prazer de poder ver o sol nascer enquanto as folhas deste livro se abrem, uma a uma, sem pressas, todo o tempo é válido nesta cama só minha.

A gente ali consegue entender o absurdo, perceber o precipício, vislumbrar o soluçar cadente da gente ali dispersa por camas e sonhos perdidos. Ouve-se ao longe o silêncio da partida e a voz de quem nos queira engolir. Entendemos então como fintar o fatídico, simular o fim e reviver sem angústia.

Um renascimento real e as janelas a iluminarem os corredores longos que me cercam, os passos de gente calma na cura de tantos que definham e sem saudades e sem memória já, gemidos cansados e famintos, fome e sede, sente-se a vida desviar-se dos corpos mal tratados pela impaciência de se ser correcto. Umas gotas do céu molham a rua fustigada, o vidro da janela pingado e eu ali repensando o futuro sem esquecer que o passado viveu comigo anos a fio.

A gente sente o silêncio da alma, o percurso que o destino nos reserva, a gente sabe quando força a razão natural das coisas, o que obrigamos a que o nosso corpo ceda tão rapidamente desta existência excelente, sabemos tão bem conviver com os hábitos, beber da água que nos preencherá por dentro e dará cor e brilho por fora. Por isso escrevo silêncios guardados na alma nesta cama cansada de me suportar, a que me convida a sair e correr bem depressa pelas ruas do fantástico, receber as divindades do mar e da terra numa rua qualquer da cidade, viver como se deve sem suportar o cansaço da dor e da fantasia.

Não me sinto cansado porque sei como viver sem que o cansaço me absorva, sem que o mal seja um parceiro para o meu destino não desejado, sem conseguir dormir como se dorme como um anjo e se sonha como uma criança, com esperança, com fé, força e razão, uma verdade alojada à cabeceira da vida e nesta cama serei tudo isso, ansioso pela vida vivida sem dor nem remorsos.

Levanto-me, dou uns passos tranquilos e tento primeiro ver a rua, olhar de soslaio o sol que ainda dorme, nuvens atravessam o céu sobre a minha cabeça e a melodia do dia a começar, o vento quieto por entre o meio escuro ainda e eu ali, olhando também para dentro de mim mesmo para que me perceba, planear o dia, as actividades que me irão sustentar e animar sempre enquanto tudo é ainda tão verde. Sim, encontrar uma juventude que perdure e fique, um sorriso que me alimente a cada suspiro, sentir a razão da felicidade escorrer por cada poro dos meus dias que se reiniciam todos os dias e sempre diferentes, acutilantes e fantásticos, sentindo na testa o brilho das ideias e da performance dos nosso gestos e actos.

Sim, não me sinto cansado.

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Algo longe é tempo

Havia sempre à porta da nossa casa uma sentinela de espada e foice que martelava como pica miolos o suave cheiro que a órbita cega consumia.

Eram se calhar tempos de que nada me recordo a não ser inventar como uma ingénua criança aqueles sorrisos nada matreiros, era de facto verdade e é, da forma como entendi e hoje resplanto neste canteiro de letras para ninguém, sei como nada se importarão os que a virem mas na cabeça ainda a espada e o sentinela e com ele a volúpia de ermo da lei numa postura a que o recomentavam, ou direi ainda, como a impunham. Se me lembro, era castanha a porta e por trás o azedo escondido

“aí quieto!”

sei lá de quem já nem me importará claro, mas apetece agora não esgrimir, mas nem vacilar as crianças só dormem enquanto de facto dormem, a minha mãe nunca se sentava tal era o tempo que o permitira e apenas servir era uma obrigação

“os miúdos?”

numa afama calada e nada, o quintal sempre na cabeça enfim, o ruído esquizofrénico da máquina de costura num longe tão perto sei lá, isto de pensar agora nas distâncias são outros vinténs dizia a quimera, uma senhora antiga e já revolta numa paz de arrumos onde os livros secam.

Um dia, o sonho despertará quem sabe, acredito sabe?, estas acutilantes invasões que tanto perturbam nem sempre são o mesmo sumo sacro de ideias que entendo terem ido já mas mesmo assim ainda senãos, há imensas vírgulas para repartir num texto por escrever enquanto a gente nele viaja como um sacrificado em si para tudo e tantos lá, seremos mais que prováveis reféns de ostracismos de colónias de férias como eram os tempos a que me refiro no início, presumo que entendam ainda que nada faça sentido, o importante não é esse sentido que entendam ser a lógica destas matemáticas de filósofos dos arrufos de Arquimedes, um sonhador só se cala enquanto dorme e ainda assim pensa numa tela filmada para sonhos ou sonhadores e que importará essa verdade que um dia será de verdade o filme para a nossa vida?

“raios me partam as metafísicas!”

A minha mãe sei lá onde e o meu pai

“os miúdos?”

na portaria do tempo, abrira-se e a enchente para nos contentar um beijo e bom dia fui, eram já tantas da tarde e sozinho o meu sorriso era mais quente para dentro que a vontade de viver essa rumaria sem vaidades,

“baixem as guardas por favor!” e dormi como sempre até hoje, ou será que me esqueço de algo?

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Auguste Comte

Auguste Comte foi um dos mais importantes filósofos e sociólogos franceses.

Atribui-se a ele a criação da disciplina Sociologia, bem como a corrente filosófica, política e científica conhecida como Positivismo.

Sua contribuição teórica ainda é importante, com o conceito político da “Lei dos Três Estados”.

Biografia

Auguste Comte

Busto de Auguste Comte em Paris, França

Isidore Auguste Marie François Xavier Comte nasceu em Montpellier (Hérault), na França, em 19 de janeiro do ano 1798. Era filho do oficial de taxas Louis Comte e Rosalie (Boyer) Comte, uma monarquista devota do catolicismo.

Em 1814, ingressou na “Escola Politécnica de Paris”, e, com apenas quinze anos, destaca-se como aprendiz brilhante.

Entre 1817 e 1824, foi secretário do conde Henri de Saint-Simon, grande nome do socialismo utópico, o qual teve influência decisiva na obra de Comte.

Mais tarde, em 1822, publica “Plano de Trabalhos Científicos para Reorganizar a Sociedade“. Pouco tempo depois, sofre um colapso nervoso (1826), do qual se recupera somente em 1830.

Nesse meio tempo, publicou os seis volumes do “Curso de Filosofia Positiva“.

Entre 1832 e 1842, Comte foi tutor e examinador na “École Polytechnique“; ainda em 1842, separa-se de sua esposa e inicia um relacionamento platônico com Clotilde de Vaux.

Neste contexto, Auguste Comte já vivia do favor financeiro de seus amigos e admiradores. Em 1848, criou uma “Sociedade Positivista” e entre 1851 e 1854, redigiu o “Sistema de Política Positiva”, no qual propõe uma interpretação para a sociedade humana.

No ano de 1856, publicou o primeiro volume de “Síntese Subjetiva“, o qual não completou, pois morreu de câncer em Paris, no dia 5 de setembro do ano 1857.

Principais Ideias

É importante salientar que Comte viveu sob a égide da Revolução Francesa, bem como da ciência moderna e da Revolução Industrial.

Portanto, seus ditos e escritos são referentes as intensas transformações sociais, econômicas, políticas, ideológicas, tecnológicas e científicas decorrentes da consolidação do capitalismo.

Nesse contexto, ele percebeu que os fenômenos sociais deveriam ser percebidos como os outros fenômenos da natureza.

Isso porque eles eram apenas um tipo específico de realidade teórica, o que implica que devem ser enunciadas em termos sociais.

Ele cunha o termo “sociologia”, para designar uma doutrina social baseada em princípios científicos, dividindo-a em dois campos:

  • os estudos das estatísticas sociais para a compreensão das forças que mantêm a coesão social;
  • as dinâmicas sociais em si, para o estudos das causas das mudanças sociais.

Portanto, a “Física Social” ou “Sociologia”, partiria dos princípios da observação, experimentação, comparação e classificação enquanto métodos.

Ela tinha como finalidade tudo o que é “positivo”, ou seja, o real, o útil, o certo, o preciso, o relativo, o orgânico e o simpático.

Daí surge a outra contribuição de Comte: o Positivismo. Ou seja, a visão pela qual a análise dos fatos abandona a consideração das causas dos fenômenos e pesquisa suas leis, uma vez que são fenômenos observáveis.

positivismo pregava um modelo de sociedade organizada, na qual o poder espiritual não mais prevaleceria, ficando o governo à cargo dos sábios e cientistas.

Este novo método geral para a ciência caracteriza-se pela observação em aliança com a imaginação. Estão sistematizadas, por sua vez, segundo princípios adotados pelas ciências exatas e biológicas.

Contudo, vale notar também, o fato de Comte perceber que cada tipo de fenômeno possui suas particularidades. Isso implica dizer que há um método específico de observação para cada fenômeno.

Outra importante criação de Auguste Comte foi a “Religião da Humanidade”, com bases teológicas e a metafísicas. Isso tudo, reconhecendo a preponderância do papel histórico desempenhado pelos estágios provisórios da Humanidade, previsto na “Lei dos Três Estados”.

Seu pensamento influenciou pensadores da grandeza de Karl Marx, John Stuart Mill, George Eliot, Harriet Martineau, Herbert Spencer e Émile Durkheim.

Criador do termo “altruisme” (autruísmo), a filosofia de Comte para a humanidade se resumiria em “vivre pour autrui” (viva pelos outros).

Leia também:

O que é Sociologia?
O que é Filosofia?

Lei dos Três Estados

A “Lei dos Três Estados” representam as fases necessárias para a evolução humana, onde cada uma delas teria suas abstrações, suas observações e sua imaginação próprias.

A observação da evolução das concepções intelectuais da humanidade seguiria o estado ‘teológico’ ou ‘fictício’, o estado ‘metafísico’ ou ‘abstrato’ e o estado ‘científico’ ou ‘positivo’.

No primeiro, os fatos observados seriam explicados pelo sobrenatural, ou seja, entidades (Deus ou deuses), as quais comandaria os fatores que compõem a realidade.

No segundo estágio, a realidade seria pesquisada diretamente, mas ainda haveria a presença do sobrenatural (a natureza, o éter, o Povo, o capital).

No terceiro e último estágio evolutivo, o apogeu da humanidade, os fatos seriam explicados segundo leis gerais abstratas, de ordem inteiramente positiva.

Nesse viés, o fator absoluto é substituído pelo fator relativo, pois tudo seria relativo, exceto a lei absoluta da relatividade.

Principais Obras

  • Curso de Filosofia Positiva (1830-1842)
  • Discurso Sobre o Espirito Positivo (1844)
  • Uma Visão Geral do Positivismo (1848)
  • Religião da Humanidade (1856)

Curiosidade

O lema de Auguste Comte “Amor como princípio, ordem como base e progresso como objetivo” fundamentou os dizeres da bandeira do Brasil “Ordem e Progresso”.

Leia mais:

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Sobre as águas da vida o silêncio dói, cap. XXIV

XXIV

Os anos viajam e connosco sombras e desejos, há tanta felicidade e enquanto presentes comemos as relíquias da vida, pois, sabemos nós, todos nós, que a vida é um ciclo tantas vezes curto ou longo, nem sempre é mais curto, depende muito da intensidade a que nos entregamos à vida, ao ciclo e percurso que faz de nós o que formos enquanto estivermos. Despendemos alegrias e felicidades enquanto partilhamos vivos o nosso amor pelos que temos, deixamos filhos e amigos a crescer com memórias tantas por nós deixadas e sabemos que a morte não termina a alegria de quem tivemos, embora os tenhamos sempre numa memória infinita. Sobre a secretária um sem número de papéis rasurados, riscados, cansados também, não sei se tudo isto me cansa amor, imagino e não me canso, isso sim, de pensar na vida lá fora, onde nada de fardas e castrados neste acampamento de prisioneiros e enjaulados, viajamos apenas campanhas contra que inimigos, vizinhos tantos deles bebem e comem à nossa mesa e nós na deles, pouco importa se no chão ou numa celestial sala preenchida pelos dogmas mais resquiciosos do sistema. As tardes decorrem e o pensamento em viagem sempre, tudo serve para mais umas páginas na vida que levo, tudo são experiências válidas, um contarei tudo isto Deolinda, as mazelas que não desaparecem e as alegrias que enfim, vamos tendo. Ainda assim saudades,

– escreve-me Deolinda!

vontade de estar num consultório em lisboa, aprender com o meu pai e beber da sua experiência, ter horas de chagar a casa e ver-vos, abraçar-vos, ver a Santa Paola e pegá-la com os meus braços, mas faltam ainda picadas e emboscadas, trilhos e miséria, verdade, caminhar noites seguidas e busca de nada, onde nada existe a não a cabeça dos que nos desprezam, somos heróis voláteis, míseros utensílios de um sistema que só nos desprotege, somos filhos de uma nação que nos ignora e esquece e de nós nada mais quer saber a não ser contar cabeças abatidas. O cacimbo aperta e nada de chuvas, a seca nas matas e o lodo nas almas, a luz estridente do jeep velho e cansado, o soldado perdido no meio de todos nós chora medos e receios, a matança do porco em vila real, tudo passa a ser mais triste ainda mais e tudo se desfaz nesta masmorra de vadios como somos, obrigados a sê-lo, percorrendo o vazio das noites sem que ninguém nos surja. A minha cabeça é uma viagem permanente, noite e dia sem vacilar vislumbro os meus desejos e ânsias, os medos também, tudo é vazio enchendo-me a cabeça com receios e tremelicos nestas passagens por caminhos destruídos, caminhos velhos e partidos, pontes inventadas por nós para assim conseguirmos ao menos caminhar ocultando o distante em que lugar for. Não entendi ainda o que vim aqui fazer, a sério,

– acredita Deolinda!

sinto-me um objecto utilizado para nada, querem-nos mortos, só consigo pensar nisso e tantos já foram, vejo-os estendidos, a alguns ainda consigo dar folego, mas tantos chegam-me à mão já sem respirarem, tudo isto é medonho e cansativo, acredita, acredito também que não foi para isto que estudei na linda Coimbra o especialista de médico Psiquiatra. Sou um oficial que comanda centenas de soldados e desmotivado que fazer?, ouço-os em lamúrias e desabafos, não consigo separar-me da verdade deles, somos uma comissão de lágrimas em terras tão lindas e vermelhas como as que tenho visto.

Três anos passados e o regresso para quando?, não sei de nada, dizem-nos apenas a missão não está ainda concluída, mas concluída quando?, nada nos explicam e a gente aqui, nem pasmo nem ignoro, lamento uma dor infinita numa solidão entre tantos, centenas de soldados encurralados numa vitória nunca conseguida, quem vencerá?, talvez os soldados que regressarem sãos e salvos.

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Porquê dormir tanto?

Dormir cansa e desfalece! A vida fustiga e a gente sente a cada passo o cheiro vernáculo da existência.

Precisamos do breu e do amanhecer de olhos abertos em direcção ao infinito vislumbrando o finito das finitudes da realidade. A vida cansa e faz-nos desfalecer, precisamos vê-la nem que seja pela janela ou pelos os alpendres do quintal abandonado.

As plantas florescem o amanhecer decorado pela sombra tardia do sol e nós sentimo-la como um estímulo para despertar. O sono leva-nos a sonhos e a gente nada percebe depois, o sonho vadia a nossa alma tomando conta de todos os nossos gestos e é durante o sono que tudo acontece fugindo do essencial que é a verdade não dormindo tanto, precisamos da vigília que nos guia, essa intempérie que nos acompanha tempos infinitos e enquanto vivos partilhamos com ela desabafando, mesmo que calados, uma partilha da vida que formos vivendo.

Respirar a erva e senti-la desbravar pelos campos, sorver da sua vida, entendê-la, sabemos tão bem explorar o seu crescimento e acompanhamo-lo pela manhã, ao despertar das cavernas frias do sono.

As orquídeas misturam-se no esplendor das palmeiras e vegetam criando no horizonte uma floresta de caminhos verdes e coloridos e distantes onde quem por lá passe vislumbre, onde quem observe sinta o silêncio rico das fantasias inebriadas com instantes divagantes deste sono despertado e vespertino apenas os laicos dormem, sim, mais descansados porque sim.

À noite a poesia dos estrondos que vagueiam o sono, sonhamos com o resquício dos restos, a glória dos poucos ou com a honra dos idos, lembramos e perdemos assim que acordamos as histórias do pai na sala ao amanhecer, o relato da mãe, as histórias de família enquanto todos à mesa desfrutam o pequeno almoço de mesa cheia.

Sinto ao de leve não sei vindo de onde, “dormir muito cansa!”, ouvi e nem sequer discuti, talvez seja um devaneio meio embrenhado nesta sala de tantos a deglutir um pequeno almoço sem saudades, com saudades, seja o que for, sejamos discípulos do despertar, talvez só nesta família de regras, onde se seguem princípios de tradição, onde o pequeno seja o recolher da parada para a jornada, sai lá, tudo isso me faz pensar e bem, tenho família!

O meu pai à cabeça da mesa e nós desfilados numa hierarquia tradicional, começamos pelo mais velho e seguimos, por ordem, aos mais novos. Bebamos do dia, dizia alguém onde talvez sonhara escutar, ouvi sentado na minha esquina, nesta mesa varrida de fome para o momento e todos nos alimentamos ouvindo a retórica da vida.

Ainda as vozes ao canto da sala creio, talvez ao fundo do escuro que nasce a cada instante bebendo do tempo, acordar cedo e levantar rumo à vida, essa coisa saborosa que nos vislumbra e descobre, essa névoa de saudade que nos enaltece e são saudades permanentes a coisa nossa da nossa vida, recordamos o futuro ainda por chegar e caminhamos rumo a si, ver os muros da rua crescerem com o frio que faz, o vento que deslumbra ventoinhas e até o celeiro agradece, a vida esvaída na verdade de sentir o fluir do real e a diáspora na tua alma, no rés do chão das tua caminhadas percorrendo os caminhos do teu casebre em sentido e enquanto isso, nada, tudo faz parte do mesmo nem que seja de novo recolher aos lençóis e boa noite a todos.

E a repetir-se a voz vinda de não sei de onde, dormir muito cansa. Porque cansa então?

Levanto-me, dirijo-me à janela que dá para as traseiras e penso sem sonhar já que sonho sempre, sonhar faz-me viajar contramuralhas e ventos e enquanto isso nada mais, sinto ali uma verdade escondendo-se ao fundo, junto aos barcos que naufragam e estacionam numa maresia abandonada de tudo. Iria um dia descobrir este porto de abrigo sem vontade de ser mar, a sala por baixo do quarto onde sempre me refugio, sinto cada passo, cada sorriso ou gargalhada e tudo na mesma em mim, a saudade não me cansará, penso, e viajo o salubre da tarde a dar contas ao fim do dia.

Girl at a window, 1931 do pintor russo Alexander Deineka
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Sobre as águas da vida o silêncio dói, cap. XXIII

XXIII

Tivemos um primeiro dia, viemos no primeiro dia, resta-nos agora e ao fim de uns bons anos saber do regresso, coisa que me parece estar longe ainda, não recebo informações nem sei às quantas ando!, mas no meu calendário de bolso risco cada dia passado, cada dia vencido numa luta desenfreada e lisboa espera-me, garanto!,

– está para breve Deolinda!

é uma coisa pacífica, as coisas ao princípio parecem piores mas disso nada é verdade, apenas o cansaço de ter que suportar tanta ausência das minhas coisas, do meu bairro e amigos, da minha filha a crescer sem o pai por perto, são dores que nunca desaparecem, venham aspirinas e mesmo assim nada, apenas as tuas cartas me enchem de felicidade, saber de ti e como estão as coisas, saber da minha mãe e do meu pai no consultório e eu numa enfermaria de campanha, a minha mãe na cozinha fabrica cozidos e feijoadas pensando nos meus gostos, sei que ela nunca se esqueceu do que aprecio comer refastelado numa mesa cheia de gente.

– fala-me da nossa filha!

Risco folhas de memórias enquanto descansam soldados feridos, rabisco, rasgo, volto a escrever, nem me sai como pretendo, dizer-te bem a fundo das minhas saudades e da minha vida nestes isolados silêncios a que fui atirado. Um dia a missão terminada, o nosso regresso como heróis que lutaram pela pátria, a pátria que nos viu nascer e alguns morrerem, nem todos chegaremos vitoriosos, eu não voltarei preenchido com a falta de camaradas perdidos nas balas atiradas do desconhecido, é triste amor, mas que fazer?, da nossa filha perdi o rumo e a idade dela, não sei ao certo a sua idade, acredita Deolinda, escreve-me e dá-me informações, coisas de que preciso para acalmar.

Que navio nos levará de volta?

Que idade terei nessa altura?

Mais velho e cansado sim, oficial médico que não estudou para isto, ser enviado sem apelo nem agrafo para um longe por nós completamente desconhecido, não conhecia os cheiros, de ventos, não sabia do cacimbo nem de que calor sobre a farda quente e suja, nem tempo para a lavar, acredita, somos atirados a um canto e mandam-nos desenrascar como conseguir-mos.

– está para breve Deolinda!

Sento-me a um canto da tenda e só tu e a nossa filha na minha cabeça, sei da tua paciência miúda, da tua fé, da tua força, sei do nosso amor separado por um ditador que nos quer ver enferrujar nas matas. O soldado quase analfabeto não recebe cartas de ninguém, arranjamos madrinhas de guerra que ao menos consolam, lemos desconhecidos que se dirigem a nós com um discurso lindo a apaziguar uma dor feia, cansada, solitária, o capelão dá a missa e todos os domingos lá estamos, ouvir a palavra de Deus neste fim do mundo algures em Angola.

Adoro as gentes, as paisagens, as aldeias que nos acolhem e recebem com salvas e palmas, recebem-nos como irmãos, e somos de facto irmãos, comemos sentados no chão churrascos e assados saborosos, nem sempre nos entendemos, pois nem todos falam português, mas sabemos lidar com as diferenças e somos humanos a viver o mesmo dilúvio.

– bem-vindos irmãos fardados!

Sentados e conversávamos, não existem cadeiras, o lugar mais adequado é mesmo o chão, cada um com o seu pedaço na mão, viemos numa missão de paz e somos irmãos, bebemos vinho e quiçângua, a galinha assada e um belo churrasco, nós, soldados, um grupo de muitos naquele lugar humilde e belo, uma povoação de irmãos nesta comissão de paz.

Recebidos pelo soba, com toda a vénia e consideração, assim se faz o respeito e sentimo-lo com uma vénia, mais uma tarde feliz num lugar tão distante como todos os meus sonhos e delírios, confraternizar com gente pura e sã.

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Passeio matinal

Apetecia-me ver discorrerem as longas ruas da manhã, acordei com vontade de inventar para mim um silêncio que me encaminhasse a um destino inventado.

Sentei-me numa berma qualquer tentando ver a cor das coisas, o bramir das palmas nas paragens, o reinventar perante a existência, o frenesim que deambulava os carreiros de pedra, os sapatos barulhentos, apetecia-me mesmo sentir como se sentem as histórias.

Levo sempre um caderno para descrever a cor das coisas, decorar o beijo solto que divaga e segue e nada mais é fantasia, é tudo uma realidade descrita numa folha vaga, meio amarrotada, mas onde consigo descrever com palavras as verdades das incúrias escondidas por detrás de tudo que possa ser um jeito próprio de caminhar, o fundo fosco do horizonte, as maresias caladas, tudo me merece uma atenção especial decorada em cartões para turistas e visitantes do templo desta manhã que quero só minha. São as minhas sensações a desflorarem rua abaixo num vago eléctrico da cidade, uma cidade única, mas de toda a parte, uma cidade chamada de tudo para ser nossa, a minha vontade ali estampada como um cartaz de convite.

Vejo degraus vazios, sinto passos e nada mais vejo a não ser escadas, é tudo tão inebriante e fascinante, a felicidade cansa e a gente perpetua-a no imaginário deste papel riscado, já tantas as coisas nele descritas. Uma cidade de rotinas, mas diferente todos os dias, são as rotinas divagantes, umas vezes de norte para sul e outras vezes para norte, ruas que descem e sobem num vagar apressado como que a parecer existir vontade de as modificar, vê-las diferentes consoante o ângulo em que as veja. Jardins diferentes, tudo é efeito de algo, mas nada passa a ser indiferente, fascino-me diariamente quando me levanto e deambulo ruas de indiferenciados referenciados nas linhas escritas num desenho azul nas páginas amarrotadas desta dispersão que nunca se cansa, mas que me ensina a ver o mundo numa cidade presente.

A minha cidade não é inventada mas sim recriada numa vontade de que só a mim me apetece descrevê-la, aparece sozinha como que de uma fada se tratasse, é linda de verdade e tudo nela encanta, verdade, até o zumbido de cantares populares me fascinam, fazem-me viajar cânticos e trovas antigas, poemas riscados de que poeta vendendo cautelas para a felicidade de alguns, tudo é vasto e belo, e eu, sentado neste banco de jardim sonho com as estrelas que a natureza me devolverá mais tarde.

Sinto a areia levantar-se ou a relva a crescer, algo diferente mexe-se por debaixo dos pés ainda calçados, o banco tremula sob o vento distante e eu nele ainda, vivendo as ilusões de quem recria a vida nas folhas de um caderno cansado de ser usado.

Pensei em repetir este gesto, frequentar diariamente os caminhos trilhados na pele e suar a fome por esta vontade de um dia a pertencer, senti-la minha e nossa como se de cavernas se tratasse noutros tempos, vontade de sentir o vento que soçobra, o riso que esboça os limites do seu curso, o limiar das fontes que nascem creio que distantes mas vê-las contenta-me, talvez seja pedir pouco mas que importa, a vida é um sorriso madrugador e a gente entendo-o como nosso, um pertence intrínseco, como o caminhar ou falar, nada se aprende e tudo se ensina, somos filhos de tantas verdades amigo, falo-te de mim comigo sozinho a conversar com as lágrimas que se enxugam na única resma de papel que possuo. O teu caderno da cidade.

Poderá um passeio matinal ser tanta felicidade?

Não, mas pode ser o remanescer para tantas idades, a idade dos que partiram colados a esta cama ainda adormecida e que me inspira, ensina, faz com que a cidade seja neste quarto uma súmula sem vaidade, a vaidade cansa e canso-me da sua existência, a cidade mora ainda sozinha sempre que a visite, espera-me cantando volúpias por cada esquina que o sonho permitir.

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Apenas a lua quando acorda

Sinto-me a perpétua ir das suas lágrimas neste esplendor de sons tão peçonhosos, estes rios que secam na aurora no definhar das ideias. Um passarinho obtuso no chão sujo de quimeras e palavras amargas, um defunto que caminha sem saudades da vida.

Os passos que ouço são o abismo que se aproxima, a espuma que toma conta dos meus olhos e mos cegam como goivos sem asas, sou a mísera peralta de todas estas assombradas verdades, as que se me inculcam no esqueleto e ainda tento, mesmo sem asas, voar como um platónico escarnecido e apenas isso.

Carne sem ossos e sem essência.

Sinto-me completamente embriagado com estes ventos que me cercam, estes andros de vozes caladas nos estribos da fantasia, nas melodias que nunca se chagam, um longe cada vez mais presente nesta cabeça estiolada pelas ancoras de passos corrosivos. A minha cabeça parece querer deixar de existir, fumegar palavras irrefutáveis como quem fala ao desdém de costas abrasivas e incólumes.

Quem me diz se isto cansa?

“apenas a lua quando acorda”

Tudo isto são avenidas de sentido proibido. Revestidas de lama escorregadia. De petulância nos gestos, os açoites disfarçados, do sono de morte a que me levam as ideias.

Sinto-me já o defunto de mim mesmo nestas cartas que escrevo para o céu.

Prefiro caminhar de olhos fechados para que não veja as árvores tombarem à minha frente, o ruído das suas quedas sobre este ombro dorido de ânsias.

Deixa-me caminhar se puderes, deixa-me respirar se conseguires. Não quero hibernar para dentro das minhas tão confúcias algemas no corpo preso ao infortúnio que é esta luz que me encarde e encaminha para os nadas que suam. E gesticulam. E vomitam as suas sanguinárias ostentações e domínios disfarçados em flores do planalto mais alto se é que existe, mas sinto-o aqui bem presente como cestas para vender desejos.

Sinto o meu corpo num leilão.

E como sei ter sido já um leão. O gato sem pele nas agruras de palavras miada na esquina.

“apenas a lua quando acorda”

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Epicuro

Epicuro (341 a.C.-271 a.C.) foi um filósofo grego, que viveu no período denominado Helenístico. Considerado o “Profeta do Prazer” e o “Apóstolo da Amizade”, Epicuro foi o primeiro a sugerir o que viria a ser a teoria darwiniana,ao apresentar um esboço, extraordinariamente moderno, da evolução, 2.300 anos anos antes de Darwin.

Biografia

Epicuro
Estátua de Epicuro

Nasceu na ilha de Samos, Grécia, em 341 a.C. Estudou filosofia, foi aluno de Pânfilo, seguidor das ideias de Platão, das quais Epicuro rejeitava. Mudou-se para Téos, onde tece os primeiros contatos com a teoria atômica, pregada por Nausífanes, discípulo de Demócrito. Embora aceitasse o materialismo dos atomistas, rejeitava o mecanismo absoluto defendido por eles.

Epicuro utilizou-se da Teoria Atômica de Demócrito para justificar que o átomo era o elemento formador de todas as coisas e poderia formar outros corpos, mesmo com a morte física. Reformulou a teoria nos pontos que discordava e ensinava que os átomos eram diminutos e indivisíveis, e que a mudança e o desenvolvimento resultam da combinação ou da separação dessas partículas. O principal intuito das modificações especiais da teoria atômica era tornar possível a crença na liberdade humana.

Se os átomos só fossem capazes de movimentos mecânicos, o homem, feito de átomo, ficaria reduzido a situação de um autômato e seria o fatalismo à lei do universo. Epicuro com esse repúdio da interpretação mecanicista da vida, estava provavelmente mais próximo do espírito helênico do que Demócrito ou o Estoicismo.Veja também:Filosofia Grega

Principais Ideias

Epicuro deu origem a filosofia epicurista, baseada no prazer da amizade. Epicuro não acreditava na imortalidade. A vida, dizia ele, era uma tragédia. Não somos filhos de Deus, vivemos e morremos por acaso e depois da morte não há outra vida.

Dizia que era um dever do homem tornar a vida presente a melhor possível. E a melhor espécie de vida era a vida de prazer – não de prazer turbulento, mas de prazer refinado. Cultivar a felicidade da vida simples. Aprender a gozar do pouco que tendes e evitar os excitamentos de ambicionar mais.

Cultivar um tranquilo senso de humor, aprender a sorrir diante das loucas ambições dos amigos. Aprender também a auxiliá-los nas suas necessidades. Desenvolver o talento de adquirir amigos. Não podeis ser mais felizes do que partilhar vossa felicidade com vossos amigos. De todos os prazeres do mundo, o maior e o mais duradouro é a amizade.

Epicuro pregou a doutrina do egoísmo, um novo modo de egoísmo: era um egoísmo esclarecido, baseado na regra de dar e tomar. Devemos dar prazer afim de receber prazer. Usado em termos negativos, não deveis infligir qualquer injúria. Vivei e deixai viver. Em outras palavras, o mais sensível meio de ser egoísta é não ser egoísta. Ser vosso melhor amigo, sendo um bom amigo para os outros.

Epicuro fazia oposição à Academia de Platão e ao Liceu de Aristóteles, buscando uma filosofia mais prática que correspondesse a seu tempo. Fundou sua própria escola, chamada “Jardim”, onde pregava um bom relacionamento entre mestres e discípulos.Veja também:EpicurismoCompartilharEnviarEmailEste artigo foi útil?SimNão

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Nos taipais da utopia

O ring dos songs que eram, o solfejo ignóbil da matemática quântica dos sabedores da natureza, as vozes cruas do infinito nestes quatro cantos do olimpo.

Reúnem-se resmas de opiniões apenas quando o mar naufraga ou quando se pensa saber do tédio como que se a psicologia fosse um marasmo para encanto dos desencantos de marinheiros afogados na solidão do saber. O opinar vazio neste cheiro cru é uma erva daninha que enerva, nada disso cansa, mas apenas confirma o silêncio dos astros.

Alguns dormentes acordados, outros talvez durmam, ainda que de olhos abertos, creio, nada do que mais uns sóbrios vazios vislumbram sobrando carris para o transporte do carvão.

Acredito que seja já tarde.

Horas demasiado avançadas para endeusamentos de flandres como faziam na Andaluzia os poetas de rimas secas como os que canta Júlio Iglésias. São apenas heresias estas minhas passagens pelos nadas que a vida cada vez mais me destapa, mos coloca nas montras virais do gnomo como salpicos ou saltitos de sapos pelos lagos que havia em tempos junto ao bairro onde vivia e mais ainda quando chovia.

“nos taipais da utopia”

Sim, opinam obtusos num silêncio de paredes ocas como cárceres encardidos, são as paredes que nos dominam, isolam-nos de tudo como se a vida ali se dissecasse num marasmos de tantos saberes sem uma explicação, fugimos por várias razões desse medo que desconhecemos, varremos da língua com ela mesma presa a costumes e só isso, sabemos nós mais que nada vale a não o selo permitido para o transporte da solução numa redoma de vidro para a transparência da razão, ela mesma, que nem sempre nos permite mais que uma sensação apenas e daí nada saia talvez.

Somos hoje um infinito lugar de reliquiosos entendedores de notícias vistas na televisão ou a escuta vazia de jornais bem escritos, notícias são apenas alguma coisa que se fica por aí, precisamos, isso sim, de Hamlet traduzido para transmitir o do enfadonho a razão pura da existência, filosofias do conhecimento e dissecar deitados a ordem natural das coisas, tal faz o médico no diagnóstico de malefícios que tantas vezes nos incomodam e apenas sabemos da dor que perturba, e análises profundas que nem sempre solucionam o problema da barriga inchada de tanto saber.

Somos cada vez mais tudo, corremos em direcção aos tempos do que era nos mais remotos e idos saberes do tudo, o tal que sabia de física e ao mesmo tempo o médico da aldeia onde quem sabe morou a minha mãe em pequena.

Por isso, para isso, o recado nunca chega, ficamos assim mesmo nesta cama que nos cultiva para todos os silêncios que nascem a cada respiradela de sons de fungos e dores cansadas na barriga.

“nos taipais da utopia”

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Friedrich Nietzsche, o filósofo da afirmação da vida

Em lugar de utilitarismo e uniformização, ele propunha cultura e aprimoramento pessoal

POR:Márcio Ferrari
01 de Outubro | 2008

Friedrich Nietzsche
Friedrich Nietzsche

Rebelde e provocador, o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) se propôs a desmascarar as fundações da cultura ocidental, mostrando que há interesses e motivações ocultas, e não valores absolutos, em conceitos como verdade, bem e mal. Com isso, Nietzsche aplicou um golpe nos sistemas filosóficos, morais e religiosos. Sua frase mais conhecida (“Deus está morto”) não trata apenas de ateísmo, mas da necessidade de romper a “moral de rebanho” – as verdades tidas como inquestionáveis e o que é aceito por imposição – para viver as potencialidades humanas em sua plenitude.

Nietzsche foi professor universitário (leia biografia acima) e escreveu textos específicos sobre Educação. “A máxima ?tornar-se aquilo que se é? orienta seu pensamento nessa área”, diz Rosa Maria Dias, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. “Com essa frase, ele indica a tarefa do educador de levar seus alunos a pensar por si mesmos.”

O filósofo criticava o sistema escolar por ser um reforço da moral de rebanho: ao uniformizar o conhecimento e os próprios alunos, a instituição se curva às exigências externas do mercado e do Estado. Na Educação de seu país, ele via o avanço do ensino técnico sobre todos os níveis escolares com a finalidade de preparar profissionais e servidores competentes. Em lugar da massificação e do utilitarismo, Nietzsche propunha o aprimoramento individual e uma “Educação para a cultura” (leia o quadro na página 28). Entenda-se por cultura a criação de “personalidades harmoniosamente desenvolvidas”, segundo Rosa Dias.

A habilidade de transformar

Se Nietzsche combatia a vulgarização dos conteúdos escolares, também criticava o saber voltado para a erudição. Para ele, havia em sua época um excesso de cultura histórica, que gerava uma reverência paralisante ao passado. Com isso, sufocava-se a força do agora e impedia-se o surgimento do novo. Mais ainda: a tendência histórico-cientificista impossibilitava a presença efetiva da Arte e da Filosofia no ensino, por se tratarem de campos de conhecimento instáveis e desafiadores, que estimulam a crítica.

Sem ser contra o ensino de História nem subestimar o sentido histórico dos fatos, o filósofo via no sistema engessado um entrave para a percepção da “força plástica” do ser humano – isto é, sua habilidade de transformar. “Para não agir como coveiro do presente, é necessário conhecer a capacidade de crescer por si mesmo, assimilar o passado, cicatrizar feridas, preparar perdas, reconstruir as formas destruídas – tudo isso é força plástica”, diz Rosa Dias.

Nietzsche lamentava que uma espécie de ditadura da praticidade tivesse causado a perda da importância da leitura e do estudo de língua nas escolas, levando à degeneração da cultura. Naquele momento, dizia ele, ou se via o idioma como um organismo morto a ser dissecado, ou se encaminhavam a escrita e a leitura para os usos meramente comunicativos, reduzindo os textos a um padrão simplificado, supostamente ágil e moderno.

Um dos primeiros pensadores a conceber a leitura como uma atividade que não se limita à assimilação passiva de informações, Nietzsche achava que ler era uma experiência transformadora, inclusive no sentido físico. Isso porque, para se formar leitor, é necessário educar a postura, treinar a concentração e perseverar.

Vontade de potência

Como grande admirador da Antigüidade, principalmente da cultura clássica grega, o filósofo não aceitava a separação entre o corpo e o espírito. Tampouco dissociava, em seus textos, pensamento e vida. Segundo o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995), no ideal de Educação de Nietzsche, “os modos de vida inspiram as maneiras de pensar e os modos de pensar criam maneiras de viver”.

Encontra-se nesse processo contínuo a vontade de potência, que na filosofia nietzschiana é a força motriz do ser humano. “A vida é antes de tudo uma capacidade de acumular forças”, explica Rosa Dias. “Ela é essencialmente o esforço por mais potência, e para isso precisamos ser instruídos.” Portanto, para Nietzsche, a Educação deveria se especializar em formar personalidades fortes, não homens teóricos ou pessoas ilustradas.

Cabe à escola, de acordo com o filósofo, produzir nos alunos a capacidade de dar novos sentidos às coisas e aos valores. Nietzsche dizia que só os jovens poderiam entender suas contestações. É, então, de supor que a idade escolar seja a melhor para levar o ser humano a pensar criticamente a respeito do mundo a sua volta. Mas, para isso, a sala de aula precisa valorizar “uma cultura da exceção, da experimentação, do risco, do matiz”, nas palavras do filósofo.

Finalmente, ao educador cabe o papel de modelo, alguém que demonstra como se educar com disciplina e paciência. “Educar-se para ser educador significa, basicamente, estar à altura daquilo que se ensina”, diz Rosa Dias. “O professor precisa ser mestre e escultor de si mesmo.”

Biografia
Vida marcada por conhecimento e dor 

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844 em Röcken, Alemanha, filho e neto de protestantes. Nas universidades de Bonn e Leipzig, estudou Filologia, disciplina que lecionou na Universidade da Basiléia, na Suíça. Apaixonado por música, chegou a compor peças para piano. Sua carreira universitária começou a declinar com a publicação de sua primeira obra, O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (1872). Em 1877, publicou Humano, Demasiado Humano, na forma de aforismos. Quase cego, com freqüentes crises de enxaqueca, se aposentou em 1879. Entre 1883 e 1888, publicou, entre outros livros, Assim Falou Zaratustra e dois títulos para explicá-lo (Além do Bem e do Mal e Genealogia da Moral). Passou os últimos 11 anos de vida mergulhado na loucura e morreu em 1900, de paralisia geral, na cidade alemã de Weimar.

Os caminhos de Nietzsche
A experiência estética no início de tudo

As grandes influências de Nietzsche surgiram na época em que ele era estudante na Universidade de Leipzig. Lá ele descobriu a filosofia de Arthur Schopenhauer (1788-1860) e a música de Richard Wagner (1813-1883), de quem se tornou amigo mais tarde. Além da filosofia e da música, a Antigüidade clássica grega era seu terceiro interesse primordial. Nos três, se encontrava o papel central da experiência estética. Nietzsche via em Wagner o renascimento da grande arte grega. Mais tarde, o filósofo se distanciou do compositor, por considerar que ele se curvava ao gosto do público burguês, e da obra de Schopenhauer, por ver em seu pessimismo um sintoma de decadência cultural. Na maturidade, Nietzsche analisou a origem e a função dos valores na vida e na cultura, concluindo que uma “moral de escravos” se impôs à humanidade desde o predomínio da tradição judaico-cristã. Compaixão, humildade, ressentimento e ascetismo teriam, então, constrangido a vontade de potência, que seria o princípio de toda a vida. Nietzsche, que abominava o anti-semitismo e o nacionalismo, foi visto durante muito tempo como inspirador do nazismo por causa da edição forjada e mal-intencionada que sua irmã, Elizabeth, fez dos escritos deixados por ele.

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Adeus céu azul

Já nem sapiências coloridas e escritas em cardápios dos sábios idos, aqueles, que sabemos, apenas lamuriam o sonho do desejo e desconhecem a saúde do saber. Não serei nunca resma de nada. Se incomodar digam, irei até às metamorfoses dispersar a minha insânia calma. Preciso de mim para estar com todos, pois, sem isso, que me valem os doutos?

Despeço-me do céu, das nuvens, digo adeus a todos os astronautas e até de navegadores, dispenso heróis, fico neste canto, o que encontrar para me alumbrarem dos meus ímpetos. Canso-me do que constróis e resmas e regras assim, vomito o jantar e não como, quero viver sem sombras, mas com o sol a que me disponibilize ter, ouço dizer que os céus caíram, absorvidos pelas nuvens e engolidos pelo tempo, e eu, aqui, estou cansado de ver navios a transbordarem o infinito.

Se ao menos o céu fosse uma semente e me transportasse camo náufrago para dentro de mim mesmo, se ao menos eu conseguisse sair desta muralha que me encarde de tédio, se ao menos, é tanto do que apenas consigo, dizer e sentir, sentir um fogo a arder uma floresta perdida na longitude da verdade, sim, está tudo tão longe, está tudo tão impossível e como conseguir convencer-me do contrário?

E quando o céu não é azul, sim, o anoitecer escurece e apenas estrelas espalhadas como vertigens de pasmos a rodopiarem todas as minhas alucinações e desencantos nestes cantos que conseguir encontrar para me encostar e ali estar, observar como puder o céu dissipar-se até que surja a manhã e com ela de novo o azul, o mesmo de ontem sei lá, mas azul, essa vontade de apetecer o impossível é uma pequena raiva que me narra devagar nesta cadeira sentado e onde apenas escrevo, faço como gostaria de ser sempre assim, escrever apeteces nestes vagares que a verdade incutida em mim me deslumbre e com encantos recatados como donzela pintar telas coloridas para as oferecer ao céu pela manhã quando estiver azulinho como a folha de papel onde borratei quimeras de sonhador que não adormece.

Mas nada é de facto assim. Há tantas paredes à volta e tudo me escurece enquanto fecho e abro os olhos e nada de novo, tudo o mesmo e sempre a repetição do que era, angustiado como peixes secos na maresia vazia do riacho antigo do bairro costumava pescar em criança, quando ainda sonhar não era delírio, quando rasgar as calças e cair de tromba na terra quente do paraíso que sim, me encantava sem ter de soletrar tantas vezes como agora esta necessidade de ter de dizer adeus céu azul.

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Demócrito

Demócrito foi filósofo e historiador grego pré-socrático que descreveu a “Teoria Atômica”.

Biografia de Demócrito

Demócrito de Abdera
Detalhe da pintura Demócrito, de Hendrick ter Brugghen (1628)

Demócrito de Abdera, nasceu por volta de 460 a.C. na cidade de Abdera, região da Trácia.

Descendente de família nobre, viveu em diversas cidades desde Atenas, Egito, Pérsia, Babilônia, Etiópia e Índia, aprofundando seus conhecimentos.

Fez parte de filósofos da “Escola Atomística”, oposta à Escola de Heráclito, fundamentada em explicações materiais e mecanicista do mundo. Demócrito, teve uma vida longa e faleceu por volta 370 a.C.

Principais Ideias

Demócrito foi um estudioso nas áreas da matemática, física, astronomia, ética, filosofia, linguística, natureza, música.

Discípulo do filósofo grego, Leucipo de Mileto, uma das mais destacadas ideias de Demócrito envolve a sistematização do pensamento sobre a “Teoria Atômica”.

Segundo ele, o átomo, parte indivisível e eterna, que permanece em constante movimento, é o elemento primordial, o princípio de todas as coisas.

Nesse ínterim, todo o universo está composto de dois elementos básicos: o vácuo (o vazio ou o não-ser) e os átomos.

Além disso, propôs um sistema cosmológico e convencionalismo linguístico. Na área da matemática avançou nos estudos sobre geometria (figuras geométricas, volume e tangente) e os números irracionais.Veja também:Filósofos Pré-Socráticos

Obras

Demócrito de Abdera foi um dos maiores sábios e escritores da antiguidade. Contudo, muitos de seus escritos se perderam com o tempo. Segue abaixo, algumas de suas obras que se destacam:

  • Pequena ordem do mundo
  • Do entendimento
  • Do bom ânimo
  • Pitágoras
  • Da forma
  • Preceitos

Frases

  • Convém ao homem dar maior atenção à Alma do que ao corpo, pois a excelência da Alma corrige a fraqueza do corpo; a fraqueza do corpo, contudo, sem a razão, é incapaz de melhorar a Alma.
  • Falsos e hipócritas são aqueles que tudo fazem com palavras, mas na realidade nada fazem.”
  • Se você sofreu alguma injustiça, console-se; a verdadeira infelicidade é cometê-la.”
  • Sábio é quem não se aflige com o que lhe falta e se alegra com o que possui
  • A felicidade não reside nas posses e nem em ouro, ela mora na alma.”
  • Na realidade, não conhecemos nada, pois a verdade está no íntimo.”
  • A moderação aumenta o gozo e acresce o prazer.”
  • O caráter de um homem faz o seu destino.”

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O que é Conhecimento Filosófico?

O conhecimento filosófico é um conhecimento fundamentado na lógica e na construção ou definição de conceitos. É um conhecimento metódico que tem como objetivo encontrar explicações válidas para os diversos problemas propostos.

O conhecimento originado pela filosofia é um modo de interpretação da realidade que diferencia-se de outras formas de conhecer.

Deste modo, podemos também perceber o que é o conhecimento filosófico a partir de sua distinção das demais formas de saber.

1. Conhecimento filosófico não é mitologia

Perseu e a cabeça de Medusa
Perseu com a cabeça da Medusa, escultura de Antonio Canova

O conhecimento filosófico nasceu, justamente, como negação aos mitos.

mitologia trazia consigo uma gama de histórias fantásticas que davam alguma explicação para a realidade fundamentada na crença e sem nenhum comprometimento com a lógica.

O conhecimento filosófico nasce do lógos (argumentação, lógica, pensamento racional). A razão aponta as contradições presentes nos mitos e traz a necessidade de um outro tipo de conhecimento, o conhecimento racional, filosófico.Veja também:Mitologia Grega

2. Conhecimento filosófico não é senso comum

Supertição - gato preto
No Brasil, gatos pretos têm mais dificuldades de serem adotados por conta de uma crença do senso comum que os relaciona com a má sorte

O senso comum se refere ao saber do indivíduo comum. É um saber baseado nos costumes, não possui provas, demonstrações e, por vezes, não é lógico.

O senso comum fundamenta diversos preconceitos que possuem suas raízes em questões culturais. Apresenta como justificativa o próprio hábito.

O conhecimento filosófico, por sua vez, é um conhecimento lógico, possui um método e se sustenta por uma teoria.Veja também:Senso Comum

3. Conhecimento filosófico não é religião

Religião - vitrais

O conhecimento religioso é sustentado por uma teoria ou um sistema teórico, assim como o conhecimento filosófico.

Entretanto, por se tratar de religião, esse conhecimento está fundamentado na fé. O conhecimento religioso possui como fundamento alguns dogmas.

Os dogmas são verdades indubitáveis (não se pode duvidar) reforçadas pela crença.

O conhecimento filosófico possui a dúvida como método. O questionamento é a “pedra de toque” da filosofia. Tudo pode ser posto em causa, tudo é digno de discussão.

Sendo assim, o conhecimento filosófico se diferencia do religioso por seu caráter questionador.Veja também:Religião

4. Conhecimento filosófico não é ciência

Ciência - microscópio

Apesar da estreita relação entre ciência e filosofia, existem particularidades que exigem uma diferenciação.

As ciências nascem com o mesmo intuito que a filosofia e historicamente caminharam juntas ou sendo identificadas como a mesma forma de conhecer.

O fator decisivo para essa união ou diferenciação ocorre pela empiria (experiência). A experiência é o fundamento base das ciências. É a forma de comprovação ou de validação de uma teoria.

É através da empiria ou do experimento que os cientistas encontram a verdade acerca de seu objeto de estudo.

Para a filosofia, a experiência é parte do processo do conhecimento, mas pode estar presente ou não. Não há a necessidade de validação empírica de um conhecimento.

No entanto, é completamente válido filosoficamente o desenvolvimento de uma teoria que não pode ser testada, mas uma abstração teórica validada pela lógica.

Isso faz com que a filosofia possa dedicar-se a temas que não são passíveis de comprovação empírica. Quando a empiria é possível, filosofia e ciência caminham juntas.

Serve como exemplo o mais importante título acadêmico dado a um indivíduo em diferentes áreas, o PhD. Ao produzir uma teoria e um conhecimento original, o estudante recebe o título de PhD, que significa Philosopiæ Doctor, que significa “doutor em filosofia”.

Ou seja, esse indivíduo conduzido pelo “amor ao conhecimento” (sentido original do termo “filosofia”) tornou-se doutor, um profundo conhecedor de determinada área científica.

Pedro Menezes

Pedro MenezesLicenciado em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestrando em Ciências da Educação pela Universidade do Porto (FPCEUP).

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Antes de nascer

Antes de nascer tinha feito um pedido profundo e sentido não sei bem a quem, mas falei sozinho, alto, talvez alguém me ouvisse.

Queria ter mãe.

Tinha ouvido de tantos lados coisas horríveis de filhos sem mãe e mulheres que apenas produziam filhos e pronto, mas, como não sabia ler, ficava-me pelo que ouvia e hoje fico a saber que nem sempre do que se ouve vem verdade, é horrível inventar por inventar, mas porque fazem disto estes que apenas crescem ou nascem para inventar o mal?

Antes de nascer, havia feito um pedido a Deus:

que me dês uma mãe que me ame, que não me abandone e que me dê nome, coisa assim sei lá, daquelas que abraçam os filhos ao anoitecer e os fazem acordar pela manhã,

“acorda amor, aulas às oito!”

e assim se foi passando até que um dia enfim nasci, não vinha lá com muita vontade, pois, o que ouvia era tão ruim que temia mesmo nascer para nunca ter mãe, e o medo crescia em mim como o vento que me enfiaram no ventre da mãe para eu nascer, é que estava difícil nascer, verdade, tantas as coisas que ouvia que me atenoravam e assim nem nascer queria, mas, coisas do destino e com isso a gente não pode brincar, a hora lá chegou.

Fui sugado daquele lugar onde estava tão bem e feliz, é que lá nem precisava de chorar para comer ou beber, tudo acontecia porque estava no corpo de quem à partida eu pensava ser o amor da minha vida.

A minha mãe.

Nasci. Cresci. E agora, aqui estou, distante de tudo e de todos e indo como se nada acontecesse, pois, já nasci e aqui estou, mas antes, pedia tantas vezes:

Quero ter mãe, pode ser destino?

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Como surgiu o movimento existencialista

Nas primeiras décadas do século XX, o mundo estava em crise. A filosofia também. O mundo vivia a esperança de um mundo mais livre e mais justo, porém a descrença política e a idéia de história como progresso abalava a possibilidade da liberdade. As guerras, a revolução sexual, o anseio de liberdade dos povos oprimidos. Essa força desses fatos históricos foi muito mobilizada.

A filosofia passa a incorporar as discussões sociais, éticas e existenciais desse período. A falta de crença, não fazendo Deus como presença, o homem contemporâneo sente toda solidão, percebe que constrói seu próprio destino, isto o angustia. Vivencia sentimentos de vazio e desamparo, e parte em busca do sentido da Existência; o que marcaria profundamente o movimento Existencialista.

O Existencialismo surge como uma tomada de posição de alguns pensadores (filósofos europeus) frente ao cientificismo que se desenvolvia na época. Mas é claro que não se trata de negar a importância da Ciência e nem se opor à metodologia científica. A oposição justamente como o próprio movimento diz é discutir a existência do homem nas relações que ele estabelece no mundo, bem como o modo como a Ciência se fundamenta para conhecer este Homem.

A aplicabilidade dos procedimentos científicos utilizados nas ciências naturais reprimem o homem a mesma categoria de outros seres vivos, como animais e plantas. Uma vez que ao estudá-los ou através da observação, classificação e generalização estariam avaliando o homem também dessa maneira.

Nessa mesma época a área da Psicologia se importava com o modo de ser do homem, agregado a duas correntes:

A Psicanálise

O Behaviorismo

A primeira se dispunha conhecer o homem valorizando o subjetivismo da mente (a psiquê) o inconsciente, os conceitos abstratos, a memória, a inteligência e a percepção. O corpo do homem era coisa à parte.

A segunda se dispunha a conhecer o homem balorizando o racionalismo através das relações causais entre S – R que se declaravam através dos comportamentos frente ao mundo externo e real. No meio de toda essa crise surge o movimento Existencialista que acredita que o homem não deve ser observado, destrinchado, revisado como um objeto qualquer na cadeia dos seres vivos.

Este movimento acredita que o homem, por possuir uma natureza singular, particular, intransferível e tão diferente dos outros seres vivos, deve ser abordado, avaliado e conhecido através de outros métodos (entendido aqui esta palavra, do antigo grego META-ÓDOS que significa, o caminho que conduz para ver o que simplesmente se mostra, considerando sua experiência vivida).

O que o Existencialismo contempla, no âmbito das Ciências Humanas.

O Existencialismo propõe então para as Ciências Humanas encontrar outros postulados para conhecer o homem, considerando o seu contexto histórico a má realidade e as circunstâncias que o movem para viver no mundo com os “outros” e a relação que ele fez a partir do seu vivido.

A proposta desse movimento é de fazer uma reflexão de quais seriam as características essenciais do ser humano, para a partir daí, estabelecer procedimentos metodológicos que alcancem a compreensão da sua experiência vivida, questionando sobre o seu existir concreto no mundo e na sua cotidianidade.

Assim, o Existencialismo declara a importância de se levar em conta outros aspectos da constituição do homem, além daqueles considerados pela Ciência e pelos profissionais da Educação e da Saúde.

O que devemos considerar em sua contribuição na Psicologia e nas áreas afins.

O homem não é um ser apenas dotado de racionalidade, de inteligência e de sensação.

Ele não é só dotado de realizar associação e de organizar o que se relaciona com o seu meio, ou seja, ele não é pura racionalidade.

Ele também não é pura subjetividade, onde não conhece o seu vivido, não basta ter um aparelho psíquico, desconectado do corpo, que é mais que um organismo.

O homem tem uma experiência vivida, da qual só ele é autor desta realidade, ele constrói os sentidos da sua vida.

O homem é transcendência, na medida que tem história, que não é linear e nem acabada, mas é construída em forma de espiral, pois lembra, associa a partir do seu vivido. Ele é capaz de viver um tempo que transcende o cronos, ele é Kairós.

O homem é percepção totalizante, seu corpo, sua mente, sua alma formam uma unidade indivisível, ele não é uma cômoda cheia de gavetas desconectadas, muito menos é ignorante por não conhecer a chave de seus segredos; ele apenas repousa suas experiências sofridas como um modo de sobreviver ao sofrimento, ao esvaziamento; preservando-as num suposto esquecimento.

O homem percebe, julga, sente, valora, tem hábitos, formas de dizer, e manifestações desse dizer que não são atos do momento, mas são expressões latentes que circulam o seu passado que já foi; e um estar por vir.

A Ciência Natural do modo que é constituída, departamentaliza o homem e não alcança o seu vivido.

O homem é o único ser que vivencia a sua história, e tem liberdade de mudá-la desde que banque as faturas da vida.

A vivência é a base fundamental na construção do conhecimento do homem; pois o homem está sempre em relação com os outros; e não somente a sua consciência. O homem não tem corpo, ele é um corpo que abarca seu mundo e suas significações.

O homem age, pensa, julga pela intencionalidade; ele visa o seu vivido.

O homem é homem porque é existente, porque é capaz de vivenciar, experienciar e transformar seus próprios sentidos de vida.

A Psicologia Existencial aparece então como a terceira tendência; como uma tendência integradora que propõe olhar para o homem totalizante e não dividido, indicando uma nova concepção de homem e mundo; diferente da concepção adotada pela Filosofia Moderna, pela Psicologia Científica, pela Psiquiatria Tradicional e pela Psicanálise.

Assim o movimento existencialista, surge como um modo de recolocar o homem em sua morada original, a sua Existencialidade, questionando até que ponto os sistemas teóricos que se propõem a compreender o homem nas relações que ele estabelece no mundo, seguem modelos de causa e efeito, onde tendem a explicar, a generalizar, a classificar, a rotular, desconsiderando o modo Constitutivo do homem de experienciar o vivido.

Como a experiência vivida é particular, pessoal e intransferível, não cabe encaixar o homem em sistemas teóricos que se propõem a vê-lo a partir de uma lista de sintomas e comportamentos, quantificações, e mensuração para conhecê-lo e compreendê-lo.

O conhecer não é mensurado, nem tanto quantificado; o vivido é descrito pelo cotidiano, é relacionado com o contexto de experiência navegando nos tempos do passado, do presente e do futuro que está por vir.

Desse modo, o movimento Existencialista se propõe a priori, questionar as verdades absolutas e paradigmáticas com respeito ao “conhecer do homem”, questionando. O que de fato constitui o ser do homem? É possível mensurá-lo como um animal? Como cobaia ambulante? Ou um aparelho psíquico desprovido do contexto da Corporeidade, e da multiplicidade de sentidos existenciais?

O Existencialismo se propõe a refletir em que bases sustentam o conhecer do homem, considerando sua experiência nas várias manifestações de expressar a sua existência. O ser é um ser de possibilidades.

A matriz do conhecimento do homem, é a percepção, os órgãos dos sentidos se correlacionam; o corpo não é mero organismo, é existencial, o corpo é considerado como resenha do espaço do tempo, do mundo vivido com os outros; ele é unificador e é vivido unificado. O corpo é a possibilidade que temos para nos conectarmos com os outros e com o mundo. Neste sentido diz-se que as coisas “se pensam” em cada ser, porque não é um pensar intelectual, mas sim um pensar pré-emocional que abarca uma logicidade, ele é a síntese dos sentidos existenciais que vivo e não o que penso.

O que isto quer dizer? Que os pensadores (filósofos da época) convocaram a Psicologia e as Ciências Humanas, a repensar tudo de novo, em dois pontos fundamentais:

Refletir sobre o que constitui o homem. O que ele é? E como ele funciona?

Articular e pensar numa ciência cujo método possa contemplar a existência do homem na sua cotidianidade.

Os dois pontos convergem em um único.

Como é este ser – o homem – em sua estrutura ontológica? Qual ou quais são os procedimentos que contemplam o existir e os sentidos desse existir? Como ter acesso a este ser, tão diferenciado de outros seres vivos?

Refletir sobre o ser do homem, discutir e estabelecer uma visão de homem e de mundo, foi a grande contribuição do método fenomenológico existencial, que se propõe assentar-se nos fundamentos da filosofia enquanto um caminho rigoroso, pois escolhe pensar e alinhavar o Modo Constitutivo do homem, para desconsiderar a sua experiência vivida, seu contexto histórico cultural e social.

A Fenomenologia considera que o homem e todos os outros entes (coisas, seres vivos) são uma unidade inseparável, pois só o homem é capaz de existir dando significado, manifestando e expressando sua linguagem nas várias formas desse dizer, ele expressa a roupa dos dois lados, o direito e o avesso das relações que ele atribui na vida.

Assim sendo, compreender o Existencialismo se faz necessário compreendê-lo como um conjunto de todos os sistemas filosóficos que se ocupam “por em questão a existência humana”, buscando analisar o viver concreto do homem aprofundando-se na análise da sua própria existência, revelando a sua estrutura constitutiva.

O homem é presença, que está em relação com; ele é o único doador de sentido, atribuindo significados consigo e com os outros.

Compreender o ser do homem, passa a ser uma tarefa hermenêutica.

O homem está sempre frente a alternativas diante das quais deve fazer escolhas. A escolha traz inquietações, a angústia se faz presente porque o homem sabe que não pode tomar duas direções. Diante das alternativas da vida, ele deverá eleger uma, e essa eleição comprometerá o seu destino para assumir todos os seus entrelaçamentos e desdobramentos frente ao seu projeto existencial.

Profª Ms. Danuta D. Pokladek – Presidente do PsicoEthos

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Sobre as águas da vida o silêncio dói Cap. XV

XV

Nem talvez o cigarro entre os dedos cansados suporte a viagem, sinto o cabelo nas brasas do vento e que voz entre nós a deflagrar a verdade que verdade meu Deus, fumo um canto evaporado e talvez cansado, um fumo nefrálgico a dissipar-se pela janela do jeep antigo onde que soldados a fumarem comigo,

– o nosso destino hoje meu capitão?

vozes nem vozes lá, só silêncio entre calados sem diálogo, espera-nos de novo uma missão, seguimos de farda armados em agentes da paz. A floresta ladeia-nos e nós a caminhar, onde que radar o rádio anuncia qual código de informação a gente perde-se nas trincheiras onde que vazios e o cacimbo frio, a cabeça fora disto tudo e o corpo dorido o paludismo, hospital de campanha onde curar camaradas, injectar fecundos momentos para não haver mais recordação, penso e dispenso os meus sonhos, a minha vida é este enclausurado caminho numa rotina cansativa. Já nem sei onde o cansaço, tudo é dor e trauma, uma voz que me acalme estou cansado de ouvir os mesmos rugidos repetidamente, esta falésia a perder-se de um horizonte vazio e nós nada, todos embrulhados na mesma resma de camuflados inteligentes a deflagrar o infortúnio. Cansado de facto.

O caminho afoito desafia-nos como seguir e a gente segue, somos náufragos neste labirinto a tilintar águas na falésia desta serra morta, este arvoredo massacrado com tantos ais a eclodirem as madrugadas derretidas num canto qualquer da vida, a vida assim perde-se, nada se ganha, tudo é fardo e miséria, sinto cães a ladrarem atrás de nós e nós caminhando como se nada fosse, acredito que tem de ser assim. Gente dispersa pela tarde, vejo-os indiferentes olhando-nos, pensarão eles quem somos nós mas acodem-nos, a lama ou a ponte inventada, o medo ou segredo para contar um dia qualquer, a morte ali. Camaradas destripados e amputados, amigos que deliram onde que febre os enerva a cabeça estala,

– doutor!

a minha alma viaja também, sinto-me tantas vezes perdido neste meio por desvendar, o escuro ensurdece e a gente perde a noção do destino e que destino, fugir da morte é o nosso lema, não matar, a morte é horrível, é uma coisa feia de mais para nos assombrar-mos nela, velórios e óbitos a cansarem-nos a saudade, de jovens que nem se despedem dos seus ente-queridos a esta distância incomoda, isto são nervos que se acumulam e cansam, um dia fartar-me-ei e sucumbirei também.

Acordo de frente à mata que rodeia o nosso acampamento e nada, pela madrugada giestas apenas e ventos frios, o capim sacudido embala uma ânsia vazia, sinto um vazio no estômago que sufraga fome e nem fome, o vermelho das picadas e nem vista, a metralhadora em punho e onde os turras?, um acampamento e mulheres de seios à vista saúdam-me, aceno feliz sentindo-me gente neste meio onde tantas vezes a minha razão me abandona, cães por essas aldeias todas a seguirem-nos o jeep e a gente a continuar num ritmo infernal e nem sei se a caminhar, parei por dentro. Adormeci o silêncio, a voz, escuto,

– a bússola?

improvisar uma ponte, para seguir e nem chuva a sorte, tacos de madeira, catanadas em árvores ali estanques, dois troncos e pontaria seguimos, a aldeia a saudar-nos como se fossemos heróis, mas somos apenas soldados a cumprir uma missão, choramos a cada saída para campanhas onde quantos ficam sem regressar, quantos camaradas perdi, sabes?, ninguém sabe, a noite empobrece a visibilidade e que fazer?, recuperar, parar e procurar onde que lanternas a mirarem uma direcção apontada. Sinto na cabeça o frio de lisboa e longe lisboa, a neve de trás-os-montes do Esperança onde a matança do porco e que porco nós aqui, aqui só saudades, tristeza, lágrimas, esta comissão miserável onde obrigados matamos, a morte é horrível!, por que razão matar um irmão para não morrer?, incutiram-nos na cabeça que os turras são horríveis mas onde os horríveis?, seremos talvez nós os horríveis, viemos para uma missão onde tirá-los do nosso campo de acção era ordem, afugentá-los da vida e esta vida é nossa não deles mas eles quem?, procuro entender e que conclusão chegar?

Ao fundo fogueiras, rituais e cânticos, ao fundo a felicidade possível dos daqui e nós ansiosos por sermos daqui também, amigos como homens sabes?, salvo feridos e não raças, odeio ouvir falar de terroristas quando a ser seremos nós, sou um soldado cansado desta vida e desertar é um auspício, a minha pátria enumera-me apenas e não me considera, pedem-me orelhas cortadas como prova da nossa acção!

Ainda assim sonho uma pátria um dia e quem sabe a minha, a de tantos como eu nesta comissão triste de eliminar a razão que se convenciona, não, não nasci para isto, juro, nasci para médico num hospital qualquer salvar e curar, quero um dia lisboa de novo mesmo que para nada ou ninguém, sou apenas branco na pele e gente por dentro, sinto como dói o insulto e na caserna de novo,

– ai doutor!

a vida escorre sobre macas e macas vazias de essência, estou cansado e tu Deolinda, cansada da solidão que a pátria me incute, a minha filha sem pai, sei, que fazer?

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Personificação

personificação, também chamada de prosopopeia ou animismo, é uma figura de linguagem, mais precisamente, uma figura de pensamento muito utilizada nos textos literários.

Ela está diretamente relacionada com o significado (campo semântico) das palavras e corresponde ao efeito de “personificar”, ou seja, dar vida aos seres inanimados.

A personificação é utilizada para atribuir sensações, sentimentos, comportamentos, características e/ou qualidades essencialmente humanas (seres animados) aos objetos inanimados ou seres irracionais, por exemplo:

O dia acordou feliz.

Segundo o exemplo, a característica de “acordar feliz” é uma característica humana, que, nesse caso, está atribuída ao dia (substantivo inanimado).

Note que a personificação pode também atribuir qualidades de seres animados a outros seres animados, por exemplo:

A cachorro sorriu para o dono.

Exemplos de Personificação

Segue abaixo alguns exemplos em que a personificação é empregada:

  1. dia acordou feliz e o sol sorria para mim.
  2. vento assobiava esta manhã em que o céu chorava.
  3. Naquela noite, a lua beijava o céu.
  4. Após a erupção do vulcão, o fogo dançava por entre as casas.

Nos exemplos acima, nota-se a utilização da personificação, na medida em que características de seres animados (que possuem alma, vida) são atribuídas aos seres inanimados (sem vida).

Note que os verbos ligados os substantivos inanimados (dia, sol, vento, fogo e lua) são características dos seres humanos: acordar, sorrir, assobiar, chorar e beijar.

Figuras de Linguagem

As figuras de linguagem são recursos estilísticos muito utilizadas nos textos literários, de modo que o enunciador (emissor, autor) pretende dar mais ênfase ao seu discurso.

Assim, ele emprega as palavras no sentido conotativo, ou seja, no sentido figurado, em detrimento do sentido real atribuído à palavra, o sentido denotativo.

As figuras de linguagem são classificadas em:

  • Figuras de Palavras: metáfora, metonímia, comparação, catacrese, sinestesia e antonomásia.
  • Figuras de Pensamento: ironia, antítese, paradoxo, eufemismo, litote, hipérbole, gradação, personificação e apóstrofe.
  • Figuras de Sintaxe: elipse, zeugma, silepse, assíndeto, polissíndeto, anáfora, pleonasmo, anacoluto e hipérbato.
  • Figuras de Som: aliteração, assonância, onomatopeia e paranomásia.

Veja também:Conotação e Denotação

Curiosidade

A palavra personificação, derivada do verbo personificar, possui origem latina. Ela é formada pelos termos “persona” (pessoa, face, máscara) e o sufixo “–ção“, que denota ação. Ou seja, significa, ao pé da letra, uma “pessoa mascarada”.

Da mesma maneira, a palavra prosopopeia, derivada do grego, é formada pelos termos “prosopon” (pessoa, face, máscara) e “poeio” (finjo). Ou seja, ela significa “pessoa que finge”.

Daniela Diana

Daniela DianaLicenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008 e Bacharelada em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2014. Amante das letras, artes e culturas, desde 2012 trabalha com produção e gestão de conteúdos on-line.

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Sobre as águas da vida o silêncio dói Cap. XIII

XIII

Os olhos ainda abertos defecando a ilusão do tempo, as lezírias cantavam hinos sobre os alpendres de janelas da minha cidade, os santos populares desfilavam partilhados rua a baixo, onde são joão, São Pedro, e todos os outros acoplados na mística dos sonhos e sardinhas a acompanharem a tradição, uma carcaça aberta para receber a sardinha do dia, o bom vinho da noite na viagem para dentro de que corpo, estou longe amor, fá-lo por mim e em meu nome bebe desse sargaço doce, sem esmorecer sente como te sinto ainda que longe esse delírio perto, vivo a mesma instância no momento da tua felicidade acoplada à minha ausência sem estar longe de facto estando.

O azedume, aqui sinto o teu sorriso, a alegoria dos cânticos nesses santos populares onde a cidade a arder felicidade, não estou só amor, visito matas e desenhos de que mapas onde atacar, o general desmembra o nosso sossego nesta caserna simples de que oficiais, somos apenas milicianos cansados e fartos, lá fora soldados como nós festejam como nós os santos populares dessa lisboa de alguns e nós aqui, a caserna enferma sei lá onde estou?, áfrica alojou-me como se sua fosse também e sinto-me nela como um irmão de paz, bebo o cacimbo e a quissângua, vivo o ritmo do merengue onde os fados são coisa do longe, vivo o verde deste prado vendido à farda que enxergo num corpo sem calma para tanto, sou um soldado da pátria, cansado, sabes?, bem assada como mandam as regras, o molho escorreito sobre que fatia a abençoar fraterna, como fumo do instante comer o momento um dia não são dias, a minha filha contigo nessa fila de gente feliz.

Talvez o calor aí aperte, aqui conforta, cansa, um sol imenso onde fardas transpiradas defendem quem nos manda, eu de bata branca e capuz azul opero e curo, o estetoscópio na lapela desta carta que te envio sem rumos ou resumos, digo apenas o instante que a vida me obriga a naufragar como um marinheiro neste solo verde seco de florestas cansadas de mim. Também me canso de sonhos prometidos, de viagens perdidas em cada uma das incursões que fazemos e onde os turras?, não sei se seremos nós aquilo que procuramos, visitamos campos de outros creio e nada é frutífero,

– boa noite, somos amigos!

de farda à lapela quem são?, perguntam-me e que dizer digo soltando felicidade,

– uma galinha assada amiga, tem?

somos amigos de paz, não somos guerreiros ou guerrilheiros de nada, não estamos contra nada ou ninguém apenas cumprindo uma missão de que obedecemos, somos amigos da nação que nos recebe!

Um acampamento de gente singular ao redor da nossa viagem, onde nos receberam com palmas e boas-vindas, o fogo aceso para uma refeição de gente humilde e hospitaleira, gritavam,

– queremos a vossa visita irmãos!

somos de facto irmãos, a nossa missão em áfrica não é desmobilizar pessoas, mas defender pessoas, agregar grupos de gente aos nossos auspícios de guerreiros e defensores de uma pátria párida, gestante, valorizando o espírito da nossa missão. Temos de ser guerreiros na vida, não guerra propriamente dita, defendemos a paz e a nossa é uma comissão de honras aos que encontramos nas suas casas, lavoura, café, fazendas, viemos numa comissão de lágrimas, largados num cais qualquer para não sei quê, apregoar os bons costumes, o hábito pelo cumprimento logo pela manhã onde que caserna ou tenda de campanha, soldados apenas nesta comissão, repito, de paz.

Não fosse a nossa missão, apreciaria tudo de forma diferente, isto é lindo, o sol nasce cedo e acompanha-nos nas campanhas, nas incursões de missão diária que temos como militares, somos soldados amor, e a quem dizer não se viemos para essa missão, incutiram-nos essa obrigação mas depois tanto muda no campo de batalha, não há batalha nenhuma mas tudo é duro, o jeep velho e enferrujado com o seu ruído de diesel caminha onde nós o levamos, o cabo Esperança motorista do exército português caminha solitário e nós a seu lado, uma mina de ferro estilhaça a vontade e nós lá, e que soldados desaparecidos eu na tenda a conjuntar ossos partidos e peles queimadas, tu sem mim e eu igual a ti, mas não sozinho, coso e curo camaradas desse ou deste Portugal lindo onde que Salazar a infernizar-nos a vontade, queira Deus definhe, queira o destino o seu fim. Mas para onde uma guerra sem quem queira o seu desígnio?

À noite um sono cansado, as pernas pesadas, insónias infinitas e medicamentos mais para acalmar e sacar esta ânsia. Um dia de novo lisboa.

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A estipóide amarelada dos laranjais

Sonhei-me por existir. A blusa incolor que me reveste por dentro é como canaviais que se atropelam por tostões neste torrão de ventos para edifícios e castelos e glórias, não, sonhei-me por existir.

Apetece-me o cheiro das tardes.

O silêncio dos sonhos nesta poltrona vazia.

Apetece-me perder todos os sangues do corpo e vomitar as ânsias que fazem isolar-me de mim mesmo, pois, acabo sempre por me encontrar noutros lugares, é isso, pensando bem, acho, não adianta experimentar a cor do suicídio nestes dias de cores tão esbeltas.

“a estipóide amarelada dos laranjais”

A falésia repleta de cores tão sibilantes, os efeitos dos contrários nas suas falanges quando pinto telas para entreter, o sumo amarelo das laranjas nos taipais da decima nona avenida de qualquer cidade, seja ela de onde for pois, pouco me importa isso, nasci numa cidade que já existia e isso para mim basta.

Pois, isolar-me é um desconforto a que me permito sem vontade, sentir-me num lugar de franjas aguçadas na ilharga longínqua dos cabelos compridos, sentir a saia do padre ou a relíquia da Elvira naquela ainda esquecida avenida.

Apetece-me vomitar todos os tédios.

Esquecer todos os anjos deste laranjal do senhor Quintas na Serra de Sintra.

Voar tão superiormente como uma ave que se esquece da minha existência, assim como eu a dela, acredito, é raro pensar que elas existem também e coabitam os mesmos cantos que eu, mas, ainda assim, esqueço-me, esqueço-me tão simplesmente como quando alguém que se recorda de mim me conta enfadonhas histórias do holocausto, dos tremores e terramotos, dos ciclones e da florestas e até mesmo de mim coitadinho de mim, plantado neste laranjal do senhor Quintas.

“a estipóide amarelada dos laranjais”

Em cima o sumo dos dias, este desenho de realidades para nos convencerem a vencer o tédio são relógios que nos secam e sacam das planícies e dos verdes frescos ainda com o cheiro de bosta dos rebanhos que desfilam a sua fome num alimento regado pela chuva da saudade. Sim. Senta-te então aqui a meu lado, talvez contar-te parte do meu sonho.

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Sobre as águas da vida o silêncio dói cap.XII

XII

A ferrugem a rasgar-nos a farda ainda cansada, zumbidos de cigarras empoleiradas à janela ainda aberta para soçobrar restos de vento, recebidos como heróis e abandonados a seguir, a banda do exército esperava-nos onde que sentinela à proa incentivava cânticos sobre o regresso de que heróis desta pátria despida de sensações, muitos já de barba em punho e cabelo por aparar, o cansaço por nos sentir morrer de tédio, procuro por alguém e nada, a solidão é enfadonha, irritante, não termos quem nos receba depois de tantos anos a combater em nome de quem?, foi por todos nós, dizem os estatutos do estado a falir o regime, nem Salazar se cansa de viver e morrerá numa cadeira, agora que sei que morreu apenas cantarei glória.

Um mês no mar onde só solidão e tédio, a recordação de tanto e nada para recordar ou esquecer, agente perde a memória, o sargaço envenena-nos a todos, somos cuspidos do navio como vespas azucrinantes, cuspidos como filhos da outra, esta mesma nação que nos venerou enquanto activos na mata.

– o meu filho foi combater para defender o nosso país!

Qual país qual quê, dizia outra voz escondida vinda do fundo onde tantos se esquivavam,

– não quero aparecer nas fotos!

e agente ali, como estranhos de um lugar que sempre foi nosso.

Mas que país?, o meu país é este, onde nasci e me tornaram soldado contra a vontade,

– saudades de lisboa, de benfica, há que tempos não vejo os golos do Eusébio!

a telefonia cansada e sem pilhas, onde as comprar sem as que me mandas de lisboa?, queria ouvir as notícias do meu país, saber de ti e de tantos que ficaram e pensam em nós soldados num longe tão desconhecido para nós, onde só mato e selva e fauna isto é lindo amor, mas não para lutar contra quem quer que seja, não nasci soldado, fizeram-me sê-lo e que vontade a minha?, nenhuma!

Cada um é para o que nasce, a nossa sina embeleza-nos o caminho, rimos e choramos e tudo flui com uma naturalidade inexplicável, cantamos, sonhamos, à página tantos nada somos ou nem sequer estatística somos, vivemos o momento, acredito, e nele somos tudo o que formos, nada mais do que isso. Um balázio aniquila-nos, uma memória perdida faz-nos esquecer a existência, a vida flui como rios que desaguam num oceano qualquer e depois mar na mesma, somos resquícios da existência, dos valores em nós acumulados, somos viajantes permanentes do tempo e nele apenas seguirmos como passageiros da verdade do tempo em que ela for verdade.

Em cada trilho, picada, emboscada, somos caminhantes deste ofício a que nos obrigam, somos soldados de tantos nadas neste percurso chamado obrigação, vendemo-nos pelo medo e sussurramos lágrimas à hora de nos deitarmos, somos imensos nadas, nadamos filantropias nestas camas de pássaros, cantamos hinos e perdemo-nos nesta escória de pátria nenhuma, somos entretanto vendidos ao inimigo que desconhecemos e voamos espasmos de sangue branco. A febre aperta e de que maneira dói, o corpo sangra saudades e nostalgias e tu longe, o meu país entregou-me a que nem sequer sei, não fui o único mas sou mais grita, rejeita esta condição de soldado no desconhecido, sou uma formiga flamejante neste mato verde e escuro tantas vezes castanho, onde que escuro a inebriar-nos o destino, qual coisa qual quê, somos míseros viajantes  de que desejo o meu país que me abandonou. 

A vida esgueira-se branda e o sol brilhante encosta-se aos postigos de azul transparente transformando a cidade em cada canto da viagem, recordo-me da minha mãe na cama deitada e doente a gemer comprimidos pequenos contra as dores de cabeça, o meu pai no hospital ainda a transformar ossos em carne viva saltitam solavancos na cama e ela lá, deitada como um anjo.

Sob que luzes de sonho a minha ribalta, nesta batalha o sonho é efémero, tudo é coisa de instantes e a vida navega ou naufraga consoante o momento, as coisas biliosas a sufragarem o segredo de onde nada se refrange, onde beliscos e a alma em viagem nestas paisagens sonhadas ou por sonhar, as cartas ainda na lapela da alma para recordar cada instante como se fosse de facto o último a brilhar num coração evaporado. Os batráquios relatam o seu sono eu sinto ainda que sonhos, a vida empedrada nesta caserna amor, onde a minha felicidade sem ti, onde para a minha filha de que pai desperdiço ao seu crescimento, sinto saudades e tudo me vai matando aos poucos, morro como os meus soldados sem pátria nem paz, vivemos circunstâncias, sabes, circuitos mórbidos e corredores recheados de dor, de gritos e vómitos como se um fim ali, o regresso a lisboa é uma constante que nunca se esfuma e nem sequer cansa, onde trás os montes ainda?, onde que beijo Maria, onde a matança do porco hoje, a minha mãe velhinha e eu cansado já.

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Sobre as águas da vida o silêncio dói

X

Ao fundo vai nascendo o dia e eu aqui, sentado na cadeira de médico de dia, a enfermaria repleta e eu vejo o nascer do dia e a cabeça estiolada, memórias que nunca se cansam e saudades a cada instante.

Tiros nem ouvi-los, o silêncio é de bradar onde que noite nem sono, esta insónia de palavras contra as paredes da tenda, um gemido qualquer um soldado ferido, uma injecção qualquer a dor passa e de novo sono

– doutor!

e nem lá, ali presente numa distância de pasmar, sonho um pomar, um oceano, uma felicidade qualquer nesta dor que amargura, dores de cabeça e soldados, ao longe já tiros e metralhadoras operam mais uma acção, o dia chegando cansado também neste cacimbo do longe, tudo longe e nem eu perto, a minha cabeça vadia a minha vontade de partir, isto não é meu por que razão estar aqui?

A formatura pronta e o oficial de dia na praceta, todos formados e camuflados a brilhar

– atenção companhia, pronto!

desfilados como afilhados da sorte e caminharem, os jeeps e hanimogues preparados centenas partem e quantos voltam?, vejo-os de esguelha partirem, sinto um silêncio que me arrepia, uma dor muda nesta alma de estrangeiro, ausente talvez que fazer?, mais tarde um regresso incompleto e tantos colocados em caixas para o regresso inglório, um regresso repleto de dor e mentira, se foi mesmo assim, se nada foi inventado para se contarem histórias,

– heróis nacionais!

lia nos escritos da nação que nos pariu, onde que Salazar sentado num conforto e ordens,

– aqui jaz a memória dos vencedores, defendendo a pátria!

desfilam sozinhos, a vida mora ali ao lado onde uma mata sei lá, uma picada, a floresta cansada brada ventos calmos, as arvores sacodem ventos distraídos e nós sem isso seguimos, o cabo Esperança a meu lado e eu sem esperanças, cansado ainda a manhã surgia, a noite enfadonha inebriava qualquer distância perdida na rua das amarguras da minha saudade. Ainda assim a minha nostalgia nas pétalas distantes das árvores escondidas, o meu silêncio irrequieto nesta enfermaria de nada, este lugar de mágoas e feridas por sarar, ninguém sara saudades, ninguém cura feridas mentais e um soldado aos gritos se picado pelo mosquito tigre, o paludismo e resoquina se a dor sucumbe, a saudade Deolinda é uma coisa preciosa nesta ausência esquecida onde que nome a minha vida, onde que mapa o meu corpo se na tua cama presente murmuro o teu abraço e nada, estás efectivamente longe. Falo das minhas saudades e de que falarão estes soldados que a pátria esqueceu?

Quantos dos tantos que partiram num navio velho para este longe sem nome, esta terra onde nem turras só a imaginação do estado num puder de mandar em tudo isto, é de quem lhes pertence, somos nada nesta terra de donos vivos, aqueles que contra nós disparam bazucas alegando com razão a vitória é nossa.

Sou apenas e isso, um médico de campanha, quantas vezes a minha vida sonha essa verdade e nada, quantas vezes sonho a minha terra e nada, anos a fio a depurar e a mastigar ânsias e raivas, os medos sempre presentes sabendo com noção isto não me pertence, pertenço aos amigos que lutam para que possam dar razão aos que a têm, sou um soldado isolados Deolinda, não nutro esta causa nem este rio a abandonar-me a cada instante, sinto cada vez mais o vazio nascer nas noites onde só insónias, não durma há dias e conto no calendário um regresso que seja, vivo ou morto salva-me desta casa de outros onde nada sinto nem consigo mandar.

Qual doutor coisa nenhuma, sou um soldado como vocês nesta floresta do longe, onde morrer é renascer na consciência dos que ficam, os familiares todos os anos recordam

– aqui jaz fulano tal!

filho da pátria esquecido pela nação que o fez vítima de uma coisa qualquer, desta talvez guerra de ninguém e porquê existir em todos nós, vestidos de bandeira a tiracolo

– representantes da nação que vos pariu!

viajam fantasias pela noite, percorrem os escombros do medo e do mistério a cada canto da floresta, o ruído do jeep cansado e todos cansados, uma ânsia interior por tantos nadas e a marcha continua, tem de ser dizem de lisboa os sábios destas coisas da guerra e agente lá, cumprindo e desempenhando essa vontade. Longe a minha cidade, longe a minha vida, aqui navego escuros e medos, percorro o desconhecido por dentro e por fora numa farda cansada, até ela se cansa qual a verdade nisto tudo?

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As sombras repousam na falésia

Com elas ou nelas todo o tempo perdido. Nunca se perde tempo com nada, a escola é passado e ainda assim o mais presente para tudo. É sim, vida.

Um dia num mar qualquer por inventar como estrofes de Camões por ler, é sentir a lágrima do tempo neste escorreito divagar de estepes onde verdades se encobrem como nuvens num céu fechado, vamos ainda assim tentar, acredito nos eufemismos que a pátria dita, verdade.

Foi aqui, nesta Lilongwe encurralada que vi os lixos de Luanda escorrerem como tripas de vermes dormentes e disformes abraçarem o mar cansado de tanto fumo escuro, de tanto desdém descorado, tanto-tanto faz, é coisa que passará, não te preocupes, sabemos o que fazemos!

Foram sonhos e o mar descansava ainda pelos lados de Oslo.

Aqui só lagos e rios, consigo ver até o fundo do tempo numa diástase de quimeras escritas num papel seco para recordar sempre que o sonho amargue, sim, desfocar-me destes restos a que chamam nada és, e consomes televisão para fugir das tardes que cultivam cisais e cafés e até estrumes para alimentar o gado da minha cabeça desmiolada e estripada como falanges da língua seca nas paredes das verdades mais cruas da saudade.

Conheci Rostok numa tarde de frio onde nadava sobre gelos e eu só, pensava nas quentes tardes do Futungo esfomeadas de lanho para selar na barriga a sede de pão e leite e ainda a criança chora como uivos de tempestades de cansar e bramir ostracizar o vulgo numa raiva de estremecer de calmas lentas e cansadas por isso paradas, a lentidão é imensa, paciência, não me vou esmorecer por funcos deleitados na cama do general qualquer coisa que me deu sonhos que só servem para nada, apenas isso.

É isso, preciso que me deixem morrer em paz, na minha paz, a minha é diferente da paz dos outros, é que esta é de facto minha e que fazer para a merecer?

Dispenso os açoites da voz dos outros, preciso, isso sim, dos meus próprios açoites na coluna esticada numa parede de castigos para prisioneiros do seu templo, esse verde excomungado na garganta e na vontade da imaginação dos andros que se esquiçam em meu nome alegando serem os meus sacerdotes.

Ao fundo a torre da igreja e mesmo isso um horror, bateladas e bateladas de barulhos a ofuscarem o cansaço de que há tanto espero, esse mesmo, o tal que sei nunca entenderem mas nem disso preciso, pois, que seria de mim seguir os astros dos outros neste mapa de astrologias coloridas e cartas a dizerem-me:

“estás aqui”

Nem sei sono ou sonolência ou apenas preguiça de enfrentar o óbvio, mas o que sinto merece o meu singelo direito. A cama é minha, acredita!

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Sobre as águas da vida o silêncio dói cap.VI

Ao fundo do céu, não sei se na verdade era mas parecia, até porque sentia escorrer-me pelo corpo, o meu corpo cansado, extasiado e perdido nestes montes e matas se a caserna ou o consultório de campanha, eu lá fora sentei-me sobre umas pedras escorreitas e observava nem tão perdido sei, do céu, um cacimbo que é de áfrica cair-me subtil sobre a face molhada e mais molhada ainda a chuva bramia em mim os meus desesperos e inconstâncias, ela comigo e que soldados espalhados, perdido no recôndito momento que melhor que senti-la, a cabeça encharcava-se e o miolo perdido, sonhava

– amo-te Deolinda!

com lisboa ainda fria nesta altura, a minha menina, e tu?, os meus pais velhos, o fim no fim do mundo que nem sequer no mapa encontram, encostado a um tronco e tiros sei lá

– amo-te Deolinda!

um dia irei a essa lisboa já devastada da minha cabeça amor, aqui o mundo é enfadonho, não quebramos a rotina, todos os dias coso e esfolo a cabeça, soldados estripados amigos enterrados neste mato um dia de alguém, não era a minha ideia deixar-te sozinha nessa casa só nossa, a casa do nosso amor e que agora só tu nela, pensares se volto em que navio vivo ou morto, a minha filha crescida,

– quem é ele, mãe?

sorri amor, nem cartas nem recados apenas a cabeça em viagem esta guerra nunca foi minha, mas vim aqui parar, mandaram esses cabeçudos que governam e a gente se não obedece…

– o Alfredo?

(Sabes do Franco?)

não sei de nada, isto é tudo fim do mundo, isto é tudo longe só arvores e folhas e terra mais fumarada

– livre-me deste vento doutor!

nem sei se sei, aqui, se longe, na enfermaria cardápios alojados, montes esticados e eu nem lá, cansado de ver morrer, de não conseguir salvar, ninguém salva mortos Deolinda, acredita, o estetoscópio esquecido o paludismo nos ossos e na carne, a febre fervilha e eles

– ai doutor!

ainda sem mim por perto estou aqui onde talvez me possa sentir contigo, os tiros lá longe a tua voz a mastigar-me os tímpanos e os miolos

– preciso de ti Antunes!

– e eu de ti Deolinda.

e a nossa filha, onde a tens?, centenas de soldados todos os dias, temos tido emboscadas e safamo-nos, o jeep vagueia quase parece ter olhos e conhece cada trincheira, cada mina, a que meses aqui nem datas marcadas não sei quando o fim desta missão  

(sôbolos rios)

nem cartas. Chove copiosamente nesta mata onde o quartel nos protege, o cacimbo é lindo e terrível nunca vi, penso que na europa nunca havia visto, relâmpagos de torpor, faíscas em lume sobre as casernas nem pára-raios somos soldados nesta guerra não nossa,

– o Salazar?, ainda aí?

Deus queira tombe, tropece nas suas ganâncias, deixe-nos regressar a casa, estes soldados cansados e obrigados, aguçados, evitam como morrer e tantos a irem em caixões com a bandeira que nos mata

(em nome da pátria, orgulho e raça lusitana!)

na frente de combate eramos centenas e mais,

– nunca vi um turra capitão, existem mesmo?

a luta era mais ou menos longe, eles e as catanas creio, nós de balas e morteiros a morrermos longe,

– onde fica agora trás-os-montes soldado?

norte de Angola. Onde só palha e montes, os rios luzidios ainda cantavam descendo impávidos o declive da sua vida, onde sede, onde medo, e os tiros nada, ainda catanadas diziam uns mais antigos,

– ai capitão!

– estás feito num maricas!

vamos em frente e sempre em frente, havemos de vencer esta guerra que guerra, coisa nenhuma para quem nunca quis ser soldado à força,

– quando chegares à metrópole diz isso mesmo ao general, bolas!

eu sem culpa também, medo também, tudo me parecia mentira, juro, ainda avançava pelas matas e montanhas, vi pontes quebradas e jazigos cheios de sangue, o jeep soluçava o oxigénio cansado, o diesel farto e eu nem lá,

– um dia de novo num cais qualquer de lisboa!

vim para esta missão, não nasci para isto acreditem, nasci para salvar vidas, mas não salvar guerras,

– atenção, ataque!

eu ainda no consultório de campanha ouvi de longe, pernas amputadas, braços amputados, porra!, estudei medicina em Coimbra, mas não para vir para áfrica matar desconhecidos, aqui tudo é desconhecido, não conheço nada, falavam-me de luanda e não conheço luanda, a ilha, que ilha?, a minha ilha é esta solidão, esta comissão de lágrimas, estes corredores fragmentados de ossos e miolos espalhados, nem tudo salvo, nem a todos consigo sarar a dor, que comprimidos?,

– aqui só resoquina doutor, o cabo socorrista de bata ensanguentada.

cabeças espetadas em troncos,

– esta é a nossa pátria!

dizia salazar, na cadeira sentado onde jorrava raiva e de que medos, os soldados sim, eles nas matas contra tudo e todos, morriam queimados, degolados, catanadas fatiavam os seus corpos e pedaços, já nem Silva, evacuado para Portugal gravemente ferido em combate,

– onde a insurreição?

– no alto de são joão!

e cabeças de negros espetadas em troncos eram trunfos de guerra,

– os estrangeiros são quem os combate capitão!

ainda vais preso soldado, ensinaram-te a obedecer, sei disso, aprendi no curso de oficiais milicianos. Soldado só aprende a obedecer, ouve bem meu rapaz

(o oficial de dia aborrecido)

– a sua missão é esta, obedecer e fazer cumprir, sigamos, treino rígido hoje e é toda a noite!

a morte espera-nos por onde menos esperamos, as trincheiras cheias onde repletas nem gritos e só tiros, o consultório repleto onde nem gritos só tiros, a rua era inventada a cada momento, enquanto cosia feridas profundas a cabeça viajava,

– quero sair daqui!

e tantos como eu ali, cigarros amarrotados calcavam a solidão entre tantos e cada um com a sua lembrança e a arma nas mãos, ali tudo se fundia, tudo descia ao imaginário mais simples, abraços no regresso das campanhas, de vez em quando o vinho alumbrava as noites infinitas e nós na caserna de tantos ausentes.

A minha vida não é isto. É uma outra coisa qualquer que nem a folha de papel assume. Que digam serem riscos diluídos num sonho ainda que nem sono, as vozes gritantes por todo o lado e as paredes horríveis a fecharem-se de encontro a mim, é como tantas vezes me sinto. Um esqueleto não tem alma.

Sento-me tão vagarosamente nesta cadeira de algum lugar e tento vigiar a minha impaciência, uns goles no café quente e continuo mesmo assim sem mim por perto. Onde estariam os meus olhos naquele instante?, uma pergunta mais para que se me inquietem os dissabores.

Páginas do livro devoradas, a minha cabeça estiola e num gesto estou dentro do livro, numa página qualquer, pois, já nem me importa qual seja, o certo é que a minha vida não é isto. Quantas vezes na vida viajamos por entre tantas coisas que nos fazem querer ser aquilo ou aqueloutro, viajamos sempre e nem sempre a mesma disposição, nem sempre aquele café ainda que saboroso, tantas as viagens percorridas são o passado acumulado ainda que as pernas fortes resistam a tanto peso, e eu sentado naquela saudade estampada num belo quadro quadrado.

A minha vida não é isto. Como que se eu mesmo me estivesse a ouvir a mim num poço. A folha de papel limpa ainda, não há nada que consiga escrever, os dedos parecem ter congelado, mas é apenas uma sensação, acredito, o vento é brando e os cantos da esplanada repletos onde conversam imensos, fecho e reabro o livro tantas vezes, parece que às vezes a gente se esquece dos olhos, imaginamos e pronto, julgamos estar assim a ver melhor mas que importa, se a sensação é no momento o que mais interessa?

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CRÓNICA

Quando os meus anjos me chamarem irei despedir-me de ti

Quando os meus anjos me chamarem irei despedir-me de ti

— Vítor Burity da Silva.

Um velho rio sob estas pontes de cidade nação onde mora menos a menos a noção. Escorre num leito lento os seus cansaços fatigados, um perfume de fim nas margens que o desorientam como fuga segue ainda assim cansado. Esta cidade nação é a pátria dos meus pesadelos encostados a todas bermas de ruas onde percorro sozinho.

E por aqui caminho, nesta velha rua dos Aliados onde ignoro a luz e o vento, sinto apenas os meus passos quebrantes que rasam cansados o solo velho deste tempo quase morto já.

“quando os meus anjos me chamarem irei despedir-me de ti”

Estas coisas imediatas e previsíveis são como a cola que seca nos sapatos, espalham lanho por todos os lados.

E quase sob todos os solos os rios que a invenção me desperta, correm quase nunca escorreitos, lambem as arestas do nefasto e quantos morrem ainda antes de qualquer outro fim. Não sei em que cidade estou, sei apenas que neste mesmo país que arrebatou qualquer vontade de nascer, viajar, voar, sentir fluíres pelas árvores pássaros brilhantes com chilreares de músicas olímpicas.

Irei garantidamente despedir-me de ti, mas apenas quando os anjos me chamarem.

Perguntam-me os meus silêncios:

“mas que tu afinal?”

Poderiam ser todas as Cláudias que se cruzam comigo nestas heresias, cientistas que recriam cálculos, jogadores que marcam golos ou sabedores que criam ideias e coisas que me façam pensar e reflectir, ler, imaginar talvez outros mundos, quem sabe existam, poderiam ser as minhas próprias nuvens das quais fujo e evito, este abrasados sol que me queima neurónios, ou o cansaço terrível desta sempre tão longa caminhada, ou talvez por tudo isto ou mais, ou menos, ou nada.

E não consigo responder aos meus silêncios.

Sinto-os calados de mais, pensaria o quanto me incomodam, mas não, penso nos rios que a ponte seca, a velha ponte que nos leva aos anjos que um me indicarão o caminho para que me despeça de ti com toda a dignidade que mereces!

“talvez consiga, sei lá, responder aos meus silêncios!”

Variações Linguísticas

Daniela Diana

Daniela DianaProfessora licenciada em Letras

As variações linguísticas reúnem as variantes da língua que foram criadas pelos homens e são reinventadas a cada dia.

Dessas reinvenções surgem as variações que envolvem diversos aspectos históricos, sociais, culturais, geográficos, entre outros.

No Brasil, é possível encontrar muitas variações linguísticas, por exemplo, na linguagem regional.

chico bento e o regionalismo
Nas falas do Chico bento e de seu primo Zé Lelé notamos o regionalismo

Tipos e exemplos de variações linguísticas

Há diversos tipos de variações linguísticas segundo o campo de atuação:

1. Variação geográfica ou diatópica

Está relacionada com o local em que é desenvolvida, tal como as variações entre o português do Brasil e de Portugal, chamadas de regionalismo.

Exemplo de regionalismo

português do Brasil e de Portugal

2. Variação histórica ou diacrônica

Ela ocorre com o desenvolvimento da história, tal como o português medieval e o atual.

Exemplo de português arcaico

variação linguística histórica
“Elípticos”, “pega-la-emos” são formas que caíram em desuso

3. Variação social ou diastrática

É percebida segundo os grupos (ou classes) sociais envolvidos, tal como uma conversa entre um orador jurídico e um morador de rua. Exemplo desse tipo de variação são os socioletos.

Exemplo de socioleto

linguagem médica
A linguagem técnica utilizada pelos médicos nem sempre é entendida pelos seus pacientes

Veja também:Grupos Sociais

4. Variação situacional ou diafásica

Ocorre de acordo com o contexto, por exemplo, situações formais e informais. As gírias são expressões populares utilizadas por determinado grupo social.

Exemplo de gíria

gíria em LIBRAS
A Língua Brasileira de Sinais (Libras) também tem as suas gírias

Veja também:O que é Gíria?

Linguagem Formal e Informal

Quanto aos níveis da fala, podemos considerar dois padrões de linguagem: a linguagem formal e informal.

Certamente, quando falamos com pessoas próximas utilizamos a linguagem dita coloquial, ou seja, aquela espontânea, dinâmica e despretensiosa.

No entanto, de acordo com o contexto no qual estamos inseridos, devemos seguir as regras e normas impostas pela gramática, seja quando elaboramos um texto (linguagem escrita) ou organizamos nossa fala numa palestra (linguagem oral).

Em ambos os casos, utilizaremos a linguagem formal, que está de acordo com a normas gramaticais.

Observe que as variações linguísticas são expressas geralmente nos discursos orais. Quando produzimos um texto escrito, seja em qual for o lugar do Brasil, seguimos as regras do mesmo idioma: a língua portuguesa.Veja também:Oralidade e Escrita

Preconceito Linguístico

O preconceito linguístico está intimamente relacionado com as variações linguísticas, uma vez que ele surge para julgar as manifestações linguísticas ditas “superiores”.

Para pensarmos nele não precisamos ir muito longe, pois em nosso país, embora o mesmo idioma seja falado em todas as regiões, cada uma possui suas peculiaridades que envolvem diversos aspectos históricos e culturais.

Sendo assim, a maneira de falar do norte é muito diferente da falada no sul do país. Isso ocorre porque nos atos comunicativos, os falantes da língua vão determinando expressões, sotaques e entonações de acordo com as necessidades linguísticas.

De tal modo, o preconceito linguístico surge no tom de deboche, sendo a variação apontada de maneira pejorativa e estigmatizada.

Quem comete esse tipo de preconceito, geralmente tem a ideia de que sua maneira de falar é correta e, ainda, superior à outra.

Entretanto, devemos salientar que todas variações são aceitas e nenhuma delas é superior, ou considerada a mais correta.

Não pare por aqui. Tem mais textos muito úteis para você:

A cascata do absinto sinto sono

À cabeceira a jarra vazia cheirava a amorfo como os garfos do jantar deitado, a meu lado sozinho o tempo em mim coisa horrível, de roda aos sete ventos perdido busco-me o cheiro dos garfos que nervos

ra por mim meu amor
raiva coisa nenhuma o sabor enjaulado que garganta este refresco sadio diziam longe na taberna
– Francisco
nem abusava pensava beber sacia a morte conta-me em segredo nada de medo vive com Deus a cabeça estiola que ferrugem nos dedos este ferro de vernizes a tua mão a meu lado nada de ti sei lá como o absinto no jazigo como pedras sobre a cabeça estoirada sou feliz pensei sempre e nunca a morte mata e nem sempre depressa já morri sei lá quantas vezes nunca um ressuscitado contigo a meu lado nada
– Espera-me amor com quem embriagado a solidão lá dentro dizes
– A morte é individual
nem te ouço perdido nunca a cabeça sei lá nas trevas quando sinto descer a noite sobre as tripas desforradas nesta entupidela de cães raivosos no quintal a minha alma cansada vai-se como quem se desespera e parte num ruído que nasce apenas pela madrugada sei lá, gotas pingam ao lado e a cabeça sem olhos sobre os cabelos dela a saudade e nada este labirinto escondido que me abre o caminho e sigo como nada quer a morte é individual numa campa do campo sem festejos morrer-se sem ninguém para largar ao menos uma rosa que pena amor, o absinto vagaroso é o torpor sabes e que fazes agora se nada pode já ser feito morres como cães vadios nessa viagem sem regresso pena.

(ninguém me ouve tenho a certeza)

A cascata do absinto sinto sono, raios me partam nem durmo vejo televisão fechando a porta a minha mãe coitada o meu filho saio, abro talvez nem sei a porta e que rua vejo a cabeça em ti que pena nada mais adianta bebo para nada a vida é isto enganando-me acredito sou um balcão de bares para nada onde gritos desesperados ela morreu Caetano que horror dores embutidas num cálice vertido a cada gesto e nada ela foi, sentado, onde mora a minha casa sei lá a cabeça segou de vez não sei mais nada escrevo uma carta amor parti.

(ninguém mais acreditará em ti)

O rumo saboreia como se fosses decapitado quem sabe nem tens cabeça amigo já morreste tantas vezes esse vício levou a tua roupa agora caixas para que nada mais saiba de ti quem eras infelizmente acabado nesse caixão de raivas que adianta é o fim e pronto. O absinto foi contigo abraça-o!

Escrever

Ao lado obuses. E longe estrondos. Talvez me calce de roupas nuas como a lágrima dos meus últimos sonhos.

Que horas serão?

Sinto apenas na pele esta comichão, um glutão a esfregar-se-me por dentro vaidades de farda enrugada e de sono nada, dizem-me que tiros ali e a cabeça para dentro esfrega escorreitos dizeres numa página mais para uma vida inteira onde me quiserem os demais. Somo uns quantos pontos para que me decifrem aos solavancos, uma ordem chamada a mim como um enfeite em meu nome nestas páginas carregadas de substâncias incolores seguidas de rimas inconsequentes sim, não me sinto nessa obrigação e pronto que me leiam de forma transversal, encontrarão o caminho desenhado assim quando em pequeno me teimava e a minha mãe

– Que sabes tu disso?

e ao lado obuses num colorido acima da cabeça que pena, trouxeram-me à cabeça miolos de fumo como se a vida decorresse apenas nesta impressão feito folha para algo e nada mais a não ser rascunhos de passagens pela garagem do senhor Silveira sentado ao volante do seu Ford agora antigo imagino apenas agora novo na época, cinzento como o breu ao início da noite e a minha mãe repetidamente

– Que sabes tu disso?

enquanto o meu pai sei lá onde ralhava comigo tens é de estudar e eu na mesma que me importava queria ao menos um texto sabia lá disso escrevia com letras de chines um resumo que a professora havia pedido

“a cidade enamorada nasce sobre a tua voz que encanta”

enquanto na época pensava

“quero ser jogador da bola”

com um pé cego sei restava-me continuar o que me indicavam os ímpetos ainda que de nada mais se comentasse e que comentaria nada sabia mas sentia as tuas mãos mãe

– Está na hora, tens de ir para a escola!

na sua voz sempre igual ao que ouvira quando dormia naquele quarto virado para às traseiras da casa e o quintal a incentivar-me

“escreve mesmo que nada saia!

apagava as rasuras e deitava o papel fora e saiu um dia da minha palma de mão assim como entre os dedos pegados à caneta escrevi sozinho como sempre acontece e Ernest naquele casebre de Fidel o velho do rio num navio de fugitivos como em desenhos animados num barco que nunca partiu escrevo tantas coisas ainda aqui na cabeça, já tudo perdi.

Escrever coisas que repito para nunca me cansar, este deleite é meu para mim na minha cama a escola uma redação quando fores grande meu rapaz quero ver que livro escreves-te e hoje coitada foi-se. Até sempre professora do meu bairro popular. Sei que apenas uma coisa fica. Não sei o teu nome naqueles escritos mais antigos que a minha memória calou e hoje aqui.

Sento-me algures na ilha onde o farol acima indica aqui nasci quem sabe e nunca mais, ficou lá o que havia escrito quando quis crescer.

Concordância Verbal e Nominal

Márcia Fernandes

Márcia FernandesProfessora licenciada em Letras

Concordância verbal e nominal é a parte da gramática que estuda a conformidade estabelecida entre cada componente da oração.

Enquanto a concordância verbal se ocupa da relação entre sujeito e verbo, a concordância nominal se ocupa da relação entre as classes de palavras:

concordância verbal = sujeito e verbo
concordância nominal = classes de palavras

Exemplo: Nós estudaremos regras e exemplos complicados juntos.

Na oração acima, temos esses dois tipos de concordância:

Ao concordar o sujeito (nós) com o verbo (estudaremos), estamos diante de um caso de concordância verbal.

Já, quando os substantivos (regras e exemplos) concordam com o adjetivo (complicados), estamos diante de um caso de concordância nominal.Veja também:As 10 classes de palavras ou classes gramaticaisConheça as principais regras em cada caso:

Concordância Verbal

1. Sujeito composto antes do verbo

Quando o sujeito é composto e vem antes do verbo, esse verbo deve estar sempre no plural.

Exemplo:

Maria e José conversaram até de madrugada.

2. Sujeito composto depois do verbo

Quando o sujeito composto vem depois do verbo, o verbo tanto pode ficar no plural como pode concordar com o sujeito mais próximo.

Exemplos:

Discursaram diretor e professores.
Discursou diretor e professores.

3. Sujeito formado por pessoas gramaticais diferentes

Quando o sujeito é composto, mas as pessoas gramaticais são diferentes, o verbo também deve ficar no plural. No entanto, ele concordará com a pessoa que, a nível gramatical, tem prioridade.

Isso quer dizer que 1.ª pessoa (eu, nós) tem prioridade em relação à 2.ª (tu, vós) e a 2.ª tem prioridade em relação à 3.ª (ele, eles).

Exemplos:

Nós, vós e eles vamos à festa.
Tu e ele falais outra língua?

Veja também:

Concordância Nominal

1. Adjetivos e um substantivo

Quando há mais do que um adjetivo para um substantivo, os adjetivos devem concordar em gênero e número com o substantivo.

Exemplo:

Adorava comida salgada e gordurosa.

2. Substantivos e um adjetivo

No caso inverso, ou seja, quando há mais do que um substantivo e apenas um adjetivo, há duas formas de concordar:

2.1. Quando o adjetivo vem antes dos substantivos, o adjetivo deve concordar com o substantivo mais próximo.

Exemplo:

Linda filha e bebê.

2.2. Quando o adjetivo vem depois dos substantivos, o adjetivo deve concordar com o substantivo mais próximo ou com todos os substantivos.

Exemplos:

Pronúncia e vocabulário perfeito.
Vocabulário e pronúncia perfeita.
Pronúncia e vocabulário perfeitos.
Vocabulário e pronúncia perfeitos.

O cheiro de uma vida

A espuma esvoaça a tarde quente desta cidade adormecida no trânsito.

Sinto o odor efémero das quimeras vendidas ao avulso pelos cantos perdidos do tempo, da noite que se espera descansada e nada, é tão cedo ainda que desespero pelo som dos abutres subindo penhascos verdes onde tudo está seco.

O cheiro explana a vigília de muros onde as paredes nos ocupam, param a visibilidade, encostam-nos a um fim calado, um rumo sem voz, mas distantes vontades ainda ali, o encruzilhar do tempo num sorriso repleto, a voz amarga do fim da tarde e nós sentados no quintal do tempo, as areias navegantes vertiginosas dançam antigos onde me fazem recordar os meus pais abraçados nesse mesmo quintal, uma senhora de longe embrenha-se, olhando com vaidade o creso ali estampado, o siso nu enquanto a malta espera pela noite e ela vagarosamente a surgir.

O cheiro salubre desce no intervalo de nuvens, a chuva ameaça cansar-nos, seguimos trilhos incolores como a terra queimada a crescer à beira da estrada, o vento acompanha-nos solidário e sentimo-nos menos sós, eu e a senhora sentada na escadaria de uma casa perto das ondas do mar.

Perdi o nome das coisas, esqueci-me de mim próprio tal o entusiasmo por esta maresia divagante a esconder-se de mim, fungos e funcos náufragos relatam-me as suas vivências cheias de qualquer coisa ainda por descobrir, tento, ainda que em silêncio, resmungar contra todos, é uma vontade de me cansar tal a necessidade de mergulhar mares encostados à silhueta dos rostos que admiro, a vida que me explana em vias sem retorno de casas viciadas em felicidade sorvidas pelo vento soberbo das ruas da minha vida. Sim.

Ainda a senhora sentada num banco distante a observar-me, sinto como ela me transmite vontade, sinto o calor da sua ausência nesta comarca de dilúvios, neste resto de tantas coisas enfeitando-se de breu, um escuro claro na metamorfose das fomes, dos desejos, dos quereres que animam e entusiasmam tanto quanto preciso.

Há quem fale da sombra de árvores díspares pela rua estendidas, sombreando a voda de caminhantes eufóricos e nada mais, nada mais que isso é um sentido sem retorno, acredito que nada volte depois de uma partida assim tão conturbada, uma confusão de espinhos e espinhas a gatearem-me a garganta, a ofuscarem-me tanto dos sonhos pretendidos, tanto da vida imaginado, bancos ao longo da avenida onde sonhos se esticam e explanam com misericórdia, o lamento das ostras e dos defuntos desta saudade ainda que vivos, o remorso de tantas idas ao infortúnio cansadas, não, não é disto que espero para me acompanhar para os dias que me restam e serão garantidamente muitos.

Talvez me sinta confortado nesta sala de rua ao longo de vidas no esplendor árido de vidas vividas e com uma vida para continuar, a sério, o esplendor é um vício que não me cansa, não farta, é nele, pois, que me vingo de mim mesmo.

Texto Expositivo

Daniela Diana

Daniela DianaProfessora licenciada em Letras

O texto expositivo é um tipo de texto que visa a apresentação de um conceito ou de uma ideia.

Muito comum esse tipo de texto ser abordado no contexto escolar e acadêmico, uma vez que inclui formas de apresentação, desde seminários, artigos acadêmicos, congressos, conferências, palestras, colóquios, entrevistas, dentre outros.

Recursos Linguísticos

No texto expositivo, o objetivo central do locutor (emissor) é explanar sobre determinado assunto, a partir de recursos como a conceituação, a definição, a descrição, a comparação, a informação e enumeração.

Classificação dos Textos Expositivos

De acordo com seu objetivo central, os textos expositivos são classificados em dois tipos:

Texto Expositivo-argumentativo

Nesse caso, além de apresentar o tema, o emissor foca nos argumentos necessários para a explanação de suas ideias.

Dessa forma, recorre aos diversos autores e teorias para comparar, conceituar e defender sua opinião.

Texto Expositivo-informativo

Nesta ocasião, o objetivo central do emissor é simplesmente transmitir as informações sobre determinado tema, sem grandes apreciações e, por isso, com o máximo de neutralidade.

Podemos pensar numa apresentação sobre os índices de violência no país, de modo que o conjunto de informações, gráficos e dados sobre o tema, apresentam tão somente informações sobre o problema, sem defesa de opinião.

Leia Texto Informativo.

Exemplos

Observe a seguir alguns exemplos de textos expositivos:

Verbete de dicionário

Significado de Nostalgia (s.f). Tristeza causada pela saudade de sua terra ou de sua pátria; melancolia. Saudade do passado, de um lugar etc. Disfunções comportamentais causadas pela separação ou isolamento (físico) do país natal, pela ausência da família e pela vontade exacerbada de regressar à pátria. Saudade de alguma coisa, de uma circunstância já passada ou de uma condição que (uma pessoa) deixou de possuir. Condição melancólica causada pelo anseio de ter os sonhos realizados. Condição daquele que é triste sem motivos explícitos. (Etm. do francês: nostalgie)” Fonte: (Dicionário Online de Português- Dicio.com)

Enciclopédia

Cervo-do-pantanal (nome científico: Blastocerus dichotomus), também chamado suaçuetê, suaçupu, suaçuapara, guaçupuçu ou simplesmente cervo, é um mamífero ruminante da família dos cervídeos e único representante do gênero Blastocerus. Ocorria em grande parte das várzeas e margens de rios do centro da América do Sul, desde o sul do rio Amazonas até o norte da Argentina, mas atualmente, a espécie só é comum no Pantanal, na bacia do rio Guaporé, na ilha do Bananal e em Esteros del Iberá.” Fonte: (Wikipédia)

Entrevista

Clarice Lispector, de onde veio esse Lispector?

É um nome latino, não é? Eu perguntei a meu pai desde quando havia Lispector na Ucrânia. Ele disse que há gerações e gerações anteriores. Eu suponho que o nome foi rolando, rolando, rolando, perdendo algumas sílabas e foi formando outra coisa que parece “Lis” e “peito”, em latim. É um nome que quando escrevi meu primeiro livro, Sérgio Milliet (eu era completamente desconhecida, é claro) diz assim: “Essa escritora de nome desagradável, certamente um pseudônimo…”. Não era, era meu nome mesmo.

Você chegou a conhecer o Sérgio Milliet pessoalmente?

Nunca. Porque eu publiquei o meu livro e fui embora do Brasil, porque eu me casei com um diplomata brasileiro, de modo que não conheci as pessoas que escreveram sobre mim.

Clarice, seu pai fazia o que profissionalmente?

Representações de firmas, coisas assim. Quando ele, na verdade, dava era para coisas do espírito.

Há alguém na família Lispector que chegou a escrever alguma coisa?

Eu soube ultimamente, para minha enorme surpresa, que minha mãe escrevia. Não publicava, mas escrevia. Eu tenho uma irmã, Elisa Lispector, que escreve romances. E tenho outra irmã, chamada Tânia Kaufman, que escreve livros técnicos.

Você chegou a ler as coisas que sua mãe escreveu?

Não, eu soube há poucos meses. Soube através de uma tia: “Sabe que sua mãe fazia um diário e escrevia poesias?” Eu fiquei boba…

Nas raras entrevistas que você tem concedido surge, quase que necessariamente, a pergunta de como você começou a escrever e quando?

Antes de sete anos eu já fabulava, já inventava histórias, por exemplo, inventei uma história que não acabava nunca. Quando comecei a ler comecei a escrever também. Pequenas histórias.

(Trecho da última entrevista com a escritora Clarice Lispector, concedida em 1977, ao repórter Júlio Lerner, da TV Cultura).

Que adianta cansar-me?

Viajo este interior aberto onde passos se ouvem num corredor chamado vida, uma rotina sensível que abranda as esquinas e nos ensina a aprender com tardes infinitas, um belo cenário num descampado a sul e as águias dispersas numa nuvem de sonho.

Repito-me incansável manhãs sem fim, o horizonte em que canto da sala neste deserto imenso onde nuvens viajam saudades, sinto a hóstia divina divagar a minha alma cansada da espera e nada acontece. Adorava sentir vozes cansadas para que me refutassem ânsias, ventos moribundo e incansáveis viajarem por estas estradas a nascer do cansaço, das noites do baldio sob o escuro, a iluminação das praças e o mercado a abrir madrugada ainda, viajo sempre amigo, é um presépio eterno na minha alma desaforada e mendigada por tardes soltas, observar como tanto gosto do mar a desflorar-se contra as rochas e eu nesta sala descrevendo sentimentos sentidos e nunca cansados, é verdade, entendi há dias isso mesmo, que me adianta cansar-me? A gente prende-se a estas diásporas dos dias e de repente até parece nada existir, olhamos à nossa volta e nada, talvez impressão minha, o rio flui tão sóbrio que a tarde atrasa o aparecer da noite, as nuvens desaparecem num luar que chega entretanto e nada, é tudo tão absoluto, tão real, imagino entretanto o baldio de há anos neste quintal antes meu e agora de tantos, o bar cansado e os indígenas sentados numa sofreguidão de bramir, importa aí uma leitura das coisas um pouco mais precisa, mais concisa, menos premente ou doente, acordar aos sobressaltos e acreditar na vida, vencer o tédio e viver as ruas da nossa vida, é verdade.

Imaginam-me um sonho enquanto disperso este absoluto incansável, corro os corredores da vida e vislumbro na distância uma ausência de vida, não, é tudo imaginação do cansaço quando as tardes se eternizam, sabes?, as tardes assim também me cansam mas nunca me farto, é tão vasta a vida nas janelas escondidas que a gente descobre em cada gole o silêncio de anos perdido ou escondido, por isso uma viagem longa para contentar o esplêndido, o contido nesta casa fechada à beira mar onde anos ali passados com leituras cansadas a cultuarem-me, adoro reviver as distâncias por isso me embrenho nas viagens onde me emprenho de vento e sal.

Desfolho cada página do dia como um recomeço catártico,
embrenho-me nele e dele a saudade nunca visitada, relembro apenas e pronto, o resto é o caminho da viagem amalgamada no banco de trás deste carro sem cor. E dizem-me que nada tem cor, que importa então se assim é?, eu descubro nas minhas ânsias a cor dos meus sentidos e neles me impregno caminhando, pisando a areia solta das saudades e dos vultos admirados, a admiração pelas estepes, o vulto vago do dilúvio, a sede de amarguras indo devagar até que mais um dia seja ultrapassado nesta erma cama para um dia finado.

Alguém do lado num amor fraterno, o amor é quente, penso, e porque se esquecem as memórias de ideias por viver?

Trava-Línguas

Márcia Fernandes

Márcia FernandesProfessora licenciada em Letras

Trava-Línguas são um tipo de parlenda, jogo de palavras que faz parte da literatura popular. O trava-língua é uma frase difícil de recitar em decorrência da semelhança sonora das suas sílabas.

Veja abaixo 65 trava-línguas super difíceis. Tente dizer rapidamente e sem a língua travar!

trava língua
  1. Num ninho de mafagafos há sete mafagafinhos. Quando a mafagafa gafa, gafam os sete mafagafinhos.
  2. Trazei três pratos de trigo para três tigres tristes comerem.
  3. A aranha arranha a rã. A rã arranha a aranha. Nem a aranha arranha a rã. Nem a rã arranha a aranha.
  4. O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem o tempo que o tempo tem.
  5. Se percebeste, percebeste. Se não percebeste, faz que percebeste para que eu perceba que tu percebeste. Percebeste?
  6. O Rato roeu a rica roupa do rei de Roma! A rainha raivosa rasgou o resto e depois resolveu remendar!
  7. Em rápido rapto, um rápido rato raptou três ratos sem deixar rastros.
  8. O sabiá não sabia que o sábio sabia que o sabiá não sabia assobiar.
  9. Sabendo o que sei e sabendo o que sabes e o que não sabes e o que não sabemos, ambos saberemos se somos sábios, sabidos ou simplesmente saberemos se somos sabedores.
  10. Olha o sapo dentro do saco. O saco com o sapo dentro. O sapo batendo papo e o papo soltando o vento.
  11. A Iara agarra e amarra a rara arara de Araraquara.
  12. Fala, arara loura. A arara loura falará.
  13. Quem a paca cara compra, paca cara pagará.
  14. Bagre branco, branco bagre.
  15. A babá boba bebeu o leite do bebê.
  16. A mulher barbada tem barba boba babada e um barbado bobo todo babado!
  17. O que é que Cacá quer? Cacá quer caqui. Qual caqui que Cacá quer? Cacá quer qualquer caqui.
  18. Chega de cheiro de cera suja.
  19. Concluímos que chegamos à conclusão que não concluímos nada. Por isso, conclui-se que a conclusão será concluída, quando todas tiverem concluído que já é tempo de concluir uma conclusão.
  20. Um ninho de carrapatos, cheio de carrapatinhos, qual o bom carrapateador, que o descarrapateará?
  21. Quem era Hera? Hera era a mulher de Zeus.
  22. O desinquivincavacador das caravelarias desinquivincavacaria as cavidades que deveriam ser desinquivincavacadas.
  23. O doce perguntou pro doce qual é o doce mais doce que o doce de batata-doce. O doce respondeu pro doce que o doce mais doce que o doce de batata-doce é o doce de doce de batata-doce.
  24. O bispo de Constantinopla, é um bom desconstantinopolitanizador. Quem o desconstantinopolitanizar, um bom desconstantinopolitanizador será.
  25. Esta casa está ladrilhada, quem a desenladrilhará? O desenladrilhador. O desenladrilhador que a desenladrilhar, bom desenladrilhador será!
  26. O original não se desoriginaliza! O original não se desoriginaliza! O original não se desoriginaliza! Se desoriginalizásemo-lo original não seria!
  27. Fia, fio a fio , fino fio, frio a frio.
  28. Se o Faria batesse ao Faria o que faria o Faria ao Faria?
  29. Farofa feita com muita farinha fofa faz uma fofoca feia.
  30. Não sei se é fato ou se é fita. Não sei se é fita ou fato. O fato é que você me fita e fita mesmo de fato.
  31. A naja egípcia gigante age e reage hoje, já.
  32. Gato escondido com rabo de fora tá mais escondido que rabo escondido com gato de fora.
  33. La vem o velho Félix com o fole velho nas costas.
  34. Um limão, mil limões, um milhão de limões.
  35. Ao longe ululam cães lugubremente à Lua.
  36. Se a liga me ligasse, eu também ligava a liga. Mas a liga não me liga, eu também não ligo a liga.
  37. Maria-Mole é molenga. Se não é molenga, não é Maria-Mole. É coisa malemolente, nem mala, nem mola, nem Maria, nem mole.
  38. A vaca malhada foi molhada por outra vaca molhada e malhada.
  39. Os naturistas são naturalmente naturais por natureza.
  40. O padre pouca capa tem, porque pouca capa compra.
  41. Perto daquele ripado está palrando um pardal pardo.
  42. O princípio principal do príncipe principiava principalmente no princípio principesco da princesa.
  43. A pia perto do pinto, o pinto perto da pia. Quanto mais a pia pinga mais o pinto pia. A pia pinga, o pinto pia. Pinga a pia, pia o pinto. O pinto perto da pia, a pia perto do pinto.
  44. Há quatro quadros três e três quadros quatro. Sendo que quatro destes quadros são quadrados, um dos quadros quatro e três dos quadros três. Os três quadros que não são quadrados, são dois dos quadros quatro e um dos quadros três.
  45. Não confunda ornitorrinco com otorrinolaringologista, ornitorrinco com ornitologista, ornitologista com otorrinolaringologista, porque ornitorrinco, é ornitorrinco, ornitologista, é ornitologista, e otorrinolaringologista é otorrinolaringologista.
  46. Toco preto, porco fresco, corpo crespo.
  47. Se o Pedro é preto, o peito do Pedro é preto e o peito do pé do Pedro também é preto.
  48. Pedro pregou um prego na porta preta.
  49. Paulo Pereira Pinto Peixoto, pobre pintor português, pinta perfeitamente, portas, paredes e pias, por parco preço, patrão.
  50. Pedreiro da catedral, está aqui o padre Pedro? – Qual padre Pedro? – O padre Pedro Pires Pisco Pascoal. – Aqui na catedral tem três padres Pedros Pires Piscos Pascoais como em outras catedrais.
  51. Se o papa papasse papa, se o papa papasse pão, se o papa tudo papasse, seria um papa -papão.
  52. Disseram que na minha rua tem paralelepípedo feito de paralelogramos. Seis paralelogramos tem um paralelepípedo. Mil paralelepípedos tem uma paralelepipedovia. Uma paralelepipedovia tem mil paralelogramos. Então uma paralelepipedovia é uma paralelogramolândia?
  53. A rua de paralelepípedo é toda paralelepipedada.
  54. O Borges relojoeiro ruminara roendo raspas de raiz de romãzeira.
  55. Teto sujo, chão sujo.
  56. A vida é uma sucessiva sucessão de sucessões que se sucedem sucessivamente, sem suceder o sucesso.
  57. Fui caçar socó, cacei socó só, soquei socó no saco socando com um soco só.
  58. Caixa de graxa grossa de graça.
  59. Tecelão tece o tecido em sete sedas de Sião. Tem sido a seda tecida na sorte do tecelão.
  60. Uma trinca de trancas trancou Tancredo.
  61. Se cada um vai a casa de cada um é porque cada um quer que cada um vá lá. Porque se cada um não fosse a casa de cada um é porque cada um não queria que cada um fosse lá.
  62. Tem uma tatu-peba, com sete tatu-pebinha. Quem destatupebar ela, bom destatupebador será.
  63. Atrás da porta torta tem uma porca morta.
  64. Para ouvir o tique-taque, tique-taque, tique-taque. Depois que um tique toca é que se toca um taque.
  65. Se vaivém fosse e viesse, vaivém ia, mas como vaivém vai e não vem, vaivém não vai.

Veja também:Palavras difíceis e seus significados

Importância linguística dos trava-línguas

O fato de terem de ser ditas de forma rápida, faz com que o jogo se torne uma brincadeira infantil que delicia também os adultos.

Porém, mais do que uma brincadeira, os trava-línguas são um importante elemento no desenvolvimento linguístico. Não só para as crianças, mas também para os adultos que estejam a aprender uma língua estrangeira esse é um recurso interessante.

Assim, o Destrava-Línguas (1988) é um livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 1.º ano.

Trata-se de uma coletânea de trava-línguas e é da autoria da escritora portuguesa Luísa Ducla Soares, que se dedica à literatura infantil.Veja também:Palíndromo

Folclore

Além dos trava-línguas, lendas, brincadeiras e canções folclóricas, a expressão cultural popular se enriquece ainda mais com a linguagem folclórica. Entre outros, esta compreende:

Observatório do tempo

Uma manhã que se veste de silêncio onde caminhos se abrem, sorri devagar a vanguarda olhando de soslaio o caminhar desejoso de caminhantes em busca de vida e tempo.

Todas as manhãs são rompidas do afago doce de uma noite bem-vinda, ida dos solavancos trémulos e sinuosos de um dia corrido entre afazeres e deveres, entre o descanso guerreiro e o artista sentado na bermuda dos lenços içados à vitória do corpo.

Olho os arranha-céus espalhados bem perto do mar num descanso de heróis mutantes, o brilho dos silêncios na azáfama crescente de olhos virados de frente acompanhando o tempo, o esquiço da verdade, da vontade, do querer, da partilha entre vida e vivência, da melancolia absorvida por entre os restos criados bem dentro de nós para vencermos o dilúvio e a vontade inócua de parar entre duas avenidas e com um sorriso descalço.

Os parentes à nossa volta celebramos a vida, o tempo cresce a cada instante e felizes espalhamos alegria numa sala enorme onde todos, para que sigamos entre canções e arte a melodia da existência.

Crescemos todos os dias e em cada um deles o sentimento de vitória alcançado sem sombras nem arrepios, sorve-se o calor e bebe-se vida, encanta-se a alegria que nos pertence ao longo de uma vida longa beijando cada azulejo das paredes da nossa felicidade.

Por isso tudo me encantam os pássaros e as nuvens caminhantes por esse céu aberto à liberdade dos passos, encantam-me as gentes, o dia, refego a noite numa ambivalência entre corpos encontrados por todas as esquinas da cidade. Hoje tudo me parece mais colorido, até as calçadas sorriem, os ventos circundam com auréolas de diamante à volta das vontades, a gente sabe como encantar o momento e é nele que buscamos a verdade individual da vida, a vida sorvida assim traz mais calor nesta cidade onde o quente se explana a cada momento, sorrindo, um grito amigo e um abraço longo espalhado por cada minuto de vida sorvido num esplendor de verdade encantando tudo. O observatório do tempo à janela descreve em cada folha de papel a nossa vontade.

O espaço entre as cores verte um silêncio de gotas pingadas do céu, sim, uma esmerada vontade de sucumbir como se de sonhos se tratasse, observando sim, mas até quando?

O meu corpo é volúpia de presentes como estátua paradisíaca esfregando-se nos sons de Brel, escutando-o entendo-me melhor como se necessário ler o meu futuro num horóscopo inventado para me recriar em cada estrofe do zodíaco e eu ali, especado estátua de quantos olimpos frios e ao relento, sim, que me importa renascer a cada leitura dessa esfera tricolor de matérias copiadas de mares que navegam solitários um destino nunca certo?

Sobre as águas da vida o silêncio dói Cap. XXX

XXX

As cartas viajam por entre as mãos da censura sabes?, sinto-as amarrotadas em cada leitura e tu longe, escrevo ainda neste deserto umas linhas que a cabeça dispara para que me sintas na nossa casa, um beijo que nunca dei à nossa Santa Paola crescidinha já, imagino. Há quanto tempo não me envias fotos.

Chove por agora e o calor é tanto, caminho ainda assim sobre as gotas que aos poucos me molham e a cabeça refresca em cada ideia, tudo é presente e ausente ao mesmo tempo, o espelho da nossa casa aqui diante toda esta floresta que me abraço ao anoitecer, caminho sem que saiba sequer onde ir, sabes, para onde ir?, não há montras nem centros comerciais por isso caminho sem o reflexo dos vidros iluminados e lisboa ainda aqui como se nunca nada tivesse acontecido.

Alem dos camaradas que vejo morre curos outros tantos, não tenho mãos para tanto, as enfermarias lotadas e gemidos enfadonhos, sabes?, o regresso um dia qualquer e quantos comigo?, levamos caixões na memória e quantos camaradas nunca mais foram vistos. A gente percebe o fim da vida, ouvimos o silêncio dos que partem e ficamos isolados e desolados, a guerra mata de verdade, sei como é horrível combater contra ninguém e apenas imaginando um turra por trás de qualquer árvore ou deitado num capim vasto, vemos sangue espalhago cada vez que avançamos e as trincheiras disfarçadas de lugares comuns como algo que na verdade nos proteja mais de balas perdidas ou intencionais contra a nossa cara, rebentarem-nos miolos e num ápice já tudo se transforma em dor.

Das cartas que te envio imaginas o meu filme, sei que sabes e como percebes Deolinda, a voz calada a dizer mais que mil palavras escritas.

Aqui envelheço, verdade, a vida não corre e a gente ali sentados sentimos a terra tremer sobre os pés, sinto granadas e obuses de verdade, um tiroteio que nunca mais termina e as ambulâncias de campanha entram no acampamento repleta de feridos, o acidente do jeep, outro entre tantos nestes tempos infinitos capotados ou atirados por minas contra a folhagem farta das matas.

Encontramos gente que nos acena e quer abraçar, oferecem-nos o pouco que têm e comemos sentados e juntos,

– vocês são mesmo de onde?

vozes que nos questionam e a gente responde, um churrasco de galinha do mato mesmo com as mãos devoramos,

– parece a matança do porco na minha aldeia capitão!

o Alfredo resgatado por Franco a meu lado sacode a farda,

– parece mesmo o meu alentejo!

lá fora escurece devagar e conversamos disfarçando a nossa pena, sim, sentimos pena de gente assim, que nos aplaude quando passamos como se fossemos salvadores da pátria mas não somos, fomos enviados para matar!, matar porquê, formai-me para que ninguém morra, o meu ofício é de tratar gente doente, curar, sarar feridas e nem sempre as mesmas que aqui conseguimos e morrem camaradas, sim, quantos perdi sem que me recorde sequer o número?

A povoação caminha, todos se recolhem sob o escuro que vai surgindo, apenas as luzes dos jeeps iluminam as casotas que nos acolheram por instantes saboreando a galinha do mato que irmãos nossos nos ofereceram.

E nós novamente a caminho, pegamos nos jeeps e voltamos para o acampamento depois de mais uma jornada horrível a não ser aquele momento que levarei na cabeça para lisboa.

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